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O que é uma organização anarco-sindicalista?

 – Uma organização anarco-sindicalista é uma união de sindicatos que se inspira nos princípios anarquistas.
   O seu funcionamento e a sua acção baseiam-se no LIVRE ACORDO. Uma organização anarco-sindicalista é uma verdadeira FEDERAÇÃO de SINDICATOS, pois os federados são efectivamente AUTÓNOMOS. No seu seio não existem imposições, quer de minorias, quer de maiorias. A LIBERDADE de cada trabalhador é, de facto, respeitada.
   – Os órgãos sociais dos sindicatos e os comités federativos não interferem na elaboração dos acordos respeitantes às lutas sindicais a desenvolver. Estes órgãos apenas desempenham funções administrativas, de relacionamento e de apoio às lutas que os sindicalizados decidem travar.
   Os acordos relativos às lutas sindicais são elaborados pelas assembleias dos trabalhadores sindicalizados (assembleias de secção sindical de empresa e assembleias gerais de sindicato) e pelas assembleias dos seus delegados ou MANDATÁRIOS (assembleias das federações locais de sindicatos, das federações regionais, etc.). Como os elementos dos órgãos sociais dos sindicatos e dos comités federativos, os delegados sindicais são eleitos por tempo limitado e são REVOGÁVEIS A TODO O INSTANTE pelas assembleias que os elegem.
   Contrariamente ao que se passa nas organizações sindicais reformistas, nas quais a acção dos sindicalizados depende de directrizes vindas de cima, vindas das cúpulas sindicais, numa organização anarco-sindicalista os trabalhadores não são substituídos por profissionais ou especialistas de lutas alheias. As organizações anarco-sindicalistas baseiam-se na ACÇÃO DIRECTA, isto é, na intervenção directa dos trabalhadores em todos os assuntos que lhes dizem directamente respeito.
   Numa organização anarco-sindicalista não existem funções ou cargos remunerados, ou seja, burocratas sindicais.

   – Uma organização anarco-sindicalista não participa em lutas políticas, por exemplo, em actos eleitorais. Os seus sindicatos não são apêndices de partidos políticos ou de quaisquer outras forças exteriores ao mundo laboral. A defesa dos interesses económicos, sociais e culturais dos trabalhadores constitui a sua única preocupação.
   Os sindicatos de uma federação anarco-sindicalista lutam, simultaneamente, pela melhoria imediata das condições de vida dos trabalhadores, no âmbito do sistema social vigente, e pela EMANCIPAÇÃO COMPLETA desta classe, pela via de uma REVOLUÇÃO SOCIAL. O seu objectivo final é o COMUNISMO LIBERTÁRIO, um meio social no qual desaparece a divisão entre os que TRABALHAM e os que MANDAM TRABALHAR OS OUTROS.

ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES

Anarco-Sindicalismo

O anarco-sindicalismo é um meio de organização e um método de luta e de acção directa dos trabalhadores, que tem as suas raízes nos postulados da Primeira Internacional e do sindicalismo revolucionário. Inspira-se em fontes essencialmente federalistas e anarquistas, e, com uma nítida actuação revolucionária e uma clara orientação libertária na sua prática, tende constantemente a conquistar as máximas melhorias, em todos os sentidos, para a classe trabalhadora, com o objectivo da sua emancipação integral e da supressão de qualquer tipo de exploração e de opressão do homem pelo seu semelhante ou por qualquer instituição, e, ao mesmo tempo, luta pela abolição de qualquer tipo de capitalismo e de qualquer forma de Estado. Irredutivelmente oposto aos sistemas sociais e políticos hoje reinantes, luta pela transformação radical das sociedades e regimes que neles assentam e pela instauração de um meio social de convivência humana baseado nos princípios do comunismo libertário.


O anarco-sindicalismo não é nem uma doutrina nem uma filosofia. Extrai o seu conteúdo teórico do socialismo humanista e, sobretudo, do anarquismo, cujos postulados de defesa integral da personalidade humana, da liberdade, da solidariedade, do apoio-mútuo e da associação voluntária e federativa, constituem o seu mais sólido fundamento.

O anarco-sindicalismo, dentro do movimento operário moderno, é uma corrente sindical totalmente independente, com características próprias bem vincadas, tanto pelo seu conteúdo básico como pela sua forma de organização e pelo seu desenvolvimento funcional, livre de quaisquer formas de centralismo e de burocracia. Tem sempre em conta a personalidade do filiado e estimula a sua participação na vida sindical. Respeita a autonomia das secções, dos sindicatos, das federações e das confederações. O anarco-sindicalismo também se singulariza pelos método de acção directa que utiliza, pela sua dinâmica e estratégia de luta e pelo facto de os seus objectivos finais estarem sempre presentes na sua orientação social. Outra das suas características distintivas inconfundíveis é a sua recusa de qualquer colaboração de classe, de qualquer compromisso com o capitalismo ou com o Estado, ainda que fosse em nome do «interesse nacional»; de qualquer participação ou intervenção em qualquer organismo, misto ou oficial, dependente do governo ou do patronato; de arbitragens e legalismos e de intermediários de qualquer tipo, nas contendas sociais quotidianas.

O anarco-sindicalismo, considerando-se em luta permanente e sem tréguas contra o sistema que combate e pretende abolir, recusa tudo o que interfira com a sua liberdade de acção, tudo o que possa limitá-la ou restringi-la. Está sempre na vanguarda da luta social e das reivindicações dos trabalhadores.

O anarco-sindicalismo mantém vivo o espírito revolucionário entre as massas operárias. Exercita-as e treina-as, através do combate voluntário, consciente e directo, no desenvolvimento das suas próprias iniciativas, ao mesmo tempo que contribui para a sua capacitação e máxima preparação, para que, sobretudo, possam vir a assumir conscientemente, prescindindo de qualquer partido político, as suas responsabilidades na autogestão directa da nova sociedade a construir e a organizar, uma sociedade livre, justa e solidária. Nessa nova sociedade, suprimidas as classes e com a ajuda de todos os progressos científicos e técnicos, procurar-se-á proporcionar, a todos e a cada um, através do trabalho e do esforço, individual e colectivo, o máximo de bem-estar e de segurança, com um imprescritível, intocável e inalienável respeito pela liberdade e pela personalidade de cada ser humano, objectivo primordial coincidente com o anarquismo.

O anarco-sindicalismo não pretende ser um fim em si, nem criar uma nova ideologia social predominantemente sindicalista. Também não pretende assumir total e globalmente a representação e a administração da nova sociedade, nem moldá-la de forma uniforme e imutável. A sua concepção do comunismo anárquico está viva, aberta ao futuro e às várias modalidades susceptíveis de aplicação, sempre aperfeiçoáveis, desde que tenha uma base essencialmente libertária.

Objectivos e fins

O anarco-sindicalismo tem uma noção clara de que o desencadeamento da revolução social para derrubar o capitalismo e o Estado, para conseguira a renovação e a transformação da sociedade, não depende unicamente da sua força, e de que não poderia tão-pouco assumir de forma exclusiva todas as responsabilidades funcionais no desenvolvimento da sociedade futura. Não pretende criar uma nova ordem na qual teria um predomínio monopolizador determinante. Também não apresenta o comunismo anárquico como a panaceia ou fórmula mágica para a solução dos problemas económicos, sociais e políticos, mas sim como um objectivo dos mais viáveis, racionais, lógicos, justos e éticos, de carácter sociológico, para conseguir a convivência livre, harmoniosa e solidária, entre os seres humanos que desejam uma sociedade nova, sem antagonismos intestinos, sem alienação da individualidade e na qual as relações humanas possam desenvolver-se sem constrangimentos autoritários.

O anarco-sindicalismo apresenta a solução comunista libertária, caracterizada por ser livre e aberta, evolutiva e aperfeiçoável, sem planos rígidos nem uniformes, visto que, além de ter consciência das grandes mutações e transformações que ocorrerão no mundo e na humanidade, não pode ignorar que as modalidades de aplicação do comunismo anárquico, se bem que conservem e afirmem uma concordância nas suas grandes linhas essenciais e nos seus aspectos fundamentais, terão as suas variantes, devido às condições reais existentes em cada país (condições ambientais, de mentalidade e psicológicas, dos seus recursos naturais e do seu próprio desenvolvimento económico, industrial, etc) e também devido a outras causas complexas, que influenciam o comportamento dos homens e têm as suas raízes na própria biologia das sociedades.

As próprias formas de organização sindical que o anarco-sindicalismo já hoje adopta, dentro do sistema capitalista – as suas estruturas industriais, agrícolas, económicas e financeiras, e outras de tipos variados e complexos que lhe são peculiares, que não pode deixar de ter presentes para uma maior eficácia do seu combate ofensivo e defensivo –, não são inamovíveis. O anarco-sindicalismo, através das suas próprias experimentações e também de forma improvisada, tem capacidade para modificá-las ou aperfeiçoá-las (respeitando sempre as bases funcionais federalistas e de autonomia – o fim e a essência libertária), dadas as próprias mudanças que podem vir a operar-se quando o sistema capitalista-estatal for substituído pela nova sociedade comunista libertária. As bases desta nova sociedade exigirão as necessárias e indispensáveis mudanças e reajustamentos, nos planos económico, da produção e da distribuição, funcional e dos serviços, da organização do trabalho na complexa gama de coisas vitais e aspectos a considerar que afectam o todo social.

O anarco-sindicalismo considera que este tipo de sindicato e de organização sindical pode e deve ser um dos pilares principais em que terá de apoiar-se e suster-se a sociedade.

Características próprias do anarco-sindicalismo

Uma das melhores qualidades e virtudes do anarco-sindicalismo é o respeito absoluto pela personalidade do afiliado, a quem convida, constantemente, a militar, de forma voluntária, abnegada, desinteressada, na vida do sindicato, das suas secções, das federações, da organização em geral; a assumiras suas próprias responsabilidades; a expor livremente as suas opiniões, a fazer as suas opções e a tomar as suas decisões nas assembleias; a participar directamente na acção e na luta; a aplicar as disposições que derivem dos acordos que a organização, de comum acordo, tenha adoptado. Na organização anarco-sindicalista, as decisões (acordos) são tomadas de baixo para cima; os cargos, regularmente renovados, são revogáveis; a liderança e o burocracismo são rechaçados. A organização sindical anarco-sindicalista conta unicamente com os seus próprios meios económicos, baseados nas quotizações dos seus afiliados, para se desenvolver, para a sua actividade, para a solidariedade, isto é, para atender a todos os seus problemas e preocupações. Desta forma, assegura a sua plena e total independência. Pode afirmar-se que não existe organização sindical tão íntegra como a anarco-sindicalista. Os seus militantes não podem aspirar a espécie alguma de sinecura e, ao longo da sua vida, devem dar provas da sua abnegação e servir de exemplo pela rectidão do seu comportamento pessoal.

O anarco-sindicalismo entende que não há nem pode haver convivência livre nem justiça social dentro da sociedade de classes; que os fundamentos desta perpetuam e consagram a divisão entre os homens; que qualquer reforma que não destrua os alicerces dessa sociedade não modificará a essência da situação em que se encontramos trabalhadores, que continuarão a ser oprimidos e explorados. Por estas e outras razões de princípio, o anarco-sindicalismo é contrário à colaboração de classes, à co-gestão, à aceitação de uma participação interessada nas empresas capitalistas. O anarco-sindicalismo e o sistema capitalista-estatal são totalmente incompatíveis.

O anarco-sindicalismo é anti-parlamentar devido à sua posição de princípio anti-autoritária e por considerar o parlamentarismo absolutamente ineficaz, do ponto de vista da efectiva emancipação da classe trabalhadora. A experiência da acção dos partidos políticos operários, denominados socialistas, marxistas, democratas, etc, que, sob a inspiração do marxismo (principal responsável pela cisão da Primeira Internacional e pela apologia e prática da acção política representativa por parte dos trabalhadores, que já existe desde o meio do século passado), chegaram, em certos períodos e lugares, a obter maiorias absolutas e a formar governos, como pudemos presenciar em vários países, é suficientemente eloquente e demonstradora da esterilidade da luta nesse terreno. Dentro do sistema que hoje impera, qualquer governo, socialista, social-democrata ou com qualquer outra denominação, através do próprio mecanismo das forças de pressão existentes neste sistema – dos seus tentáculos e armadilhas omnipresentes –, vê-se obrigado a servir os interesses do capitalismo e do Estado, em nome do grande»interesse nacional» e em detrimento dos interesses da classe operária.
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Extraído do folheto O Que É A A.I.T. ? (editado em Junho de 1999 pela AIT-SP).

HISTÓRIA DO MOVIMENTO ANARQUISTA EM PORTUGAL (EDGAR RODRIGUES)

Edição original: História do Movimento Anarquista em Portugal In: Universo Acrata Editora Insular Florianópolis, 1999

Digitalização: Arquivo de História Social Edgar Rodrigues

Diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT Piracicaba, 2010

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http://www.iwa-ait.org

HISTÓRIA DO MOVIMENTO ANARQUISTA EM PORTUGAL (EDGAR RODRIGUES)

ÍNDICE

História do movimento anarquista em Portugal.

Educação e cultura libertária.

Os anarquistas organizam-se: a FAI.


HISTÓRIA DO MOVIMENTO ANARQUISTA EM PORTUGAL

Forma a Península Ibérica com a Espanha. Tem 89.000 km 2 e uma população de cerca de 10 milhões de habitantes.

Alguns “carregam sangue nômade”, estão sempre dispostos a correr mundo para “descobrir e aprender coisas novas”. Cerca de 5 milhões estão espalhadas por dezenas de países do nosso planeta.

A trajetória social e a formação política deste povo teve a influência comunitarista agropastoril e artesanal, o municipalismo primitivo dos movimentos liberais, mutualistas e das lutas de classes européias.

Não há como negar o contágio municipalista introduzido pela Lei Goda e o aparecimento dos Curiais ou de “os mais velhos habitantes do burgo” também chamados “Assembléias públicas de vizinhos”, encarregadas de traçar as diretrizes praticadas em várias regiões de Portugal, onde os sinais de Comunalismo são visíveis até hoje.

Começaram bem antes da separação de Espanha as partilhas em público do produto do trabalho em algumas localidades e o uso coletivo das terras cultiváveis e de pastoreio. Os Conselhos portugueses, anteriores à Monarquia, foram fundados nos séculos 12 e 13.

As próprias cartas das instituições municipais indicam que nem sempre foram concedidas espontaneamente. E o caso da de Coimbra, que acredita-se tenha sido fruto de motins populares, tornando-se essa “legislação revolucionária” impossível de anular. Para atestar a seriedade destes atos, elegiam-se “magistrados municipais”, que, no caso de julgar alguma desavença autoritariamente, respondiam pelos prejuízos causados com seus bens, derrubavam-lhes as casas e eram destituídos antes do fim do mandato, ganhavam a denominação de falsários.

Para Alexandre Herculano: “Nesses Conselhos primitivos, estava o gérmen ou desenvolvidas até certo ponto, mas efetivas e aplicadas na praxe, boa parte das instituições modernamente obtidas à custa de torrentes de sangue e de sacrifícios custosos. Ainda que freqüentemente tais conquistas não passem de uma ilusão seguida de cruéis desenganos.” Tinha razão Herculano! Tais meios usados há milênios pelo homem, puderam perfeitamente abrir novos caminhos para a autogovernação e a administração da sua própria produção e consumo.

“Longe de professarem o desprezo pela vida humana” – escreveu o anarquista Pedro Kropotkine -, “os povos primitivos tinham horror ao homicídio, ao suicídio e ao sangue. E por isso que, no seio das tribos, o homicídio era (e é ainda hoje, afirmamos nós) coisa completamente desconhecida. A antropologia tem demonstrado que o início da humanidade foi o clã, a tribo. Há milhares e milhares de anos o homem viveu na fase clã e desenvolveu já toda uma série de instituições, de usos e costumes muito anteriores às instituições da família paternal.”

Apontando na mesma direção, “o regime agrário dos latinos primitivos era igual ao dos germanos no tempo do César”. “Era a mais rasgada fórmula de comunismo, possuindo a terra em comum, assim a lavrando, trabalhando e agricultando para, afinal nas colheitas, dividirem o seu produto conforme as necessidades dos membros desse agregado.”

Vilarinho da Furna, Rio Onor, Castro Laboreiro, Serra Amarela e do Gerês, no Barroso e Miranda são exemplos do emprego desse sistema comunista primitivo. Outro exemplo de Comunalismo são as Misericórdias, as Fraternidades, as Associações de Socorro Mútuo, as Mutualidades que Proudhon divulgou com a designação de Mutualidade de Serviços. Tude de Sousa, Jorge Dias, Melo Júnior, Amílcar Paulo, Orlando Ribeiro e o poveiro Rocha Peixoto, na monumental obra Notas Sobre Portugal, volume 1, registra o respeito pelas águas de rega distribuídas por acordos locais, sem interferência de nenhum tipo da autoridade; o uso dos pastos comuns, dos fornos coletivos de cozer pão e da troca de produtos agrícolas em lugar do dinheiro. Ajuda mútua nos serviços do campo, na construção de moradias, quando da morte de um vizinho, durante os temporais, nos acidentes ou incêndios, bem como na época das semeaduras, colheitas e malhadas; na troca de mão-de-obra e de produtos. Em muitos lugares de Portugal ainda hoje se realizam trabalhos em comum, hábitos populares que temos que concluir tornaram os portugueses receptíveis às Associações de Socorros Mútuos, de classes profissionais, ao sindicalismo revolucionário e ao anarquismo.

Em 1856-1857, o que valeu aos portugueses para não serem dizimados pela febre amarela foram as 85 Mutualidades Autônomas de Assistência Social, que haviam de crescer para 586 até 1903.

Neste mesmo período morriam de tuberculose 371 por 100 mil habitantes; imigravam 38.223 e 39.515 respectivamente e o número de analfabetos em 1890 beirava a 75,05%, aumentando em 1900 para 78,04% e retornando em 1910 aos 75,05%.

Entre 1800 e 1910 os trabalhadores do campo recebiam uns míseros tostões e os das fábricas trabalhavam de sol a sol para ganhar 10 réis. As crianças entre seis e sete anos faziam um aprendizado de graça.

Em 1818, começa a fase “liberal”, a instituição de ensino primário e explodem as revoluções de 1834-1850, dando origem aos discursos de Passos Manuel em defesa da criação das Conservatórias de Artes e Ofícios em Lisboa e Porto.

O Monopólio dos Tabacos e Fósforos, garantidos aos amigos pelo governo, transformados em polvos de imensos tentáculos, exploração que a República de 1910 não ousou corrigir, não obstante ser uma indústria de alto risco para os trabalhadores, intoxicante, entorpecente, provocando lutas homéricas.

Na mesma data, a Fábrica de Fósforos de Beato produz a sua própria crise para reduzir os salários que eram em 1893 de 60 a 140 réis os das crianças de sete a 14 anos e os das mulheres de 160 a 200 réis, sujeitos a multas, quando “estragassem selos”.

Outra profissão de salários baixos, gerador de grandes conflitos e greves, era a dos Corticeiros nos distantes anos de 1893.

Tinha muita razão o escritor Almeida Garret quando escreveu: “Eu pergunto aos economicistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infância, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta para se Produzir um Rico?”

Aos poucos, a indústria agrupa trabalhadores em torno das “máquinas” para ampliar a produção, vender e lucrar mais, independente de o proletariado aceitar ou não os longos horários de trabalho. Para opor-se à ganância patronal, Alexandre Fernandes da Fonseca teve a boa idéia de formar a Associação dos Artistas Lisbonenses. Elaborou seus estatutos com ajuda de 19 companheiros recebendo aprovação do governo em 17 de janeiro de 1838 e em 3 de fevereiro de 1839 deu por fundada o que viria a ser a primeira Associação Operária Mutualista Portuguesa, de aspirações mais amplas do que as Irmandades. No começo a marcha foi lenta, mas com o surgimento do jornal O Eco Operário, por iniciativa de Lopes de Mendonça e Sousa Brandão, influenciados pelas idéias libertárias de Proudhon, as associações operárias foram-se ajustando à realidade portuguesa.

O Eco Operário produziu grande impacto nos meios operários e cresce o número de simpatizantes.

Em 1866 nasce resolutamente a Associação Internacional dos Trabalhadores, na Europa. Em seguida explode a Comuna de Paris.

Daí por diante o Movimento Operário cresce implementado pelas reivindicações econômicas. A imprensa socialista e anarquista apoia sua luta e registra greves desse período, inclusive das mulheres corticeiras, destacando as operárias Theodoran Valentin, Maria das Dores e Iria Marques.

Os anarquistas em Portugal deram sinais de vida antes do “nascimento do primeiro” grupo ácrata na capital portuguesa, em 1887.

Nas antigas comunidades, durante as reivindicações sociais, dentro das associações de classes, na imprensa e na palavra de alguns intelectuais aparece o anarquismo.

