A revolução social e sua interpretação anarquista (José Correia Pires)

Edição original:  A Revolução Social e Sua Interpretação Anarquista R.P.A. Publicações Lisboa, 1975

 Digitalização e diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT Piracicaba, 2011

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Prefácio ao ATENEU Diego Giménez (2011)

O anarquismo não é um movimento que se isole e é na associação, sindicatos e cooperativas, extratos sociais onde a ideia da libertação mais facilmente ecoa, onde mais exerce sua atividade e maior número de adeptos recruta. Em regimes ou clima onde a liberdade de associação e de pensamento não se viva, as ideias de liberdade se eclipsam, a tomada do poder se desenvolve e arreiga na maioria dos espíritos, os partidos políticos proliferam…

Revolucionário é o que, não só consciente dos seu direitos e deveres, propugna e atua direú » todos os obstáculos da revolucão, mas também o que mentaliza  o homem e a sociedade no sentido de uma completa desalienação de ambos. Revolucionário é não aceitar preconceitos ou velharias, passar por cima da tradição e ter sempre presente que tudo que naturalmente a vida nos exija e imponha isso sim, se acatará sempre, e tudo mais que fantasia seja nos deve fazer rir e aconselhar que se despreze.

Os anarquistas aceitam como necessária e inevitável a revolução social e visão a extinção da propriedade e do Estado, porque só a liberdade e o acesso à Natureza e patrimônio social é condição que satisfaz e garante que o homem e a sociedade se identifiquem consigo mesmos, e traga ao mundo a paz e a alegria de viver que desde que o mundo é mundo o homem luta e aspirar por encontrar!


A REVOLUÇÃO SOCIAL E SUA INTERPRETAÇÃO ANARQUISTA


 José Correia Pires

ÍNDICE

Introdução

Prefácio

I. Causas da transformação social.

II. A economia do lucro

III. O anarquismo e sua definição.

IV. Os anarquistas também são socialistas.

V. Meios e fins do anarquismo.

VI. Os elementos de produção na transformação social.

VII. Os elementos de relação em anarquia.


INTRODUÇÃO

A revolução social e sua interpretação anarquista foi tema que aí pelos 39 tratei num manuscrito que fiz circular entre os meus camaradas do Movimento Libertário então presos no Tarrafal. A ideia de tratar este tema de uma maneira mais copiosa e mais objetiva, tive-a sempre presente e cheguei mesmo a pensar publicá-la mais disfarçadamente nos últimos anos do fascismo. Claro que não o fiz e foi depois de uma longa série de incitamentos que em aturada correspondência com o meu amigo e camarada Edgar Rodrigues a isso me atrevi, escrevendo-o no ano 71 e com a ideia de publicar no Brasil. Entretanto comecei a escrever o livro agora também publicado, quis dar a esse meu trabalho um cunho de episódios, com a intenção de fornecer elementos para a história do Movimento, trabalho que Edgar Rodrigues se propõe fazer. Neste modesto trabalho pretendemos fazer um estudo preliminar dos fundamentos do que nós consideramos ser a verdadeira revolução social. Não é um trabalho completo nem isento de defeitos, pois o tema é demasiado vasto e ambicioso, para a nossa modesta condição e pobreza de recursos, mas pode constituir incentivo para que outros em melhores condições que nós de futuro o possam fazer. Isto está certo, mas o que não menos certo é quem dá o que tem e faz o que pode não é a mais obrigado…

Com o 25 de Abril toda uma literatura política tem vindo a lume, já antes as livrarias nos davam conta de uma vasta fermentação revolucionária e nos últimos meses têm excedido quanto se poderia imaginar! Isto é verdade mas verdade é também que a esta literatura tem presidido certa discriminação oportunista, quando é certo que a literatura anarquista é quase nula e parece que ninguém está interessado em publicá-la, para que um povo que está durante 50 anos privado de livre expressão de pensamento possa penetrar, tirando proveito desta liberdade, na literatura anarquista. Nota-se, isso sim, é um desinteresse e dir-se-ia modo caprichoso de ao anarquismo se referirem. Os indivíduos mais em destaque da vida política são unânimes em fazer uso da palavra “anarquia” no sentido pejorativo de desordem, caos e acredito que não é por ignorância, particularmente quando se trata de apreciar problemas sociais! E até de “bom tom” usar-se a palavra anarquia depreciativamente e ouve-se e lê-se por quase todos os parladores políticos ou dos que escrevem e ao povo pretendem estender a sua sapiência. Se outras razões não houvessem esta já nos obrigaria, fazendo uso de um direito, a vir publicamente dizer aos que ignoram que existe uma doutrina revolucionária que tem como finalidade a Anarquia e que nenhum de seus agrupamentos teria relutância em os receber no seu seio, quando é certo que ser anarquista consciente exige de quem o pretenda ser não só dedicação e esforço mas também muita coragem e faculdade de raciocínio, que infelizmente não podem abundar num Povo que esteve durante cinquenta anos sob a “pata” do fascismo! Ao observador atento não deve ter passado desapercebido como foi fácil depois do 25 de Abril toda a gente se encontrar já politizada e expressar, o que vulgarmente acontece, ideais e opiniões como se sempre lhe tivesse merecido interesse as lutas sociais. Naturalmente que longe de ser um mal pode até constituir reação conveniente, simplesmente o bom senso aconselha que falemos do que sabemos e usemos uma linguagem correta e comum às regras do jogo oratório e às naturais exigências de uma correta educação política.

Há uma coisa que sempre me impressionou desagradavelmente, é ouvir de pessoas que têm o dever de saber o que dizem, afirmações ou ditos que não só os inferiorizam mas que induzem em erro quem os ouve, isto é tanto mais depreciável quanto mais responsabilidades político-sociais as pessoas podem ter. O ex-general Spínola costumava em todos os discursos que fazia usar muitas vezes a palavra anarquia, mas não o fazia só por ignorância, pois percebia-se a sua intenção, o que nele estaria certo como bom legionário que teria sido na “Legião Espanhola” ao lado de quem lutou contra os anarquistas na guerra civil de Espanha. Ao Spínola de mentalidade fascista isso se compreende mas a quem se considere avançado e com veleidades doutrinantes isso é que não se aceita bem, e de duas uma: ou é suficiente ignorante em sociologia, ou mal intencionado e faz uso de um direito, atacando sem receio de contradita um ideal que o inferioriza, só porque isso lisonjeia não só os seus caprichos mas os que se consideram mais fortes, o que em qualquer dos casos deixa de ser um atrevimento coberto com a ideia da força!

Tudo isto, se por um lado nos contraria, por outro tem provocado muito interesse em se querer saber o que é então Anarquia, visto que em regime de liberdade todos temos iguais direitos e deveres e aqui estamos nós precisamente, fazendo uso desse direito. Claro que em teoria poder-se-á dizer que quase nada nos distingue doutras correntes do pensamento, mas na realidade algo de importante nos separa dos que se apresentam como sendo os detentores da chave do problema. O processo revolucionário em curso todos os partidos políticos o aprovam ou fingem aprová-lo e nós anarquistas, embora não deixando de estar presentes na luta de todos os dias, sabemos como os Partidos se interessam em nos marginalizar, pensando e agindo como se nós não existíssemos. Naturalmente que a hora é de confusão e há muito quem se queira aproveitar para levar a água ao seu moinho, impondo-nos à força o seu sistema ou o figurino que mais lhes agrada, privando-nos do direito de escolha de sermos o Povo em liberdade a construir o Portugal renovado e socialista que parece sem dúvida alguma que todos nós queremos!

Tem-se dito e redito que a liberdade deverá ser a base do nosso sistema, há quem o queira que assim não seja, importa por isso estar bem atento às intenções e manobras dos que a liberdade pretendem sacrificar em benefício do seu triunfo partidário, cortando o rumo ao 25 de Abril, transpondo-nos para situações que livre e conscientemente não desejamos.

O peso de uma ditadura que nos oprimiu durante 48 anos dá-nos o dever e o direito de sacudir o jugo por mais disfarçado que se apresente seja de quem for. Tudo menos a perda da nossa liberdade não só será a base do socialismo porque sem liberdade não pode haver socialismo e com a ditadura tudo estamos no risco de perder!

Se a unidade de todas as forças revolucionárias é uma condição que a própria revolução nos exige, essa unidade só será possível em liberdade sob pena de tudo se perder, a exemplo do que sempre aconteceu onde se tentou ir ao socialismo com menosprezo da liberdade. E certo que há só quem lhes interesse o poder e para esses a tomada do Poder é o seu programa, circunstância que obriga a quem a liberdade preze e nela veja a solução dos problemas humanos não se deixar embarrilar pelos que numa expressão de egoísmo e feroz ambição do mando não hesitarão em nos conduzir à ruína para que do caos possa advir oportunidade do seu triunfo.

PREFÁCIO

 Diz-se que de “médico e louco todos temos um pouco”. O aforismo deve estar certo e não é talvez menos certo tornar-se extensivo a qualquer atividade ou ramo do saber que mais de perto se relacione com fundamentais apreensões do viver do homem.

Compreende-se que sempre assim tenha sido e hoje mais que nunca, se se considerar que qualquer pessoa, se for boa observadora, atenta ao que vê e ouve em sua volta, se tiver boa memória e utilizar todos os meios de divulgação e cultura que tem ao seu dispor, pode dar-se ao luxo de ter opiniões e ideias sobre qualquer problema e adquirir conhecimentos e cultura que o identifiquem com os que discutem ideias, advogam doutrinas, podendo optar por sistemas.

O progresso generalizou condições que outrora não eram possíveis, mas com o jornal, a revista, o cinema, o rádio e a televisão o acesso aos conhecimentos e à cultura se tornou comum a muita gente a tal ponto que, a não ser no caso da especialização, em que um ou outro se mestria, na generalidade dir-se-ia que nos confundimos e, se quiséssemos poderíamos mesmo dizer, que deste modo e por este andar ver-nos-íamos livres dos “doutores”. Pode ver-se o formar de uma associação, qualquer que seja o seu fim, e não se exige nem identifica o associado pela sua cultura, a soma dos seus conhecimentos e os estatutos ou regulamentos, que normativam ou estabeleçam deveres e direitos são disso testemunha. Mas ainda aqui iguais deveres e iguais direitos podem ser simples formalismo e nada ou pouco representar no sentido de promoção do indivíduo, o que já será diferente se for um clima de autêntica valorização de cada um em obediência às exigências de uma transformação social que se deseja.

As circunstâncias que rodeiam uma mudança, novas circunstâncias criam que a novas mudanças levam, e de passo em passo até ao infinito. Deste modo a nossa maneira de ser e estar no mundo, como agora se diz, também se vai mudando e de mudança em mudança tudo em nossa volta se modifica e quer queiramos quer não, o sentido de tais mudanças tendem para a desalienação do indivíduo e implicitamente para a transformação da sociedade.

O homem e a sociedade não podem fugir ao seu “fado” e o fado do homem do nosso tempo está finado numa ação que o favoreça, estabelecendo modo de relações que o identifique com a sociedade que se deseja. Partindo deste pressuposto aceita-se a ideia de constituir dever e direito do cidadão possuir ideias, ter opiniões, advogar propósitos, aprovar ou reprovar o que considere favorável ou nefasto ao seu bem-estar ou harmonia social. Politizar pode não ser criação de partidos, mas o que não deverá deixar de ser é consciencializar o cidadão, tornando-o apto a intervir no rumo das coisas e dos fatos que lhe aguce o discernimento e a compreensão dos problemas relacionados com o seu viver e decida das suas opções de ideias ou sistemas que melhor se ajustem ou garantam a satisfação de suas exigências e necessidades. Assim sendo, não somos, políticos na acepção vulgar do termo, mas sentimos e compreendemos a necessidade de da nossa estrita obrigação de defender e propagar ideias, de advogar um sistema que seja conducente a uma modificação séria da sociedade em que vivemos e expressão fiel das nossas aspirações.

É partindo deste propósito que há mais de cinquenta anos defendemos ideias e na sua propaganda e defesa alguma coisa arriscamos, sem que jamais este propósito tenha sido refreado ou diminuído de intensidade. O que acontece é que já envelhecemos propagando que o homem e a sociedade podem e devem na verdade ser melhores e, na medida que insistimos mais atraídos nos sentimos em vir a público explicitar no que consiste uma mudança total da sociedade. É certo que modernamente toda a gente fala de revolução social mas poucos os que se detêm na análise dos seus fundamentos. Num século de lutas e experiências de uma divulgação de ideias por pensadores que foram marcos miliares do pensamento e ação revolucionária, só nos resta trazer para a cena da discussão as suas reflexões e conceitos relacionados com o tempo e o lugar onde os queiramos materializar.

Sei que não realizo trabalho perfeito, mas tranquiliza-me a certeza de que o que me falta em generalidade me sobre em desejo de acerto ao mesmo tempo que abnegação e idealismo. Tenho a consciência das dificuldades que era preciso vencer para expor um trabalho sem falhas numa tese desta importância. A temática social por si só é difícil e complexa e todavia mais, se se considerar o peso de centenas de anos de autoritarismo e educação torcida que imperam na nossa formação. Os conceitos absolutistas empalidecem a noção de liberdade e os indivíduos, mesmos ansiosos de independência e liberdade, deforma-os os conceitos autocráticos em que assenta a história e cultura da nossa civilização.

Sei que uma mentalidade centralista e escravizante não nos perdoa a ousadia de vir a público com a hipótese de uma solução libertária do problema social e muito menos os que da conquista do Poder estão enamorados. Não é uma questão nova e nem as nossas considerações podem ser tidas como originais, muito menos quando se tem presente o valor de geniais pensadores a dar à Anarquia a grandeza de um sistema que não só é viável em nossos dias, mas que se impõe como condição indeclinável para a satisfação global das necessidades humanas. Sabemos a responsabilidade que contraímos com a publicação do nosso trabalho, embora crentes que não passa de uma simples achega para a verdadeira interpretação de um socialismo libertário que visamos propalar e defender. Não nos anima o propósito de ferir seja quem for e inaceitação honesta também não nos incomodará, muito embora não desista que me reconheçam sinceridade e intenção de acerto. Não nos move ideias sectárias ou dogmáticas e quem nos conheça ou leia com espírito tolerante e compreensivo, facilmente nos perdoará as falhas ou defeito do nosso intento. Naturalmente que um ofício se aprende em três ou quatro anos, um curso mesmo superior, pode tirar-se em quinze ou dezesseis anos, apostular ou defender uma doutrina pode fazer-se de um dia para o outro mas propalá-la em bases que resistam à contestação, eis o que demanda muito mais tato e raciocínio quando não uma cultura muito mais profunda e científica que dificilmente se adquire. Isto é assim e embora nos falte engenho e arte para uma argumentação convincente, sobra-nos entusiasmo e convicções que de longe supera todas as outras dificuldades!

I. CAUSAS DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Perde-se na noite dos tempos o início da luta que o homem e a sociedade vêm travando no sentido de um mundo melhor, onde um clima de igualdade e justiça se instaure.

Extensos impérios, tronos poderosos, repúblicas e monarquias de todos os matizes, tudo o homem tem construído e destruído e, embora se não possa dizer que estaremos cada vez pior ou mais ou menos na mesma distanciados desse objetivo, o certo é que todas estas lutas arrematam periodicamente em ações de homens e povos, com alguma coisa diferente do que estava, mas todavia também distante daquele bem-estar e alegria de viver que no geral se persegue. Este fato ainda que não seja motivo de desistência, gera nos crentes menos convictos a desilusão ou a descrença, comparadas às que as crianças sofrem quando correm em direção ao arco-íris na creça de que o apanham. Noutros redobra-lhes o entusiamos na luta, calcinando-se na resistência, abre-lhes novas perspectivas e força-os a manterem-se na brecha…

Deste modo, milhentas utopias e sistemas de organização social se têm idealizado no sentido de se materializar um mundo que seja melhor, sem que, no entanto, tudo isso até aqui não vá além de sonhos dos que idealizam e lutam, dando o melhor da sua inteligência, da sua vida por uma sociedade mais justa e humana! De modo algum será inútil tal sacrifício no sentido do progresso social, embora se saiba não ser menos verdade que outro poderia ser o nosso viver se soubesse aproveitar em benefício desse mundo melhor todos os recursos da Técnica e da Ciência.