Os ataques ao Estado, as proposições de uma grande sociedade nacional, formada pelas classes trabalhadoras para produzir riquezas de forma tal que o crescimento da produção se transformasse numa realidade de todos. A emancipação econômica do proletariado, as sociedades cooperativas (hoje seriam autogestionárias) de produção, consumo e distribuição, organizadas para pôr fim à exploração do homem pelo homem. “Sol do conhecimento ilustrando todas as inteligências”, de modo que nenhum homem deixasse de conhecer seus direitos e seus deveres, assumindo individual e coletivamente a responsabilidade dos atos de cada um e de todos. E mais: que ninguém mais seria pobre, e que todos teriam direitos à força produtiva e natural da terra, isto é, que a terra seria um bem social.

Não há dúvida são princípios libertários publicados em O Eco Operário, 1850, da autoria de Sousa Brandão.

O professor Rodrigues de Brito adotou a Mutualidade de Serviços com o título A Philosofia do Direito, na sua cadeira, durante os anos de 1858 a 1873.

Os jornais que cobrem o período de 1834 a 1887 transpiram acratismo! E o médico Eduardo Maia, depois de ter lido obras de Pedro Kropotkine, declara-se anarquista em 1879, em discursos e num opúsculo publicado mais tarde.

Antes e depois de Eduardo Maia, a influência libertária aparece clara aqui e ali em grupos de operários e intelectuais dentro das associações de classe. E verdade que o POSP (Partido Operário Socialista Português) conseguiu – por força do autoritarismo de Azedo Gneco – tomar-lhe a frente, ganhando tempo e terreno. A filosofia anarquista começava então a escrever a sua pré-história.

O anarquismo possui todo um corpo de doutrina que requeria estudo, discernimento, poder independente de decisão e não oferecia nada material imediatamente ao proletariado, além de sacrifícios, prisões, torturas e desemprego. O próprio Reclus havia de notar isso quando esteve em Lisboa e escreveu: “A ignorância em que viviam os portugueses em meados do século 19 assemelhava-se à de seus vizinhos marroquinos, ao sul do Algarve. Nos distritos do Norte, Viana do Castelo, Braga e Bragança, uma rapariga que soubesse ler constituía um verdadeiro fenômeno.”

E que, “os analfabetos portugueses eram tão diferentes desses camponeses quase instruídos mas grosseiros da Europa do Norte, sabem discutir com moderação, falar com elegância e improvisar em versos onde não faltam a métrica, o ritmo, nem a verdadeira poesia”.

Transparece também a busca de conhecimentos revolucionários no exterior, principalmente junto do grupo que publicava Revolta na França. Este mesmo jornal anarquista francês registrou manifestações em Bragança, Portoalegre, Braga, Viana e no Porto; pediu que fosse enviada imprensa libertária e comunicações para João A. Cardoso, Lisboa, ao mesmo tempo que anunciava o aparecimento do órgão libertário A Centelha.

A influência evidente dos anarquistas nas associações e na imprensa conquistava espaço aos socialistas, permitindo debates libertários de Gonçalves Viana e João A. Cardoso nas páginas do jornal A Voz do Operário. Segundo Revolta, A. J. Guedes Quinhones lançou A Garlopa, periódico libertário, que mais tarde se transformaria no Revoltado, enquanto O Protesto Operário acolhia bem polêmica do “companheiro Cardoso, expondo os princípios do socialismo anarquista”.

Levantamentos provisórios, permitem acreditar que de 1886 a 1900 existiam em Lisboa 12 grupos anarquistas, quatro no Porto, dois em Coimbra e 2 noutros locais, em torno de oito, seis, quatro e seis jornais publicados nas respectivas localidades.

E preciso reconhecer o esforço heróico dos militantes dos anos 1886-1897 que souberam aproveitar fundando grupos, discursando, escrevendo na imprensa ou distribuindo panfletos, formando “editoras” e publicando brochuras. São dessa época: Biblioteca do Revoltado (2 brochuras); Biblioteca do Grupo Anarquista Revolução Social (7 brochuras); O Novo Mundo (4 brochuras); Biblioteca dos Trabalhadores (2 brochuras); Biblioteca Anarquista (3 brochuras); Biblioteca dos Grupos Anarquistas do Porto (1 brochura); Biblioteca do Grupo Anarquista Os Vingadores (2 brochuras); Biblioteca Primeiro de Maio (1 brochura); Biblioteca Comunista Anarquista do Grupo A Propaganda (1 brochura); Biblioteca de Estudos Sociais (1 brochura); Boa Nova (1 brochura); Biblioteca Emancipadora de Estudos Sociológicos (2 brochuras) e outras publicações avulsas como as de Eduardo Maia sobre o Processo dos Anarquistas de Lisboa, editado em 1888.

Eliseu Reclus encontrou-se em Lisboa e conviveu intimamente com anarquistas da época como: João António Cardoso, António José de Ávila, Vagueiro, o espanhol Miguel Córdoba e outros. Comeu com eles, passou noites num acanhado quarto de um 4 9 andar na rua dos Corrieiros, contrariando intelectuais que o convidaram para banquetes e lhe ofereciam outras mordomias.

E foi desse convívio estreito entre o “modesto” homem de ciência francês com os jovens militantes lusitanos que se formaram vários grupos anarquistas. A presença de Reclus em Portugal valeu como “injeção ideológica”. Daí a rapidez com que as idéias de Bakunin, Pedro Kropotkine, Cafiero, A. Hamon, Malatesta, Merlino, Pietro Gori, James Guillaume, Jean Grave e tantos pensadores anarquistas ganharam leitores, seguidores e suas obras foram traduzidas e publicadas em Portugal, num desabrochar de sentimentos e de convicções libertárias. E não foram só os grupos formados durante este fluxo contagiante que se devotaram ao estudo ou a publicar obras da anarquista filosofia. Editoras comerciais lançaram coleções sociológicas começando pela A Conquista do Pão, de Pedro Kropotkine; A Psicologia do Militar Profissional, de A. Hamon; Aos Jovens, de Pedro Kropotkine; A Utopia Governamental, de Pedro Kropotkine; A Anarquia, de Malatesta; O Socialismo e o Congresso de Londres, de A. Hamon; O Sentido em que Somos Anarquistas, de Miguel Bakunin; Palavras de um Revoltado, de Pedro Kropotkin; Eduardo Maia, A Autoridade e Anarquia, de Eduardo Maia; O Primeiro de Maio, de Bei Adam; A Evolução Anarquista em Portugal (2 volumes), de J. M. Gonçalves Viana; O Anátema, Filosofia e Crítica Social; A Derrocada; O Sufrágio Universal; O 10 de Fevereiro, os dois últimos de Bei Adam, e Aos Garrotados do Gerez, são algumas das publicações, demonstrando que o anarquismo era uma filosofia estudada em Portugal, nesses anos distantes.

A Evolução, Revolução e o Ideal Anarquista; A Meu Irmão Camponês e Anarquia e a Igreja, de Eliseu Reclus, também ajudavam na sementeira ideológica em solo português.

Em 1886, Protesto Operário publicou trechos de um longo manifesto da Federação das seções anarquistas coletivistas de Barcelona, aconselhando a abstenção, acompanhado de reparos e contestações.

Em seguida, Cardoso aparece colaborando na Voz Operária e seu assunto preferido é a conceituação dos anarquistas referentes às eleições que os socialistas e alguns trabalhadores se propunham participar em votar.

A divergência anarquista-socialista despertou adeptos como todo o tipo de debates e o anarquismo saiu fortalecido.

No Sul formou-se logo o Grupo Social Neo-bakuninista, e no Porto a União Democrática Social.

Os elementos mais atuantes dessa época, do Norte, eram Ermelindo António Martins e J. M. Gonçalves Viana, e no Sul, João António Cardoso, José Bacelar e Tiago Ferreira.

As duas agrupações anarquistas mantinham um elo de ligação e seu farol parece ter sido Le Revolté, jornal publicado em França com a colaboração de Pedro Kropotkine, recebido pelo jovem João António Cardoso.

Em Lisboa, no ano de 1887, aparece o Grupo Comunista-Anarquista e no Porto, em 1888, o jornal anarquista Revolução Social, dirigido por Gonçalves Viana, com a seguinte apresentação: “No futuro queremos o agrupamento livre dos indivíduos por afinidades, simpatias e tendências, aspirações e vontades; só assim será respeitada a liberdade e a vontade de cada indivíduo dentro do grupo, dos grupos dentro da Federação Universal dos grupos produtores e consumidores. Transformada a propriedade individual em comum, os produtores trabalharão naquele trabalho ou ramo de ciência para o que mostrarem mais aptidões, cada um segundo suas forças e consumindo de acordo com suas necessidades.”

Em 1887, Lisboa tinha uma população de cerca de 300 mil habitantes (em números redondos) e contava com “12 grupos anarquistas”; Coimbra, 17 mil e “dois grupos anarquistas”; o Porto 150 mil habitantes e “quatro grupos anarquistas” e o apoio de uma dúzia de jornais periódicos e semanários de pequeno formato para a sua propaganda.

Apesar da precariedade dos meios de divulgação, os anarquistas iam atraindo simpatizantes e novos aderentes.

Nos meios socialistas as disputas pessoais acentuavam-se e as cisões beneficiaram os libertários.

Telegramas chegados da Europa noticiavam um atentado contra a vida da anarquista francesa Louise Michel.

O autor, de nome Lucas, “embriagado” na ocasião em que desfechou os tiros quando a libertária discursava no Havre, errara o alvo, terminando em ferimentos leves o “premeditado e sugerido” atentado.

Para não repetir o que já escrevi sobre o anarco-sindicalismo e o anarquismo em Portugal, em mais de 4 mil páginas, vou ater-me ao texto enviado pela União Anarquista Portuguesa ao Congresso Anarquista Internacional, acrescentando-lhe notas esclarecedoras, e continuar a partir de 1923, até aos nossos dias, com minha pesquisa.

No seu início, o movimento revolucionário, em Portugal, limitava-se às idealizações generosas e humanas ou à aspiração, ao estabelecimento de uma democracia ideal que, violentamente, resolvesse o problema das instituições políticas. Entre estes idealistas fervorosos estavam o poeta Antero de Quental e o historiador Oliveira Martins.

O movimento revolucionário só tomou um caminho mais firme depois da proclamação da Comuna de Paris e influenciado pelas lutas travadas entre as tendências marxista e bakuninista, na 1- Internacional. Em Portugal, desencadeou-se uma luta semelhante, porém, de proporções mínimas, em conseqüência de ser quase nula a ação revolucionária.

No ano de 1871, três enviados da Internacional vieram a Lisboa; eram de nacionalidade espanhola e conseguiram reunir os melhores elementos socialistas para a organização de um grupo, cuja estrutura fosse moldada nos estatutos da Aliança da Democracia Socialista, fundada por Bakunin. Apareceu o primeiro opúsculo, redigido por Antero de Quental, intitulado O Que é a Internacional? e fundou-se o primeiro jornal socialista, que tomou o nome de O Pensamento Social. Ao mesmo tempo formou- se a primeira organização de trabalhadores de caráter profundamente coletivista, que se denominou Fraternidade Operária. No ano imediato, já se reuniam nesta organização, dividida em seções de resistência por ofícios, 10 mil operários de Lisboa, cerca de 8 mil no Porto, além de muitos milhares nas outras terras.

Alguns anarquistas, porém, seguindo as doutrinas de Bakunin, travaram luta contra esta forma de organização; imediatamente se afastaram para se reunirem num grupo antipolítico. Outros anarquistas permaneceram, tornando-se conhecidos por aliancistas. Os dissidentes não puderam aceitar ou impôr uma luta decisiva, por serem muito poucos, apesar de serem os de maior cultura, e tornou-se a sua ação bem depressa estéril em face das forças organizadas, que os socialistas reuniram em grande nú m ero.

No dia 10 de janeiro de 1875, fundou-se o partido socialista, que apresenta um programa de realizações com caráter proletário; os seus organizadores eram os mesmos que haviam formado a Fraternidade Operária. Os anarquistas fizeram logo uma tenaz oposição, que chegou a atingir um aspecto violento mas nunca decisivo.

Em 1886, Eliseu Reclus chega a Lisboa, avistando-se com os anarquistas portugueses, com os quais se reuniu na casa de um dos mais novos e dos mais cultos, e que era então o único estrangeiro que colaborava no jornal Le Revolté. Travou uma controvérsia tenacíssima com o anarquista espanhol Albanan, que era anarquista coletivista, em desacordo com a doutrina anarquista comunista, que Reclus propugnava. O sábio geógrafo partiu para a África, com o objetivo de realizar estudos seus, e as discussões continuaram.

O grupo editava então a Revolução Social, o primeiro periódico anarquista que se publicou em Portugal. Convidado a manifestar-se, Reclus enviou àquele jornal uma carta declarando peremtoriamente que atas e regulamentos, como pretendia Albanan, eram a completa negação do anarquismo, e que a organização de grupos deveria fazer- se por afinidades. Esta carta foi o golpe decisivo nas doutrinas que defendia Albanan; e desde então o movimento anarquista, entre nós, começou acentuando a tendência libertária, que ainda hoje perdura.

Em 1887, o mesmo grupo, denominado então Grupo Anarquista Comunista de Lisboa, publica uma declaração de princípios, que concluía assim:

O grupo comunista anarquista de Lisboa constituiu-se independente dos partidos políticos, para difundir e agitar todas as suas teorias preconizando a Liquidação Social, a Revolução Social, como meios imprescindíveis para conseguir a emancipação das classes trabalhadoras. Portanto, rejeita: l q – A legalidade dos meios de ação quer das agitações eleitorais quer das mistificações parlamentares. 2 q – A legalidade imposta pelo Estado ou pela religião à constituição da família. 3 q – A submissão à autoridade pessoal ou legislativa, absoluta, mandatária ou patronal. 4 q – Sentimento patriótico ou nacional, o egoísmo de raças, de religiões e línguas, como meios de ação aceitando as reivindicações de personalidade individual e as condições viciosas da sociedade prescrevem: a) A prática da solidariedade com todos os grupos que, como nós, pretendem eliminar o sistema social contemporâneo, com todos os indivíduos antiestatais. b) Acelerar a decomposição política e econômica dos estados, preconizando a abstenção à urna, a deserção da caserna, a greve violenta e a propaganda ilegal no terreno dos fatos; c) Aproveitar a desorganização a que estes meios conduzem os poderes públicos para proceder à liquidação social. E como corolário da organização futura, inscreve na sua bandeira as palavras Comunismo e Anarquia.

A visita de Eliseu Reclus havia impulsionado a propaganda anarquista. Começou surgindo mais numerosa a imprensa ácrata, quase toda ela defendendo a doutrina comunista.

Mas a ação dos anarquistas que foi brilhante, não se particularizou por qualquer acontecimento extraordinário. No capítulo sobre o movimento revolucionário descreveremos essa ação.

Em 1904, na cidade do Porto, constituiu-se o Grupo de Propaganda Libertária, que ainda hoje existe, sendo o mais antigo e o que maior e mais profícuo esforço tem empregado na propaganda anarquista. Por ele passaram as maiores figuras do movimento, a par das mais modestas. Impulsionou ou iniciou a organização de numerosos centros de caráter social no norte de Portugal; tomou a iniciativa da formação do Comitê Sindicalista do Norte, do qual surgiu a organização operária naquela região; fomentou a agitação em Portugal contra o fuzilamento de Ferrer.

Fundiu-se com o grupo Aurora Social, passou a editar o semanário anarquista A Aurora, que pertencia àquele grupo e que sucedera ao semanário A Vida. O semanário A Comuna sucedeu depois àquele, mas um grupo editor foi especialmente constituído para manter a sua publicação.

Se este grupo nos merece referência especial, deve-se à ação que ele dispendia na sua larga existência. Outros grupos se formaram, desenvolvendo com maior ou menor eficácia a sua ação; mas a sua existência dependia, como é natural, das condições de vida de seus componentes.

A propaganda anarquista prosseguiu sempre, embora poucas vezes com a continuidade e com a intensidade desejada, havendo mesmo períodos de estagnação.

Mas nunca os anarquistas deixaram de pugnar pelas íntegras concepções do ideal. Durante a guerra mundial, a maior parte dos anarquistas portugueses combateram energicamente os que preconizavam a participação de todas as forças revolucionárias no combate ao militarismo alemão. O lugar primacial na crítica antiintervencionista foi ocupado por Neno Vasco, muito conhecido em vários meios anarquistas do estrangeiro, e que sustentou uma animada controvérsia com elementos anarquistas espanhóis que se manifestavam intervencionistas.

Toda a imprensa anarquista combateu o intervencionismo, não querendo diferenciar o militarismo alemão do militarismo de qualquer outra nação. A campanha antiguerrista foi intensificada tanto na imprensa como na tribuna aproveitando-se ad m iravelmente da impopularidade que tinha a chamada política de guerra.

Distinguiram-se nesta campanha A Aurora, do Porto, em que Neno Vasco colaborava, e a revista A Sementeira. Em público, onde aparecessem políticos pregando a guerra, surgiam anarquistas a defrontá-los, combatendo-os vigorosamente face a face, e esta agitação se prolongou até 1917, data em que se suspendeu o envio de tropas para a guerra; nunca foi isenta de conflitos graves.

Em Portugal nunca se formou verdadeiramente um movimento intelectual com caráter anarquista bem-definido. A imprensa foi sempre o reflexo, o fio condutor da atividade anarquista na propaganda. São em número diminuto as obras de fundo redigidas por anarquistas portugueses sobre sociologia, economia ou filosofia; e desta falta resulta buscar-se os livros anarquistas publicados nos outros países para as bibliotecas dos estudiosos. Além disso, os anarquistas portugueses apenas têm exposto os seus estudos, breves. Efêmeros, em pequenos folhetos, em raras conferências ou nas colunas dos jornais.

Em 1886 aparece o primeiro periódico anarquista, Revolução Social, que publicou até o ano imediato 48 números. Foi dos jornais de maior duração. Depois deste, não há notícia de mais nenhum, sendo pouco provável que se tenha publicado. Mas em 1894, surge novo jornal intitulado A Propaganda, e que foi um dos mais célebres jornais anarquistas, pela sua combatividade e pela sua crítica. Em 1892, porém, publicara-se um outro jornal, A Revolta, que teve curta existência. Diversas tentativas de publicação se fariam, algumas sem resultado. O Agitador, que se publicou em 1895, foi um dos melhores jornais de propaganda e de combate. Em 1905, alguns anarquistas, influenciados pelo seu prestígio anterior, fazem-no reaparecer, mas a sua publicação torna-se clandestina por causa da repressão que as autoridades desenvolviam contra os elementos avançados, republicanos, socialistas, anarquistas.

Além destes e doutros jornais, nenhumas outras publicações periódicas se faziam. A mais importante revista publicada em Portugal foi A Sementeira, cuja publicação decorreu desde 1908.

Só depois de 1911, num período mais intenso de propaganda anarquista, se publicaram outras revistas, porém, todas elas foram de curta duração. O semanário Terra Livre, publicado em 1913, tinha todo o caráter de revista. Nele colaboraram quase unicamente figuras intelectuais do movimento anarquista, entre eles o falecido Neno Vasco. A ação deste semanário foi de tamanho êxito, pela sua orientação admirável e pela sua colaboração escolhida, que o governo republicano notou a sua influência no povo; então, suprimiu-o, apesar da lei de imprensa não o permitir. Os redatores empreenderam a publicação de um novo jornal, O Protesto, que seguia a carreira do seu antecessor; mas as perseguições prosseguiram tão violentas, que poucos números foram publicados. O seu redator principal, Pinto Quartin, por ser natural do Brasil, mas vivendo e tendo sido educado em Portugal, foi metido a bordo de um navio que o conduziu àquele país.

No Porto, também a imprensa anarquista tomou uma parte brilhante na propaganda. O grupo Aurora Social veio publicando sucessivamente, após O Despertar (1908, 89 números), A Vida (1909, 286 números), A Aurora (que durou até 1919, tendo passado para o grupo Propaganda Libertária, que continuou a sua publicação e fez suceder A Comuna, em 1- de maio de 1920, prosseguindo a sua publicação atualmente a cargo de um grupo editor).

Numerosos jornais se têm publicado e desempenhando quase todos, durante a sua existência, tantas vezes efêmera, um papel admirável na propaganda. Enumeramos alguns, cuja recordação perdurou: Porto, 1887 – Revolução Social (48 números); 1892 – A Revolta] 1894 – A Propaganda ; 1895 – O Agitador, O Lutador, Grito de Revolta e O Trabalhador-, 1898 – A Idea ; 1900 – A Aurora (6 números); 1901 – O Proletário (2 números); 1903 – A Obra, A Verdade (3 números) 1905 – O Agitador (clandestino), A Vida ; 1909 – O Libertário, Ação (2 números), Paz e Liberdade (29 números); 1910 – O Rebelde (2 números, Funchal), A Conquista do Bem (2 números); 1911 – Vida Livre (3 números), Tempos Novos (4 números), Avante (5 números): 1913 – O Anarquista (1 número), Terra Livre, O Protesto, etc.

Nesta enumeração tão incompleta observa-se, à primeira vista, o esforço empregado pelos anarquistas na propaganda. Mas este esforço seria muito mais profícuo se, porventura, se formasse um mov im ento de cultura com caráter de continuidade. Apesar de existir um certo número de anarquistas com apreciável cultura intelectual, que se manifesta nos vários ramos da ciência e da arte, principalmente, não existe bem-fundado e bem-definido um movimento intelectual.

Poucas revistas se publicaram até hoje; são elas Amor e Liberdade (1904-1905), A Sementeira (1908-1919), Lúmen (1911) e Amanhã (1914). E no nosso tempo, apenas três periódicos existem: no Porto, o semanário A Comuna (tiragem de 2.600 exemplares); em Lisboa, o mensário La Vero, redigido em esperanto e português, cuja tiragem gira em torno de um milhar, e O Despertar, das Juventudes Sindicalistas, 3.000 exemplares de tiragem, vive dificilmente pois sua suspensão é freqüente. O primeiro está muito acreditado nos meios anarquistas do país e do estrangeiro, e exerce uma ação essencialmente doutrinária e crítica. O mensário La Vero é ditado por um grupo de esperantistas anarquistas e pretende difundir o esperanto entre o povo. O Despertar é notório pela sua extraordinária combatividade e tem uma grande expansão entre a mocidade operária, principalmente nas regiões do Sul, Estremadura e Norte. Ainda que não seja declaradamente anarquista, a sua ação e os seus princípios são inspirados na ideologia anarquista, que a mocidade operária, afinal, abraça efusivamente.

O pensamento anarquista está profundamente radicado na população do país, principalmente no litoral, no centro e no sul. Desde que a propaganda anarquista se iniciou entre nós, as doutrinas começaram a cair bem no espírito do povo. Os partidos republicanos, socialistas e comunistas nunca encontraram o ambiente germinador que a propaganda anarquista consegue viver. Portugal é um país que tem um largo e fecundo campo para a idéia anarquista, sempre que haja quem a propague. Principalmente entre os camponeses, na província, e entre os operários das indústrias, nas cidades, a tendência anarquista acentua-se fortemente; e há um certo número de indivíduos na classe média que revelam sem ostentação, e dentro do âmbito em que vivem, as suas tendências anarquistas.

O mov im ento anarquista em Portugal é profundamente comunista-libertário, e é esta particular tendência que mais se coaduna à índole da população, sem dúvida, porque se vive num país essencialmente agrícola, quase sem comércio exportador e sem possuir a grande indústria. Por isso mesmo, a questão econômica preocupa mais os elementos revolucionários do que as questões industriais.

Os anarquistas colocam-se ostensivamente no campo da luta de classes, tomando uma parte ativa nos movimentos populares contra o predomínio capitalista. A organização sindical, construída quase unicamente por antigos elementos anarquistas, possui uma tendência libertária que muito se define nos períodos de agitação.

Politicamente os anarquistas mantêm uma oposição intransigente e inabalável contra todas as instituições autoritárias, quer sejam econômicas ou simplesmente políticas. Negam a sua colaboração a toda a ação e movimento de ordem política, à qual fazem uma persistente campanha de oposição.

Além destas tendências, há a tendência individualista, mal-definida e limitada a poucos militantes. Mas esta tendência é absorvida pela outra tendência, inspirada nas doutrinas de Bakunin, Kropotkine, Malatesta, etc., havendo ainda um número notável que se inspira nas doutrinas de Tolstoi.

Tal é, em resumo, o pensamento anarquista em Portugal. Contudo, apesar das dificuldades expostas, a organização anarquista vai-se firmando seguramente, com soluções aconselhadas pelas circunstâncias, as quais não impedem que exista uma certa unidade nos trabalhos que se vão efetuando.

As dificuldades são enormes; e só uma vontade tenaz se pode ocupar neste esforço construtivo e de resultados tão longínquos. Nem sempre os elementos anarquistas seguem a sua obra com a desejada continuidade. Os efeitos são, como logo se prevê, desastrosos; a UAP luta com uma extraordinária falta de elementos. A juventude dá o maior esforço, visto que muitos elementos antigos se encontram cansados por anos de sacrifício, de luta e de trabalho.

Como se vê, a UAP tem diante de si um formidável problema: para realizar um trabalho produtivo terá de reunir tantas vontades que várias razões tornam afastadas e inertes. O trabalho realizado até hoje, umas vezes pela espontaneidade dos elementos, outras vezes por sugestões da UAP, tem sido muito produtivo, mas é deficiente e incompleto.

Existem atualmente 20 grupos aderentes e ligados pela UAP. Esses grupos encontram-se disseminados pela Capital, Porto, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Coimbra, Setúbal, Palmeia, Mina de S. Domingos, Évora, Benavila.

Existem também aderentes isolados em algumas localidades pequenas como Serpa, Mértola, Cercal do Alentejo, Mortágua, Cartaxo e também na cidade de Beja.

No norte da região portuguesa os grupos estão reunidos num Comitê de Propaganda e Organização Anarquista com sede no Porto. Em Lisboa, formou-se igualmente um Comitê de Propaganda Anarquista, e todos os grupos aderentes a estes comitês são-no também à UAP. Esta tem um Comitê Nacional de relações, propaganda e organização, composto de cinco membros escolhidos entre os grupos, e que age segundo as resoluções da Conferência de Alenquer. Só os grupos determinam entre si, pois que aquela conferência repudiou a organização de um conselho federal, por entendê-la mentirosa e por não representar integralmente a vontade e o critério da organização aderente.

Antes desta organização existem os seguintes centros: Centro Bibliotecas de Estudos Sociais, na Póvoa de Varzim, no Porto (denominado nas Antas), e na Giesta, havendo ainda outros Centros e Bibliotecas orientados e mantidos por anarquistas para preparação e educação de indivíduos no ideal anarquista. No Porto funciona também o Centro Comunista Libertário, que muitas vezes tem sido combatido pelos comunistas, por causa da sua designação.

Há grupos que se têm distinguido brilhantemente na propaganda anarquista. Sem favoritismos, vamos destacar alguns. O mais antigo grupo existente em Portugal é o Grupo de Propaganda Libertária do Porto, que durante muitos anos, data de 1904, editou vários jornais, brochuras, panfletos e manifestos. Outro grupo editou a revista mensal A Sementeira, que suspendeu em 1919 e que vai reaparecer no próximo ano; além disso, continua editando folhetos e brochuras e está em estreito contato com os anarquistas portugueses residentes em New Bedford. O grupo La Vero, composto de esperantistas, edita uma pequena revista, destinada à propaganda anarquista e esperantista do povo. O semanário A Comuna, do Porto, separou-se, por conveniência da propaganda do Grupo Propaganda Libertária, e passou a um grupo editor que também publica com bastante freqüência brochuras e folhetos de caráter anarquista. O grupo Humanidade Livre, de Lisboa, igualmente se lança num trabalho de propaganda pelo folheto, apesar da sua recente fundação. O grupo Claridade, que acaba de se constituir em Lisboa, está organizando uma revista sendo este o seu primeiro trabalho de propaganda.

Ao lado destes grupos mais ativos, movem-se outros com não menor atividade. Este trabalho de propaganda faz-se com numerosas dificuldades, agravadas ainda pelas circunstâncias descritas no princípio deste capítulo.

Os organizadores da conferência anarquista viram a sua idéia aceite por todos os anarquistas a quem se dirigiram. Elementos estranhos procuraram insinuar-se, com fins duvidosos, na efetivação da conferência; porém, o comitê de iniciativa defendeu-se tão criteriosamente que todos os trabalhos decorriam no meio da maior discrição. Os comunistas inquietavam-se com este renascer da atividade anarquista, pressentindo que ela poderia acabar de inutilizá-los.

Em 18 de março de 1923, 45 anarquistas de diferentes regiões, a maior parte representando os seus grupos, reuniram-se na vila de Alenquer, sem que o segredo desta reunião, apesar de muito falada, fosse além do conhecimento particular dos aderentes.

As resoluções tomadas foram de uma excepcional importância para o impulsionamento da propaganda anarquista.

As resoluções de caráter nacional foram também muito importantes, destacando-se a que criou a União Anarquista Portuguesa (UAP), com a missão de reunir todas as agrupações e aderentes; e de impulsionar a organização, a propaganda e a ação anarquista em Portugal, sem tocar, evidentemente, na independência completa e incontestável de cada grupo e de cada aderente. O novo organismo procuraria ligar todos os agrupamentos, por um sistema de livres relações, a fim de se efetivar um congresso nacional, onde mais concretamente se delineasse uma obra de ação e de propaganda. Outras resoluções foram tomadas; mas a estas nos referiremos no decurso deste relatório.

Depois da conferência, e influenciados por ela, novos grupos se foram constituindo, grupos que a UAP imediatamente procura reunir. O trabalho do comitê nacional da UAP tem sido moroso e cheio de dificuldades; mas é lento e seguro, tudo fazendo esperar um êxito lisonjeiro no futuro. A organização anarquista portuguesa encontra-se num estado embrionário; a sua gestão faz-se dificilmente, pelo que se não pode prever quando a sua ação, em conjunto, seja mais decisiva.

Na região do Douro e na do Baixo Alentejo, a organização marca notáveis progressos, ao passo que na região da Estremadura o trabalho anarquista é de rara eficiência. Nas outras regiões, especialmente nas Beiras e no Norte, a organização anarquista só poderá ser iniciada depois de uma larga obra de propaganda, devido ao atraso em que as suas populações se encontram, ao seu espírito religioso e à sua índole desconfiada de todo o mundo exterior.

Os próprios militantes não possuem a capacidade necessária para dar uma certa unidade e inteligência ao movimento operário. Tendo sido formados por acasos da luta, a sua ação vigorosa não tem reunido a mesma soma de inteligência. Desta forma, não possuindo a necessária envergadura para enfrentar os custosos problemas da época, despendem energias nas conquistas momentâneas, dando o sindicalismo a impressão de uma massa brutal e disforme despenhando-se impelida por abalos súbitos.

Ultimamente a CGT, após uma luta com os elementos comunistas e alguns elementos sindicalistas, que defendiam a adesão à ISV, proclamou a adesão à Associação Internacional dos Trabalhadores, de Berlim.

As Juventudes Sindicalistas são a força mais consubstanciai do movimento revolucionário. Foram organizadas para a formação de militantes, no momento que as autoridades prendiam e desterravam os elementos em evidência; mas evoluíram sempre para o extremismo, desenvolvendo uma ação e uma propaganda intransigentemente revolucionárias. As autoridades notaram esta organização bem extraordinária nas suas características, e nunca deixaram de persegui-la com ferocidade, assaltando-lhes as sedes e prendendo continuamente os seus militantes.

Atualmente as Juventudes Sindicalistas manifestam-se anarquistas, ganhando pouco a pouco as características federativas das organizações libertárias. Cerca de 3.000 filiados contam as Juventudes Sindicalistas, divididos por 29 núcleos, espalhados por todo o país e federados livremente na respectiva Federação. Os militantes que saem destas organizações, enfileiram geralmente ao lado dos anarquistas, ou desaparecem por não encontrarem na organização sindical um ambiente próprio para dar desafogo ao seu espírito libertário.

No seu próximo 2 2 Congresso, as Juventudes Sindicalistas vão afirmar-se, segundo se depreende de uma tese que apresentam, declaradamente anarquistas, havendo ainda a presunção de que elas se transformem em anarco-sindicalistas. A tendência das Juventudes Sindicalistas é comunista-libertária.

Os anarquistas, que poderiam ser a esperança de um levantamento da moral revolucionária, acolhendo os elementos de valor e de ação que se deslocam no movimento operário, e se dispersam até se perderem, não possuem ainda a sua organização de combate. A Conferência de Alenquer, apesar do seu êxito, não solucionou completamente estes problemas, pois se preocupou muito especialmente com a propaganda e os estudos a realizar.

A organização anarquista em Portugal é feita sob a base de grupos por afinidade, que hoje são em número de 18. E fácil de prever o lugar que está reservado às organizações anarquistas e o papel brilhante que irão desempenhar; porém, dadas as necessidades do movimento revolucionário, em tão desoladora decadência, o seu progresso é demasiado lento e impacienta os que desejam uma ação mais definitiva.

A imprensa operária possui numerosos órgãos corporativos, onde não se vêm debatidas questões de produção, de consumo, profissionais e técnicas, mas únicamente assuntos de caráter associativo. São reflexo da deficiência de mentalidade que o movimento sindicalista acusa. O primeiro diário operário foi A Greve, publicado em 1905. Muitos anos depois, em 1919, surge A Batalha, órgão da CGT, que ainda hoje se mantém. Em 1920, saiu o diário da tarde Avante, que se apresentava tão combativo e denodado que as autoridades só deixaram de apreendê-lo e persegui-lo quando o jornal desapareceu, afogado pelos prejuízos que lhe causava a repressão.

Atualmente a sociedade portuguesa oferece aspectos graves de desmoralização, de corrupção e de decadência. Estes aspectos refletem-se em todas as classes sociais, como em todas as corporações e agrupamentos, como particularmente nos indivíduos. O estado mórbido da sociedade portuguesa é, evidentemente, influenciado pela decadência das sociedades contemporâneas; mas por causas morais e psicológicas, falência da mentalidade, ausência de valores sociais e intelectuais, tornam possível que a sociedade portuguesa seja das mais degenerescentes.

A República constituiu-se sob as fórmulas da democracia; o governo provisório, saído da revolução de 1910, promulgou várias medidas de largo alcance social, político e religioso; porém, estas medidas são, ainda hoje, apenas princípios enunciados numa legislação farta mas incompleta. Depois deste governo, nenhum outro promulgou tais princípios. A mentalidade dos homens do Estado republicano decaiu; surgiram as rivalidades políticas, as lutas violentas e homicidas entre as facções dissidentes, que atualmente persistem e trazem o país agitado.

Pouco a pouco, quase insensivelmente o Estado republicano e todas as suas instituições caíram no domínio da reação; e este domínio é tão completo que os reacionários já não pensam em fazer o retrocesso das formas de governo: procuram unicamente reprimir brutalmente qualquer princípio de liberdade e de justiça. Portugal é o país que mais leis de exceção conta; os códigos penais e administrativos encontram-se tão deficientes e tão mal-organizados que as autoridades, sejam as da nação, sejam as de uma aldeia, permitem-se exercer o arbítrio sem que os lesados possam recorrer. Não há uma única lei de responsabilidade política.

Senhores de um estado tão desconjuntado, possuidores de todas as armas ofensivas, os reacionários realizam a sua obra liberticida e anti-humana, sua necessidade de travar grandes lutas para se imporem, dado que nenhuma força os contesta. Os grandes financeiros e os grandes industriais que são todos monárquicos ou católicos, predominam economicamente; impedem a reforma social mais insignificante. Preocupam-se mais com os jogos da bolsa do que com o progresso industrial. E com esta sua ação indigna, semeiam a miséria e o mal-estar por todas as classes, não excluindo a classe média.

Reunidos na Conferência de Alenquer, os anarquistas mostraram um grande interesse pelas questões que vão ser debatidas no Congresso Internacional Anarquista, principalmente no que se refere ao problema internacional.

Procuraremos interpretar o espírito da Conferência pelas teses aprovadas que enviaremos junto com este relatório.

Na questão internacional, entende-se de utilidade a constituição de um organismo internacional, com o fim de aproximar as organizações anarquistas de todo o mundo e dar, assim, maior uniformidade à ação contra a sociedade. Estas organizações estariam ligadas por solidariedade, quer moral, quer econômica e se comunicariam entre si, diretamente ou por intermédio do organismo internacional, que seria um centro de informação para todo o mundo anarquista e o fulcro da propaganda. A formação de uma União Ibérica preocupava muito os anarquistas portugueses.

Acerca da língua internacional (o 6 9 ponto da ordem dos trabalhos) sabe-se que o Anarkia, Grupo La Vero, composto de anarquistas esperantistas, enviara ao Congresso uma tese que deve representar o pensamento predominante entre os anarquistas.

As opiniões acerca dos outros pontos da ordem dos trabalhos acham-se expostos nos “pontos de vista” e nas teses que juntamos a este relatório e que serão publicados a seguir.

O Comitê Nacional da União Anarquista Portuguesa

Nesta mesma época os libertários portugueses enfrentavam outros adversários políticos que ganhavam espaço na confusão e disputavam sindicatos anarco- sindicalistas para fortalecer o braço sindical soviético, atuando sob a sigla ISV (Internacional Sindical Vermelha).

Eis como se disfarçavam camaleonicamente em sua Declaração de Princípios:

Para evitar mal-entendidos da parte de muitos camaradas que podem supor que os revolucionários portugueses (que pretensões fabulosas, dizemos nós!), que se dizem bolchevistas, fizeram quaisquer restrições nos seus ideais avançados, se torna público que todos os componentes da Federação Maximalista Portuguesa e seus conselhos são em princípio anarquistas e sindicalistas revolucionários. Adotando contudo a designação de bolchevistas, comunistas, maximalistas ou sovietistas. Consigne-se porém que todo o indivíduo que em Portugal se declare bolchevista é anarquista ou sindicalista revolucionário.

Entre a confusa definição e o Primeiro Encontro que deu vida em Portugal ao PCP, em 10 de novembro de 1923, foi um pulo…

Presente no Congresso Comunista de 1923, o ex-pregador suíço Jules Humbert Droz, delegado da 3~ Internacional, vaticinou em seu discurso: “Ele lutará (o PCP), estreitamente unido às outras seções da Internacional, até o dia em que se consiga fazer em Portugal uma república soviética, que entrará na grande família dos Estados Unidos Soviéticos do Mundo.”

O delegado da Internacional Comunista não podia ser mais claro quanto às pretensões do governo comunista. Em seu Relatório da ida a Portugal, escreveu: “Em relação à CGT o trabalho no seio da CGT a favor da Internacional Sindical Vermelha é feito pela minoria sindical que mantém as melhores relações com o partido e que concluiu com ele um pacto pelo qual o partido deixa à minoria sindical o cuidado de conduzir a ação no seio da CGT. Mas o partido impõe aos seus membros a obrigação de aderirem à minoria sindical. Reserva-se o direito de aí propor e defender o seu ponto de vista e conserva o direito de formar em todos os sindicatos os seus núcleos comunistas que apoiarão ação da minoria e farão propaganda comunista. O partido é o braço direito da minoria sindical e a sua ação é muito importante para a conquista da CGT.”

Embora não divulgassem os 21 Princípios da Adesão à 3- Internacional, os comunistas lusitanos juraram-lhe absoluta fidelidade!

Tinha razão Pedro Kropotkine em sua Carta divulgada no Brasil: “A Revolução de Novembro de 1917 deu à Rússia um regime que é uma mistura de forte centralismo comunista autoritário (de Babeuf e do coletivismo estreitamente centralista de Paker, que, há 40 anos é conhecido pelo nome de marxismo). Esta tentativa, é preciso reconhecê-lo, não correspondeu de nenhum modo às esperanças que se alimentavam.”

O governo português, desacreditado e falido, abria espaço para o movimento militar de 18 de abril de 1925, em Lisboa, aguçando mais uma vez o apetite das “minorias sindicalistas”, que propõem novamente o jogo dos políticos, “esquecidos” que o sindicalismo em ideológicos e filosóficos não cabe conchavos governamentais.

O 1° Congresso Confederal (4° Nacional) realizou-se em Santarém nos dias 23 a 27 de setembro de 1925.

Presentes Armando Borghi, representando a AIT; Adelino Gonzalez e Segundo Branco, a CNT espanhola; compareceram 144 delegados de 113 sindicatos, 15 delegados representando 11 federações da indústria e cinco delegados respondendo por cinco uniões de sindicatos.

Deram ainda sua adesão 22 sindicatos que não puderam enviar representantes. Foi a maior presença nos congressos nacionais até a implantação da ditadura.

No todo foram revistos os estatutos confederais, a tese Organização Social Sindicalista, os relatórios confederais, o jornal A Batalha e discutidas as seguintes teses:

  1. – Câmaras e Juntas Sindicais, de Rozendo José Viana, pela CST, de Lisboa;
  2.  – Trabalho das Mulheres e Menores, de Manuel Nunes;
  3.  – Crise do Trabalho e Horário;
  4.  – Higiene Industrial;
  5.  – Educação;
  6.  – Emigração e Mão-de-Obra;
  7.  – Condições de Trabalho nas Colônias, de Manuel Joaquim de Sousa.

A CGT já havia respondido ao Partido Comunista Português em “nota oficiosa” publicada no suplemento literário de A Batalha, de 16 de junho de 1921, contestando suas pretensões.

O Congresso da Covilhã, em l 9 de outubro de 1921, também votou pela não- adesão à ISV, apesar dos esforços das “minorias sindicalistas” infiltradas na CGT para servir ao governo ditatorial soviético, de acordo com o Relatório de Jules Humberto Droz, delegado da IC.

A rejeição da adesão à ISV deveu-se ao ser este organismo sindical bolchevista expressão de uma idéia política de poder máximo e liberdade mínima, centralizado, em que se projeta no indivíduo a insignificância de sua personalidade humana em benefício dos líderes e do poderoso Estado, ao qual todos devem obediência, submissão. Uma idéia que transfere o Homem da liberdade individual e coletiva para a idolatria; da condição de ser pensante para a de massa que se curva à “sabedoria” dos chefes.