Prova isto que há um erro no sentido da nossa orientação com vistas aos problemas estruturais do nosso viver social, cabendo responsabilidades não só aos homens que o destino nas mãos tem e aos revolucionários que novo rumo querem dar, interpretando inequivocamente o sentido de uma mudança desse mesmo rumo.

O sentido desse rumo está condicionado modernamente por toda uma motivação revolucionária determinada pelas lutas sociais, agudizado pelo forte incremento da revolução industrial, que, mercê das suas contradições, bastante fortaleceu a argumentação revolucionária e tornou frágil a argumentação burguesa no meio dos seus paradoxas que se vê frustrada pela formação de uma nova moral e está alentada por toda uma filosofia escudada agora em fulcros de literatura e poesia, que as ciências alentam e dão base humana. O importante é o desencontro entre as modernas técnicas de produção e o sistema de distribuição do sistema capitalista mais em obediência à ideia do lucro que à justa distribuição, quer do que se produz, quer do que necessário é para as necessidades coletivas. A contrastante abundância com o subconsumo, alerta a irreverência de um florescimento contestário que se projeta em todos os setores da vida moderna e as classes trabalhadoras, agora organizadas em organismos de classe, tornam mais vulnerável a resistência burguesa e as sociedades veem-se inevitavelmente ameaçadas de transformações.

Pensadores de singular nível intelectual como Godwin, Owen, Proudhon, Guillaume, Bakunin, Reclus, Kropotkin, Malatesta, Faure, Rudolf Rocker, Ricardo Mella e tantos outros, fazem a autópsia de todo um sistema que não pode sobreviver, não só a par do progresso científico como integrado nas modernas técnicas de produção e distribuição. Logicamente o sistema capitalista não tem defesa e, tendo perdido a força da razão, faz-se defensor da razão da força.

Depois da Revolução Francesa a ficção de uma trilogia é agora objetivamente baseada nos princípios básicos de um novo sistema a que Lerrau dará o nome de socialismo e Proudhon, como o mais ousado dos pensadores de todos os tempos dará base federalista ou libertária. É certo que, no tempo, as ideias socialistas ainda não foram referendadas por qualquer experiência e, em teoria, a escola autoritária e libertária fazem pouca diferença, especialmente matraqueados pela dialética marxista. No entanto, na filosofia de Proudhon toda a ideia de Estado se pulveriza e os sectários da sua defesa são vergastados com uma linguagem demolidora e o Estatismo fica já na revolução de 48 reduzido pelas críticas de Proudhon a conceitos revolucionariamente desajustados às autênticas realidades socialistas.

Na ordem dos acontecimentos revolucionários de 48 segue-se a Comuna de Paris, que, não sendo acontecimento que dê verdadeiramente um sentido competitivo às duas correntes do socialismo, reflete no entanto a importância da falta de homogeneidade das forças da Comuna e que se irá refletir em todas as lutas sociais do tempo! Por um lado houve quem perdesse furor revolucionário, o caso do socialista de Estado; por outro tornou-se mais revolucionário, é o caso dos anarquistas, especialmente na Itália e Espanha.

No último quartel do século passado, os primeiros anos deste foram os de maiores investimentos ideológicos, investimentos que a Revolução Russa viria desgastar e, com a marxização de uma sexta parte do mundo, poria temporariamente fora de competição ideológica as duas formas de socialismo. Mas ainda aqui a vantagem não é senão transitória e se os “Cinco Comunismos” são a demonstração evidente de que uma coisa é a tomada do Poder pelas correntes autoritárias do socialismo, outra as realizações socialistas que a revolução social pela destruição do Poder nos promete.

De qualquer modo as contradições do sistema capitalista dão-nos toda uma temática que nos adverte dos perigos de uma estatização no sentido do socialismo, quando nos ensina que os tenteios de uma emancipação econômica não podem a sério ser tentados sob os auspícios de uma máquina burocrática e militar, que nos afogue, ou nos absorva, a melhor parte da produção…

O paralelismo ou o desencontro de uma escala de valores a encontrar nas economias de Estado socialista ou burguês, não pode ter, numa concepção revolucionária, importância de maior quando se está na verdade empenhado numa socialização total de todos os estratos sociais com miras à abolição das classes e reparto justo e igual para todos.

II. A ECONOMIA DO LUCRO

Sociólogos e economistas do fim do século passado provaram que o desenvolvimento industrial era incompatível com o sistema patronal e as crises de trabalho, refletidas em todas as crises do Capitalismo, eram consequências dessa incompatibilidade, faceta que moralmente torna tal economia indefensável, ao mesmo tempo que gera visíveis paradoxos que mais atrofiam todo um sistema de relações, desde as mais simples às mais complicadas do comportamento humano!

Os postulados da Economia Política falharam em toda a linha no que respeita ao equilíbrio e harmonia sociais e a concorrência entre indivíduos e empresas arrasta tudo e todos a competições desiguais e injustas e a irresponsabilidade e o ódio campeiam, acirrando lutas e guerras de indivíduos para indivíduo, de empresa para empresa, de cidade para cidade, de província para província, de país para país, e assim sucessivamente até ao mundo inteiro. A economia capitalista é uma economia de guerra e a luta pela conquista de mercados e de matérias primas mais aguça a sua astúcia e os atira para a expansão capitalista, onde tudo que é imoral e perverso se fomenta e se cultiva. Mas o mais desconfortante das contradições capitalistas é o fato da existência simultânea de imensas quantidades de mercadorias e a miséria em milhões de lares trabalhadores!

Dimana dessa contradição uma das maiores fraquezas do capitalismo e, se as economias ditas socialistas não tivessem as suas contradições, teriam hoje em todo o mundo regimes tipo socialista.

É este um aspecto paradoxal das lutas políticas em nossos dias e que entronca com o progresso material o qual pelas suas aplicações, feriu irremediavelmente ambos sistemas.

O defeito de uma produção descontrolada, sem o escoamento correspondente por um consumo adequado, gerou perturbações nas relações comerciais de autêntico desconcerto em todos os balanços econômicos. Por mais voltas ao problema que se dê, as economias do lucro soçobram e afastam a possibilidade de equilíbrio, não só entre o justo preço, mas também a própria produção necessária. Deste inconveniente inevitável das economias do lucro, promanaram os milhentos incentivos de uma publicidade exausta que culminou na moderna chaga a que se chamou sociedade de consumo, sem que se tenha efetivamente dado um passo firme no sentido de uma solução mesmo aparente do complicado problema socioeconômico nas economias lucrativistas.

A incapacidade do sistema capitalista para uma justa utilização do progresso geral das sociedades, contrastando com as perspectivas de uma futuração doutrinária que as correntes mais evoluídas do pensamento nos prometem, desacreditou-o a uma inaceitação onde já ninguém duvida da sua imediata substituição. Não se trata de uma simples premissa ou uma opção acidental para ser imperativa condição, mais que tudo, de um novo sentido de vida, de uma nova moral!

O tempo que medeia entre as duas grandes guerras, incluindo o triunfo do Bolchevismo na Rússia, o rescaldo da mentalização da Idade Média com todo o seu maquiavelismo e destemperos ambiciosos de mando, dão, como nenhuma outra fase histórica mais próxima, a medida exata do sentido desumanizante da nossa civilização, ao mesmo tempo que exemplo incontestável do beco sem saída que representam todos os sistemas político-socioeconômicos postos à prova, com miras à solução dos problemas humanos.

Pode dizer-se que o clima que antecedeu e procedeu a 1- grande guerra foi insidioso, destemido, doentio e dramático, mas ainda sobreviviam resquícios de puro idealismo revolucionário e, embora de certo modo amortecido e ofuscado por disfarçados interesses oportunistas, conseguiam ser fulcro luminoso de esperanças de corruptos idealistas que, com sacrifícios da própria vida, alimentavam a perspectiva de um mundo melhor. Depois de 1945 o mundo piorou, não obstante as promessas e esperanças que os condutores da guerra tão largamente haviam prometido, e isto porque simplesmente fizeram desaparecer alguns contendores que os malefícios da ambiência da guerra duplicaram, agora concentrados em dois focos de maior projeção universal. Oriente e Ocidente, eis o tema e, em qualquer dos casos, a ameaça e a continuidade não só da guerra mas de tudo que a gerou e a mantinha!

Um olhar sobre o Mundo de então e não se vê um só canto da Terra onde a abundância não pode ser condição geral e assim, a situação de pobres e ricos, deixar de ser problema. Isto significa que, por determinação do progresso, da técnica, uma mudança radical se impõe e esta é tanto mais inadiável quanto é certo que a harmonia e a paz sociais o exigem e a própria sobrevivência na Terra o não dispensa!

Há imperativos de toda a ordem que não permitem que a miséria campeie ao lado da ostentação; a fome coexistindo com a abundância; o palácio, com a choupana; o esfarrapado, o descalço e o faminto, vagueando, refletido no espelho das montras recheadas de vestes e comestivos em flagrantes contrastes!

A atual sociedade só contrastes nos oferece e as guerras são desatinos que o capitalismo provoca periodicamente para alívio e desgaste dos seus contrastes, embora sempre transformadas em dolorosas provações humanas!

III. O ANARQUISMO E SUA DEFINIÇÃO

Quem julgue poder formar um conceito seguro sobre as ideias anarquistas, limitando-se porém a simples definição de dicionários ou enciclopédias, ou o que dizem simples historiadores, que as não sintam ou as repudiem, sujeita-se a erros que o melhor desejo de acerto não supera e, além disso, quando em todo um mundo, falsas noções pesam na sua formação.

Toda a cultura oficial e oficiante, no domínio absoluto da Poesia, da Literatura, da Ciência e Filosofia, dispõe e canaliza no sentido de uma sequência normativa de inflexíveis postulados, a vida social. Qualquer formação, e mais exatamente as mais primorosas, é esquematizada, e, dessa esquematização, resulta uma estandardização do indivíduo onde tudo avulta, menos a independência e a liberdade que conduz o indivíduo e a sociedade à sua emancipação.

Desde as primeiras letras à universidade, a vida do estudante é carrilada por vias donde não pode sair, imprimindo-lhe diretrizes e rumo que inevitavelmente o vão projetar no viver conflituoso e deprimente de todos os dias.

Esta espécie de determinismo histórico é como um colete de forças a impedir formação mais atinente a uma desbravação do terreno cultural que permita a natural evolução do indivíduo e a transformação da sociedade. Dimana daqui a impossibilidade de uma fácil e prática interpretação do anarquismo, com a agravante do feitiço da história e o culto fantasmagórico das velharias milenárias de uma civilização por natureza já morta. Isto é assim e porventura mais confuso e difícil se se ajuizar pelo que do anarquismo dizem os seus detratores, ou candidatos à conquista do Poder político, religioso e econômico.

O anarquismo é o sistema, conjugado pelas atividades dos anarquistas, tendente à instauração da ANARQUIA: – Anarquia, sistema de organização social onde toda a vida se processa em liberdade, igualdade, justiça e fraternidade entre os homens e desígnio e condição implícita dessa mesma liberdade.

O anarquismo é doutrina que os anarquistas professam e, quando possível, praticam, excluindo toda a ideia de autoridade nas suas relações, pelo que tal objetivo leva imediatamente a uma total destruição do Estado, como ponto de partida para as principais realizações do viver social em Anarquia.

Como ideal, a Anarquia perde-se na noite dos tempos; como corpo de doutrina é a partir de Proudhon, nos meados do século passado, mas mais exatamente depois de Bakunin no seio da 1- Internacional e em luta aberta com a corrente autoritária dessa mesma Internacional, que o anarquismo surge a impressionar a parte mais sadia e independente das lutas sociais de então. Proudhon foi o primeiro pensador ou filósofo que a si mesmo se chamou anarquista e esta atitude, por si só, define e classifica Proudhon como um dos maiores filósofos políticos. E se Proudhon foi genial na gigantesca obra revolucionária que produziu, todavia o afirmar-se anarquista, no tempo e nas condições em que realmente o fez, mais o agigantaram e a humanidade ser-lhe-á eternamente devedura, não só pelo gênio, como pela sua coragem! A cento e tantos anos de tão memorável afirmação, e com tanto o que se tem evoluído nos campos das técnicas e das ciências, o seu arrojo confunde-se com o de tantos outros a quem a humanidade tanto deve! Não é revolucionariamente descabida a exaltação de um Proudhon, como não seria a de um Copérnico ou de um Galileu numa interpretação do Universo, como a de um Darwin e Lamarck na moderna biologia ou ainda na Física moderna, ou as teorias da relatividade de um Einstein, ou na teoria dos quanta de um Planck. A humanidade deve a muitos, nos muitos ramos da Ciência, mas a sociologia moderna deve a Proudhon e a Bakunin o enriquecimento e a valorização do homem, integrando-o no conteúdo de uma hu m anidade nova.

Sabe-se como é, na verdade, difícil localizar o encadeamento dos grandes feitos da história, relacionados com o rastro ou herança de um princípio de mudança que a vida nos lega e ininterruptamente se persegue; ou ainda com a fixação de um limite ou ponto essencial de partida para a realização de um mundo que se deseja. Esta hipótese não nos impede de afirmar que, em qualquer tempo e lugar, temos pontos de referência que nos inspiram uma ação sistematicamente irreverente e a garantia de que o homem e o mundo se transformam no sentido do advento da Anarquia. Dir-se-ia que os mais seguros elementos de relação são a vida e a obra revolucionária dos pensadores de cada época e que deles fica como exemplo do seu valor para as gerações vindouras, resultando apenas difícil compulsar-se com exatidão quanto se fez e disse no sentido da revolução, precisamente por forças sistemática e obstinadamente se oporem ao seu registo, sua aceitação, sabendo-se que a história, os compêndios, a arte e a filosofia, pouco ou nada deles falam! Não fora toda a série de contingências do progresso e as válvulas de escape que alentam e vivificam a revolução permanente, e tudo seria todavia mais lento, as ideias e os fatos que os grandes vultos da história viveram, não passariam de simples pontos de referência no horizonte distante das realizações sociais, como o são as estrelas que milhões de anos luz separam do olho do astrônomo que as estuda e compreende. Sim, as antevisões sociológicas são para o pensador fecundo como foram e são as detecções que ao longo do tempo e das distâncias os visionários do nosso universo nos foram revelando. E infindável a lista dos visionários da revolução; mas a revolução como meta estipulada, como ponto visionado e definido, que seja ponte a transpor o homem e a sociedade a uma etapa culminante da sua evolução só depois de Godwin, Proudhon, Bakunin, Reclus, Kropotkin, Grave, Malatesta, Tolstoi e tantos outros, que à Sociologia deram bases científicas e às relações humanas autêntico conteúdo de humanismo positivo, com vistas à Anarquia.

Depois deles, outros o têm defendido e reafirmado, mas a incontestabilidade que tais precursores lhe deram é o que nada destrói, não empalidece perante todas as arremetidas dos partidários da Autoridade. O “direito da força” empalidece nos seus artifícios perante o progresso da justiça, e o “direito da igualdade” são verdades eternas, como eterno será o propósito de “procurar a justiça e a igualdade na Anarquia” como o dizia Proudhon. A revolução social libertadora está para a sociedade como a maturação celular o está para o indivíduo: inevitável; só a morte prematura pode ser força inibitória, mas a sociedade não morre e como a torrente do rio não pode parar e ladeia montanhas, rompe montes ou abre valas, mas prossegue, caminha para o mar! Assim a marcha do Mundo, a evolução do homem e da sociedade caminham para a Anarquia!

Toda a luta de ideias tem os seus mentores; todo o progresso social assenta nessa luta e no sacrifício dos que lutam e o anarquista é, por definição, um emérito lutador. O anarquista, por imperativos de muita ordem, luta, mas a sua luta vai mais além de um simples quebrar de algemas que o manietam para ser antes esforço a quebrantar quantas escravaturas pesam na alienação do indivíduo e escravização da sociedade.

A irreverência à injustiça foi apanágio do homem de sempre, como desejo de ser livre, mas só com os anarquistas esse sentido de liberdade se tornou inequívoco e socialmente positivo, na medida em que o anarquismo é uma doutrina que se define e expressa na destruição pura e simples de toda a autoridade. Bakunin, e antes dele Proudhon, se referindo à liberdade, dizia:

Só serei verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me rodeiam, homens e mulheres, forem igualmente livres. A liberdade de outrem, longe de ser um limite ou uma negação de minha liberdade, é, pelo contrário, a condição necessária à sua confirmação. Verdadeiramente só me torno livre pela liberdade dos outros, de tal modo que quanto mais numerosos forem os homens livres que me cerquem, mais profunda e ampla se torna a minha liberdade.

Esta a mais cabal definição de liberdade dos anarquistas e se tal definição vale pelo que encerra, o que os anarquistas praticam supera de longe o que teorizam, fato que mais os agiganta aos olhos da visão imparcial da justiça e da história! Não é talvez descabido afirmar que se às ideias e obra dos anarquistas fosse dada a divulgação e propaganda que os outros setores do pensamento de somenos importância se dá, o mundo seria melhor e o curso de vida social seria regular e humanamente mais construtivo. Imaginemos se nos ecrãs dos cinemas, nos palcos dos teatros, nas emissões de rádio ou televisão se evocasse com fins educativos a vida e a moral dos anarquistas, as ideias e os fatos que circundam o viver dos que anarquistas foram ou por toda a parte e sempre anarquistas são, o viver social seria outro!

Mas não. Toda a gente deseja e no fundo, muito no fundo o homem desejaria ser melhor, mas as contingências de um viver corrupto pelos tempos e pela maior parte das ações dos homens (sobretudo dos homens que governam, exploram e oprimem), não permitem que os homens sejam melhores, sejam efetivamente no fundo o que dizem e desejam ser.

No campo socialista, consciente ou inconscientemente por tática ou por manhas, todos dizem que querem o que querem e praticam os anarquistas, embora o que realizem nada tenha que ver com o que pretendem os anarquistas. Não é, portanto, uma questão de tática que os separa, e observe-se, à base da psicologia, o que foram cada uma das figuras da história das lutas sociais, nomeadamente K. Marx, Engels, Lenin e Stalin, comparados com Proudhon, Bakunin, Kropotkin, N. Makhno ou Voline. Não é uma questão de simpatia ou qualquer outro sentimento que a este raciocínio nos leva, da mesma maneira que seria a maior das heresias ou injustiças se se atribuísse a um João XXIII os mesmos propósitos e ideias de um Loiola ou Torquemada. Nada disso. Os homens distinguem-se pelo que pensam, do modo como pensam e especialmente pelo que fazem! Há muito quem sinta e viva as ideias anarquistas sem disso se aperceber ou se importar, mas esse fato ainda tem sua explicação em sociologia e psicologia humana e os anarquistas militantes sabem-no muito bem e com rigor científico o têm explicado…

Ser anarquista militante não é só sentir necessidade de ser livre e pela sua liberdade lutar, mas é ter consciência das causas que o impedem de livre ser e contra elas lutar. Além disso, é pugnar por um conjunto de módulos e regras de convivência social que o personalizem e identifiquem com um modus vivendi que o universalize. A divisa tudo pelo homem, nada contra o homem só o anarquismo a pratica; e integrar a vida nas leis da Natureza, num sentido progressivo e humano, tal é a pretensão inalterável do anarquismo.

A história ensina-nos que em certa altura o homem perdeu o rumo ou sentido da sua evolução e deixou-se arrastar por desvios ou rotas que mais o prenderam à sua animalidade e aí ficou milhares de anos, fossilizando-se na gélida civilização que crioul Hábitos, costumes degenerados, cristalizaram as suas humanas relações e as leis da solidariedade e do apoio mútuo, que permitiram a sua sobrevivência nos recuados tempos da sua vida simplesmente animal, foram substituídas por preconceitos desnaturados e a ideia de lhe atribuir uma alma que aos outros animais se negava, mais embrulhou a naturalidade ao seu viver; seja-nos permitido apenas evocar estas conclusões da biologia para atestar que o homem tem “altos e baixos” na linha trajetorial da sua evolução e teve fases e ainda hoje aqui ou ali vive mais perto da sua emancipação, mais próximo, portanto, da Anarquia.

Louise Michel, Malatesta, Han Ryner, E. Reclus, Kropotkin, Tolstoi e tantos, tantos outros, foram considerados “santos laicos”; e, se confrontarmos o que foram, como foram, comparados com os canonizados santos das Igrejas, não pode restar dúvidas que o seu exemplo sobreleva a todos em grandeza moral e, mais exatamente, pelo seu espírito de abnegação e renúncia, pela dedicação e coragem como lutaram e defenderam os humildes, os pobres, todos os condenados da Terra! Ainda com diferença que os santos das igrejas davam o que pediam e eram rodeados de encómios e honrarias dos potentados que mais os estimulavam, independentemente da suposta recompensa de uma eternidade mais que feliz nos reinos dos céus! O anarquista tudo que faz ou diz sente, fá-lo pela necessidade de o fazer e jamais pensa ou pesa a ideia da recompensa, ou do castigo e a vida despretensiosa e simples que quase todos viveram e vivem; caracteriza-os como autênticos cabouqueiros de um mundo novo e de uma humanidade também nova.

Não é falso nem exagero dizer-se que, embora haja mártires e heróis em todos os campos do pensamento, o ideal anarquista sobreleva a todos e em condições de abnegação e renúncia, em choque com a moral burguesa e espírito autoritário da nossa civilização, que limita a expansão e compreensão do ideal anarquista. Além disso, a luta anarquista exige perseverança e determinação, sangue sempre jovem e rebeldia permanente; e a vida dos povos, em certos períodos, é cansativa, desgastante de irreverências e de sistematizadas rebeldias. Provém deste fato os mínimos da linha sinozoidal da evolução humana e a limitada aceitação do ideal cuja prática da justiça e do amor ao próximo não seja fantasia ou demagogia facciosa dos ambiciosos do mundo. Todo o espírito bem formado aceita a ideia de um mundo melhor, e a ideia de que eram precisos escravos para gáudio e ostentação de poucos, feneceu, como feneceram ideias e propósitos dos que outrora se refastelarem no lauto banquete da vida burguesa, na imbecil ilusão de que é mais saborosa a vida e mais proveitosa a digestão, coexistindo com a miséria e o estômago vazio da maior parte. Este é o lado fraco da nossa civilização e onde o anarquismo recruta a força moralizante da sua doutrina. O anarquismo vangloria-se de não fazer como S. Tomás; apostolizam e praticam os anarquistas tanto quanto podem a sua doutrina e a alternativa de ser martelo ou bigorna , lutam e tudo fazem para que não sejam bigorna, mas em nenhuma circunstância serão capazes de ser martelo. Há um sentido neste dizer, na aparência paradoxal, mas no fundo expressa com exatidão a posição do anarquista perante as contingências da luta que será sempre irreverente, obstinada e nenhuma circunstância permitirá que cale a injustiça e se submeta resignado a qualquer tirania. Não estamos em presença da teoria de Cristo, que vendo-se açoitado numa face, oferece a outra ao ofensor… Nada disso. O anarquista é, por definição, um revolucionário e a sua luta é permanente contra tudo o que o mortifique ou contrarie, nos seus perpétuos anseios de justiça e felicidade social, não lhe permitindo silenciar ou deixar de agir no humano sentido de praticar o “bem” e evitar ou fustigar o “mal”. Fale por nós a história de há cem anos a esta parte e quem se debruçar sobre a vida dos militantes anarquistas, se tiver humana formação, não poderá deixar de admirar a grandeza moral desses heróis e lhe estar agradecidos não só por sua antevisão de um mundo novo e melhor, que mais ou menos todos dizem desejar, mas que em verdade só a Anarquia pode garantir.

O que se afirma, qualquer o pode também afirmar, mas o partidário de uma seita, de um partido, de um sistema qualquer, não se ufana de um critério de isenção ou independência como o pode fazer o anarquista, na medida em que não ambiciona mando ou domínio, nem se sujeita de bom grado ao uso de qualquer autoridade, não a exercendo também sobre ninguém.

O conformismo, a obediência, a disciplina partidária ou imposta pelos de cima, são modos vivenciais que não afetam o anarquista, mas não deixam de pesar na formação e conduta de todo e qualquer agrupamento social. A liberdade sem adjetivos nem limitações é a pedra basilar do sistema promulgado pelos anarquistas e nisto consiste a importância do que teorizam relacionado não só com o que praticam mas consequentemente com o que fundamentalmente pretendem. A autoridade e a liberdade são antinômicas, mas o resultado da sua aplicação nas relações sociais resulta todavia mais antinômico. Deste modo quando o anarquista falar de autoridade e liberdade pressupõe-se que são dois conceitos que se opõem um ao outro e a defesa de um subentende o combate do outro. Para muitos setores políticos o uso da linguagem varia e embora a própria ideia e autoridade divirja no modo de ser aplicada entre alguns povos, a verdade é que isso não impede que toda a fórmula de Estado seja contestada pelos anarquistas, sem abandonar a ideia de que o Estado é tanto mais nocivo quanto mais centralista e despótico, significando, quando o Estado se aproxima de sua forma “perfeita ou totalitária” a governação é uma autêntica escravatura e os povos que tais sistemas suportam envelhecem e bestializam-se!

Desta constatação partiu Proudhon ao escrever as suas “Contradições Econômicas” ou “Filosofia da Miséria”, que tanto barulho produziu, incluso nas escolas socialistas, particularmente no marxismo. K. Marx e os seus partidários mais façanhudos não perdoaram a Proudhon o seu apego à Anarquia, desvinculando-se em absoluto de toda a ideia de Estado. Deste modo em Marx e seus fanáticos partidários, encontrou Proudhon os mais ferozes adversários e Marx com a sua “Miséria da Filosofia” celebrizou-se no combate à liberdade e o inspirador por excelência das ideias totalitárias ou no mais fechado centralismol Desde então, não só os reacionários divinizaram o Estado e a ideia da autoridade, mas é precisamente Marx e seus acólitos, com a ficção da chamada “Ditadura do Proletariado”, concretizada em fatos realizados por Lenin mais tarde, que abrirão o fosso intransponível da unidade revolucionária do proletariado a afastar a imediata possibilidade à verdadeira Revolução Social!

IV. OS ANARQUISTAS TAMBÉM SÃO SOCIALISTAS

A revolução industrial do século passado, além de possibilitar a marcha acelerada do progresso, permitiu o advento incontestável de um mundo melhor. Desde agora ninguém contesta que as causas da miséria estão técnica e cientificamente batidas e o importante é o estabelecimento de estruturas político-econômico-sociais, não só compatíveis com esse progresso mas também de harmonia com uma sistematização da abundância, reparto justo e equitativo da produção, objeto formal das escolas socialistas. O socialismo, como sistema de vida integral da sociedade, aparece como meta imediata das lutas sociais e não importa agora que mais que escolher os métodos ou táticas em que se entrará efetivamente na sociedade socialista.

Todavia sabe-se que a mudança brusca das estruturas, a incompatibilidade das vantagens da introdução da máquina com a mentalidade egoísta e fechada das forças capitalistas e crises sucessivas e consequentes de todo o sistema, constituíram o arsenal indestrutível das correntes socialistas. A luta agora vai dirimir-se no seio das correntes ditas socialistas e a competição tem foros insuperáveis que serão o principal obstáculo da revolução social. Entretanto a burguesia desmoraliza-se e a coexistência da superprodução com a excessiva miséria no lar dos proletários mais agudiza a luta social e maior perturbação gera no seio das forças da reação.

As classes trabalhadoras, solicitadas para a luta, organizam-se e são campo fértil para a incubação de ideias promissoras e vítimas seculares da repressão e exploração, transformando-se no elemento mais ativo da transformação que se impõe tem que radicar em propósitos e sentimentos de solidariedade. Começa por se desenvolver nos intelectuais de melhor formação a ideia de uma temática social mais compatível com o espírito coletivo, não só como natural oposição ao individualismo burguês, mas até como natural ajustamento às novas realidades econômicas e sociais. A grandes campos de produção contrapor-se-ão fortes expansões demográficas e estas imporão as suas leis e regras de convivência, que aliadas às exigências da nova técnica de produção impõem um mundo novo no domínio das relações, tanto entre os produtores, como em todos os setores humanos.

Em França, depois da revolução dos “san-culottes”, representada na figura de Babeuf, as lutas sociais tomam cada vez um cunho mais comunitário e tocam de entusiasmo imbatível uma plêiade de pensadores que farão brotar milhões de páginas de crítica e combate que revolucionarão o mundo das ideias, desacreditando especialmente os grandes sustentáculos da injustiça e desigualdade sociais. A nobreza e o clero dividem-se também em novos fulcros de reação, ao passo que as ideias do progresso formam uma força indestrutível que tudo renova. As letras, as artes e a ciência também se deixam contagiar pela ideia de um mundo novo e, em críticas realizam-se e permitem perspectivar o viver do indivíduo e da sociedade em moldes socioeconômicos mais prometedores da promoção social. Algumas “Utopias” desde Platão, Thomas Moore, Campanella, Rabelais e Fourier, inspiram novos sistemas sob a nomenclatura socialista e uma plêiade de literatos e filósofos se identificam com as ideias socialistas. Pierre Lerroux, Tourail, Raspail, Robert Owen, Blanqui, Ridavia, Pecquer e tantos outros, divulgadores de um socialismo, que diferindo muito do iniciado por Godwin e alicerçado por um Proudhon, irão evoluindo no sentido de uma irreconciliação absoluta, especialmente com o aparecimento de Engels e K. Marx. Desde agora duas escolas fundamentais do socialismo se observam, uma autoritária e outra libertária. A primeira divide-se ainda em reformista e revolucionária, mas ambas concorrentes à conquista do Poder; a segunda é desligada em absoluto dos princípios autoritários ou da ideia do assalto ao Poder, mas ambas têm entre si salutar afinidade, ainda que taticamente se separem ou atuem em setores de luta diferente.

No campo sindical, a unidade da classe trabalhadora sobre-estimam-na e não desistem de uma mentalização apolítica e libertária. O sindicalismo revolucionário ou anarcossindicalismo, definido no congresso de Amiens, serve-lhes de suporte de luta social e a ação direta, como a compreendem os anarquistas, é o elemento base da sua atuação. Esta circunstância, formal distinção do socialismo libertário, afeta extraordinariamente a sua aceitação, se se considerar a tendência comum para a inaceitação do mais simples, perante o mais complicado, procurar no fundo, muito no fundo, o que está à superfície.

Os anarquistas estão, por princípios, proscritos de toda e qualquer atividade política tanto quanto presos aos anseios e aspirações das classes trabalhadoras. Este

fato determina que onde quer que a vida se processe para fins socioeconômicos aí poderão estar os anarquistas, intervindo, não só no cumprimento das suas sociais obrigações, como no suposto sentido de disseminação ideológica que importa espalhar por todos os organismos considerados essenciais à vida social. Assim, nos sindicatos, nas cooperativas, nas comunas, em qualquer coletividade, incluso nos municípios, quando tais organismos se subtraiam ao centralismo estatal ou se integrem nu m federalismo libertário, podem e devem os anarquistas intervir, materializando um sistema socialista que só em liberdade é possível. Proudhon e Bakunin indestrutivelmente enunciaram esta verdade e qualquer deles terá afirmado que “liberdade sem socialismo não é possível e socialismo sem liberdade é tirania”.