A União Anarquista Portuguesa nasceu na Conferência de Alenquer, efetuada em 18 de março de 1923 e foi explicada ao Congresso Internacional da AIT em 29 de março de 1925 assim:

A organização anarquista portuguesa não imitou a sindicalista como se nota na de outros países, como a França, onde a União Nacional é o conjunto de federações, cada federação o conjunto de federações locais e em cada localidade há um comitê aonde os grupos enviam delegados. A União Anarquista Portuguesa é constituída pelas adesões entre si, atuam na sua região e, embora se relacionem como é natural com o Comitê da UAP, isso não implica uma responsabilidade tomada. Desta forma, a UAP torna-se o organismo que recebe a sua força de cada célula básica – o grupo -, sem passar primeiro pelo comitê da respetiva federação.

A União Anarquista Portuguesa não tem Conselho Federal como é uso em alguns países. Existe apenas um Comitê de cinco membros que relaciona, investiga e faz estatísticas, que edita em nome da UAP boletins, manifestos, folhetos, etc., para o que há uma editorial adjunta e que toma iniciativas de caráter geral sujeitando-se a referendo antes de as pôr em prática.

Resumidamente, realizaram-se conferências anarquistas em Coimbra e na Região Sul.

Posteriormente teve lugar a Conferência da Região Norte. Com a publicação de O Anarquista, cresce a campanha em favor de um Congresso Anarquista Nacional em 1926. A UAP sugere o dia l 9 de julho, data do aniversário da morte de Miguel Bakunin, com um ternário que o golpe militar de 28 de maio de 1926 não permitiu realizar.

Em 1923, registram-se dois acontecimentos históricos significativos no movimento anarquista português: discutiu-se pela primeira vez no Congresso de Alenquer a criação da União Anarquista Portuguesa e no de Évora a formação da FAI.

A FAI (Federação Anarquista Ibérica) nasceu de fato em 1923, na cidade de Évora. Foi na Conferência das Organizações Operárias dos dois países ibéricos (Portugal e Espanha), nesta cidade portuguesa. Estiveram presentes, representando a CNT, Manuel Pérez, J. Ferrer Alvarado e Sebastião Ciará; pela CGT, portuguesa, José da Silva Santos Arranha e Manuel Joaquim de Sousa.

Neste encontro, Manuel Joaquim de Sousa – com o apoio de Manuel Pérez – propôs, pela primeira vez, a unificação do Mov im ento Confederai e Libertário da Península Ibérica, englobando anarquistas espanhóis e portugueses.

Em maio de 1926, encontraram-se de novo Manuel Joaquim de Sousa e Manuel Pérez no Congresso de Marselha, o primeiro representava a CGT portuguesa e o segundo, a UAP portuguesa. Neste Congresso Armando Borghi representou a AIT e a USItaliana.

Ao todo compareceram mais de 30 delegados de grupos franceses e espanhóis.

O Congresso objetivava: a) reorganizar as forças anarquistas de Espanha e França; b) desfazer mal-entendidos em nível de organização; c) não reconhecer a chamada Aliança Revolucionária, que preconizava ligações com os políticos; d) fortalecer o Comitê Pró-Presos.

No final, Manuel Joaquim de Sousa e Manuel Pérez voltaram a propor a unificação do movimento ibérico e conseguem aprovação do seguinte documento:

1° O Congresso concorda em constituir a Federação Anarquista Ibérica, comunicando esta resolução à UAP de Portugal;

2° Que dada a situação anormal da Espanha, o comitê relacionador resida em Lisboa;

3° Que fica a sua constituição a cargo da UAP, podendo esta solicitar apoio e colaboração dos anarquistas espanhóis residentes naquela localidade;

4° Que o dito comitê convoque quando ache oportuno um Congresso Ibérico que dê caráter definitivo à dita Federação;

5° Que seja provisório o dito Comitê enquanto não se realiza o Congresso;

6° Que se consultem os anarquistas espanhóis para dar efetividade a estas resoluções.

Ao Congresso da UAP irá um delegado representando o movimento dos anarquistas espanhóis.

Os anarquistas espanhóis andavam então espalhados pelo mundo, para escapar às perseguições autoritárias em seus país. Por isso o Congresso de Marselha aprovou a formação da FAI, com sede em Lisboa, a ser ratificada em Congresso na capital portuguesa no próximo ano. Mal sabiam os congressistas que preparava-se nos porões das sacristias lusitanas uma revolução que viria a explodir no dia 28 de maio do mesmo ano com intenções de durar…

Por isso, não foi possível o Congresso de Lisboa, sendo então transferido para Valência e realizado no dia 25 de julho de 1927, com a presença de Francisco Quintal, do Comitê da UAP e diretor de O Anarquista, ratificando nesse encontro a FAI.

No livro História da FAI, o seu autor ignora o Congresso de Évora e os pais da proposição aprovada em Marselha: Manuel Joaquim de Sousa e Manuel Pérez.

Na mesma época o Comitê da CGT acordou que no lugar de A Batalha, suspensa pela polícia, seria publicada no Porto, Vanguarda Operária, dirigida por José Rodrigues Reboredo, mas como este estava muito “queimado” pela polícia, aparecia no cabeçalho o nome de Zacarias de Lima, e depois, José Augusto de Castro. Nesta mesma cidade já se publicava O Germinal, e se distribuía milhares de manifestos demonstrando todo o repúdio ao regime pró-fascista.

Ainda em 1929, componentes do grupo A Comuna publicam a revista mensal A Aurora, com redação na rua Espinheira, 131-A, tendo como responsáveis Abílio Ribeiro e Fernando Barros, e em Lisboa, a Federação de Transportes, composta pelos sindicatos marítimos de longo curso, pessoal de câmaras, “fugueiros”, marinheiros e moços pertencentes à CGT, publicavam O Argonauta sob a direção de Álvaro da Costa Ramos e José Francisco. O Argonauta estava encarregado de propagar os princípios libertários da Central Operária Portuguesa.

Mil e novecentos e trinta e dois foi um ano de muitos acontecimentos relevantes. Manifestações verbais na imprensa operária e libertária tinham praticamente os mesmos objetivos: pleitear melhorias sociais, com respeito às liberdades individuais e associativas e de repúdio ao governo clero-fascista que preparava uma enxurrada de leis asfixiantes.

Os patrões aproveitam-se da proteção policial para burlar regalias obtidas anteriormente e reduzir salários em troca de uma produção cada vez mais forte.

Assim acontecia na construção civil, nas indústrias têxteis, de cortiça, conserva, no campo, na pesca e nas minas. Em São Pedro da Cova, Gondomar, distrito do Porto, os mineiros desesperados lançam manifesto intitulado Vozes do Sub-Solo que vêm à Superfície Reclamar Justiça, denunciando a miséria em que viviam e a brutalidade empregada contra os mineiros pelo gerente Torquato. O manifesto tinha o aval da CGT e sua linguagem era revolucionária. Os bolchevistas ainda não se haviam infiltrado entre os trabalhadores que só se identificavam pelos dentes e os olhos, tudo mais era negro como a vida que levavam no fundo das minas.

Mas as perseguições não param. Em dezembro, agentes da polícia, sob o comando de Fernando Gouveia, prendem todos os membros do Comitê da FARP (Federação Anarquista da Região Portuguesa), formada nesse mesmo ano para substituir a Aliança Libertária Portuguesa.

Quem primeiro aceitou as determinações fascistas foram os Sindicatos dos Vidreiros da Marinha Grande, controlados pelo PCP, via José de Sousa – Armando Correia Magalhães -, que ali se infiltrou para transformar os sindicatos filiados à CGT no primeiro Sindicato Nacional dos Vidreiros, manejado pela ressuscitada Comissão Inter-Sindical servindo de minibraço mecânico manobrado por controle remoto desde a Profintern (Internacional Sindical Vermelha), apoiado no modelo clero-fascista de Salazar, acabando também derrotado.

Os trabalhadores confederados – salvo os da Marinha Grande que acabariam entrando na greve contrariando ordens do PCP – não aceitaram aderir até 31 de dezembro de 1933, como exigia o governo.

Para opor-se às leis salazarentas, a CGT criou um secretariado composto por Mário Castelhano, pela Seção das Federações, José Francisco, pela Seção das Uniões e Manuel Henrique Rijo, secretário administrativo com a incumbência de formar o Comitê de Ação, que ficou constituído por Acácio Tomás de Aquino, Custódio da Costa e Serafim Rodrigues.

O Secretariado e o Comitê de Ação estabeleceram relações nesse sentido e Mário Castelhano preparou um código cifrado para funcionar sem possibilidades de identificação se caísse nas mãos da polícia. Mas alguma coisa vazou e José Francisco é preso seguido do próprio Mário Castelhano, apontado à polícia por elementos ligados à CIS, que o conhecia como principal articulador do mov im ento insurrecional.

Faziam parte dos Comitês Regionais no Porto e Norte Dionísio e Mário Ferreira, da Carris; em Coimbra e Região do Centro, Arnaldo Simões Januário, José Ventura Paixão, João Gomes Jacinto, Bernardo Casaleiro Pratas, Joaquim Duarte Ferreira, Abílio da Conceição e José de Almeida; Leiria, Marcelino Mesquita; Covilhã, e Região da Beira, José Caetano e outro; Setúbal, José Bernardo; Portimão e Faro, Negrão Buisel, Antonio Faro e Joaquim Pedro; Silves, Domingos Passarinho, Manuel Pessanha e Abatino Luis da Rocha; no Barreiro, Manuel António Boto, Bernardino Xavier, António José Piloto, Sebastião Rosinha e José Ricardo; em Almada e Cova da Piedade, Joaquim Montes e Pedro Matos Felipe.

Acertados os meios de ação, foram distribuídas granadas e outras armas, inclusive na Marinha Grande.

A data combinada era 15 de janeiro. No dia 12, Mário Castelhano é apontado à polícia e preso. O autor da denúncia sabia que Castelhano detinha na sua mão grande parte do esquema que faria deflagrar o movimento e ao denunciá-lo à polícia desarticularia a CGT, beneficiando a CIS-PCP, que contava apenas com o apoio de meia dúzia de sindicatos só em Lisboa, um dos quais estava fora da greve geral.

A prisão levou ao pedido de adiamento pela CGT, a fim de apurar o que estava acontecendo. Não foi aceito pela CIS, em nome das “massas”, e no dia 17, quando tudo estava preparado para serem cortados cabos telefônicos, energia elétrica e bloqueados os meios de comunicação rodoviários, Ernesto Ribeiro, militante do PCP e da CIS, explode uma bomba na Estrada de Cheias e o exército e a polícia, alertados por esse gesto premeditado na véspera, entram de prontidão, ocupam os pontos estratégicos, impedem a deflagração da insurreição em Lisboa e prendem centenas de militantes.

Assim mesmo a insurreição faz-se sentir no Porto, no Alentejo, Algarve, Marinha Grande, Leiria e Coimbra, onde o corte das comunicações produziu maior impacto.

A Batalha e O Libertário anunciavam o falecimento do anarquista José Carlos de Sousa e Rebelião, dos exilados portugueses em Buenos Aires, chamava a lutar “por uma lusitânia livre e emancipada, integrada na Federação Comunista Anárquica dos Povos Ibéricos: Guerra de Morte à Ditadura! Viva a CGT Portuguesa! Viva a CNT Espanhola! Viva a Federação Anarquista Ibérica!”

O movimento libertário lusitano lutava clandestinamente em Portugal. Os exilados de Bruxelas atacavam a ditadura de Carmona e Salazar com o Boletim O Rebelde ; na Argentina e na Espanha, com Rebelião, e tinham ajuda de A Plebe e A Lanterna no Brasil, de Le Revel na Suíça, e LAdunata dei Refratari na América do Norte. O desdobramento da FARP e da CGT permitiu que gente decidida pudesse superar parcialmente as milhares de baixas e ainda apoiar com entusiasmo a Revolução Espanhola de 19 de julho de 1936.

Não obstante o seu esforço, os anarquistas perderam a “batalha”.

O governo por um lado e o PCP pelo outro ganharam a guerra… O proletariado, o povo na sua generalidade, perdeu inclusive a liberdade.

No meio de todos estes contratempos a Revolução Espanhola dava esperanças aos libertários portugueses. Os anarquistas menos conhecidos, escapados das caçadas policiais, ajudados por jovens, continuam a publicar clandestinamente A Batalha, Eco Metalúrgico, O Libertário e O Despertar das Juventudes, valendo-se de parte do material tipográfico de A Comuna, guardado por Júlio Gonçalves Pereira, Domingos Carreira e outros anarquistas do Norte.

A polícia andava tonta com o fôlego dos libertários. Presos e desbaratados seus grupos numa determinada região de Portugal, logo ressurgiam noutra com seus jornais, humildes mas valentes, como a Rádio Fantasma que tirava o sono dos agentes do serviço secreto da polícia. As notícias da rádio libertária desmentiam às da Rádio Clube Português, irritando os homens da lei.

Nem todos os militantes portugueses, dentro e fora do país concordavam com a participação dos anarquistas da CNT-FAI no governo revolucionário. Adriano Botelho e Vivaldo Fagundes expressam (em Portugal e no exílio) a opinião dos contrários.

Em que pesem as “atitudes colaboracionistas” de alguns e os “desgostos” de outros, no conjunto, a CGT-FARP-FAPE prestou relevante solidariedade aos companheiros espanhóis, enquanto durou a guerra de 1936-1939.

Pela Argentina andou José de Brito, Vivaldo Fagundes e no Brasil Neno Vasco, António Costa Carvalho, Tércio Miranda, Jorge Campeio, Pinto Quartin, Roberto das Neves, Pedro Ferreira da Silva, Inocêncio Câmara Pires, Fernando Neves, Manuel Lopes, Antonio Corrêa, Ramiro da Nóbrega, Diamantino Augusto, Luciano Trigo, António Trigo, Amilcar dos Santos, António Manuel Vinhais, Adelino Tavares de Pinho, Manuel Marques Bastos, o autor e outros nascidos em Portugal, apoiando como podiam o movimento libertário lusitano e, com a colaboração de anarquistas brasileiros, denunciavam no Brasil e na Europa as tiranias dos governos monárquicos, republicanos e fascistas.

No começo eram O Amigo do Povo e A Terra Livre. Mais tarde, A Plebe, A Lanterna e Ação Direta.

O livro Na Inquisição de Salazar saiu exatamente quando da chegada do “presidente” de Portugal, general Craveiro Lopes, ao Brasil, em 1957, e dois anos mais tarde A Fome em Portugal, ambos do autor.

Na década de 60, publicam-se O Retrato da Ditadura Portuguesa e Portugal Hoy, de Edgar Rodrigues. O primeiro, no Rio de Janeiro, e o segundo, por iniciativa de militantes das Juventudes Libertárias (JJ LL) de origem espanhola, exilados na Venezuela. Alguns deles comprometidos com o seqüestro do navio português Santa Maria, num rasgo de coragem para denunciar ao mundo “democrático” a ditadura ibérica de Franco e Salazar. O seqüestro teve a participação de anarquistas portugueses e espanhóis. Dezessete seqüestradores viveram alguns meses refugiados em Nossa Chácara, no Itaim Paulista, propriedade dos libertários do Brasil, onde deixaram um cão que respondia pelo nome de Salazar.

Octávio Alberola, escrevendo sobre o seqüestro do navio português Santa Maria, também fala da participação de anarquistas, chegando a afirmar que “o General Delgado teria tido contato com libertários exilados no Norte da África, para fornecer- lhes armas e identificações falsas”.

Ainda neste mesma década e na de 70, libertários ibéricos exilados associaram- se para denunciar o terror nas prisões portuguesas e espanholas aliciando intelectuais de várias tendências chegando a realizar mais de um congresso na América Latina e no Brasil.

Os jornais anarquistas Voluntad, do Uruguai; El Sol, da Costa Rica; CNT, de Toulouse, França; Tierra y Libertad, do México; Ruta, da JJ LL da França; Solidaridad Obrera, de Argel, Tunísia; Boletins da AIT; Combate, Habana, Cuba (antes de Fidel Castro); Boletim do Movimento Libertário Espanhol ; La Protesta, da Argentina; Cultura Proletária, de Nova Iorque; Boletim da CRIA; Freedom, da Inglaterra; La Obra, da Argentina; Espoir, de Toulouse, França, e dezenas de jornais e revistas deram apoio incondicional aos libertários lusitanos, inclusive ao autor, empenhado em tempo integral na reativação do movimento anarquista de Portugal, nas décadas de 50, 60 e 70.

Na Europa explode o movimento estudantil de 68, hasteando a bandeira negra do anarquismo.

O impacto sacudiu e movimentou as fileiras do antifascismo. Alguns jovens desertores, exilados na França e na Inglaterra, começaram a estudar o anarquismo, nascendo então grupos como O Clarão, em Londres, 1973; Nova Porta, em Paris, 1973; Portugal Libertário, Neaux, 1974; e A Idéia, Paris, 1974.

Os anarquistas também saíram em campo para manter sua posição de sempre, saudar a liberdade e comemorar o l 2 de maio.

Na rádio e na imprensa diária restabeleceram a verdade e aclararam dúvidas sobre o anarquismo que muitos pensavam morto. Formaram grupos e começaram publicando A Voz Anarquista, A Batalha, O Clarão, Portugal Libertário, O Despertar, O Meridional, O Abutre, O Pasquim, O Revoltado, Escaramuça, Os Iguais, Ação Direta, A Merda, O Satanaz, O Dia das Bruxas, O Rastilho, A Terra Livre, Abordagem, O Corvo, Criar Gota-a-Gota, Recortes do Arco da Velha, Miseráveis de Veludo e Seda, A Urtiga, A Lanterna Negra, 8 de Março, A Sementeira, Raiz e Utopia, A Revolta, A Ação, Guerra Social, Sabotagem, Gineceu, Anarquia, Pravda, Maldição, A Idéia, Utopia e outros periódicos de maior ou menor porte, carregados com ajuda de uma juventude empunhando o estandarte libertário.

Os frutos que esta sementeira vai produzir só o tempo nos mostrará.

O proletariado português não ficou alheio aos congressos da Primeira Internacional, à Tragédia de Chicago, ao esforço internacional para salvar Francisco Ferrer, Sacco e Vanzetti, militantes anarquistas presos e condenados à morte no Japão, na Rússia, na Espanha, na Itália e noutros países do nosso planeta.

Por sua vez os libertários portugueses também receberam solidariedade de A Plebe e Ação Direta, Brasil; Voluntad, Uruguai; Boletim de la Comisión de Relaciones de Federaciones Anarquistas da ALT-, Ruta, França; Tierra y Libertad, México; Combate, e Solidariedad Gastronômica, Cuba; La Protesta, Argentina e Perú; Organización Obrera, e Reconstruir, Argentina; El Sol, Costa Rica; Tiempos Nuevos, Le Combat Syndicalist França; CNT, Solidaridad Obrera, Espanha entre outros jornais, revistas e boletins.

A trajetória do anarco-sindicalismo e do anarquismo em mais de um século em terra lusa teve a colaboração de centenas, milhares de trabalhadores com seu trabalho braçal e seus tostões e um punhado de intelectuais emprestando-lhe o seu saber.

Como não é possível listar a totalidade dos militantes, vou relacionar alguns nomes com a intenção de – por amostragem – homenagear a todos: José Correia Pires, Adriano Botelho, Aurélio Quintanilha, Neno Vasco, Francisco Quintal, Jaime Brasil, Antonio Pinto Quartin, Jorge Quaresma, Sebastião de Almeida, Fernando Barros, Adolfo Lima, Hilário Marques, Júlio Gonçalves Pereira, Armindo Sarilho, José Augusto de Castro, Augusto Godinho, Joaquim Moreira da Silva, António Dias Fontes, Mário Ferreira, Cristiano de Carvalho, José Rodrigues Reboredo, Margarida Barros, Virgínia Dantas, Luis Portela, Aníbal Dantas, Raul Zacarias, António Libório, Arnaldo Simões Januário, Deolinda Lopes Vieira, Clemente Vieira dos Santos, Miquelina Sardinha, Serafim Cardoso Lucena, Manuel F. Correia, Jaime Rebelo, António José Ávila, Campos Lima, Darwin Castelhano, António Teixeira Júnior, Almeida Costa, José de Almeida, Adolfo de Freitas, José Vaz Rodrigues, Valentim Adolfo João, António Alves Pereira, Manuel Joaquim de Sousa, José Francisco, Américo Martins Vicente, Artur Modesto, Augusto Tiago Ferreira, Luís Redondo, Pedro Ferreira da Silva, Álvaro A. de Oliveira, Helena Gonçalves, Mário Azevedo, Soares Lopes, Abílio Ribeiro, João Martins, João Silva, Miguel Correia, Alberto Dias, António Aleixo, José Marques da Costa, José António Machado, Alexandre Belo, Adriano Pimenta, Luísa Adão, Lígia de Oliveira, Eduardo Pereira, José Benedey, Mário Castelhano, Custódio da Costa, Álvaro da Costa Ramos e Pedro Matos Felipe.