A ideia de socialismo dos anarquistas está ligada ao fato da interdependência do indivíduo e da sociedade, quando se sabe que o isolamento é impossível e o homem até para se reproduzir precisa se associar. Há anarquistas que se dizem ou se disseram individualistas; outros, coletivistas ou comunistas, sem que se possa desprender que haja alguém que possa aceitar a vida sem relações, sem contatos de muita ordem ou indispensável cooperação. O individualismo de um Max Stirner e dum Han Ryner não fizeram escola, embora fossem pensadores de valor excepcional, especialmente Han Ryner, o qual explica o seu apego ao seu eu, numa concepção de liberdade sem peias nem entraves, o homem pode ser transportado às mais fantasiosas ações da sua independência e da sua liberdade! Cremos mesmo que a exaltação do “ego” dos anarquistas individualistas, no fundo, deve estar certa e é exatamente para uma valorização do indivíduo íntegro e independente que o homem tende; o socialismo libertário é o meio ou sistema social de que o homem e a sociedade se servem conducente a essa independência ou liberdade. De resto, quando se interpreta devidamente o sentido libertário do socialismo, temos presente a possibilidade de autêntica promoção do indivíduo sem quebra dos vínculos que o ligam à sociedade, para a promover a um nível sempre crescente de valorização social sem o mínimo sacrifício da personalidade e da independência do indivíduo. O anarquista Neno Vasco, na sua “Concepção Anarquista do Sindicalismo”, dizia que “quanto mais anarquista mais sindicalista e quanto mais sindicalista mais anarquista”. Parafraseando Neno Vasco, diremos que quanto mais anarquista mais socialista e quanto mais socialista mais anarquista, sendo, aliás, o que disseram Proudhon e Bakunin em termos indiscutíveis. O importante é salientar que anarquismo constitui horizonte ilimitado e envolvente de um sistema social onde o homem livre em sociedade livre possa dar plena satisfação às suas necessidades humano-sociais. O que confunde muita gente é a ideia restrita que se faz do anarquismo ou confundi-lo com qualquer grupo político e suas etiquetas, programando tudo, estipulando ou limitando. Qualquer partido político, na posse do Poder, pode programar e julga, com a força ou poder nas suas mãos, levar à prática quanto programatiza, mesmo que as realidades sociais o contrariem. Quanto ao anarquismo, tal não acontece, porque não dispõe de meios nem de força para o fazer e esse é, se assim se pode dizer, o seu programa. O anarquismo não concebe decretos, não legisla, porque além de incoerência seria inoperante e simplesmente ridículo. Socialismo é o modo de convívio pelo qual o homem e a sociedade se integram e se procuram numa harmônica correlação de deveres e direitos interpenetrantes, produzindo a harmonia e saúde do corpo social. O anarquismo (neste caso, a liberdade sem peias nem entraves de espécie alguma), é seiva anímica que anima e vivifica, desde o órgão mais simples ao mais complicado do corpo sociall Quando os anarquistas dizem que socialismo é possível, enunciam uma verdade ou um enunciado sociológico científico que nenhuma dialética destrói e todas as realidades históricas e sociais comprovam!

Não é impunemente que se considera pura abstração bem-estar coletivo ou social sem que esse bem-estar seja expressão ineludível do bem-estar do indivíduo e Jean Grave, no seu “Indivíduo e a Sociedade”, desenvolve este tema com um rigor e pormenor que simplesmente podemos lembrar e apoiar. A nossa intromissão, em matéria tão complexa, é-nos imposta por uma série de raciocínios demonstrativos da importância da liberdade e não é viável ou possível sem as condições político- econômico-sociais que a determinem e a imponham! O homem é um ser racional e livre que propende por sua própria natureza à liberdade absoluta, como os números racionais e positivos tendem para mais infinito. Propende, mas não atinge, circunstância que de modo algum justifica entraves que se forjem, limitações que se lhe imponham, que não sejam as da sua própria condição humana, ou determinadas pela sua natural dependência social. Qualquer de nós, quando livremente renuncia a qualquer coisa que em seu proveito pessoal podia utilizar, se o fizer com humana ou social consciência, pode sentir um duplo prazer e está aqui a chave ou a compreensão do problema social em termos socialistas ou anarquistas! O homem que se ignora e que alienado se despista das suas responsabilidades sociais, não compreende e dificilmente aceita a prática da solidariedade como veio condutor do bem-estar social. Felizmente, que o instinto supera essa inconsciência, mas a evolução, por isso, é muito mais lenta e custosa!

A solidariedade é a alavanca que suporta o universo, não só o homem, mas o Universo… A mãe, mesmo a das espécies mais inferiores, desprende-se material e fisiologicamente de tudo que pode para dar vida ao filho e a razão da sobrevivência das espécies está aí. O progresso social não é só soma de esforços e de sacrifícios impostos, mas também somatório de renúncias que, ao longo dos séculos, voluntariamente entre o indivíduo e a sociedade se foram fazendo. Está neste pensamento a base histórica do socialismo e a razão imperante da liberdade nas relações de indivíduo-sociedade. Também se poderá identificar deste modo a “razão de Estado”, o poder da Autoridade, o constrangimento em função do direito coletivo ou social, mas isso seria justificação do privilégio, da desigualdade, da injustiça, da tirania, portanto.

Socialismo, além de realização conjunta do homem em busca dos elementos essenciais do seu viver, é ainda o modo fácil de se dar cumprimento às leis de solidariedade e da universalização do homem. A utilização dos meios de deslocação, cada vez mais velozes, foram permitindo ao homem uma informação que lhe avivou uma condição social mais lata e mais sadia e quanto mais consciente da imensa vastidão do mundo que o cercava, mais vínculos necessitou de criar que o ajudasse na sua natural expansão. A vida em sociedade não surge por decretos ou leis que alguém faça, mesmo que esse alguém fosse um Deus onisciente e onipotente, mas porque é condição fundamental da própria vida, não só a do homem e outros animais mas a vida em si, considerada e vista na sua grandeza universal! Sabe-se que a sociedade é anterior ao homem e este só em função das exigências sociais se foi apercebendo da sua condição de homem e vice-versa, quanto mais se encontra mais consciência tem da sua responsabilidade de vida social. O homem, obreiro em certa medida de si mesmo, não pode ignorar quanto deve a qualquer expressão de vida que o rodeie e alargar essa dívida até o infinito…

As ciências naturais, especialmente as que mais se relacionam com o homem e a sociedade, dizem-nos que, à medida do decorrer dos tempos, o homem se entroncou na imensa floresta da vida social, adquirindo e perdendo caracteres que o foram diferenciando mais da sua origem, embora sempre num sentido evolutivo e humano. Também nos dizem que o conhecimento do homem estava confinado aos rudimentos da antropologia e esta apenas relacionada com a fisiologia e psicologia humanas. De há cem anos apenas, a grande revolução humano-social viria proporcionar o aparecimento de outros ramos de ciência, poderosas achegas para mais cabal conhecimento do homem nas suas múltiplas dependências mesológicas e sociais. “A etnografia elucida- nos do aspecto particular de cada região em relação aos vínculos que prendem o homem ao meio social, enquanto que a etnologia nos descreve a humanidade no seu conjunto e nos ensina a compreender os seus caracteres físicos e espirituais no tempo e no espaço da escala humana.” É só em 1880 que Hamy, num informe, nos diz que a etnografia “é o estudo de todas as manifestações materiais da atividade humana: alimentação e alojamento, vestuário corrente e cerimonioso, armas de guerra e instrumentos dos trabalhos pacíficos, caça, pesca, cultura e indústria, meios de transporte e de troca etc.”. Esta evocação da ciência serve-nos apenas para compreender a base científica do anarquismo, como o demonstraram Kropotkin, Reclus e tantos outros, nas suas obras de antropologia, etnografia, geografia e psicologia, completadas com a psicanálise de um Freud e toda a experiência dos últimos cinquenta anos de lutas político-econômico-sociais.

Chegados a esta conclusão, importa ter presente que o surto ou escalada do socialismo é perfeitamente lógico e facilmente se compreenderá por que poucas ou nenhuma correntes político-ideológicas se eximem à aceitação senão na totalidade dos seus postulados, ao menos no inevitável das suas exigências. Por toda a parte surgem escolas socialistas e a classificação que adotam em grande parte resulta de adjetivos caprichosos e sem conteúdo propriamente socialista, como o do nacional socialismo alemão, o bolchevismo na Rússia, nacional sindicalismo na Espanha e o corporativismo em Portugal. No entanto, na sua demagogia, todos mais ou menos se identificam com a ideia socialista.

Mas uma coisa é não poder negar ou fugir a certas imposições do progresso material, outra a de criar um sistema que não só seja um rigoroso ajustamento a esse progresso mas prática ineludível da vida socialista. Não basta concordar com uma ideia ou propagá-la; é preciso que nos integremos nos seus princípios e cumprindo-os, que nossos atos sejam a expressão viva dessa ideia! No aspecto econômico, há certas prevenções que já foram reivindicações socialistas e, socioeconomicamente falando, muita coisa se vai modificando, e sem faltar à verdade, ou mesmo em obediência à verdade, os setores da produção e distribuição vão-se adaptando às novas regras de convivência, exigindo para uma maior produção um maior consumo, o que está certo e facilita, assim, as exigências do mundo capitalista.

Se a instauração do socialismo dependesse só da propaganda dos seus partidários e da educação que os povos recebem, seria difícil ou mesmo impossível, como o afirmam os bafejados dos privilégios capitalistas e os ignorantes das leis do progresso e da Sociologia. Mas o certo é que todo o progresso se processa no sentido da universalidade e a civilização vigente e os seus sistemas, codificados por hábitos e princípios de remotas eras, não se coadunam nem se harmonizam com as condições de igualdade e humana convivência que as novas técnicas de produção e distribuição exigem! O desenvolvimento da Burguesia acordou no homem dois sentimentos contraditórios: acirrou o egoísmo nos setores humanos, em cujas mãos dependia o rumo das coisas e exigiu e forjou condições sociopolíticas que não poderão dispensar regras de convivência e trabalho onde o espírito de grupo e a solidariedade coletiva foram vencendo a animalidade humana, expressa e patente nesse egoísmo! Desde agora tudo se processo num convívio mais largo e a ideia de camarada reconforta o homem e fá-lo pensar que tudo o aconselha à vida coletiva: é quando em si desperta para jamais fenecer a ideia socialista!

V. MEIOS E FINS DO ANARQUISMO

Talvez se possa evocar aspectos da vida comum para explicar desmandos ou erros particulares. Falar de ideias, de propósitos ou sistemas em perspectiva de qualquer agrupamento, não é tarefa fácil e sempre contingente senão a erros pelo menos a propósitos mal intencionados ou interesses particulares ou de grupo. Costuma dizer-se, em linguagem comezinha, “quem há de dizer bem da noiva senão o noivo?”. Isto está certo e define uma situação ou estado psicológico comum a muita ou toda a gente. Receamos que nos acusem doutro tanto e, tanto quanto humanamente nos for possível, desejamos estar advertidos dessa falha. É certo que também se sabe que o que cada um sente, pensa e sinceramente é capaz de realizar aflui aos nossos ditos, vem expresso nas nossas palavras e não é fácil esconder ao observador astuto, ao estudioso das coisas e da vida devidamente atento. No domínio das ideias há muita incoerência; há os que sentem uma coisa e por interesse ou ignorância dizem outra; há os que dizem e não sentem e muitos que sentem e por modéstia ou dificuldades de meios de comunicação não podem ou o não sabem dizer.

Tudo isto nos é sugerido pelo que cada um diz e faz, referindo-se a si ou aos seus, mas agindo de modo diferente quando dos outros se trata. Deste vício ou defeito derivam fortes deslizes morais, ou converte-se em motivo de intolerância e sectarismos. Naturalmente que não nascemos assim e os biólogos quando voltados para a psicologia e pedagogia concluem que, embora hajam certas deformações de cunho psicológico que se transmitem, a verdade, dizem-nos, é que o homem quando nasce é um ser amoral e são as circunstâncias que o rodeiam, clima social e educação que recebe, as fontes da sua formação.

A educação burguesa e autoritária radica os seus conceitos e a sua moral na crença de que o homem é, por natureza, mau e justifica o seus sistema repressivo e toda a sua máquina forjativa da mentalidade humana, na crença de que a educação ou respeito à lei pelo medo à polícia ou ao castigo é mais eficiente, e daí todo o seu sistema! Cientificamente isto é falso e, mesmo que houvesse nisto uma centelha de verdade positivamente científica, a verdade é que até as feras se domesticam e, pela educação, realizam-se “milagres” no sentido psicológico e social. Mais: todos os princípios religiosos e políticos de educação sabem o que valem s princípios de educação no sentido formativo das pessoas ou multidões e “Cristo dizia que deixassem ir a si os pequeninos”, da mesma maneira que modernamente os sistemas totalitários se apoderam de todos os meios de educação, das escolas, centros de ensaio das quais fazem centros de deformação humana! Na Alemanha nazista como na Rússia, sob o jugo de Stalin, se cultivou o medo e o ódio em que pais e filhos se denunciavam reciprocamente e os mais baixos sentimentos se propalavam e mantinham normativamente em todo o sistema de relações sociais. Pertence à história a apreciação deste fato ; para nós, sirva-nos apenas para dizer que da escola e educação que se recebe, depende a nossa formação, os nossos sentimentos, a nossa conduta. Uma sociedade diferente da atual exige que sejamos diferentes no porte e sentimentos, promanando de uma conduta livre e humana a desejada sociedade que a todos garanta a liberdade, o respeito e usufruto de uma justa equidade, que a todos beneficie e sirva!

É desse pressuposto que partem os anarquistas e a sua conduta está rigorosamente ajustada a este objetivo. A igualdade propagam-na sem sofismas nem reservas, como a liberdade a advogam sem adjetivos nem subterfúgios. O anarquismo é uma doutrina que exige de quem a propaga espírito de sacrifício e abnegada disposição na prática do bem e repulsa, até à violência, do que é nefasto e impeditivo da livre evolução do indivíduo e da sociedade. Felizmente que há muitíssima gente, que com desconhecimento do anarquismo, também assim procedem e reside neste fato a força e poder persuasiva do anarquismo, doutrina que em consciência ninguém de boa formação rejeita ou repudia!

O anarquismo confia e pratica a persuasão, como fito de um conceito educativo e base estruturalista de uma possível mentalização, que permita e determine a integral vivência em completa liberdade. As comunidades ou organismos em que intervenha ou organize terão sempre uma base federalista ou libertária, que o mesmo é dizer: todo o nosso sistema de relações se insere numa ambiência livre e espontânea, onde todas as práticas vivenciais sejam fiel expressão da mais completa liberdade do viver social.

A educação pelo exemplo, sempre o anarquismo considerou como realização prática dos seus objetivos, fazendo uso de uma moral consequente, segue à risca os princípios que condicionam o viver do indivíduo e a própria sociedade!

Na arena das lutas sociais duas correntes se debatem que, parecendo convergir, na realidade estão profundamente distanciadas: a marxista e a anarquista. O marxismo advoga um socialismo de Estado (que os próprios marxistas classificam de científico) e o anarquismo, defendendo um socialismo libertário (que os mesmos marxistas apodam de inviável e utópico). Todavia, dentro das realidades sociais e dos fatos da história, são precisamente os marxistas, prometendo uma coisa, realizando outra, que não passam de utópicos, pretenderem realizar o socialismo por modos autoritários ou centralistas, quando só a liberdade e federativamente estruturada a sociedade pode ir ao socialismo, realidade que a experiência confirma. Sabe-se que antes do “Manifesto Comunista” de K. Marx e F. Engels, publicado em 1848, já o haviam definido e divulgado Fourier, R. Owen, Sant-Simon, Proudhon e tantos outros. Qualquer destes pensadores advogaram um socialismo que pouco a pouco os distanciavam, primando pela ausência da propriedade privada e mais ou menos excluindo a sobrevivência do Estado. Com Marx, que se inicia nas ideias socialistas dizendo-se discípulo de Proudhon, o socialismo é agora uma ideia que se dispersa e mesmo dentro do marxismo irá sofrer cisões, que com o decorrer do tempo e das lutas sociais se tornaram irreconciliáveis.

O anarquismo não é um movimento que se isole e é na associação, sindicatos e cooperativas, extratos sociais onde a ideia da libertação mais facilmente ecoa, onde mais exerce sua atividade e maior número de adeptos recruta. Em regimes ou clima onde a liberdade de associação e de pensamento não se viva, as ideias de liberdade se eclipsam, a tomada do poder se desenvolve e arreiga na maioria dos espíritos, os partidos políticos proliferam… A política desagrega e regra geral motiva conflitos; a associação aglutina e torna solidários seus associados, solidariedade que se espalha e cativa o ambiente social, tornando-o acessível a outros setores, cataliza os elementos fundamentais da Revolução.

Os anarquistas, não possuindo propriamente um programa imediatamente à revolução, têm, no entanto, pressuposto o que a experiência aconselha e as ciências humanas nos ensinam. Não confundindo Estado com sociedade, os anarquistas visam imediatamente a destruição do Estado mas preservam todos os elos de relação social, ao mesmo tempo que fortalecem e desenvolvem todos os organismos de produção e consumo, imprimindo-lhes uma dinâmica e uma ambiência autenticamente libertária. Ninguém duvida da viabilidade de um sindicato, uma comuna, uma cooperativa, qualquer comunidade artística ou de recreio se poder administrar ou reger por princípios libertários, e quando nos estatutos de tais comunidades se estabelece para todos iguais deveres e direitos e o seu poder deliberativo esteja radicado na soberania das assembleias, quer simplesmente dizer que o mesmo sentido se pode e deve imprimir, qualquer que seja a importância ou grandeza de qualquer coletividade. A própria autoridade tem um sentido de grandeza que se pode reduzir ou aumentar, indo da mais feroz autocracia à democracia mais liberalizante e progressiva.

O que no conceito dos anarquistas importa destruir é o sentido centralista ou autoritário das atividades e relações humanas, conferindo ao indivíduo e implicitamente à sociedade, um sentido de independência e liberdade que os conduza à Anarquia!

Para além da formulação de estruturas socioeconômicas há todo um processo de relações humanas que destruirá os malefícios de uma moral burguesa que nos embota e bestializa, obstando a prática de um convívio que nos felicite, para que a sociedade sem classes nem injustiças se construa e consolide. Nada oferecemos porque nada temos para dar, sem que isso nos impossibilite de que para cada mal descubramos uma causa, e conhecedores da causa do mal lhe saibamos dar cura e esta sempre atinente e eficaz, indo ao fundo cavernoso do atual sistema em que vivemos. Cremos não descuidar a solução pronta dos problemas do indivíduo e da sociedade mas sempre em moldes suficientes e progressistas, de forma que o indivíduo e a Sociedade marchem e evoluam num sentido e efetiva promoção social. Ser revolucionário é estar impregnado de uma vontade indestrutível de transformar o homem e a sociedade num humano sentido e de tanto quanto prática e humanamente possível transformar os seus ditos e feitos em autênticos dardos que visem a destruição do mundo capitalista. Ser revolucionário é adotar métodos de luta consequentes e operantes onde a dúvida do acerto não subsista nem a perda de tempo desencoraje ou anule o fervor revolucionário que em rebelião as massas vivem!

Revolucionário é o que, não só consciente dos seus direitos e deveres, propugna e atua diretamente contra todos os obstáculos da revolução, mas também o que mentaliza e educa o homem e a sociedade no sentido de uma completa desalienação de ambos. Revolucionário é não aceitar preconceitos ou velharias, passar por cima da tradição e ter sempre presente que tudo que naturalmente a vida nos exija e imponha isso sim, se acatará sempre, e tudo mais que fantasia seja nos deve fazer rir e aconselhar que se despreze.

A mentira política ou religiosa não a aceitamos e também não acreditamos em reformas por processos governamentais nem o parlamentarismo nos merece crédito.

Os sistema de voto ou sufrágio universal, também o temos como uma bambochata e não o aceitamos como método de luta social pela farsa que representa onde quer que se pratique, mesmo em moldes de certa legalidade. Fale por nós a história ou veja-se o que vem passando nos países onde o sistema ainda tem visos de certa legalidade, como é o caso da Inglaterra, França, Bélgica, Suíça e tantos outros, onde os trabalhadores não prescindem da luta direta na defesa das reivindicações. Onde lhes falte a unidade e a força nada conquistam, veja-se o que se passou imediatamente à guerra de 39 por França (onde o governo em maioria e nas principais pastas esteve nas mãos dos comunistas) e mais recentemente na Inglaterra. De resto cento e tal anos de experiências reformistas e colaboracionistas à base de partidos e modos centralistas foram práticas que a classe trabalhadora renunciou e o último quartel do século passado e o primeiro deste foram prova viva da fecundidade da ação direta e revolucionária das classes trabalhadoras, contrastando com os últimos cinquenta anos onde tudo se baralhou e perdeu no sentido inequívoco da Revolução!

A Revolução Russa foi perdida, triunfou ali o bolchevismo, instaurando a ditadura mais bárbara da história e se em teoria Lenin e depois Stalin diziam e os seus satélites aos quatro ventos propagavam que a ditadura era uma situação de emergência e que extinta a burguesia e todos os inimigos da revolução, esta se extinguiria e até o próprio Estado desapareceria e cairíamos na Anarquia, segundo Lenin nos revela no “Estado e Revolução”. Não foi surpresa para os anarquistas e se Trotsky, chefe e organizador do Exército Vermelho, eliminou às centenas milhares de revolucionários particularmente na Ucrânia e Kronstadt, fê-lo ainda em nome dessa revolução que o havia depois de o mandar matar como a tantos outros trotskistas na Rússia ou na revolução espanhola. E agora perguntemos: Como explicar que Stalin tenha eliminado para cima de trinta milhões de “burgueses” ou inimigos e a quase 60 anos de ditadura bolchevista a Rússia seja um país dos que mais longe está das ideias e práticas do socialismo? O socialismo é irmão gêmeo da liberdade e onde um falte não pode estar a outra!

Além disso para se justificar uma ditadura tão bárbara e duradoura ficaria provado a inoperância de tal sistema para combater a burguesia ou à reação para quem dizem ser instaurada a ditadura. Tal sistema, à base de uma crítica racional e visto como modo onde o homem e os povos se debruçassem na pista de exemplos válidos para uma autêntica revolução social, não pode haver dúvidas que seria perder tempo ou só o ganharia na experiência negativa que os seus exemplos nos podem dar.

É certo que há muita coisa que na Rússia se poderá ver com agrado: o seu folclore, os seus músicos, os seus atletas, os seus Sputniks e, para quem goste, as suas grandes paradas militares… Para o revolucionário, para quem tudo é capaz de sacrificar para o triunfo da REVOLUÇÃO, são aspectos que não contam exatamente porque são expressões da vida que pouco nos dizem da liberdade de um Povo que há 56 anos fez a sua revolução e que uma forte repreensão das forças reacionárias a fizeram perder.

Por mais que olhemos o mundo por parte alguma descobrimos que a revolução tenha triunfado e do fato há quem suponha e acredite que esta jamais triunfará. Nada disso! O que a revolução tem é muitos inimigos se a massa de indiferentes é um mal que retarda a revolução, o que mais a afeta são os enamorados do “Mando” que a revolução atrofiam, arregimentando prosélitos que alienam e com as fobias e aversões à liberdade os embriagam.

Nos países ditos socialistas as eleições não são precisas e a liberdade um prejuízo burguês, claro que outrotanto não acontece onde não são governo e todo o método burguês lhes serve e colaboram e vão às urnas. Naturalmente que além de incoerência é uma forma de desviar da via revolucionária a classe trabalhadora e atrasar a revolução!

O anarquismo militante não aceita o voto nem colabora em farsas eleitorais e se promulgamos a organização dos trabalhadores em organismo de classe, também nos desejamos inserir na vida da sociedade onde exemplifiquemos a prática de um convívio tolerante e sociável e, tanto quanto possível fazer aflorar no ânimo dos nossos convivas o verdadeiro sentido da liberdade.

A autoridade, a violência, o dogmatismo e a intolerância são defeitos que combatemos e provém deste combate todo um peso incompreensível e maldoso dos nossos adversários, que explorando a ignorância do povo ou nos marginam ou falam de nós depreciativamente. O anarquista é um combatente leal e frontalmente enfrenta os seus adversários, procurando convencê-los se possível, mas aceita e compreende com tolerância quantos não possam ou não saibam compreendê-lo. A nossa noção de liberdade não é fictícia nem dogmática e para o anarquista não há hipótese para delitos de opinião, todo e qualquer indivíduo tem direito a ter as opiniões que quiser, cuja condição única é a de reconhecer aos outros o direito de outras opiniões ter. As religiões não as cremos precisas para o curso da vida normal de um povo ou de todos os povos e têm até aspectos que afetam extraordinariamente a marcha do progresso social ou a libertação humana, no sentido integral dessa libertação. O indivíduo que crê vê limitadas as suas faculdades de independência e se houve um Tolstoi que foi crente e genial, a sociedade não é feita de gênios e a crença é uma subordinação em potência onde a faculdade de ser livre e independente se perde. Acreditar num Deus é não compreender o Universo nem as leis cosmogônicas que o Universo regem! Quando Copérnico concebeu o seu sistema heliocêntrico feriu de morte todo um sistema geocêntrico na qual radicavam as principais crenças religiosas. As ciências, em todos os campos, mas em especial as ciências humanas, alargaram o conhecimento humano e afastaram positivamente das velhas concepções do mundo e do Universo o pensamento do homem, levando-o a novas concepções que se irão refletindo em novos conceitos de liberdade e de independência, fazendo com que as velharias milenárias que pesavam na mente humana se pulverizem e novos rasgos das totais realidades do homem e do Universo nos bafejem.

As religiões vivem e apoiam-se no dogma, todas se confundem numa intolerância que o ambiente social viciam e corrompem e só o ódio prolifera onde as religiões intensamente vivem. Do dogma religioso provém o dogma político e o sectarismo, que tantos danos motivam no sentido das relações humanas. São aspectos que o anarquismo militante não aceita, são fatores de desagregação humana que o progresso e a revolução combatem, exatamente porque a solidariedade e o espírito de cooperação são módulos de uma vivência que o dogmatismo e a intolerância destrói!

Sempre foi norma das religiões a dogmas outros dogmas apôr e se a intolerância política na intolerância religiosa se inspirou, ambas são expressões de vida falsa e negativa e ambas têm de ser combatidas.

Da autoridade divina promana a autoridade do Estado e ambas são a negação da vida natural e tronco da árvore genealógica do mal sociall

A propriedade privada, o Estado e a religião, sempre foram tripé onde a exploração, a opressão e a ignorância tiveram assento, não permitindo a natural evolução do indivíduo e da sociedade, determinam que a luta revolucionária as vá corroendo até à explosão inevitável da revolução. O combate à propriedade privada celebrizou um dos maiores pensadores de todos os tempos – Proudhon – e o que a si mesmo pela primeira vez se determinou anarquista. Foi o mais ousado dos economistas de sempre, e classificando a propriedade privada de roubo, demonstrou com larga argumentação “que, na ordem da justiça, o trabalho destrói a propriedade”. Como reforço da sua tese Proudhon diz-se ainda “que o homem isolado não pode suprir senão uma pequena parte das suas necessidades; toda a sua potência está na sociedade e na combinação inteligente do esforço universal”. No desenvolvimento da sua tese dá-nos a noção objetiva do impossível isolamento do homem. Em sociedade o homem complica suas relações e perde o direito de chamar seu o que é de todos, circunstância que nos obriga a uma dependência comunitária que nos será favorável se à mesma presidir um critério de justiça e equidade social.

Se em qualquer tempo ou lugar o isolamento foi impossível, com o desenvolvimento das ciências tecnológicas e mais compreensivelmente com a revolução industrial as sociedades mudam de face e a propriedade privada passa a ser um embaraço não só ao progresso como impossível no contexto das sociedades, onde se introduz o uso de novas técnicas de produção que a revolução industrial nos traz. As contradições do sistema capitalista perturbam todo o equilíbrio econômico dos povos e só o recurso à guerra o Capitalismo aceita como acidente inevitável do seu sistema. Os economistas são máquinas que só veem números e só o rendimento é fator válido nos seus cálculos e planeamentos, que vão sempre bater nas situações de crise que a novas guerras conduzem.

Aí pelos anos 1840 Proudhon no seu célebre livro “O Que E a Propriedade” procurou minar as bases do sistema capitalista e produziu a célebre frase que ecoaria como uma bomba que jamais outra teria feito, “A Propriedade Privada E um Roubo”. Cremos que na história das lutas políticas e socioeconômicas outra não foi mais célebre e na interpretação desta frase está definido todo um sentido de luta e abarca um conceito de justiça e igualdade, que a cento e vinte anos ainda é atual, porque o mundo não mudou como o desejaria Proudhon. Nas dez sentenças que Proudhon exterioriza parece-nos ter demonstrado a impossibilidade da propriedade. Vejamos:

1- A propriedade é impossível porque do nada exige alguma coisa.

2- A propriedade é impossível porque onde quer que seja admitida a produção custa mais do que ela vale.

3- A propriedade é impossível porque sobre um capital dado, a produção é em razão do trabalho, não em razão da propriedade.

4- A propriedade é impossível porque é homicida.

5- A propriedade é impossível porque com ela a sociedade devora- se a si própria.

6- A propriedade é impossível porque é mãe da tirania.

7- A propriedade é impossível, porque consumindo o que recebe perde-o, poupando-o anula-o, capitalizando volta-o contra a produção.

8- A propriedade é impossível, porque o seu poder de acumulação é infinito porque só se exerce sobre qualidades finitas.

9- A propriedade é impossível porque é impotente contra a propriedade.

10- A propriedade é impossível porque é a negação da igualdade.

Estes dez axiomas, numa interpretação justa, formam um tratado de filosofia socioeconômica e foi efetivamente de larga e indestrutível influência das ideias socialistas, não excluindo a marxista que fez de Marx discípulo de Proudhon na sua juventude, mas que a sua mentalidade e formação autoritária depressa o faria obcecado adversário de Proudhon e que fora a sua famosa obra “O Que É a Propriedade” que o trouxera ao socialismo, o que está historicamente provado e o “Manifesto Comunista” que em 48 escreveu de colaboração com Engels prova-o ao observador menos atento, lendo o “Manifesto” com atenção (além de TCHERKESOFF que já o dissera ser, confirmado por Labriola, marxista italiano, um trabalho plagiado) verifica-se que nada tem de original, nem a importância que lhe atribuem os marxistas de hoje. De resto se atentarmos nos 10 pontos fundamentais do “Manifesto” onde Marx e Engels exprimem toda a ação revolucionária e objetiva, coincidência curiosa com os 10 pontos com que Proudhon define a impossibilidade da propriedade privada! As 10 sentenças nada nos parecem revolucionárias e todavia menos se as compararmos com toda uma temática revolucionária que se produziu em toda a última metade do século passado.

1- Expropriação da propriedade territorial e emprego da renda da terra para os gastos do Estado.

2- Forte imposto progressivo.

3- Abolição do direito de herança.