EDUCAÇÃO E CULTURA LIBERTÁRIA

Os anarquistas tinham em seus projetos de se educar libertariamente. Para tanto fundaram escolas dentro dos métodos da Escola Moderna de Francisco Ferrer (Espanha), de La Ruche de Sebastião Faure (França), formaram grupos de teatro social, populares, proferiam conferências, publicaram jornais, revistas e opúsculos; deram a seus filhos nomes de anarquistas mundialmente conhecidos, não os batizavam pela igreja, e o sepultamento de seus familiares não tinha a presença do padre, era civil.

Os anarquistas pretendiam testar seus métodos reeducando e desbloqueando as mentes embrutecidas por condicionamentos milenares, aplicados ao longo de muitas gerações humanas.

Na Espanha, Francisco Ferrer y Guardia por fundar a Escola Moderna em 1901, esteve preso, acusado de autor intelectual do movimento grevista com o qual nada tinha e acabou condenado à morte e fuzilado no Castelo de Montjuich, em Barcelona.

Contrariando os inquisidores espanhóis, as ideias de Ferrer voavam como uma revoada de pássaros invadindo nações, atingindo sorrateiramente as camadas mais evoluídas, intelectuais e operários, tocando-lhes a sensibilidade, penetrando em seus cérebros.

O proletariado português recebeu os ensinamentos de Ferrer com entusiasmo. Pela primeira vez era-lhe apresentado um autêntico hino de Amor e de Paz, em forma de ensino, partindo dos bancos escolares, com explicações como estas:

Não se educa integralmente o homem disciplinando a sua inteligência, esquecendo seus sentimentos e desprezando sua vontade. O homem na unidade do seu funcionamento cerebral, é complexo, tem várias facetas fundamentais, é uma energia que vê, afeto que repele ou recebe, concebendo voluntariamente e tornando em actos as leis do organismo do homem, que abre um abismo onde precisa existir, uma saudável e bela continuidade. E sem dúvida, elemento favorável ao divórcio entre o pensar e o sentir.

Muitos deles serão, indubitavelmente, potentes em suas faculdades mentais, possuindo riqueza de ideias, até compreendem a orientação real, dentro de um conceito formoso, que prepara a ciência da vida, do indivíduo e dos povos. Mas, com todas as suas desatenções egoístas, e as próprias conveniências dos seus fins… tudo isto mesclado com uma levedura de sentimentos tradicionais, formam uma camada impermeável em volta de seus corações, para que não se infiltrem neles ideias progressistas, e não se convertam num jogo de sentimentos propulsores, imediato determinante da conduta do homem.

Estas ideias fizeram desabar sobre a cabeça de Ferrer todas as maldições da Igreja, todo o rancor da burguesia, todo o ódio de Maura!

Em 1908, em vários pontos de Portugal, funcionavam escolas baseadas nos métodos de Ferrer.

As ideias de Ferrer vieram alertar professores, contagiar estudantes e intelectuais, suscitar discussões e debates. Nem todos aceitavam integralmente suas ideias pedagógicas, mas todos foram sacudidos por essa nova aurora! Uns contestavam, outros defendiam os métodos da Escola Moderna. As deformações seculares e os ensinamentos “oficiais” opunham-se à sua total aceitação, mas atingidos e contagiados pelas ideias do professor anarquista, muitos começaram a pedir a renovação do ensino da escola.

Jovens intelectuais, alinharam-se na defesa do ensino renovado e vieram colaborar na imprensa anarquista, Deolinda Lopes Vieira, escrevendo sobre “educação integral”, e o Dr. Egas Muniz afirmando: “A Escola Moderna, há-de ser o tipo para que hão-de tender as escolas do futuro”.

São ainda da imprensa da primeira década do nosso século, as linhas seguintes:

Inspirada nos princípios da Liga Internacional de Educação Racional de Infância, a que presidiu Ferrer, acaba de formar-se em Lisboa uma associação que se propõe criar e manter uma ou mais escolas em Lisboa e demais pontos do País, com base nos seguintes itens:

1 – Organizar e pôr a funcionar qualquer escola, aula ou simples disciplina, separadamente;

2 – A formar planos de estudo pelo método racional, já para escolas integrais, já para determinadas aulas ou disciplinas;

3 – A indicar ou subministrar a qualquer escola ou indivíduo, professores ensinando pelo referido método, que expliquem em algumas lições durante as horas ordinárias do ensino da respectiva disciplina.

4 – A fornecer cadernos, notas, quadros exemplificativos e orientadores do método racional para os professores seguirem e poderem executar mais facilmente esse método;

5 – A dar quaisquer informações que lhe sejam pedidas acerca do método a seguir numa determinada disciplina;

6 – E, finalmente, tendo em vista que a educação profissional é o melhor factor de desenvolvimento económico dos povos e a fornecer às associações de classe, sindicatos ou núcleos operários, planos de cursos profissionais de qualquer indústria.

Secretário Geral, Raul Pires; secretário técnico, José Simões Coelho.

As ideias do pioneiro, do idealizador e fundador da Escola Moderna, afetavam a “segurança do Estado”, abalavam as velhas estruturas, punham em “perigo” as mistificações da Igreja e derrubavam a fé! E, baseadas nesses interesses mesquinhos, o governo espanhol chamou seus escribas e ordenou-lhes que encontrassem “meios legais” para matar Francisco Ferrer!

Em Portugal, a exemplo de outros países, a imprensa libertária promoveu a divulgação das ideias de Ferrer e as manifestações de protesto contra os carrascos espanhóis, contra Dom Maura e o governo a quem servia de olhos fechados e ouvidos entupidos!

A Vida, semanário anarquista do Porto, conclama os portugueses a manifestar- se e sua voz teve eco, foi ouvida, atendida, e de norte a sul do país, o proletariado repudiou a medida vingativa, o gesto mesquinho e reacionário.

Em Setúbal, os anarquistas do Núcleo Propaganda Livre, dirigido pelos militantes Gerônimo Favas, Alexandre das Neves e Luiz Bernardino da Associação dos Marítimos, promovem manifestações públicas, tendo como oradores: Bartolomeu Constantino (pelo Núcleo), Martins dos Santos (pelo Germinal), Fernão Botto Machado, Xavier Correia, Francisco de Souza e o republicano Paulino de Oliveira. Os oradores colocaram em votação publica, moção de repúdio ao governo e ao clero espanhol.

No Porto, a campanha em favor de Ferrer foi iniciada pelos anarquistas, aderindo alguns intelectuais e estudantes.

No comício de 7 de Abril de 1907 falaram os seguintes oradores: Serafim Cardoso Lucena, Jaime Cortesão, Francisco Santos, Campos Lima, Pádua Correia, Amadeu da Silva, Leonardo Coimbra, Mem Vidal, Vasco José Moreira, Diamantino Leite, Deolindo Castro, Maneca Ferreira.

Ao final foi aprovada esta breve moção:

Considerando que o caso Ferrer e Nekeus sintetiza toda a Espanha autoritária e jesuítica;

Considerando que o ato de Nekeus não é senão a revelação dum espírito superior que se coloca fora da lei para se não colocar fora da Humanidade;

Considerando que Ferrer praticou apenas o nefando crime de propagar uma instrução racional e livre, e que todo o processo que lhe movem é só uma instigação dos clericais para inutilizar a Escola Moderna;

Os cidadãos portugueses, reunidos em comício público, protestam contra a inquisição espanhola, saudando nesses dois homens a Espanha consciente e livre.

Para os semeadores do anarquismo, o atraso do trabalhador representava um grande mal. Mal que principiava na pobreza económica e terminava na pobreza de raciocínio.

Tinha raízes muito profundas, seculares, com efeitos negativos na formação e desenvolvimento das personalidades operárias, no povo humilde em geral, sobre quem recaiam todas as desgraças, inclusive a de não saber ler.

Atrasados intencionalmente por condicionamentos físicos e psíquicos, tinha dificuldades em perceber as mentiras patronais e eclesiásticas, governamentais e divinas!

Boa parte aceitava com naturalidade a sua própria miséria e sua ignorância.

Partindo dessa calamidade pública, desse atraso mental transformado em praga de efeitos anestésicos, o elemento libertário principiou a fundar escolas livres com vistas a alfabetizar e a despertar o raciocínio do aluno, oferecendo-lhe um Mundo Novo que não podia conhecer, confinado como estava dentro dos estreitos limites das convivências da burguesia reinante.

Neste sentido, o jovem anarquista, Campos Lima, que acabava de formar-se em Direito, após uma visita à Comuna Escolar La Ruche, em Rambonillet, Paris (França), dirigida pelo anarquista Sebastião Faure, funda com alguns professores um grupo para pôr em prática, na terra lusa, os métodos libertários de ensino. Assim o grupo passou a usar o nome de Escola Livre de Coimbra, e esboçou o plano de educação e solidariedade que foi publicado nos jornais anarquistas da época, baseado nestas premissas: “A Escola Livre, que se destina à educação de crianças pobres, procurará evitar quanto possível os efeitos por que o ensino gratuito é ministrado em Portugal pelo estado. As crianças admitidas pela Escola Livre ficarão inteiramente a cargo do grupo que se propõe criá-las, recebendo gratuitamente não só o ensino como alimentação, vestuário e alojamento, procurando-se sempre por cuidados que as famílias pobres não poderiam ter, evitar o desequilíbrio entre o seu desenvolvimento intelectual e o desenvolvimento físico. Todas as crianças além duma instrução geral, aprenderão pelo menos um dos ofícios que mais estejam de harmonia com as suas aptidões e robustez.” E conclui: “A Escola Livre esforçar-se-á por que cada criança fique com um conhecimento o mais completo de si próprio e da vida em geral, habilitando-a a procurar os meios indispensáveis à conservação da existência: despertará em todos os sentimentos de independência e liberdade; desenvolverá entre elas o princípio do auxílio mútuo, base de toda a solidariedade, e não tendo a pretensão de formar sábios, dar-nos por satisfeita e cumpridora da missão, se conseguir formar homens de carácter.”

A iniciativa do anarquista Campos Lima é seguida pela jovem professora lida Adelina Jorge, que organizara um grupo de professoras e escritoras para fundar a Escola Maternal, cujo plano era “receber as crianças de ambos os sexos desde os três até aos sete anos. As mães ao saírem de manda para as suas ocupações, aí colocarão os seus filhos, onde, a par de uma prática de educação, segundo o sistema Froebel, encontrarão alimento, vestuário e em cada professora, em cada pessoa que a dirija, uma mãe carinhosa. A noite voltarão para suas casas. Ao completarem seis anos, passam as crianças para as aulas anexas às Escolas Maternais, aprendendo a ler e a escrever pelo método de João de Deus, o imortal amigo dos pequeninos, tendo sete anos, sairão da escola, ficando esta, sempre que possa a protegê-las”.

A Vida lembra que “imensa legião” vê na educação a mais possante alavanca do progresso e registra o Núcleo de Educação Anarquista que acabava de formar-se publicando a “Questão Social” de Campos Lima.

A Vida – volta e meia trazia à discussão a educação e o ensino visto e analisado pela ótica libertaria.

Em Junho de 1906, artigo da responsabilidade da direção do jornal evoca H. Spencer para dizer com ele: “Seria preciso dizer à criança o menos possível, e fazê-la achar o mais possível”.

A escola libertária atravessou dificuldades financeiras, inconstância de apoio, mas assim mesmo deixou marcas inapagáveis neste final da Monarquia.

Ainda no final de 1909, nascia o Grémio de Educação Racional com a participação de Adolfo Lima, Emílio Costa, Afonso Manaças, César porto, António Lima, Simões Coelho, António Evaristo, Araújo Pereira, Delfim Guimarães, Jaime Sabrosa, Jorge Fernandes, Raul Pires, Severino de Carvalho, A. Francisco dos Santos, Bernardo Sá Viana, Bento Faria, Carlos Antunes, Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Todi Gonçalves, Garibaldi Freire, Lucinda Tavares, cujos estatutos foram publicados na época.

O Grémio tinha como meta maior ajudar na ramificação de Escolas Modernas em Lisboa e arredores, o que levou adiante, apesar das alterações que a República introduziu no ensino a partir de 1910.

A Manhã depois de se dirigir Ao Leitor “saúda a todos os professores e propagandistas, a todas as associações e publicações periódicas que se interessam, advogam e patrocinam a causa da educação e instrução populares, afirmando a adesão a todas as iniciativas que tenham por fim a completa emancipação intelectual do povo”.

E mais, entra no terreno da ortografia que os acadêmicos insistiam em atualizar, simplificar e uniformizar a fim de eliminar o analfabetismo. Neno Vasco começou essa campanha em 1904-1905 em S. Paulo, Brasil, nas páginas de O Amigo do Povo, continuou em A Terra Livre, 1907-1908, adotando inclusive uma simplificação ortográfica que A Manhã defenderia em 1909.

Engajada nesta campanha de educação integral, Deolinda Lopes Vieira, escreveu em A Manhã : “As questões pedagógicas, pois, merecem e precisam de estudo, de desvelo e do dedicado amor de todos os homens e de todas as mulheres. Neste imenso oceano de maldade e hipocrisia, de violências e injustiças, de devassidão e de crimes em que a humanidade, a pouco e pouco, se vai submergindo e esforçadamente se debate, a educação da infância será, sem dúvida, a sua única tábua de salvação. Para que assim aconteça, torna-se indispensável e urgente uma profunda remodelação no ensino: uma revolução na maneira de ensinar presentemente. A fim de que a educação seja útil e benéfica, é preciso que ela vise conjuntamente o cérebro, o coração e a saúde e vigor físico da criança, isto é, que ela tenda a desenvolver normalmente as suas faculdades físicas, intelectuais e morais.” E concluía: “Eduquemos as novas gerações integral, racional e cientificamente, e uma humanidade nova composta de organismos robustos, de cérebros ilustrados, de corações afetuosos, de caracteres dignos, sucederá a esta humanidade de raquíticos, de egoístas, de seres sem dignidade e sem energia”.

Num trabalho paralelo ao das Escolas Livres, os libertários adotavam o Esperanto como sua língua universal, agilizavam o livre pensamento, a formação de ateneus, grupos naturalistas e de teatro social. Por este meio faziam propaganda de suas ideias ao vivo para as famílias proletárias e outros, bem como instruíam, treinavam na arte do diálogo social e ainda conseguiam recursos financeiros para prestar solidariedade humana e publicar jornais, revistas e brochuras anarquistas.

O teatro social começou com os socialistas que não tardaram a deixá-lo de lado na medida em que não rendia dividendos eleitorais.

Ao contrário, os ácratas davam-lhe amplo apoio: formaram grupos, escreviam peças e/ou traduziam para encenar e levar aos palcos das associações operárias e aos salões tradicionais.

No emaranhado de escolas dramáticas que se formavam e desapareciam depois da representação de algumas peças, até ao final da Monarquia duas se destacaram: a Sociedade de Teatro Livre e a Escola-Teatro Araújo Pereira. Estas duas agrupações chegaram à “profissionalização” e o último deu até aulas de arte de representar.

Para os libertários, todos os meios honestos eram válidos para fazer de cada indivíduo, um cidadão capaz de usar os braços e o cérebro, autogovernar-se. Proferiam centenas e centenas de conferências e palestras, publicaram opúsculos, jornais, revistas, e “mobilizaram” todos os seus militantes na sementeira anarquista.

Para uma melhor compreensão da coerência dessa tarefa, vamos recuar no tempo e alinhar alguns factos.

A Revolta divulgou textos valiosos e A Vida publicou em folhetim: In Limine; Nem Deus nem Pátria, do brasileiro Benjamim Mota; Anarquia e Comunismo, de C. Malato; Reflexões acerca do Individualismo de A Vida ; Humanitários, de A Vida; Propaganda e Crítica, de A Vida; Antes do Momento, de C. Malato; Na Sociedade Anarquista, de A Vida; No Café, de E. Malatesta; Autoridade e Anarquia, de Eduardo Maio; Os Crimes de Deus, de S. Faure; e O Salariato, de Pedro Kropotkine.

Recebeu ainda Enciclopédia Teatral, Amor e Ouro (teatro social), de Agostinho Guizardi; Os Esmagados (drama social), Rothem; A Humanidade, os jornais Antorcha (Argentina), Despertar, A Obra, O Construtor Civil, a revista de Trabajo, e os Boletins da Escola Moderna.

Esta imprensa revolucionária produziu a figura do autodidata, militante consciente e culto que tinha em sua moradia (quando a polícia não os levava, nas constantes buscas) obras dos grandes escritores liberais, livres pensadores, filósofos e anarquistas como: A Conquista do Pão, de P. Kropotkine; Um Século de Espectativa, P. Kropotkine; Evolução, Revolução e Ideal Anarquista, Elisée Reclus; A Sociedade Futura, Jean Grave; A Psicologia do Militar Profissional, Y. Prat; Porque Somos Anarquistas, S. F. Merline; Minha Defesa, Etievant; Entre Camponeses, E. Malatesta; Escravidão Antiga e Moderna, E. Arena; O Trabalho, E. Zola; Germinal, E. Zola; Judeus Cristãos e Maometanos, Felizardo Lima; A Religião ao Alcance de Todos, Ibarreta; Da Responsabilidade, Campos Lima; Anarquismo e Comunismo, C. Cafiero; Os Crimes de Deus, S. Faure; Evangelho de um Seminarista, Tomás da Fonseca; O Cristianismo e a Razão, Py y Margal; Peste Religiosa, J. Most; Anarquia, E. Malatesta; Pátria e Internacionalismo, A. Hamon; Determinismo e Responsabilidade, A. Hamon; Educação e Autoridade Paternal, Gerard; Na Sociedade Anarquista, Federico Urales; Humanidade dei Porvenir, Henrique Liuria; Boletins da Escola Moderna; O Auxílio Mútuo, P. Kropotkine; Em Volta de Uma Vida, P. Kropotkine; A Propriedade do Socialismo, C. de L.; Um Século de Expectativa, P. Kropotkine; Anarquia e a Igreja, E. Reclus; A Velhice do Padre Eterno, Guerra Junqueiro; Os Sermões da Montanha e Fátima, Tomás da Fonseca e obras de Oliveira Martins, Alexandre Herculano,

Heliodoro Salgado, Gomes Leal, Victor Hugo, José Ingenieres, Eugen Relgis, George Nicolai, Bertrand Russel, Darwin, E. Heckel e trocava conhecimentos com companheiros do Brasil, da Espanha, da França, da Itália, da Argentina, da Rússia da Inglaterra, dos Estados Unidos, da Alemanha, do Uruguai, do Japão e da Bélgica.

OS ANARQUISTAS ORGANIZAM-SE: A FAI

O processo de organização entre os vários grupos anarquistas portugueses desenvolveu-se devagar. A primeira e séria tentativa de realizar uma estrutura federal teve lugar em 1902, quando foi criada a Federação Socialista Livre, que coligou a acção de grupos de Lisboa, Almada, Setúbal, Algarve, Covilhã, Funchal, etc. Sucessivamente no Porto nasceu em 1907 uma estrutura federativa local que desde 1911 atribuiu-se o nome de Federação Anarquista da Região do Norte (FARN), activa até 1914. Em Lisboa, após várias tentativas, constituiu-se em 1911 a Federação Anarquista da Região Sul (FARS). E nasceram também a União Anarquista Algarvia (UAA) e a Aliança Anarquista de Coimbra (AAC), politicamente importantes, mas que tiveram una vida breve porque golpeadas por uma vaga repressiva.

O movimento anarquista português assumiu em pouco tempo um carácter comunista libertário, arraigando-se decididamente na luta de classes e as suas ideias difundiram-se no meio operário e em parte camponês mais rapidamente do que as ideias republicanas e socialistas. Relevância escassa tiveram, pelo contrário, as tendências individualistas. O influxo maior veio especialmente por Bakunin, Proudhon, Kropotkin, Malatesta, Tolstoj.

E nas lutas do proletariado, um papel de relevo foi desempenhado pelos anarco- sindicalistas, os quais sempre se opuseram ao parlamentarismo burguês, propugnando a greve geral expropriadora e insurreccional (por isso implicando as acções armadas) e o comunismo libertário como organização da sociedade futura.

Além de operários, camponeses e intelectuais, a propaganda anarquista não podia deixar indiferente a juventude estudantil, sobretudo a universitária, influindo sobre a inteligência e o sentimento. O centro estudantil com mais vitalidade formou-se na Universidade de Coimbra nos anos 1910-11, em particular, na Faculdade de Direito. A seguir, muitos separaram-se do anarquismo, mas muitos outros mantiveram as posições libertárias, enfrentando corajosamente as dificuldades e perseguições dos anos sucessivos (republicanas e fascistas), alguns pagando essa fidelidade com a vida.

Naturalmente, o processo de organização dos anarquistas portugueses ressentiu-se dos acontecimentos quer interiores quer exteriores, a começar pela revolução mexicana (entre os revolucionários anarquistas mexicanos lembram-se Ricardo Flores Magón, Práxedis Guerrero e Librado Rivera).