4- Confiscação da propriedade dos emigrados e sediciosos.

5- Centralização do crédito nas mãos do Estado por intermédio de um Banco Nacional com capital do Estado e monopólio exclusivo.

6- Centralização em mãos do Estado de todos os meios de transporte.

7- Multiplicação das empresas fabris pertencentes ao Estado e dos instrumentos de produção, roturação dos terrenos incultos e melhoramento das terras, segundo um plano geral.

8- Obrigação de trabalhar para todos [?]; organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura.

9- Combinação da agricultura e da indústria; medidas encaminhadas a fazer desaparecer gradualmente a oposição entre a cidade e o campo.

10- Educação pública e gratuita de todas as crianças; abolição do trabalho destas nas fábricas tal como se pratica hoje; regime de educação combinado com a produção material etc., etc. (“Manifesto Comunista” 1- edição de 1848)

Qualquer estudioso atento ou um simples aprendiz de problemas ou questões sociais verifica a diferença entre os 10 axiomas ou sentenças de um Proudhon e as 10 sentenças de Marx e Engels no tão apregoado “Manifesto Comunista” que ainda hoje é catecismo comunista. Nada tem de original e muito menos de revolucionário, mesmo remontado ao tempo em que o produziram enquanto que o que Proudhon setenciou tem e terá sempre atualidade. O que nos diz Proudhon resiste no tempo e no espaço e ainda não foram excedidas nas já muitas revoluções ou em qualquer dos “comunismos” que conhecemos e ainda tem atualidade o que dele disse Warlaam Tcherkesoff na apreciação que dele faz e considerando-o mesmo assim um plagiato, reconhecido também por Kautsky, embora corifeu destacado do “socialismo científico”.

Qualquer observador atento ou um simples aprendiz de sociologia verifica a diferença de conteúdo e como a doutrina de um Proudhon resistiu no tempo e no espaço e ainda hoje não foram excedidas e muito menos ultrapassadas. Compare-se os seus fundamentos com as sentenças do “catecismo” marxista e ver-se-á a diferença. O que postula o “Manifesto Comunista” além de nada original, é no fundo antirrevolucionário e só o fanatismo doentio da obtusa mentalidade política lhe permitiu tanta audiência. Warlaam Tcherkesff, na sua célebre apreciação que faz do marxismo, no seu livro “O Marxismo antes de Marx”, diz que pasma como um trabalho que diz ser cópia de outro de V. Considerant (referindo-se ao “Manifesto”) tenha feito tanto ruído quando nada tem de profundamente crítico e construtivo. Os 10 pontos que Engels e Marx recomendam ao povo não passam de uma simples programação política, inviáveis sem o poder nas mãos e simples rudimentos sem consequências reformadoras em qualquer sistema mesmo reacionário ou conservador. A exatidão deste raciocínio prova-o a série de alterações que em vida dos autores foi sofrendo nas sucessivas edições que foi tendo, nada mais que sete, além de notas e alterações que foi sofrendo. A não grande importância e vulnerabilidade do “Manifesto” está aí bem patente e não é necessária grande cultura sociológica nem profundos conhecimentos da temática revolucionária para que nos apercebamos, que é preciso muito boa vontade ou ignorar toda a literatura revolucionária, que milhares de pensadores antes e depois de Marx nos legaram, páginas revolucionárias que sobre elas passarão muitas dezenas de anos e serão sempre valiosas e revolucionariamente construtivas!

A própria definição que nos dá da propriedade privada já não foi no tempo original, outros já o teriam feito e as soluções que sugere não chegam a ser soluções. Vejamos: “A revolução francesa, por exemplo, aboliu a propriedade rural em proveito da propriedade burguesa. O rasgo definitivo do comunismo não é a abolição da propriedade privada geral, senão a abolição da propriedade burguesa, é a última e mais acabada expressão do modo de produção e de apropriação do que se produz à base dos antagonismos de classe, na exploração de uns pelos outros”. Na edição inglesa de 1888 já vem “a explicação da maioria pela minoria”.

Tudo isto está certo e certo está ter-se enganado Engels e Marx na sua conclusão de que “a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é a última e mais acabada expressão dos antagonismos de classe, na exploração de uns pelos outros”. Milovan Djilas prova-o no seu livro “A Nova Classe”, de uma forma insuspeita, porque também é marxista, e com fatos que são dos últimos tempos e que nós conhecemos. O importante a considerar é que a propriedade coletiva ou estatal não deixa de ser privada e a experiência dos sistemas comunistas prova-o de maneira eloquente.

Até nos países capitalistas se têm nacionalizado empresas e bancos e nem por isso a situação dos trabalhadores se modificou, como aconteceu nos países ditos socialistas, de maneira bem frizante. Estes fatos não surpreendem ninguém e muito menos os anarquistas. O importante é assinalar o fato e instruir que socialização sem liberdade não é nada nem é possível liberdade sem socialização. A transformação social que se impõe está na base de uma transformação séria da sociedade e está radicada insofismavelmente na defesa do indivíduo, que, célula livre, determiná que a sociedade livre seja, de baixo para cima.

Se a liberdade é a saúde do corpo social, no indivíduo é a faculdade de estar atento e agir em obediência à satisfação total das suas necessidades e valorização da sua personalidade. Deste pressuposto partem os anarquistas e o livre acesso ao uso da propriedade só a revolução pode assegurar quando feira no sentido comunitário e destruição completa de todo o poder coletivo ou estatal.

Não é puxar a brasa à sardinha, dizendo que só o anarquismo combate efetivamente a propriedade privada, sabendo-se que a nacionalização ou estatização da propriedade não deixa de ser privada por esse fato e a socialização é coisa bem distinta, e só pode haver socialização quando todos os organismos de relação, produção e distribuição sejam livremente dirigidos em base federalista ou libertária e em clima de cooperação integral. No uso da liberdade o indivíduo não será privado do uso da propriedade necessária e o socialismo é o modo pelo qual todos poderão considerar-se com o direito do uso ou posse do que lhe é necessário, indispensável. Poderá parecer paradoxo, mas a destruição da propriedade privada que o anarquismo advoga é precisamente a antevisão da possibilidade e garantia de toda a gente ser dono de tudo e ninguém possuir o privilégio de ser senhor do que a todos pertença.

O anarquismo é contra a propriedade privada na medida em que não só é um privilégio de poucos em detrimento da grande maioria, ao mesmo tempo que causa de toda a desigualdade e injustiças sociais. A propriedade é um mal ou praga social, nas mãos dos que parasitariamente vivem, explorando os que trabalham e produzem, no sentido do enriquecimento dos possuidores e manutenção de um mundo parasitário e tirânico.

A propriedade privada não é aceitável por prejudicar o livre desenvolvimento da riqueza social e ser o entorce ao direito e liberdade do cidadão.

Os anarquistas querem que tudo seja de todos não só por regras e exigência da vida segundo a natureza, mas porque representa a maior degradação humana.

O anarquismo não podem nem deve suportar ou consentir a propriedade privada porque é a causa de uma infinidade de males sociais e impede o progresso social no sentido não só de uma solidária convivência universal, como acirra sentimentos de ódio e predispõe e arma os homens e as sociedades para a guerra.

Os anarquistas não admitem a propriedade privada como não aceitam que a água, o ar, o sol, os jardins, as praias e tudo mais que a natureza ao homem e a todos os seres que na Terra vivem legou, por antinatural e forte injustiça social.

A revolução francesa extinguiu a propriedade feudal e criou a propriedade burguesa ao mesmo tempo que permitiu que o trabalhador usasse da “liberdade” de morrer de fome, escolhendo o patrão que o explorasse e o político que o oprimisse.

A revolução russa extinguiu a propriedade burguesa e criou a propriedade do Estado, mas fez do operário uma máquina e criou uma nova classe de burocratas e opressores quantas vezes mais tiranos e social e humanamente mais nocivos que os burgueses e os feudais!

Os anarquistas aceitam como necessária e inevitável a revolução social e visão a extinção da propriedade e do Estado, porque só a liberdade e o acesso à Natureza e patrimônio social é condição que satisfaz e garante que o homem e a sociedade se identifiquem consigo mesmos, e traga ao mundo a paz e a alegria de viver que desde que o mundo é mundo o homem luta e aspira por encontrar!

VI. OS ELEMENTOS DE PRODUÇÃO NA TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Contrariamente ao que vulgarmente se propala e se acredita, a transformação social que se impõe não via surgir imediatamente do atual desmantelamento imperialista e formação em série de novos Estados ou Nações. Pelo contrário, o que de fato resulta é um revigorar de velhas fórmulas do capitalismo e as refinadas manhas dos aventureiros da tomada do Poder. Não é por acreditar no “fatalismo histórico” ou na hipotética “escada formativa” da evolução dos povos no sentido da sua promoção ou emancipação, como acontece a algumas escolas do pensamento, incluindo a marxistas, não acreditamos no ingresso imediato dos descolonizados numa fase progressiva e consciente no caminho imediato da revolução, mas sim devido à mentalidade messiânica e reversiva que nessa pobre gente se criou!

Como sempre, a uma crença outra crença se sucede e assim, desde o Império Romano e da Igreja Católica, o fanatismo político e religioso é o “contra jogo” do anticolonialismo dos novos messias dos povos em desgraça e explorados e oprimidos pelos colonialistas de sempre! Já com a revolução industrial do século XVIII o problema assim se apresentou, e a consolidação da burguesia ou a “nova política da Europa” nos arrastou para uma balbúrdia e confusão que tudo e todos perturbam, a tal ponto que levou os povos do Oriente, afastados das realidades europeias de então, a classificarem o que se passava por “Era da Confusão”!

De qualquer maneira, o que se passou na formação e consolidação dos grandes impérios repete-se na sua destruição e desmoronamento e as grandes Potências, agora conscientes do seu poderio a desfazer-se, lançam-se em competição na conquista do mundo e não se limitam ao poder dos canhões, já não tão eficientes, para recorrerem às velhas táticas de “dividir para reinar” e de arranjar vassalos, que entre os seus, serão senhores que em nada modificarão a sorte das multidões famintas e desprezadas… É certo que, na aparência, têm os povos subdesenvolvidos apoio de muitos lados, e até a Igreja para reconsiderar que não só os nobres e os ricos têm alma e agora já o reconhecem nos pretos… no entanto, uma coisa é o que se promete a troco de obediências de toda a ordem, outra, a de ajudar ou mentalizar o homem e a sociedade no caminho certo e seguro da sua promoção!

Com o desenvolvimento social surge uma burguesia avara e enfurecida e, embora impregnada da herança das monarquias absolutas, necessita desalojar a Realeza e o Clero, com o despertar imediato da liberdade social; e apenas um mundo de promessas às camadas populares se observa; daqui a ideia da criação dos parlamentos e repúblicas promissoras, que embora promovam certo desenvolvimento em certo sentido do viver dos povos, não impede o refinamento dos privilégios da burguesia e o recrudecimento da exploração e opressão das camadas trabalhadoras. Aqui cabe talvez dizer que a causas semelhantes idênticos efeitos correspondem, e revolucionariamente não é exagero afirmar que nada se lucrou com a queda das monarquias absolutas para se cair em república autocráticas, como não constitui alívio positivo o fato do indivíduo dispor da liberdade de se deixar explorar, ou de poder escolher quem por desgraça imperativa do viver social lhe ponha as algemas! A história repete-se e para que estes fatos estivessem bem patentes na mentalidade e sensibilidade dos homens, era preciso que o homem aumentasse algumas vezes a sua longevidade e multiplicasse a sua capacidade de apreensão. Infelizmente isso ainda não foi possível, o que não quer dizer que com o auxílio da Ciência e da Técnica o homem não consiga transpor os limites da sua compreensão e sensibilidade presentes, atingir no espaço e no tempo antevisões que advirtam, defendam, o indivíduo e a sociedade, não só dos cataclismos sociais de toda a espécie, mas até da desigualdade e injustiça socioeconômica que os atormenta e infelicita!

Sem nos desejarmos perder nos labirínticos meandros da história (onde dois séculos de controvérsias entre historiadores profissionais e outras celebridades doutros ramos da Ciência não chegaram para dar uma definição da vida do homem, nas suas múltiplas exigências pessoais e sociais, que lhe sirva), entendemos que desde que o mundo é mundo sempre o homem lutou por melhores condições de vida e talvez mesmo, sem grande contradição, se possa dizer que desde os grandes Impérios, tronos poderosos, monarquias e repúblicas, tudo o homem construiu e destruiu, na miragem única de ser feliz. Facilmente se compreende e as ciências mais diretamente relacionadas com a vida do homem o atestam que, milhentos tenteios no sentido comunitário, e a própria luta pela sobrevivência constitui por si só ao longo dos séculos a mais emocionante aventura humana. Quem pense sociologicamente não se pode subtrair a um olhar retrospectivo, e fazer raciocínios comparativos de como se supõe que tenham sido encontradas as primeiras soluções da vida em sociedade, relacionadas as primeiras soluções da vida em sociedade, como a horda , o clã , a tribo ou a comunal Deste modo, não é possível concluir que alguma vez no tempo ou no espaço o viver do homem fosse possível, sem o espírito de entreajuda, de solidariedade recíproca, e de cooperação. Encontrar sociologicamente o caminho, em nossos dias, ajustado com todas as realidades sociais, eis no que consiste o problema social e é nisso que se deverão empenhar quantos humana e socialmente pensem e sintam que o homem e a sociedade podem e devem melhorar!

O dito antigo – “primeiro manjar e depois filosofar” deve estar certo, e desta certeza e realidade promana uma outra obrigação não menos certa e é todavia mais premente: não é possível consumir sem produzir. E de novo insistimos que, sem necessitar recorrer à história ou ensinamentos da Ciência, o quadro vivencial que nos cerca e as necessidades que sentimos nos falam a linguagem indismentível do que importa fazer e de que maneira fazer a revolução.

Não temos a pretensão nem é possível dizer algo de novo, quando tantas utopias, tão profundos pensadores e a própria experiência das revoluções passadas, tão eloquentes são em ensinamentos de toda a ordem. No entanto, pedimos vénia para tomar lugar ao lado de tantos que não desistem de marcar presença na eterna e constante batalha por um mundo melhor. A produção tem os seus técnicos, desde a simples máquina a vapor aos mais complicados computadores, tudo se processa de modo a dar-nos a possibilidade de um domínio absoluto na satisfação das nossas necessidades. Decorrem já centenas de anos de uma economia em que o homem não podia deixar de ser escravo e alimentar-se de frutos, engenhar-se e fazer corridas forçadas na pesca ou caça de animais para seu sustento, utilizar as quedas de água, as correntes marítimas e os ventos, perfurar a terra e romper as rochas na busca do carvão, do ferro ou do petróleo! Também o uso da força motriz o preocupa e depressa se aventura na segunda revolução industrial, e, de progresso em progresso, está cada vez mais longe das causas da sua escravatura e a utilização da energia elétrica dá-lhe um maior domínio das forças da natureza e permite-lhe o uso da telegrafia, da telefonia e da radiotelevisão, que além de poderosos e eficientes meios de comunicação serão ainda elementos de valia incalculável na disseminação da cultura e recreio e em tudo tornar a vida melhor e mais fácil. Mas o homem não para aqui, nem poderá parar, e a chamada terceira revolução industrial dá-lhe a possibilidade de desintegração do átomo indo assim cada vez mais ao encontro das suas excepcionais realizações!

Desde agora o homem pode arrumar no museu das suas velharias, todo o antigo equipamento da sua produção e ele mesmo com a automatização e criação do cérebro eletrônico, torna-se mais um autêntico folgazão que animal atormentado pelo esforço do trabalho e angústia da misérial

O cérebro eletrônico permitiu-lhe aumentar milhares de vezes as suas lucubrações, que além de um aumento imprevisível da sua produtividade lhe deu foros de permanente acerto e infalíveis resultados. Os grandes obstáculos da revolução estão vencidos, e a Ciência, com os seus recursos inesgotáveis, poderá criar fábricas quase sem operários, a pôr navios e aviões em movimento com pessoal reduzido ao máximo, indicando a Sociologia como poderão ser resolvidos todos os problemas sociais em plena paz e universal comunidade!

Todavia lavra no mundo uma confusão que a todos inquieta e, embora todos reconheçam que a sociedade precisa transformar-se, a mentalidade que tal transformação assegure ainda não está criada nem aceite em número e sentido conveniente à ideia dessa transformação. Há mais de um século que se debate o problema e que se tinha chegado à conclusão que só o socialismo era a solução. No entanto o socialismo ainda não é um fato em parte alguma, malogrado algumas experiências e tenteios de revolução nesse sentido!

Das muitas revoluções, levadas a cabo ao longo dos séculos, as que triunfaram foram de resultados negativos e urge que estejamos advertidos para que as mesmas frustrações não se repitam. Na Rússia e países satélites, na China, em Cuba, em muitos países da África e da Ásia diz-se que se está a fazer socialismo, mas a verdade, infelizmente, é bem outra e as realidades sociais falam mais alto que os panegiristas destes sistemas…

O socialismo terá que assentar suas bases na livre determinação do povo, e esta determinação expressa por órgãos ou pessoas que vivam e sintam os quotidianos problemas desse mesmo povo.

As cooperativas e outros agregados semelhantes serão simultaneamente organismos de produção e de consumo; os sindicatos aglutinarão os trabalhadores, dando-lhes não só noção da sua força organizativa mas consciência das suas obrigações sociais e humanas. As cooperativas, que podem ser de produção e de consumo, serão organismos onde indistintamente reunirão todos os consumidores, e não só os adestrarão nas múltiplas exigências da produção e distribuição como influirão numa mentalidade sociável e solidária. Não estamos a fantasiar uma utopia nem a inventar soluções, pois cento e tal anos de prática associativa bastam para nos dizer o que se poderá fazer no domínio da organização social sindicalista e cooperativa.

Cabe a honra a Robert Owen de ser quem iniciou a prática das primeiras associações cooperativas, com um sentido verdadeiramente emancipador, como como seguidores os pioneiros de Rochdale em 1844, bem assim como todo um movimento associativo que se espalhou por todo o mundo. Hoje existem milhares de sindicatos e cooperativas, não só atestando a sua importância socioeconômica, mas afirmando que as sociedades humanas atingiram um grau de evolução e poder de materialização das suas necessidades materiais e comunitárias, que só a Cooperação se impõe como indiscutível solução.

Naturalmente que se impõe dizer, que há entre o movimento sindicalista e cooperativo diferenças fundamentais, pois os seus contextos socioeconômicos estão dependentes ou informam das ideias dos seus criadores ou dirigentes. No fundo, justo será reconhecê-lo, todos se propõem a um aumento de melhoria socioeconômica dos seus associados, mas nem todos se encaminham no sentido efetivo da transformação social que se impõe, especialmente, objetivando o triunfo da igualdade de direitos e deveres em toda a Sociedade.

Modernamente tornou-se preocupação de quase todos ou de todos os governos permitir ou organização corporações mais ou menos deturpadas, abarcando sindicatos e cooperativas e muitos outros organismos quer de ordem técnica e comercial ou ainda cultural. Depreende-se daqui que a evolução econômica da sociedade assim o impôs, dando deste modo maior relevância a tais movimentos, que embora venham já de civilizações antigas, diz-se, mais se aguçaram com o desenvolvimento das ideias socialistas. O socialismo é já uma determinação dos fatores técnicos e científicos da revolução industrial, enquanto que os mov im entos sindicais e cooperativos foram por sua vez determinações imperativas da defesa econômica dos trabalhadores e organismos antevisionados, e até estruturados pelos pensadores socialistas.

As associações de classe, ainda que preocupadas com as reivindicações econômicas, no fundo estavam subordinadas ao mutualismo ou a servirem de campo de recrutamento aos setores políticos ditos de “esquerda”, e só a partir do congresso de Limoges de 1895 adotaram uma ação dir-se-ia propriamente revolucionária e se libertaram da tutela dos partidos e do Estado.

A Confederação Geral do Trabalho francesa, de fins do século passado e começo deste, orientava-se por uns estatutos ou princípios assim definidos:

Considerando que só com a sua força, o trabalhador não pode esperar reduzir a exploração de que é vítima.

Que, por outro lado, seria ilusório esperar a nossa emancipação dos governantes, dado que estes, supondo-os animados das melhores intenções para conosco, não podem fazer nada em definitivo, visto que a melhoria da nossa sorte está na razão direta da diminuição do poder governamental.

Considerando que, como consequência do modo de ser da indústria moderna e do apoio que logicamente dispensa o poder aos detentores da propriedade e dos instrumentos de trabalho, há um antagonismo permanente entre o Capital e o Trabalho.

Que, como resultado, duas classes bem distintas e irreconciliáveis se encontram frente a frente, de um lado os detentores do capital, do outro os produtores, que são os criadores de todas as riquezas, uma vez que o capital se constitui pela subtração efetuada em detrimento do trabalho.

Por estas razões os proletários devem pôr em prática o axioma da INTERNACIONAL – “A EMANCIPAÇÃO DOS TRABALHADORES NÃO PODERÁ SER OBRA SENÃO DOS MESMOS TRABALHADORES”.

Considerando que, para alcançar este fim, o sindicato é a melhor de todas as formas de agrupação, visto que é uma associação de interesse que coliga os explorados ante o inimigo comum, o capitalista, que por isto mesmo reúne no seu seio todos os produtores, quaisquer que sejam as suas opiniões ou concepções filosóficas, políticas ou religiosas.

Considerando, além disso, que se o sindicato se encerrasse num isolamento lamentável cometeria fatalmente, em proporção, o mesmo erro que o trabalhador isolado, deixando assim de cumprir a solidariedade. E necessário, pois, que todos os produtores se unam primeiro no sindicato, e que uma vez realizado este ato completam a obra sindical, fazendo com que o seu sindicato adira à sua Federação local ou Bolsa do Trabalho.

Só com esta condição, poderão os trabalhadores lutar eficazmente contra os seus opressores até a completa desaparição do salariato e do patronato.

Claro que os organismos integrados na C.G.T. tinham a mesma orientação, tais como sindicatos, bolsas de trabalho, federações de indústria, regionais ou nacionais.

O movimento cooperativo remonta a tempos todavia mais recuados, mas só com a experiência de Rochdale este se definiu como movimento tendente à emancipação econômica das Classes menos abastadas.

As regras e princípios de orientação de Rochdale depressa galvanizaram o mundo, e se nem todas as cooperativas se orientam ainda hoje pelos princípios rochdalianos, isso se deve mais à intervenção impeditiva dos governos, que tudo pretendem controlar, do que ao desejo das massas cooperativistas.

A própria Aliança Cooperativa Internacional em 1937 teria definido os princípios rochdalianos da forma seguinte:

1- Adesão livre;

2- Controle democrático – um homem, um voto;

3- Distribuição pelos associados do excedente, proporcionalmente às suas operações com a sociedade;

4- Lucro circunscrito ao capital;

5- Neutralidade política e religiosa;

6- Vendas a pronto;

7- Desenvolvimento da educação, mantido por uma pequena dedução dos lucros.

O incremento cooperativo, segundo H. Infield (depois de C. Gide, Infield, está considerado como um dos mais eminentes sociólogos da Cooperação), em 1940 uma população agremiada de cerca de 150 milhões espalhados em 50 países civilizados. Segundo o próprio Infield trata-se ainda de uma fase ou etapa, porquanto a partir do fim da última grande guerra o movimento cooperativo desenvolveu-se extraordinariamente nos países do Terceiro Mundo, e no setor agrícola ainda mais e em toda a parte. Isto significa que a Cooperação não é só determinada por princípios ideológicos com vistas a uma transformação da sociedade em sentido socialista, mas que até as múltiplas relações da produção e comércio em regime capitalista ou estatal a aconselham. As pequenas indústrias a precisarem agrupar-se em largas concentrações industriais e estas em trusts ou cartés são bem a prova o acerto visionado pelos cooperadores e a irrefutável importância que a Cooperação tem na vida moderna, se a relacionarmos com as exigências de uma técnica das relações humanas e esta enquadrada nas realidades sociais dos nossos dias.

Não há nenhum Estado que se diga civilizado ou que o queira ser que não preveja, nas suas estruturas econômicas, a criação de setores cooperativos e se os desenvolvidos os aconselham os atrasados não os dispensam. Naturalmente que não são os economistas oficiais ou profissionais que o aconselham, mas a premência das circunstâncias e o aviso do sociólogo e pensador advertidos não desistem de exigir que assim o faça.

Simplesmente podíamos, a grosso modo, comparar o economista em nossos dias, com o seu dossier de cálculos e raciocínios, apenas preocupado com a rentabilidade da empresa, ao droguista ou merceeiro atento à lista de compras e vendas com a preocupação única do lucro. Os economistas de profissão pouco mais percebem que “coisas do seu ofício” e com a tendência para a especialização, dá-se isso com todas as ocupações. Que nos perdoem os que, felizmente, assim não o são, mas só o pretendemos generalizar e explicar porque não temos efetivamente nos economistas o forte dos verdadeiros cooperadores. Este fato embora tire à cooperação generalidade que não lhe tira valor, quando é certo que tem a impô-la além de todas as realidades socioeconômicas, toda a moderna sociologia e todas as ciências humanas.

O que acontece é que os políticos também a utilizam mas com força de recrutamento para os seus intentos, além de lhe darem um sentido que a desnorteia e a desqualifica. Buber, exilado do fascismo alemão e professor de sociologia na Universidade Hebraica de Jerusalém (que viria a ser com sua mulher a alma ideológica e revolucionário do KIBUTZE na Palestina), nota e acentua que o cooperativismo, bem como o socialismo, está impregnado de dois sentidos ou antes, divide-se em duas escolas principais: a autoritária ou centralista e a libertária ou federalista. Na explanação dos conceitos cooperativistas Buber reporta-se ao pensamento de Marx, Lenin e Stalin, ao mesmo tempo que Proudhon, Kropotkin e Landauer. O estudo de Buber é importante, não só pela influência que teve na orientação dos Kibutzes mas especialmente pela repercussão e consequências que viriam exemplificar de que lado estavam os “utopistas” ou os “cientificistas”. O Doutor Henrik Infield, no seu célebre livro “Utopia y Experiência”, é, sem exagero, um dos maiores sociólogos do nosso tempo, referindo-se às diferenças das diferentes cooperativas que prática e diretamente analisou de um extremo a outro do mundo, diz: “Estas diferenças devem-se especialmente à diversidade dos quadros políticos e culturais que se inserem nas cooperativas”, cujos contrastes acentua e define. Considera três tipos de cooperativas: KOLKOZ (russo), EJIDO (mexicano) e KIBUTZ (israelita ou palestiniano). Cada um destes tipos se rege por princípios diferentes e embora aparente autônomos, dependem do Estado; o éjido é um tipo intermédio, tem certa autonomia mas confia grandemente no auxílio do Estado e o apoio que deste pede ou recebe fá-lo dele dependente. Pelo contrário, o Kibutz prima pela sua independência e o heroísmo e abnegação dos primeiros pioneiros deu-lhe uma dinâmica e uma força que o transformou no elo propulsor de Israel, fazendo, ao contrário do que se passa nos exemplos anteriores, que seja o Estado que dependa dele. Na HISTÓRICA GUERRA DOS 6 DIAS, de Israel, o jornalista William Stevenson, comentando as solicitações e oferecimento de auxílio dos americanos perante a ameaça dos árabes e o auxílio dos russos, em relação aos judeus em técnicos e material de guerra, diz:

 Mais importante que o petróleo dos árabes e os votos dos judeus na América a dinâmica dos homens nascidos e criados nos Kibutz nas granjas coletivas, onde o idealismo substitui o dinheiro, onde o trabalho manual e a ajuda mútua criaram uma nova espécie de indivíduos, desabituados de andarem de chapéu na mão a pedir esmolas.

O próprio general Dayan era um homem que vinha dos Kibutz, bem como todos os seus comandantes. Se o exemplo da sua unidade espontânea e livre na sua defesa é qualquer coisa de singular e eficiente, no aspecto socioeconômico, num espírito de justiça e liberdade, sobreleva a tudo que até hoje se tem feito em proporções ou em promessa de bem-estar e conforto elevados à prática!

A evocação deste exemplo fazemo-la, em primeiro lugar para ressaltar a diferença que se observa onde o Estado impera, depois de estabelecer o contraste entre os sistemas, cuja tomada do poder se antepõe ou sobrepõe a tudo e a todos, desprezando a iniciativa ou liberdade individual, ao mesmo tempo que se mistifica e autoritariamente se mentaliza os que por condição e desejo pretendem emancipar-se. O contraste é flagrante e hoje falar em cooperação é comum a muita gente, interpretá- la, em todo o sentido socioeconômico, é um tanto mais difícil e eis o que não desistimos de o fazer.

Os sindicatos e as cooperativas são comunidades que só se fortalecem em espírito comunitário, mas tal espírito revestido sempre na noção de obrigação voluntária e ajuda mútua, o que quer dizer na defesa da comunidade o indivíduo vê com mais segurança a sua própria defesa.

A liberdade do indivíduo, no sindicato ou na cooperativa, dá-lhe, segundo a experiência, maior noção de responsabilidade e consciência do que deve e recebe da coletividade, onde de fato é livre e igual a qualquer outro, dinamiza-o e fortalece-o, no combate ou luta social que é forçoso travar! Quem já alguma vez militou nas coletividades, sabe quanto tem consciência da sua independência, na sua coletividade e como se sente diferente quando lhe impõem obrigações, regras, leis, que ele não tem a liberdade de discutir, aprovar ou reprovar.

Não estamos a falar à base de hipóteses ou desejos pessoais, falam por nós quantos queiram e que se prezem de se considerar cidadãos. O ser cidadão é já por si uma condição que repele o servilismo e a alienação que todo o Estado impõe ou exige dos indivíduos, é precisamente onde os anarquistas baseiam a necessidade do seu desaparecimento e os organismos sindicais e cooperativos, que o povo trabalhador e consumidor criou, com miras à sua defesa socioeconômica, provam não só sua inoperância nesse sentido mas também a possibilidade de viver sem Ele. De resto, já Saint-Simon, sem ser anarquista, referindo-se às reivindicações sociopolíticas, dizia que nesse sentido o melhor que se podia fazer era não pensar no Estado…

O que se conclui deste fato é que as organizações sindicais e cooperativas foram criadas contra o beneplácito das forças políticas do Estado e só se legitimaram pela ação revolucionária dos idealistas de todos os tempos. Ainda hoje a sua ação cultural e reivindicativa é contrariada, e todavia mais, quanto esta ação tem foros de continuidade e objetivamente definida no sentido da transformação social. Naturalmente que há países onde essa perseguição é mais feroz, outros onde todas as classes se organizam em sociedades sindicais ou cooperativa e até chegam a ter papel preponderante nas múltiplas relações do mundo do trabalho, como no seu livro “A Cooperação” no-lo acentua o prof. Georges Lasserre. Só nos países totalitários o monopólio do Estado nada permite e é sempre difícil senão impossível o conhecimento exato destes movimentos, sendo sempre suspeito o que nos dizem. Outro tanto não acontece onde há certa liberdade e aí sabe-se da importância destes movimentos. Há países, como na Islândia, onde chegam a 67 % os fornecimentos cooperativos, e nos países escandinavos a produção e o consumo estão hoje 30 a 40 % sob regime cooperativo.