No início de 1914, aproveitando a detenção da maioria dos militantes anarco- sindicalistas, a Federação Operária de Lisboa (de tendência reformista) tentou organizar um congresso de nível nacional. A manobra não teve êxito porque, caído o governo, muitos prisioneiros foram libertados. O congresso teve lugar em Março de 1914, e acabou por levar à aprovação dos estatutos da União Operária Nacional (UON) que começou a obrar em Lisboa e Porto, com uma clara predominância dos anarquistas.

Na altura da Primeira Guerra Mundial os anarquistas lusitanos, na maioria, declaram-se publicamente contra o conflito, e alguns deles – depois da decisão do governo português de participar na guerra junto aos Aliados (isto para evitar que a Grã Bretanha, aproveitando a neutralidade portuguesa, pusesse as mãos nas colónias africanas de Portugal) escolheram a deserção. Delegados da UON em Abril/Maio de 1915 participaram no 1° Congresso Mundial contra a Guerra organizado em El Ferrol (Galiza) pelo Ateneo Sindicalista 1 desta cidade galega.

Contudo, não faltaram os anarquistas que escolheram uma posição favorável aos Aliados, como os colaboradores do jornal Germinal, Emílio Costa, Bernardino Sol, Augusto Machado, etc.

Em Setembro de 1919, em lugar da UON foi constituída a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) que abrangia uniões locais e federações de sindicatos. Como secretário-geral do Comité Confederai foi eleito o anarquista Manuel Joaquim de Sousa, coadjuvado por Miguel Garcia e José Carvalhal.

Os princípios e objectivos fundamentais da CGT eram:

• a organização federativa autónoma dos trabalhadores;

• a luta, fora de qualquer escola política ou doutrina religiosa, pela eliminação do sistema do salário e do patronado;

• a colectivização dos instrumentos de produção;

• as relações solidárias com todas as centrais dos trabalhadores do mundo;

• a eliminação do capitalismo.

O órgão de imprensa da CGT foi desde logo o famoso jornal A Batalha, mas as relações entre a confederação e o jornal não foram sempre fáceis, porque A Batalha por vezes adoptou atitudes consideradas “reformistas”.

Em Maio de 1923, na Primeira Conferência Anarquista da Região Portuguesa, que teve lugar em Alenquer com a participação de 45 delegados das várias regiões do país, foi constituída a União Anarquista Portuguesa (UAP). Eram tarefas da UAP trabalhar pela reunião dos grupos anarquistas e dar impulso à actividade de organização, propaganda e acção libertária em Portugal, ficando firme a autonomia de cada grupo aderente. Um comité de 5 membros cuidava das relações, da informação, dos inquéritos e das publicações da UAP (boletins, manifestos, etc.).

A UAP estava estruturada em três federações regionais (Norte, Centro e Sul) e foi a mais integrada e coerente organização anarquista de Portugal – apesar de não englobar a totalidade do movimento anarquista – chegando a federar até 40 grupos de militantes, e foi sujeito activo na fundação da Federação Anarquista Ibérica. A sua actividade acabou em 1927, sob a ditadura.

Após uma primeira fase de indiferença e cepticismo do meio libertário, a UAP fortaleceu-se, desenvolvendo uma acção muito intensa de organização e propaganda; entrou numa estreita ligação com as organizações operárias e a actividade sindical constituiu uma esfera fundamental para todos os seus grupos e federações que – através dos militantes sindicalistas – exerceram um influxo potente em favor da acção directa com alvos revolucionários.

Além disso, a UAP teve uma influência considerável entre os intelectuais e alguns membros da classe média pelo nível da sua acção de difusão das ideias anarquistas: conferências culturais e científicas, comícios, etc. Dentro da União formaram-se (ou aderiram a UAP) também grupos exclusivamente de camponeses, ou mineiros, ou mulheres.

Em 1923 em Évora teve lugar a Conferência das Organizações Operárias de Espanha e Portugal: estavam presentes, na qualidade de representantes da española CNT, Ácrato Lluhl, Manuel Pérez e Sebastián Clara; e como representantes da CGT José de Silva Santos Arranha e Manuel Joaquim de Sousa. Afirma Edgar Rodrigues que aquele acontecimento foi de importância fundamental para o anarquismo peninsular, porque do encontro nasceu o impulso de facto (se bem que não de jure ) para a criação duma federação ibérica.

Em concreto, parece que Manuel de Sousa, apoiado por Pérez, propôs a formação duma entidade que unisse os anarquistas da península. Por outra parte, na sua célebre Historia de la FAI o espanhol Juan Gómez Casas ignora no total esta reunião.

Com certeza pode-se dizer que em Évora se falou dos problemas logísticos ligados à constituição dum comité sindical peninsular entre CNT e CGT, na óptica duma confederação sindical ibérica. Mas quer em Espanha quer em Portugal tudo se precipitou: em Maio de 1924 a ditadura militar de Primo de Rivera ilegalizou a CNT, dando um golpe terminal ao projecto de confederação entre as duas entidades anarco- sindicalistas.

Depois, a esperança residual foi cancelada pelo golpe militar em Portugal que mudou cabalmente a situação da CGT, declarada fora-da-lei no ano seguinte. Militantes dos dois países foram forçados ao exílio na Europa ou América Latina.

Melhor êxito teve o projecto paralelo que se movia no sentido duma federação entre as entidades anarquistas nacionais da península: este processo começou realmente em 1923, quando espanhóis e portugueses estavam dotados das suas próprias organizações nacionais: o Comité Nacional de Relaciones Anarquistas e a UAP. Em Abril de 1925 teve lugar em Barcelona o congresso clandestino dos anarquistas espanhóis, onde o representante português da UAP apresentou o pedido formal de criar uma federação anarquista ibérica. O congresso decidiu a formação duma comissão mista hispano/portuguesa com a tarefa de avaliar a possibilidade de realização da proposta.

Por causa da repressão do governo de Primo de Rivera, o Comité de Relaciones Anarquistas deslocou-se a França, onde, em Maio de 1926, em Marselha, decorreu o congresso da federação local dos anarquistas de língua espanhola, com a presença também de representantes da AIT, da Unione Sindicale Italiana-USI (Armando Borghi) e da CGT (Manuel de Sousa).

Naquela ocasião foram aprovadas: a) a constituição da Federação Anarquista Ibérica; b) a implantação transitória da sede do Comité de Coordenação da FAI em Lisboa, por causa das condições adversas para os anarquistas em Espanha; c) a atribuição ao Comité da tarefa de convocar – quando possível – um Congresso Ibérico.

O golpe de estado militar do 28 de Maio de 1926 em Portugal – que deu início ao processo político do qual nasceu a longa ditadura de Salazar – entre outras coisas anulou também o Congresso Anarquista de Lisboa, que se realizou em Valência a 25 de Julho de 1927, data de fundação da FAI geralmente aceita. Neste congresso entre os delegados portugueses participava Francisco Quintal, do Comité da UAP e director do periódico O Anarquista. Para o Secretariado do Comité Peninsular da FAI foi nomeado Germinal de Sousa (filho de Manuel), com os espanhóis Ruiz e Jiménez.

Edgar Rodrigues julga que o “silêncio” sobre a origem não apenas espanhola da FAI – entidade que os anarquistas de Espanha se inclinam a considerar “coisa deles” – pode ser atribuída a um conjunto de causas, como a obra de destruição da memoria histórica e política desenvolvida por 48 anos de ditadura clerical/fascista em Portugal; a característica “atitude” espanhola relativa aos acontecimentos da revolução de 1936, os quais deram uma imagem em aparência só espanhola à FAI.

Na realidade, anarquistas portugueses participaram nas actividades da FAI (como nos plenários nacionais em 1933 e 1936) e – até quando foi possível – constituíram grupos libertários em Espanha, com participação, por exemplo, de Vivaldo Fagundes e José Rodrigues Reboredo.

* * *

Em Portugal nesse tempo, também os comunistas bolchevistas se organizavam. O anúncio da revolução russa foi recebido com muito entusiasmo pelos trabalhadores portugueses, sobretudo nos primeiros dois anos, ou seja até a começarem a chegar notícias sobre repressões sangrentas dos bolchevistas contra anarquistas e revolucionários. Em Portugal, muitos abriram os olhos, mas outros não, como afinal aconteceu noutros países europeus. Assim produziu-se uma fractura também entre os trabalhadores portugueses, pela acção dos bolchevistas locais.

Em 1919 foi publicado o periódico Bandeira Vermelha, dirigido pelo pseudo anarquista Manuel Ribeiro, e foi constituída a Federação Maximalista Portuguesa (FMP), caracterizada por uma ideologia que misturava bolchevismo, anarquismo e sindicalismo revolucionário: a sua função era preparar as bases operativas para a criação dum partido comunista em Portugal.

A FMP foi dissolvida em Dezembro de 1920, e a 6 de Março de 1921 em Lisboa constituiu-se o Partido Comunista Português (PCP). Como se vê, este partido não nasceu duma cisão no Partido Socialista (o caso mais comum na Europa), porém pela iniciativa de ex anarquistas e sindicalistas revolucionários.

O PCP tratou logo de encontrar saídas para o problema da sua penetração no interior do proletariado português organizado: o que devia pô-lo em contraposição clara e imediata com os anarquistas, particularmente dentro da CGT. Isto foi manifestado claramente por Jules Droz, delegado da III Internacional moscovita, que no seu relatório a Moscovo sobre Portugal escreveu:

Em relação à CGT, o trabalho no seio da mesma a favor da Internacional Sindical Vermelha é feito pela minoria sindical que mantém as melhores relações com o partido e que concluiu com ele um pacto pelo qual o partido deixa à minoria sindical o cuidado de conduzir a acção no seio da CGT. Mas o partido impõe aos seus membros a obrigação de aderirem à minoria sindical. Reserva-se o direito de formar em todos os sindicatos os seus núcleos comunistas que apoiarão a acção da minoria e farão propaganda comunista. O partido é o braço direito da minoria sindical e a sua acção é muito importante para a conquista da CGT.

Em teoria, o objectivo a atingir não parecia simples – no início dos anos 20 os comunistas tinham 50 militantes em Lisboa e 20 no Porto, enquanto os aderentes à CGT eram pelo menos 100.000 no país – mas não impossível.

Em 1921 a CGT rejeitou a proposta de adesão à Internacional dos Sindicatos Vermelhos de Moscovo, apesar das pressões e manobras da minoria bolchevista dentro da Confederação. Contudo, no meio dos trabalhadores portugueses a falta de informações amplas sobre a situação real da Rússia sob domínio bolchevista tinha criado uma confusão de ideias e de posições que o PCP pôde explorar para seu benefício.

O mito da revolução russa (o qual ao longo dum século temos conhecido os resultados devastadores entre os trabalhadores, europeus e não apenas) fez com que alguns passaram do anarquismo para o PCP pelo estímulo dum entusiasmo digno de melhor causa; mas outros fizeram-no sem pensar muito, por curiosidade ou empurrados por amigos e camaradas; outros ainda por rancores ou exigências de afirmação pessoal.

Em 1924 os sindicatos do PCP renovaram, por meio dum referendo, um esforço grosseiro a favor da adesão à Internacional dos Sindicatos Vermelhos, mas o resultado foi totalmente negativo para os bolchevistas: 104 sindicatos pronunciaram-se para o não e só 6 foram favoráveis à adesão.

Em Setembro de 1925 o Congresso de Santarém da CGT confirmou a adesão, ao contrário, à anarco-sindicalista Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT). A CGT ainda resistia bem, mas a sucessiva crise da República acabou por abrir o caminho à expansão do PCP no seio do proletariado português, e por derrubar a hegemonia da CGT.

1 Em nome da UON participaram: Mário Nogueira, Manuel Joaquim de Sousa, Serafim Cardoso Lucena, António Alves Pereira, Ernesto da Costa Cardoso; e Aurélio Quintanilha em nome das Juventudes Sindicalistas.

A ESCOLA MODERNA (Francesc Ferrer i Guàrdia)

Edição original:  La Escuela Moderna FORU-AIT Uruguai, 1960

Tradução e diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT Piracicaba, 2010

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Prefácio ao Ateneu ATENEU Diego Giménez (2010)

Os produtos imaginativos da inteligência, os conceitos a priori, toda a bagunça de elucubrações fantásticas tidas por verdade e impostas até o presente como critério diretor da condução do homem, vêm sofrendo, há muito tempo, mas em um círculo reduzido, a derrota por parte da razão e o descrédito da consciência.

A hora atual, o sol não tão somente cobre os cumes; estamos em luz quase meridiana que invade até os sopés das montanhas. A ciência, felizmente, já não é patrimônio de um reduzido grupo de privilegiados; suas irradiações benfeitoras penetram com mais ou menos consciência por todas as camadas sociais. Por todas as partes, dissipa os erros tradicionais; com o procedimento seguro da experiência e da observação, capacita os homens para que formem uma doutrina exata, um critério real, acerca dos objetos e das leis que os regulam, e em dois momentos presentes, com autoridade inabalável, incontestável, para o bem da humanidade, para que terminem de uma vez por todas os exclusivismos e os privilégios, se constitui na única diretora da vida do homem, procurando embebê- la em um sentimento universal, humano.

Contando com forças modestas, mas com uma fé racional poderosa e com uma atividade que está muito longe de esmorecer, ainda que lhe oponham circunstâncias adversas de todo tipo, foi constituída a Escola Moderna. Seu propósito é coadjuvar corretamente, sem complacência com os métodos tradicionais, o ensino pedagógico baseado nas ciências naturais. Este método novo, porém unicamente real e positivo, se espalhou por todos os âmbitos do mundo civilizado, e conta com inúmeros operários, superiores de inteligência e abnegados de vontade.

ÍNDICE

I. Explicação preliminar.

II. Senhorita Meunier.

III. Reponsabilidade aceita.

IV. Programa primitivo.

V. Coeducação de ambos os sexos.

VI. Coeducação das classes sociais.

VII. Higiene escolar.

VIII. O professorado.

IX. A renovação da escola.

X. Nem prêmio nem castigo.

XI. Laicismo e biblioteca.

XII. Conferências dominicais .

XIII. Resultados positivos.

XIV. Em legítima defesa.

XV. Ingenuidade infantil.

XVI. Boletim da Escola Moderna.

XVII. Fechamento da Escola Moderna

I. EXPLICAÇÃO PRELIMINAR

Minha participação nas lutas do século passado submeteram minhas convicções à prova. Revolucionário inspirado no ideal de justiça, pensando que a liberdade, a igualdade e a fraternidade eram o corolário lógico e positivo da República, e dominado pelo preconceito admitido de maneira generalizada, não vendo outro caminho para a consecução daquele ideal que a ação política, precursora da transformação do regime governamental, dediquei meus afãs à política republicana.

Minha relação com D. Manuel Ruiz Zorrilla, que poderia ser considerado como um centro de ação revolucionária, me pôs em contato com muitos revolucionários espanhóis e com muitos e notáveis republicanos franceses, e esta relação me causou muita desilusão: em muitos, vi egoísmos hipocritamente dissimulados; em outros que reconheci como mais sinceros, só encontrei ideais insuficientes; em nenhum reconheci o propósito de realizar uma transformação radical que, descendo até a profundez das causas, fosse a garantia de uma perfeita regeneração social.

A experiência adquirida durante meus quinze anos de residência em Paris, na qual presenciei as crises do boulangismo, do dreyfusismo e do nacionalismo, que constituíram um perigo para a república, me convenceram que o problema da educação popular não se encontrava resolvido, e, não estando na França, não poderia esperar que o republicanismo espanhol o resolvesse, já que sempre demonstrou um deplorável desconhecimento da importância capital que o sistema de educação tem para um povo.

Imagine o que seria da geração atual se o Partido Republicano Espanhol, depois do exílio de Ruiz Zorrilla, tivesse se dedicado a fundar escolas racionalistas ao lado de cada comitê, de cada núcleo livre-pensador ou de cada loja maçónica; se em lugar dos presidentes, secretários e membros dos comitês se preocupando com o emprego que ocupariam na futura república, tivessem trabalhado ativamente pela instrução popular; quanto teria se avançado durante trinta anos nas escolas diurnas para crianças e nas noturnas para adultos.

O povo se contentaria neste caso enviando deputados ao Parlamento que aceitassem uma Lei de Associações apresentada pelos monarquistas? O povo se limitaria a promover motins pela subida do preço do pão, sem se rebelar contra as privações impostas ao trabalhador por causa da abundância de supérfluos de que gozam aqueles que enriquecem com o trabalho aleio? O povo raquítico faria motins contra o consumo ao invés de se organizar para a supressão de todo o privilégio tirânico?

Minha situação como professor do idioma espanhol na Associação Fitotécnica e no G. O. da França me pôs em contato com pessoas de todas as classes, tanto em relação ao caráter próprio quanto ao de sua posição social, e, examinadas com o objetivo de ver o que prometiam a respeito de sua influência sobre o grande conjunto, só vi gente disposta tirar o melhor proveito possível da vida no sentido individual: uns estudavam o idioma espanhol para proporcionar um avanço em sua profissão, outros para estudar a literatura espanhola e se aperfeiçoar em sua carreira, outros ainda para proporcionar maior intensidade em seus prazeres ao viajar pelos países em que o idioma é falado.

Ninguém se chocava com o absurdo dominante da incongruência que existe entre o que se crê e o que se sabe, nem ninguém apenas se preocupava de uma forma racional e justa com a solidariedade humana, que deu a todos os que vivem em uma geração a participação correspondente no patrimônio criado pelas gerações anteriores.

Vi o progresso entregue a uma espécie de fatalidade, independente do conhecimento e da bondade dos homens, e sujeito a vai-e-vens e acidentes em que nem a ação da consciência nem da energia humanas têm participação. O indivíduo, formado na família com seus atavismos selvagens, com os erros tradicionais perpetrados pela ignorância das mães, e na escola com algo pior que o erro, que é a mentira sacramental imposta por aqueles que dogmatizam em nome de uma suposta revelação divina, entrava na sociedade deformado e degenerado, e não podia ser exigido dele, por uma reação lógica de causa e efeito, mais que resultados irracionais e perniciosos.

Meu tratamento para com as pessoas de minha relação, inspirado sempre na ideia de proselitismo, era direcionado a julgar a utilidade de cada uma do ponto de vista de meu ideal, e não tardei em me convencer de que não podia contar com os políticos que rodeavam D. Manuel para nada; no meu juízo, que me perdoem as exceções honrosas, eram arrivistas inveterados. Isto deu lugar a uma certa expressão que, circunstâncias graves e tristes para mim, a autoridade judicial quis explorar em meu prejuízo. D. Manuel, homem de alta visão e não suficientemente prevenido contra as misérias humanas, costumava me classificar como anarquista cada vez que me via expor uma solução lógica, e portanto sempre radical, oposta às vontades oportunistas e aos falsos radicalismos que os revolucionários espanhóis que lhe assediavam, e ainda exploram, apresentavam, assim como os republicanos franceses, que seguiam uma política de benefício positivo para a burguesia e que fugiam do que poderia beneficiar o proletariado deserdado, alegando se manter à distância de qualquer utopia.

Resumindo e explicando: durante os primeiros anos da restauração, havia homens conspirando com Ruiz Zorrilla que depois se manifestaram monarquistas e conservadores convictos; e aquele homem digno que mantinha vivo o protesto contra o golpe de Estado de 3 de janeiro de 1874, muito sincero e honesto, confiou naqueles falsos amigos, acontecendo o que com grande frequência acontece entre políticos, que a maioria abandonou a liderança republicana para aceitar um cargo elevado, e só pôde contar com a adesão daqueles que por dignidade não se vendem, mas que por preocupação carecem de lógica para elevar seu pensamento e sua energia para ativar sua ação.

A não ser por Asensio Vega, Cebrián, Mangado, Villacampa e poucos mais, D. Manuel havia sido o brinquedo de ambiciosos e especuladores disfarçados de patriotas durante anos.

Como consequência, limitei minha ação a meus alunos, escolhendo para meus experimentos aqueles que pareceram mais apropriados e melhor dispostos.

Com a percepção clara do fim a que me propunha, e em posse de certo prestígio que me dava a carreira de professor e meu caráter expansivo, cumpridos os meus deveres profissionais, eu falava com meus alunos sobre diversos assuntos: algumas vezes sobre costumes espanhóis, outras sobre política, religião, arte, filosofia, e sempre procurava corrigir os juízos emitidos no que pudessem ter de exagerados ou mal fundados, ou ressaltava o inconveniente que existe em submeter o critério próprio ao dogma de seita, de escola ou de partido, o que por desgraça está tão generalizado, e desse modo obtinha com certa frequência que indivíduos distanciados por seu credo particular, depois de discutir, se aproximassem e concordassem, pulando sobre crenças antes indiscutidas e aceitas por fé, por obediência ou por simples acatamento servil, e por isso meus amigos e alunos se sentiam felizes por terem abandonado um erro vergonhoso e terem aceitado uma verdade cuja posse eleva e dignifica.