O importante assinalar aqui não é só o volume das entidades cooperativas, o mais notável são os frutos sociais que se colhem destes exemplos. Não é por simples acaso que são os países mais livres do mundo onde economicamente melhor se vive. Ali reina a paz, não a paz dos cemitérios, que impera nos países autocráticos! Sabe-se, por experiência própria, que até mesmo entre nós os sindicatos enquanto livres e as cooperativas foram sempre organismo onde se é obrigado a ser camarada, por condição do meio, impelidos à prática da solidariedade e do respeito mútuos!

Como militante operário, reservo bem vivo na memória o que estes organismos moralmente influíam nos seus associados e a noção de responsabilidade que paulatinamente nos ia dominando, à medida que nos apercebíamos do que lhes éramos devedores e estes reciprocamente nos deviam. Era costume nos velhos tempos dos sindicatos livres considerar-se que sindicatos que abriam correspondiam a tabernas que se fechavam e igrejas que perdiam concorrentes. Claro que isto hoje já não parece ter significado, mas levado à conta de um raciocínio revolucionário ou filosófico tem séria importância, e dá a medida do que se perdeu com a perda da Liberdade nos últimos quarenta e tal anos!

VII. OS ELEMENTOS DE RELAÇÃO EM ANARQUIA

Sem nos perdermos nas labirínticas descrições da história, que mais de duzentos anos de controvérsias entre profissionais e celebridades doutras ciências auxiliares, se deram ao trabalho mais para enriquecimento do conhecimento humano que não para dar ao homem os elementos que o transportasse imediatamente à sua emancipação, limitemo-nos a dizer que trinta e tal mil anos que a história nos ensina remontar a formação mais ou menos consciente da vida social do homem, e com infindos tenteios de se promover no sentido mais íntegro e humano da sua aventura social, ainda hoje se vive em modos que nada divergem, no sentido das milhentas utopias que ao longo dos tempos o homem fantasiou, podendo dizer-se, como no-lo afirma Rudolf Rocker, no seu “Nacionalismo e Cultura”, que em qualquer ramo da Ciência o homem pode predizer com muita antecipação o que se irá passar, como acontece na astronomia, na física, na biologia, o que outrotanto não acontece no caso da história, não há previsão ou medida infalível, definindo, deste modo a história mais como uma resultante de propósitos humanos e este resultado de crenças e interesses que se sobrepõem quase sempre senão à própria veracidade dos fatos, circunstância que lhe quebra o cunho científico que os fanáticos da História lhe imprimem ou querem dar. A afirmação que o destino das instituições sociais pode reconhecer pelas supostas leis de uma “física social”, diz-nos ainda Rocker, não tem mais significação nem validade que a pretensão de certas mulheres que nos querem fazer acreditar que podem ler os destinos dos homens pela borra do café ou pelas linhas da mão. Certamente, que se pode apresentar um horóscopo de povos e nações; no entanto as profecias da astrologia política e social não tem mais valor que os vaticínios dos que julgam conhecer o destino do homem pelas constelações estelares. Serve isto apenas para nos desobrigar de relacionar com um passado longínquo e demais sempre discutível, os elementos formativos de uma estrutura político-socioeconômica capaz de garantir a produção de tudo o que se precisa, ao mesmo tempo que garantir a sua distribuição em moldes justos e equitativos sem atropelados nem precipícios que nos despistem de uma vivência social à altura da nossa evolução, e possibilidades materiais que a Tecnologia e a Ciência nos garantem.

Temos como certo que a transformação social que se impõe não vai surgir imediatamente aos desmantelamentos dos velhos impérios, até pelo contrário, o que de fato resulta é uma série de pequenas nações onde a ideia da tomada do Poder mais se avoluma e menos consciência se tem, no que consiste a verdadeira transformação social. Pode até mesmo dizer-se que as ideias revolucionárias só por reflexo e a longo prazo ali poderão penetrar, e depois de materializadas noutras partes do mundo. Não é por crença no fatalismo histórico, como o acreditam algumas escolas do pensamento, especialmente a marxista, que não aceitamos o ingresso dos descolonizados numa fase de luta progressiva ou tendente à sua emancipação, pois não só os domina uma mentalidade fortemente messiânica e reversiva, em nada divergindo da do tempo do Império Romano e correspondente predomínio da Igreja Romana, em tudo semelhante ao que o H. G. Wells nos diz ter acontecido quando da consolidação política na Europa no século XVIII e que os chineses arreigados ao seu velho orientalismo designaram por “Era da Confusão”. De qualquer modo, as exortações maquiavélicas para a formação dos Principados servem e vão ser esteio para a edificação dos novos impérios, e as grandes Potências não desprezam os ensinamentos da história e com o apoio da Igreja se lançam à compita na conquista e exploração do mundo! Com o desenvolvimento industrial surge uma burguesia que, enfurecida com as monarquias absolutas, cria e desenvolve a ideia dos parlamentos e formam-se as primeiras Repúblicas, que embora arrastem consigo transformações profundas no domínio das relações socioeconômicas, os privilégios da burguesia refinam-se e a exploração e opressão das grandes camadas da Sociedade recrudescem. Aqui, compete afirmar, que causas semelhantes geram efeitos idênticos e de monarquias absolutas caiu-se em repúblicas autocráticas e o homem, que a Revolução Francesa transforma em cidadão, goza agora da “liberdade de se deixar explorar” e poder escolher quem lhe há de pôr algemas. A história repete-se com a descolonização dos nossos dias e a autodeterminação dos povos do Terceiro Mundo. Como há duzentos anos o “jogo maquiavélico” do inimigo exterior, justifica as draconianas medidas no interior dos Países; as carências fundamentais explicam-se pela falta de verbas que astronomicamente se gastam no combate ao inimigo… “Os ministérios do exterior figuram-se como protagonistas de todas as histórias do século XVII e XVIII”, e a cantilena de soberanias enfatuam os homens que predominam e, condecorando-se uns aos outros, pretendem passar à história como heróis nacionais, que além de “sumidades” na política, são ainda “gênios” no equilíbrio e planeamentos econômicos e financeiros, onde tudo são desvios e carências!…

A guerra, por mais que a temam e combatam não a evitam, monstruosidade da nossa civilização e só desaparecerá com a eliminação das causas que lhe dão origem. Mas não só o perigo da guerra que preocupa hoje o mundo e os homens de ciência: a poluição, excessos demográficos, produções supérfluas perante a escassez de produções vitais, como o caso da produção de material de distribuição e o que falta para uma perfeita cobertura de higienização e saúde popularesl A crise de habitação é comum a todos os povos, mesmo os que se dão ao luxo de gastar milhões de contos na destruição, espalhando a ruína e a morte por toda a parte! Sabe-se hoje que as leis da produção e do comércio impõem leis que é forçoso respeitar e as grandes Potências, com o ocorrido nas duas Grandes Guerras, não puderam desligar-se de alguns compromissos com os povos mais empobrecidos e de virem em seu “auxílio”, fornecendo-lhes apoio financeiro e material de guerra para se destruírem em guerras entre si e mais dependentes ficarem dos seus “benfeitores”, ao mesmo tempo que relegam para não sabemos quando o problema efetivo da sua emancipação. Um olhar ao Mundo e tudo nos ensina como os povos se deixam iludir na senda que os conduza ao triunfo da revolução. O após guerra de 14 deu-nos especialmente na Europa, a experiência mais eloquente de todos os tempos e as cinco décadas que sucederam o seu termo, ricas em acontecimentos de toda a ordem, determinam ao estudioso normas de pensamento e ação que de modo algum se deverão perder.

A Revolução Russa perdeu-se! Com a sua perda não vingou na Itália nem na Alemanha e o despotismo que daí resultou veio a ser praticado com mais ou menos dramatismo nos Países que adotaram o Totalitarismo como ali se praticou! Hoje, fale por nós a história, tenhamos presente tudo que se passa no Mundo! Como tudo seria diferente se a revolução social tivesse triunfado na Rússia! A própria hecatombe de 39 foi uma resultante direta da guerra fria que o bolchevismo e o fascismo mantiveram no mundo, ambos sistemas, dando prioridade aos elementos da destruição e da guerra, afogavam em sangue os anseios de liberdade e justiça social das multidões famintas e amordaçadas! O esmagamento da revolução espanhola não seria possível sem a diabólica intervenção do maquiavelismo reinante e os acontecimentos de Espanha provam eloquentemente de que modo agiram fascistas e comunistas no sentido de impedir o triunfo da revolução. Já noutro lugar assinalamos a convergência de propósitos de ambos os sistemas e não vamos repetir, bastando assinalar que ambos tendem para a guerra e taticamente se identificam. O preciso é que a lição dos fatos se aproveite e que os Povos não caiam nos mesmos erros. E forçoso ter sempre bem presente que uma coisa é o labirinto das lutas políticas, outra o campo revolucionário onde as ideias dos combatentes se esclareçam e a mentalidade dos trabalhadores e homens livres se formalizem e robusteçam, no sentido da transformação social que se impõe e se deseja.

Tudo que dizemos não obedece a sectarismos ou na mira de intuitos interesseiros ou duvidosos, para ser antes expressão sentida de dezenas de anos de luta e sempre com os olhos postos no efetivo triunfo da revolução. Os anos que levamos de luta, dão-nos o direito de pensar que sabemos alguma coisa acerca de como fazer a revolução e a sinceridade com que sempre lutamos dá-nos ânimo para persistir especialmente divulgando o que nos ensinou a própria experiência. E certo que todos dizem o mesmo e talvez não passe de um lugar comum, mas tranquiliza-nos provar, com o exemplo do nosso viver, que nada a vida tem de mais sedutor que o triunfo da verdadeira revolução social! Digam ou sintam o que quiserem, os fatos comprovam o que os anarquistas sempre disseram e o que se está passando depois de 1945 por toda a parte, quer nos países desenvolvidos quer nos atrasados, tudo se processa de modo a que se delongue para que não sabemos quando, o triunfo da revolução. Nos Países onde domina a ideia de capitalismo de Estado não se protesta nem se respira nenhuma liberdade, porque se faz acreditar que há um governo que tudo pensa e tudo resolve da melhor maneira no sentido do bem social, onde não só a luta seria prejudicial como desnecessária. Nos de capitalismo particular acontece outro tanto onde o fascismo prepondera, e só nos que se regem por princípios mais ou menos democráticos a luta reveste cunho diferente e a ação revolucionária mais expressiva e mesmo mais prometedora. O mapa do mundo contemporâneo tem sofrido profundas alterações, especialmente no que confere à influência das correntes imperialistas, e formação de algumas dezenas de nações independentes mas cujo bem-estar dos povos pouco ou nada melhorou, e o auxílio que lhes prestam as grandes Potências em vez de o aplicarem em obras de fomento, higienização e saúde das populações, empregam-no em armamentos, formação de exércitos e burocracias dispendiosas e repressivas. Quase todos os Estados do Terceiro Mundo são governados por ditaduras, e os adversários políticos são tidos como inimigos e se reagem só a prisão e a morte os espera. O racismo e a discriminação classista preponderam ali com tanto ou mais rigor que nos Países capitalistas por excelência, e há mesmo casos em que se pode ver o terrorismo organizado desde cima com tanta ou mais ferocidade que o que se organiza desde baixo. O próprio “sufrágio universal” não passou de uma miragem errada como meio de emancipação social, da mesma forma que a igualdade de direitos perante a lei não correspondeu a uma legitimidade de fato dos direitos integrais do cidadão.

No terreno legal e honesto o adversário não concede luta, e a mistificação dos objetivos revolucionários não levam a nenhuma parte. E difícil compreender esta verdade, como tantas outras, mas aceitar que as forças da burguesia alguma vez aceitem a luta em moldes de poderem ser vencidas, é pura infantilidade e compete-nos a obrigação de estar advertidos e advertir da nocividade de tal posição, como é evidente segundo nos ensina a história e toda a nossa experiência de sempre.

Também não aceita o anarquismo militante qualquer religião ou princípio desta, por lógico raciocínio e natural interpretação dos infinitos fenômenos da vida, além de considerar que todas as religiões se refugiam no dogma e no acatamento religioso de uma autoridade divina, e implicitamente de qualquer autoridade. Toda a concepção religiosa tende para um limite que é Deus, e se por simples concepção o indivíduo se refugiasse numa ideia limite perderia na realidade a ousadia dos seus rasgos de eterno caminhante na busca do infinito.

Toda a ideia de Deus é uma espécie de limitação que se estabelece para insignificar o homem, impedi-lo de prosseguir em busca de si mesmo ou renunciar à sua efetiva libertação, Depois, o anarquista só acredita no homem como realidade social e na Ciência como conhecimento conducente à interpretação e domínio do Universo! A religião conduz à fantasia, tornando o homem apático; os conceitos religiosos foram sempre peias a travar o natural desenvolvimento do homem e da sociedade. As religiões, como os partidos políticos, assentam o seu proselitismo no ódio sectário e virulento e foram sempre expressões impeditivas da paz e harmonia entre os homens. Cada uma considera o seu Deus o único e melhor, e são a escola por excelência do messianismo e da idolatria. Deste modo, toda a noção de Deus, além de uma excrecência ou redundância social, tem ainda efeitos de larga nocividade, tanto no sentido emancipador do viver do homem, como no de uma justa interpretação de deveres e direitos comuns a todos.

É certo que a ideia de Deus também tem evoluído e o panteísmo dir-se-ia a mais expressiva forma dessa evolução. No entanto, os anarquistas, atentos às realidades circundantes do nosso Universo e sob a hipótese de um mundo diferente e melhor fogem, de maneira inconcussa a toda e qualquer contradição deísta e, como Pascal, dispensam toda a hipótese de Deus. Compreende-se que o direito de opinião, qualquer que seja, é um direito irrefragável para o anarquismo, e se as religiões se despissem do seu espírito de seita e se integrassem apenas numa interpretação livre na maneira de ser e viver no domínio do pensamento, o mundo evoluiria e a liberdade de cada um ser o que supõe e deseja ser, em nada afetaria o triunfo da Anarquia. “ DAR a César o que é de César ” não serve ao anarquismo como condição da sua interpretação de igualdade, sabendo-se que as hierarquias religiosas e toda uma doutrinação que pregam são aspectos negativos das religiões, e um mundo livre como o anarquismo o propaga e prevê é absolutamente incompatível com princípios religiosos, quaisquer que estes sejam, quando se sabe que as religiões são expressões alienantes que castram as faculdades de pensamento e projetam o homem e a sociedade, para abstrações que os dogmatizam e limitam ao mesmo tempo. De resto, a promessa de uma eternidade onde só alegria e felicidade nos garantem sob a obediência de ritos e preceitos que nos abram as portas do céu, é linguagem e propósitos mais que infantis quando é certo que já ninguém ignora as leis da vida, nem tudo mais que a Natureza às suas leis subordina. O ateísmo sentimo-lo como uma resultante das nossas faculdades de raciocínio e inteligência, e porque, dando à vida uma expressão livre e natural, o incognoscível ou o mistério não entram no número das nossas objetivas apreensões. Naturalmente que em matéria de crenças cada um terá a que quiser, o que em anarquismo é formal é que as crenças e a liberdade de cada um e de todos seja, a indubitável garantia de uma efetiva liberdade social!

A prática de uma vivência em regime libertário é um passo que se pode dar e está ao nosso alcance, se se aceitar a ideia que os setores que se criem dentro de uma comunidade sejam expressões livres e objetivamente radicados nos compartimentos ou parcelas sociais, em que possa estar dividida essa mesma comunidade. O importante é que cada um de nós nos integremos na vida social com a noção de deveres e direitos que a vida em sociedade nos impõe, todavia com um espírito comunitário que nos predisponha mesmo ao sacrifício! A vida social o que carece é de exemplos de solidariedade, e aceite como verdade desmentível, será o sentimento de apoio recíproco ou de solidariedade sem reservas, prestada entre os homens, que mais solidez e humanidade dará à Sociedade Futura que se pretende!

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