A severidade da lógica, aplicada sem censura e com oportunidade, limou asperezas fanáticas, estabeleceu concórdias intelectuais e quem sabe até que ponto determinou vontades em sentido progressivo.

Livres-pensadores opostos à igreja mas que transigiam com as aberrações do Gênesis, com a moral inadequada do Evangelho e até com as cerimônias eclesiásticas; republicanos mais ou menos oportunistas ou radicais que se contentavam com a minguada igualdade democrática que contém o título de cidadania, sem afetar nem minimamente a diferença de classes; filósofos que fingiam ter descoberto a causa primordial entre labirintos metafísicos, fundando a verdade sobre uma vã fraseologia; todos puderam ver o erro alheio e o próprio, todos ou a maior parte se orientou em direção ao senso comum.

Levado pelas alternativas da vida para longe daqueles amigos, alguns me enviaram a expressão de sua amizade ao fundo do calabouço onde eu esperava a liberdade firme em minha inculpabilidade; de todos espero ação progressiva boa e eficaz, satisfeito por ter sido a causa determinante de sua orientação racional.

KRONSTADT (Alexander Berkman Emma Goldman)

Edições Originais :

Kronstadt. FORA-AIT. Buenos Aires, ano desconhecido.

The Kronstadt Rebellion. Der Sindikalist, Berlin, 1922.

My Disillusionment in Rússia. Doubleday, Page & Company. Nova Iorque, 1923.

Living My Life. Alfred A Knopf Inc. Nova Iorque, 1931.

Trotsky Protests Too Much. The Anarchist Communist Feeration. Glasgow, 1938.

La Verdad sobre Kronstadt. Barcelona, 2001.

Tradução e Diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT Piracicaba, 2011

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Prefácio ao Ateneu ATENEU Diego Giménez (2011)

0 movimento de Kronstadt foi espontâneo, sem preparativos preliminares e pacífico. A sua transformação em um conflito armado de fim trágico e sangrento foi devido unicamente ao despotismo da ditadura comunista.

A despeito de se dar conta do caráter geral dos bolcheviques, Kronstadt, não obstante, ainda tinha fé na possibilidade de uma solução amistosa. Crendo que o governo comunista viria à razão, lhe creditava um certo espírito de justiça e de liberdade.

A experiência de Kronstadt prova uma vez mais que o governo, o Estado – qualquer que seja seu nome e sua forma – é sempre o inimigo mortal da liberdade e da autodeterminação. o Estado não tem nem alma nem princípios. Ele tem um único objetivo: assegurar o poder e conservá-lo, a qualquer preço. Esta é a lição política de Kronstadt.

Porém o “triunfo” dos bolcheviques sobre Kronstadt carregava em suas entranhas a derrota do bolchevismo. Ele expõe o caráter verdadeiro da ditadura comunista.


KRONSTADT (Alexander Berkman Emma Goldman)

índice

A rebelião de Kronstadt (Alexander Berkman)

Kronstadt (Emma Goldman)

Trotsky protesta demais (Emma Goldman)

Posfácio: Lições e significância de Kronstadt. (Alexander Berkman)

Anexo: A verdade sobre Kronstadt (Stepan Petritchenko)

SINDICALISMO E ANARQUISMO (Kropotkin)

Edição original:  Syndicalism and Anarchism Black Flag, n. 210, p. 24-27 Londres, 1997

Tradução e diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT Piracicaba, 2010

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Prefácio ao Ateneu ATENEU Diego Giménez  (2010)

Para nós anarquistas este movimento não é nada de novo. Nós demos boas-vindas ao reconhecimento das correntes sindicalistas no programa da Associação Internacional dos Trabalhadores. Nós as defendemos, quando elas foram atacadas por revolucionários políticos alemães que viram neste movimento um obstáculo à captura do poder político. Nós aconselhamos os trabalhadores de todas as nações a seguirem o exemplo dos espanhóis que haviam mantido suas organizações sindicalistas em contato próximo com as seções da Internacional.

Desde esta época nós acompanhamos todas as fases do movimento operário com interesse e sabemos que seja como forem os conflitos vindouros entre o Trabalho e o Capital, restará ao movimento sindicalista abrir os olhos da sociedade em direção às tarefas que cabem aos produtores de toda a riqueza. É o único movimento que mostrará às pessoas que pensam uma rota para fora do beco-sem- saída que o desenvolvimento atual do capitalismo deu à nossa geração.

A seguinte é, até onde sabemos, a primeira tradução em inglês deste artigo, baseada na reimpressão alemã publicada em junho de 1977 por “Die Anarchistische Vereinigung Nordeutschland” (União Anarquista do Norte da Alemanha), que foi uma reimpressão direta do artigo de Der Syndicalist (Berlin) em 1908, originalmente de Les Temps Nouveaux. Foi traduzida por J. Goddard e revista por K. Guenther em 1994. Nós a estamos publicando porque, apesar de datada, ela ainda possui muitos pontos relevantes para hoje.


SINDICALISMO E ANARQUISMO

Piotr Alexeyevich Kropotkin

Por todos os lados, as pessoas sempre estão nos perguntando “O que é sindicalismo e qual é sua relação com o anarquismo?”. Aqui nós iremos fazer o nosso melhor para responder estas questões.

Sindicalismo é somente um novo nome para uma velha tática na qual os trabalhadores da Grã Bretanha se refugiaram com sucesso por bastante tempo: a tática da Ação Direta, e da luta contra o Capital na esfera econômica. Esta tática, de fato, era sua arma favorita. Não possuindo o direito de votar, os trabalhadores britânicos na primeira metade do século dezenove conquistaram importantes ganhos econômicos e criaram uma forte organização de união de ofícios por meio do uso de apenas esta arma, e até mesmo forçaram as classes dominantes a reconhecerem suas demandas com legislação (incluindo uma extensão da franquia).

Logo, a Ação Direta provou, tanto ao alcançar resultados econômicos como ao extrair concessões políticas, ser uma arma significativa na arena econômica.

Na Inglaterra, a influência desta ideia foi tão forte que nos anos de 1830 a 1831 Robert Owen tentou fundar uma grande união nacional, e uma organização de trabalhadores internacional, que, usando de ação direta, iria lutar contra o capital. Medos prematuros de perseguição pelo governo britânico o forçaram a abandonar esta ideia.

Isto foi seguido pelo movimento cartista, que usou as poderosas, extensas e parcialmente secretas organizações operárias da época para ganhar concessões políticas consideráveis. Neste momento, os trabalhadores receberam sua primeira lição em política: muito em breve eles perceberam que, apesar deles apoiarem a agitação política com todos os meios ao seu dispor, esta agitação não lhes conquistava nenhuma vantagem econômica além daquelas que eles mesmos forçavam os empregadores e legisladores a concederem através de greves e revoltas. Eles perceberam o quão inútil era esperar que sérias melhorias para suas condições de vida chegassem do parlamento.

Os trabalhadores franceses chegaram a exatamente a mesma conclusão: a revolução de 1848 que tinha dado à França uma república os convenceu da completa improficuidade da agitação política e até mesmo das vitórias políticas; as únicas mudanças fundamentais às condições de vida dos trabalhadores são aquelas que as classes dominantes são forçadas a conceder por Ação Direta.

A revolução deu aos franceses outra lição. Eles viram o quão completamente desamparados estavam quando se tratava de descobrir a respeito de novas formas de produção que assegurariam para os trabalhadores a sua parte e trariam o fim de sua exploração pelo Capital. Eles viram este desamparo tanto na Comissão de Luxemburgo, que se reuniu entre Abril e Junho de 1848, quanto na Câmara especial escolhida para estudar esta questão em 1849, da qual mais de 100 deputados social- democratas participaram. A partir disto, eles perceberam que os próprios trabalhadores tinham que desenvolver as vias principais da revolução social, as quais eles devem trilhar se quiserem ter sucesso.

O uso da ação direta pelo Trabalho contra o Capital e a necessidade de que os próprios trabalhadores desenvolvam as formas de organização econômica com as quais seja eliminada a exploração capitalista: estas foram as duas lições principais recebidas pelos trabalhadores, especialmente nos dois países com a indústria mais desenvolvida.

Quando, então, nos anos 1864/66 a velha ideia de Robert Owen foi percebida e uma organização internacional de trabalhadores foi estabelecida, esta nova organização adotou ambos os princípios fundamentais acima. Como a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) tinha sido trazida à existência por representantes das uniões de ofícios britânicas e por trabalhadores franceses (principalmente seguidores de Proudhon), que tinham comparecido à segunda Exibição Mundial em Paris, ela proclamou que a emancipação dos trabalhadores deve ser a tarefa dos próprios trabalhadores e que daí em diante os capitalistas teriam que ser combatidos com greves massivas, apoiadas internacionalmente.

Em seguida a isto, os primeiros dois atos da Internacional foram duas destas greves massivas, causando uma enorme agitação na Europa e um medo salutar pela classe média: uma greve em Paris, apoiada pelas uniões de ramo britânicas, a outra no ramo de construção genovês, apoiada por trabalhadores franceses e britânicos.

Além disso, os congressos dos trabalhadores da Internacional não mais se preocupavam em discutir as besteiras com as quais as nações eram entretidas por seus governantes em instituições parlamentares. Eles discutiram a questão fundamental da reconstrução revolucionária da sociedade e colocaram em prática aquela ideia que desde então provou ser tão frutífera: a ideia da Greve Geral. Quanto a qual forma política a sociedade tomaria após a revolução social, as federações dos países latinos se posicionaram abertamente contra a ideia de Estados centralizados. Elas enfaticamente se declararam a favor de uma organização baseada em uma federação de comunas livres e regiões agrícolas, as quais desta forma se livrariam da exploração capitalista e por esta base, por base de combinação federal, formariam unidades territoriais e nacionais maiores.

Ambos os princípios básicos do sindicalismo moderno, a ação direta e a elaboração cuidadosa de novas formas de vida social, estão baseados nas federações de sindicatos: desde o começo, ambos eram os princípios condutores da AIT.

Mesmo então dentro da Associação, entretanto, havia duas correntes de opinião diferentes no tocante à atividade política que dividiam os trabalhadores de diferentes nações: a latina, e a alemã.

Os franceses dentro da Internacional eram principalmente apoiadores de Proudhon, cuja ideia principal era como se segue: a remoção do aparato estatal burguês, para ser substituído pela própria organização operária de uniões de ramo, que regularão e organizarão tudo que é essencial para a sociedade. São os trabalhadores que têm que organizar a produção das necessidades vitais, a justa e imparcial troca de todos os produtos do trabalho humano, e sua distribuição e seu consumo. E se eles fizerem isso, nós veremos que restará muito pouco para o Estado fazer. A produção de todas as coisas que são necessárias, e uma mais equitativa troca e consumo de produtos, são problemas que somente os trabalhadores podem resolver. Se eles podem fazer tudo isto, o que resta a ser feito pelos governos existentes e sua hierarquia de funcionários? Nada que os trabalhadores não possam organizar eles mesmos.

Mas entre os fundadores franceses da Internacional havia aqueles que tinham lutado pela república e pela comuna. Eles insistiam que a atividade política não deve ser ignorada e que ela não é desimportante para os proletários quer eles vivam sob uma monarquia, uma república ou uma comuna. Eles sabiam por sua própria experiência que o triunfo dos conservadores ou dos imperialistas significava repressão em todas as direções e um enorme enfraquecimento do poder dos trabalhadores de combater a política agressiva dos capitalistas. Eles não eram indiferentes à política, mas eles se recusavam a ver um instrumento para a libertação da classe operária na agitação eleitoral ou em sucessos, ou em todo o vai e vem dos partidos políticos. De acordo com isso, os trabalhadores franceses, espanhóis e italianos concordaram em inserir as seguintes palavras nos estatutos da Internacional: “Toda atividade política deve ser secundária à econômica”.

Entre os trabalhadores britânicos havia um número de cartistas que apoiavam a luta política. E os alemães, diferentemente dos franceses, ainda não haviam tido a experiência de duas repúblicas. Eles acreditavam no parlamento vindouro do Reich alemão. Mesmo Lasalle – como ele é agora conhecido – depositava alguma fé em um Kaiser socialista da Alemanha unida que ele via se levantar.

Por causa disto, nem os britânicos nem os alemães queriam eliminar a ação parlamentar, na qual eles ainda acreditavam, e inseriram nos textos ingleses e alemães dos mesmos estatutos: “Como um meio, toda atividade política deve ser secundária à econômica”.

Logo foi ressuscitada a velha ideia da confiança em um parlamento burguês.

Depois que a Alemanha triunfou sobre a França na guerra de 1870-71 e 35.000 proletários, a nata da classe operária francesa, foram assassinados depois da queda da Comuna pelos exércitos da burguesia, e quando a AIT havia sido banida na França, Marx e Engels e seus apoiadores tentaram reintroduzir a atividade política na Internacional, na forma de candidatos operários.

Como resultado, uma cisão ocorreu na Internacional, que até então havia levantado esperanças tão altas entre os proletários e causado tanto pavor entre os ricos.

As federações dos países latinos, da Itália, da Espanha, do Jura e da Bélgica Oriental (e um pequeno grupo de refugiados da França) rejeitaram o novo rumo. Elas formaram suas próprias uniões separadas e desde esta época se desenvolveram mais e mais na direção do sindicalismo revolucionário e do anarquismo, enquanto a Alemanha tomou a frente no desenvolvimento do Partido Social Democrata, ainda mais depois que Bismarck introduziu o direito universal de votar em eleições parlamentares após a vitória na guerra do recém estabelecido Reich alemão.

Quarenta anos agora se passaram desde esta divisão na Internacional e nós podemos julgar o resultado. Mais tarde, nós vamos analisar as coisas em mais detalhes mas mesmo agora nós podemos apontar para a completa falta de sucesso durante estes 40 anos daqueles que depositaram sua fé no que eles chamaram de a conquista do poder político dentro dos Estados burgueses existentes.

Ao invés de conquistar este Estado, como eles acreditavam, eles foram conquistados por ele. Eles são suas ferramentas, ajudando a manter o poder da classe alta e média sobre os trabalhadores. Eles são as ferramentas leais da Igreja, do Estado, do Capital e da economia de monopólio. Mas por toda a Europa e a América nós estamos vendo um novo movimento entre as massas, uma nova força no movimento operário, uma que volta aos velhos princípios da Internacional, da ação direta e da luta direta dos trabalhadores contra o Capital, e os trabalhadores estão percebendo que eles sozinhos devem se libertar – não o parlamento.

Obviamente, isto ainda não é anarquismo. Nós vamos mais longe. Nós afirmamos que os trabalhadores só irão atingir sua libertação quando eles se livrarem da percepção da centralização e da hierarquia, e do engodo dos funcionários nomeados pelo Estado que mantêm a lei e a ordem – lei feita pelos ricos direcionada contra os pobres, e ordem significando a submissão dos pobres perante os ricos. Até que tais fantasias e delírios tiverem sido jogados ao mar, a emancipação dos trabalhadores não será alcançada.

Mas durante estes 40 anos, os anarquistas, junto com aqueles trabalhadores que tomaram sua libertação em suas próprias mãos, fazendo uso da Ação Direta como o meio preparatório para a batalha final do Trabalho explorado contra – até o dia atual – o triunfante Capital, lutaram contra aqueles que entreteram os trabalhadores com campanhas eleitorais infrutíferas. Todo este tempo eles estiveram ocupados entre as massas trabalhadoras, para acordar nelas o desejo de desenvolver os princípios para a tomada das docas, das ferrovias, das minas, das fábricas, dos campos e dos armazéns pelos sindicatos, para não serem mais administrados nos interesses de uns poucos capitalistas mas no interesse de toda a sociedade.

Foi demonstrado como na Inglaterra desde os anos 1820-30, e na França em seguida à malsucedida revolução política de 1848, os esforços de uma importante seção dos trabalhadores estiveram direcionados para combater o Capital usando a Ação Direta, e com a criação da organização operária necessária para isto.

Também foi demonstrado como, entre 1866 e 1870, esta ideia foi a mais importante dentro da recém estabelecida Associação Internacional dos Trabalhadores mas também como, em seguida à derrota da França pela Alemanha em 1871 e à queda da Comuna de Paris, os elementos políticos tomaram a dianteira dentro da Internacional através deste colapso de suas forças revolucionárias e temporariamente se tornou o fator decisivo no movimento operário.

Desde esta época, ambas as correntes se desenvolveram gradualmente na direção de seus próprios programas. Partidos trabalhistas foram organizados em todos os Estados constitucionais e fizeram tudo em seu poder para aumentar o número de seus representantes parlamentares o mais rápido possível. Desde bem no começo poderia ser visto como, com representantes que corriam atrás de votos, o programa econômico se tornaria gradualmente menos importante; no fim estando limitado a completar as limitações triviais nos direitos dos empregadores, daí em diante dando ao sistema capitalista nova força e ajudando a prolongar a antiga ordem. Ao mesmo tempo, aqueles políticos socialistas que competiram com os representantes do radicalismo burguês pela captura dos votos dos trabalhadores ajudaram, mesmo contra suas intenções, a amaciar o caminho para uma vitoriosa reação ao redor da Europa.

Toda sua ideologia, as ideias e os ideais que eles espalharam entre as massas, estava focada em um objetivo. Eles eram apoiadores convictos da centralização estatal, se opunham à autonomia local e à independência de pequenas nações e planejavam uma filosofia de história para apoiar suas conclusões. Eles despejavam água fria nas esperanças das massas enquanto pregavam para elas, em nome do “materialismo histórico”, que nenhuma mudança fundamental em uma direção socialista seria possível se o número de capitalistas não diminuísse através de competição mútua. Completamente fora de suas observações está o fato que é tão óbvio em todos os países industrializados hoje: que os britânicos, os franceses, os belgas e os outros capitalistas, por meio da facilidade com que eles exploram países que não possuem uma indústria desenvolvida própria, hoje controlam o trabalho de centenas de milhões de pessoas na Europa Oriental, na Ásia e na África. O resultado é que o número dessas pessoas nos principais países industrializados da Europa que vivem do trabalho dos outros não decresce gradualmente de maneira alguma. Longe disso. De fato, ele aumenta em uma taxa constante e alarmante. E com o crescimento deste número, o número de pessoas com um interesse na capitulação do Estado capitalista também aumenta. Finalmente, aqueles que falam mais alto da agitação política para a conquista do poder nos Estados existentes se opõem ferozmente a qualquer coisa que possa danificar suas chances de conquistar o poder político. Qualquer um que se atrevesse a criticar sua tática parlamentar era expulso dos congressos socialistas internacionais. Eles desaprovavam as greves e mais tarde, quando a ideia da Greve Geral penetrava até mesmo em seus próprios congressos, eles combatiam a ideia ferozmente com todos os meios ao seu dispor.

Tais táticas foram perseguidas por completos 40 anos, mas somente hoje se tornou claro para todo mundo que os trabalhadores ao redor da Europa já tiveram o bastante. Com desgosto, muitos trabalhadores vieram a rejeitá-las. Esta é a razão por que nós agora estamos ouvindo falar tanto sobre “sindicalismo”.

Entretanto, durante estes 40 anos, a outra corrente, a que defende a luta direta da classe trabalhadora contra o Capital, também cresceu e se desenvolveu; ela se desenvolveu apesar da perseguição governamental de todas as direções e a despeito de denúncia por políticos capitalistas. Seria interessante conceber o desenvolvimento constante desta corrente e analisar suas conexões intelectuais assim como pessoais com os partidos social-democratas por um lado, e com os anarquistas por outro. Mas agora não é a hora para a publicação deste trabalho; com todas as coisas expostas é talvez melhor que ele não tenha sido escrito ainda. A atenção seria voltada para a influência de personalidades, quando é à influência das maiores correntes do pensamento moderno e ao crescimento da autoconfiança entre os trabalhadores da América e da Europa, uma autoconfiança ganhada independentemente de líderes intelectuais, que uma atenção especial deve ser direcionada para que se seja capaz de escrever uma história real do sindicalismo.

Tudo o que nós agora temos a dizer sobre isso são os simples fatos de que de maneira completamente independente dos ensinamentos dos socialistas, onde as massas trabalhadoras estavam reunidas nos principais centros industriais, que estas massas mantiveram a tradição de suas organizações de ofício de tempos anteriores, organizando-se tanto abertamente quanto secretamente, enquanto durante o tempo inteiro cresciam em força, para frear a exploração e a arrogância crescentes dos empregadores. Ao mesmo tempo em que as massas trabalhadoras organizadas se tornavam maiores e mais fortes, se tornando cientes da luta principal que desde o tempo da grande revolução francesa tem sido o verdadeiro propósito da vida dos povos civilizados, suas tendências anticapitalistas se tornaram mais claras e mais certas.

Durante os últimos 40 anos, anos nos quais os líderes políticos em diferentes países usaram os meios mais amplos o possível para tentar prevenir todas as revoltas operárias e para suprimir qualquer uma de caráter ameaçador, nós vimos as revoltas operárias se estenderem para ainda mais além, se tornando sempre mais poderosas, e os objetivos operários sendo expressados mais e mais claramente. Sempre crescentemente, elas perderam o caráter de meros atos de desespero; em qualquer momento em que temos contato com os trabalhadores, mais e mais nós ouvimos a opinião prevalente expressada, que pode ser resumida nas poucas palavras seguintes: “Abram caminho, cavalheiros da indústria! Se vocês não conseguem administrar as Indústrias de modo que possamos ganhar a vida e achar nelas uma existência segura, então fora com vocês! Fora, se vocês têm a visão tão míope e são incapazes de chegar a uma compreensão sensível um com o outro sobre cada novo turno de produção que lhes promete o maior lucro instantâneo, que vocês devem atacar sem considerarem o malefício ou a utilidade de seus produtos como um rebanho de ovelhas! Fora com vocês, se vocês são incapazes de construir sua riqueza de outro modo além do preparo de guerras infindáveis, desperdiçando um terço de todos os bens produzidos por cada nação em armamentos úteis apenas para roubar outros ladrões! Fora, se de todas as descobertas maravilhosas da ciência moderna vocês não aprenderam a ganhar suas riquezas de outro modo além da pobreza à qual um terço da população dos grandes municípios e cidades de nossos países excepcionalmente ricos está condenado! Fora, se esta é a única maneira com que vocês podem administrar a indústria e o comércio! Nós trabalhadores saberemos melhor como organizar a produção, se nós primeiro conseguirmos erradicar esta peste capitalista!”

Estas foram as ideias disputadas e discutidas nos meios domésticos operários ao redor de todo o mundo civilizado; eles provieram o terreno fértil para as revoltas operárias tremendas que nós vemos ano após ano na Europa e nos Estados Unidos, na forma de greves por estivadores, ferroviários, mineiros e operários de moinhos etc. até finalmente tomarem a forma da Greve Geral – logo crescendo em grandes lutas comparáveis com os ciclos poderosos da força da natureza, e perto das quais as pequenas batalhas nos parlamentos parecem uma brincadeira de criança.

Enquanto os alemães celebravam seu sucesso eleitoral sempre crescente com bandeiras vermelhas e desfiles com tochas, o povo ocidental experiente quietamente trabalhou em uma tarefa muito mais séria: a da organização interna dos trabalhadores. As ideias com as quais estes últimos povos se ocuparam foram de uma natureza muito mais importante. Eles se perguntaram “Qual será o resultado do inevitável conflito mundial entre o Trabalho e o Capital?”, “Que novas formas de vida industrial e organização social este conflito criará?”.

E esta é a verdadeira origem do movimento sindicalista, que os políticos ignorantes de hoje acabaram de descobrir como algo novo para eles.

Para nós anarquistas este movimento não é nada de novo. Nós demos boas- vindas ao reconhecimento das correntes sindicalistas no programa da Associação Internacional dos Trabalhadores. Nós as defendemos, quando elas foram atacadas por revolucionários políticos alemães que viram neste movimento um obstáculo à captura do poder político. Nós aconselhamos os trabalhadores de todas as nações a seguirem o exemplo dos espanhóis que haviam mantido suas organizações sindicalistas em contato próximo com as seções da Internacional. Desde esta época nós acompanhamos todas as fases do movimento operário com interesse e sabemos que seja como forem os conflitos vindouros entre o Trabalho e o Capital, restará ao movimento sindicalista abrir os olhos da sociedade em direção às tarefas que cabem aos produtores de toda a riqueza. É o único movimento que mostrará às pessoas que pensam uma rota para fora do beco- sem-saída que o desenvolvimento atual do capitalismo deu à nossa geração.

Não é preciso dizer que os anarquistas nunca imaginaram que tinha sido eles quem havia provido o movimento sindicalista com o entendimento de suas tarefas com relação à organização da sociedade. Eles nunca alegaram absurdamente serem os líderes de um grande movimento intelectual conduzindo a humanidade na direção de sua evolução progressiva. Mas o que nós podemos alegar é termos reconhecido desde o princípio a imensa importância daquelas ideias que hoje constituem os principais objetivos do sindicalismo, ideias que na Inglaterra foram desenvolvidas por Godwin, Hodgkin, Grey e seus sucessores, e na França por Proudhon: a ideia de que as organizações operárias para a produção, a distribuição e a troca devem tomar o lugar da exploração capitalista e do Estado existentes, e que é o dever e a tarefa das organizações operárias desenvolver a nova forma da sociedade.

Nenhuma destas duas ideias fundamentais são nossa invenção; nem de nenhuma outra pessoa. A própria vida as ditou à civilização do século dezenove. E agora nosso dever transformá-las em realidade. Mas nós estamos orgulhosos de as termos entendido e defendido naqueles anos sombrios quando políticos social- democratas e pseudofilosofias as atropelavam, e estamos orgulhosos de nos mantermos fieis a elas, tanto hoje quanto naquele momento.

A ABOLIÇÃO DO TRABALHO E OUTROS MITOS (NEALA SCHLEUNING)

Edição Original: The Abolition of Work and Other Myths Kick it Over, n. 35 Toronto, 1995

Ilustração da capa: autoria desconhecida

Tradução e Diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT 2011

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A ABOLIÇÃO DO TRABALHO E OUTROS MITOS

Certo. Então todo mundo odeia trabalho. A aversão ao trabalho parece ser endêmica através de culturas e através do tempo. Em muitas culturas, visões de liberdade do trabalho abundam. A vida descuidada do gafanhoto que consome sem armazenar bens para o inverno continua a nos atrair, e a vida da monótona e pedestre formiga operária atrai nosso escárnio. Tanto em tempos antigos quanto na cultura contemporânea, o potencial da máquina em aliviar nosso trabalho também provou ser fascinante. O poema épico do povo finlandês, o Kalevala, por exemplo, inclui uma estória sobre uma máquina maravilhosa, a Sampo, que interminavelmente produz riqueza. Ao longo da história das culturas ocidentais, tais máquinas de movimento perpétuo detinham uma fascinação contínua.

Apesar destas deliciosas fantasias de ócio, prazer infinito e riqueza, todas as culturas também trataram da necessidade de o indivíduo trabalhar. Viver é trabalhar e muito da vida é gasto na atividade econômica. Seja o trabalho visto como um meio de alcançar algum peso espiritual ou salvação individual ou como uma maldição por transgressões prévias, todas as grandes religiões do mundo, por exemplo, repreendem o folgado, e algumas elevam o trabalho ao nível de um primeiro princípio. A maior parte do pensamento político também ou supõe o valor do trabalho, ou o requer, pelo bem coletivo. A sobrevivência básica é, claro, um pré-requisito quando pensamos a respeito da necessidade de trabalhar.

Quase desde seu início, o pensamento anarquista também refletiu duas filosofias distintas do trabalho: uma escola convoca a abolição do trabalho, a outra supõe a necessidade do trabalho. Para a última escola, a questão política central se torna quem controla o processo de trabalho e seus produtos ou seus resultados. Anarquistas também se dividem quanto aos méritos relativos da tecnologia, defendendo uma de três alternativas: uma aceitação desavergonhada do avanço tecnológico ao serviço do trabalhador; uma convocação primitivista ao retorno à natureza totalmente livre de tecnologia; ou uma agressiva hostilidade ludita frente à tecnologia e ao domínio da máquina. Eu gostaria de explorar brevemente várias destas posições.

O argumento para a abolição do trabalho pode tomar uma de diversas rotas: uma crítica ao trabalho que entorpece a mente criado pela divisão do trabalho; uma rejeição da tecnologia e um retorno a um estilo de vida mais simples, livre das restrições do controle centralizado pelo capital e pela máquina; uma apropriação do tempo “do chefe” para trabalho pessoal; ou uma recusa direta ao trabalho e a apropriação pessoal do trabalho de outrem através de ocupação, roubo etc. Há problemas sérios com alguns dos argumentos pela abolição do trabalho. Na melhor das situações, eles são maldirecionados e tolos. Na pior, eles são contraproducentes à vida da comunidade e pura e simplesmente irresponsáveis.

1) A ideia de não trabalhar é simpática, mas simplista e não realista. Se a crítica do que nós viemos a chamar de “trabalho” é feita com a intenção de encorajar a resistência à exploração do trabalho pelo sistema de trabalho assalariado, o objetivo é bom. Mas junto com a crítica deve vir um plano responsável para fazer com que o trabalho da sociedade a longo prazo seja cumprido.

2) A recusa a trabalhar é arrogante, e provavelmente também um pouco infantil. É certamente individualista e interesseira. Eu posso arriscar uma observação de que esta filosofia é provavelmente atraente em especial aos jovens e fortes e saudáveis que não possuem responsabilidades (ou que pensam que não têm responsabilidades) pelo cuidado de outrem. Alguns argumentos para a abolição do trabalho são fundados na ideologia de uma ética de trabalho pessoal e individual ao invés de uma ética social, por exemplo, “eu não tenho responsabilidade para com ninguém além de mim mesmo”.

3) Requerer o direito de ser preguiçoso ou se recusar a trabalhar é uma posição apenas de resistência. Ela é querida em sua egocentrabilidade, e é basicamente irresponsável socialmente. Como diversas coisas na fragmentada cultura contemporânea, ao invés de ser uma posição libertadora, ela é ao invés disso simbólica do quão impotentes as pessoas se sentem. “Largar” é basicamente uma declaração de desespero político, e é uma resposta niilista moderna que infelizmente remove bastante efetivamente o indivíduo da arena política (supondo a definição clássica de política como um ato coletivo). Largar também é um ato individualista que é uma ferramenta política bastante inefetiva. O individualismo é ao mesmo tempo uma força e uma fraqueza do ativismo político. Um dos problemas principais é que todos os problemas da cultura individualista moderna podem ser reduzidos (como é o nosso consumo) à escolha ou culpa individual. Por exemplo, nossos céus estão repletos com poluição, mas ao invés de irmos atrás dos poluidores, nós contestamos cada um individualmente a respeito de nossos hábitos tabagistas; quando salários são reduzidos ou empregos são eliminados para criar mais lucros para a corporação, nós nos voltamos uns para os outros e o ambiente de trabalho se torna um campo de batalha que coloca um indivíduo contra o outro; nosso trabalho é maçante e monótono, então individualmente resolvemos o problema o largando. O que nós devemos exigir ao invés disso é o controle dos poluidores e o direito a controlar e a definir nosso trabalho. A exigência de ser preguiçoso é somente para se remover de uma situação desagradável. Ela não empodera aquele indivíduo. E uma política nascida, provavelmente, de uma sociedade de luxo onde alguns poucos que não estão presos no “sistema” podem ficar do lado de fora e ridicularizar o resto de nós.

4) Voltar à natureza para viver a níveis de sobrevivência poderia funcionar, mas somente em um clima do sul, com uma população controlada e em uma biosfera regional ecologicamente balanceada e um ambiente que produzisse comida o suficiente para forrageamento. Aqueles de nós vivendo nos climas do norte temos que trabalhar bastante para sobreviver.

5) Outro argumento prometendo liberdade do trabalho está implícito em nossa cultura moderna, e ao passo que ele não é necessariamente um argumento anarquista, ele parece estar implícito em algumas das críticas ao trabalho, aquele que diz que não precisamos trabalhar porque a tecnologia irá nos salvar e as máquinas farão tudo por nós. Esta crença é a base tanto de pautas capitalistas como marxistas, e apesar de não estar explícita em argumentos anarquistas (que tendem geralmente a suspeitar da tecnologia e do seu resultante controle centralizado), a suposição implícita é a de que nós poderemos nos entreter em uma vida de ócio porque nós precisaremos trabalhar menos horas, ou nenhuma, para alcançar os mesmos níveis de produção. A ideia de não trabalhar é somente uma extensão da demanda por uma jornada de trabalho de 4 horas, neste argumento.

A despeito do chamado de Paul LaFargue no século 19 pelo direito a ser preguiçoso e das recentes exortações de Bob Black, parece que o trabalho está conosco e continuará conosco, mesmo se nós nos mantivermos comprometidos a um alto nível de desenvolvimento científico. Por sua própria natureza, o trabalho requer um compromisso de longo prazo. Muito do trabalho a ser feito na sociedade não é uma questão de escolha. E muito trabalho certamente não será excitante, ou necessariamente criativo. As fraldas sujas do bebê devem ser trocadas; sementes precisam ser plantadas e cultivadas, a comida recolhida, armazenada de diversas maneiras, preparada e cozida (ainda mais nos climas do norte); combustível e abrigo devem ser arranjados para resfriamento e aquecimento; as crianças precisam ser cuidadas, pessoas precisam ser curadas, vestidas. Em grande parte do mundo, este trabalho é feito por mulheres. Para pessoas que vivem fora do sistema salarial em especial, o trabalho – o trabalho manual – é a norma para a sobrevivência. De fato, o preço da liberdade da escravidão salarial industrial é muito provavelmente mais trabalho ao invés de menos. Ademais, se nos mantivermos comprometidos com nossas sociedades urbanas/industriais modernas e centralizadas, no mínimo uma vasta infraestrutura precisa ser mantida e o trabalho deve permanecer altamente coordenado e especializado. As ruas e as calçadas devem ser reparadas, o lixo deve ser removido, a água precisa ser trazida para as pessoas, e os resíduos devem ser levados e processados de maneiras ambientalmente seguras. Os motores que levantam os elevadores precisam funcionar, a calefação, a água, a eletricidade e a telefonia precisam ser mantidas. “Alguém” precisa fazer todo este trabalho – cooperativamente, individualmente, por sorteio, por coerção – o trabalho precisa ser feito.

Há certas opções, certas escolhas que podemos fazer para organizar nosso trabalho de uma maneira mais significativa, todavia. Algumas das soluções são econômicas, algumas pessoais, mas todas são políticas, é claro. Muitas são também questões mais profundas, questões éticas. Para mudar a natureza do trabalho no século 21, nós precisamos nos dirigir à mudança em todas as áreas de nossa sociedade que apoiam o atual ambiente de trabalho: se nós devemos continuar a centralização do capital e o controle privado do capital e os lucros produzidos por este sistema financeiro; se a divisão do trabalho que nós estabelecemos é humana e produtiva para o indivíduo fazendo o trabalho; o nível de avanço tecnológico que nós desejamos alcançar; os custos ambientais que pagamos por nosso padrão de vida; e se nós iremos continuar a nos estimular artificialmente para incentivar o consumo obsessivo. Nós precisamos nos dirigir a questões sobre o quanto nós queremos trabalhar e como nós iremos cumprir esse trabalho; o estilo de vida, o nível de consumo que desejamos; o impacto que queremos causar sobre nossos ambientes, o nível de poluição que nós iremos aceitar.

Uma de nossas primeiras tarefas é identificar as necessidades humanas básicas e o quanto é “o suficiente”. O próximo passo é adotar uma estrutura econômica que garanta estas necessidades básicas e estabeleça limites sobre o consumo. Paul Goodman e outros propuseram uma economia de duas camadas: um nível desenvolvido para atender a necessidades sociais coletivas básicas, e o outro devotado a gratificar vontades e desejos individuais. Nesta economia, todo mundo que é apto deveria ser requisitado a trabalhar para assegurar para si mesmo uma renda mínima garantida que cobriria as necessidades individuais básicas e os custos de construção e manutenção da infraestrutura coletiva. As pessoas seriam requisitadas a trabalhar 5 de cada 7 anos (com dois anos de descanso). Cada indivíduo também teria uma oportunidade de trabalhar em um desses anos para receber dinheiro adicional para consumir a níveis mais elevados. Um ano de descanso seria requerido. A quantidade de renda recebida na economia de segundo nível poderia ser limitada para controlar o consumo médio. A economia de segundo nível permitiria um certo grau de escolha individual. A renda total recebida por qualquer indivíduo idealmente seria limitada a não mais que cinco vezes o nível de renda garantido. O “trabalho” que é realmente maçante, monótono, perigoso ou repulsivo poderia ser repartido entre aqueles que escolhessem fazê-lo, em troca de menos horas de trabalho requisitado deles (como mineiros, que trabalham em situações perigosas). As próprias tarefas difíceis poderiam ser rotacionadas. Parte de nossa resistência ao trabalho é a natureza árdua dele. Se nós pudermos estruturar especialmente as tarefas mais onerosas de modo com que um indivíduo não carregue este fardo sozinho e não tenha que fazer aquele trabalho por longos períodos de tempo, isso tornará aquele trabalho mais fácil a longo prazo e sujeitará os indivíduos a menos risco e perigo à sua saúde no geral.

Esta economia de duas camadas, entretanto, claramente teria que ser uma economia “controlada”, mas requereria um mínimo de trabalho da maioria das pessoas. Muitos anarquistas objetariam a tal sugestão, mas seus méritos são óbvios: ela controlaria o consumo, ou pelo menos o desaceleraria, já que a maioria das pessoas provavelmente preferiria não trabalhar tanto e ter dois anos de folga; ela aliviaria bastante ansiedade quanto à satisfação de necessidades básicas; ela distribuiria a riqueza mais equitativamente; ela permitiria liberdade individual no consumo e compartilharia o trabalho.

Nós precisamos mais uma vez convocar uma reavaliação da direção do desenvolvimento tecnológico. Apesar da forte atração do retorno à natureza, é altamente improvável e provavelmente extremamente irrealista que a maioria das pessoas abandonem os confortos de uma sociedade tecnológica pelo trabalho estafante da fazenda rural do século 19. Quais tecnologias, e se elas devem ser perseguidas, todavia, deve ser colocado sob o controle e a direção da sociedade como um todo. Nós devemos conscientemente colocar limites em nosso desenvolvimento científico. Só porque nós podemos conceber que a maneira mais eficiente de estripar galinhas é ter alguém que repita o mesmo movimento o dia inteiro, não significa que devamos fazer o trabalho desta maneira e danificar permanentemente os túneis carpais do operário. Nós também devemos exigir tecnologias ambientalmente seguras.

Um de nossos valores deveria ser pisar tão leve sobre a terra quanto pudermos. Nós poderíamos começar fazendo coisas que duram. Isto será uma completa reviravolta e contradição à nossa sociedade consumista. Nós nos tornamos viciados em novidades e a jogar fora o que não mais nos entretém. Mas qual é a natureza real do “novo”, e porque nós o desejamos tão intensamente? Talvez seja a falha de desafios criativos de nossa parte que nos leva a desejá-los a partir de um conjunto mutável de coisas. Nós poderíamos decidir, por exemplo, usar uniformes resolutos e dirigir o mesmo carro bem construído, mas isso nos daria o orgulho aparente na autorrepresentação que desejamos? Nós precisamos consumir coisas ou a pintura facial nos permitiria autoexpressão individual? Nós devemos encontrar uma maneira de fazer afirmações sobre nós mesmos de maneiras que não necessitem de consumo obsessivo. Eu fui surpreendida recentemente pelo fato de que na Rússia há uma escassez de cestas de lixo – um sinal confiável de que a sociedade não parece ter muito a jogar fora de uma maneira sistemática. (Mas eles estão chegando lá, infelizmente.)

Nós também devemos considerar maneiras de superar a generalização da alienação pessoal do trabalho. Alguns dos argumentos pela abolição do trabalho são vociferações contra o trabalho assalariado, o trabalho sem sentido, o trabalho repetitivo e entorpecedor, o trabalho desnecessário, o trabalho fragmentado – trabalho sobre o qual o operário não tem controle. O bom trabalho é/de veria ser um meio para que o eu se centre. O bom trabalho convoca energias e recursos criativos, requer integração dos esforços intelectuais e físicos. A filosofia pós-mortem do trabalho é desmembrar cada tarefa, reduzi-la ao menor ato inconsequente e então encarregar um engenheiro de mecanizar as tarefas de maneira mais eficiente. Isto rouba a essência da tarefa, e a satisfação do trabalhador.

Mesmo nossa filosofia sucumbiu ao feitiço desta visão de mundo mecanicista e tecnológica. O pós-modernismo como uma “filosofia” (o que ele não é, é apenas uma revolta contra, sendo a mais precisa que consigo, praticamente tudo em seu caminho) começou como uma ferramenta para criticar a hegemonia dominante do capitalismo de consumo corporativo, mas se afundou em suas próprias técnicas reducionistas destrutivas. Agora não existe nenhum centro, e nós somos lançados à deriva em nossos próprios escassos recursos individuais. O pós-modernismo se tornou, ironicamente, o espelho perfeito da sociedade de consumo: não há história, não há continuidade, não há responsabilidade – somente a fascinação infantil com minúcias aleatórias, o “agora”, e a gratificação instantânea. Nosso trabalho também está fragmentado. A metodologia da divisão de trabalho aperfeiçoada pelo capitalismo industrial criou a linha de produção entorpecedora, a doença de movimento repetitivo e a administração “científica”. A divisão do trabalho resultou em um operário mecânico e um cidadão mecânico que também está fragmentado, canalizado em políticas de assunto único e estreiteza mental, tem baixo limiar de atenção e vive em total isolamento de outrem – tanto politicamente, ao não tomar parte na vida coletiva, quanto sendo socialmente irresponsável e egocentrado.

Nós poderíamos provavelmente reduzir o número de horas de trabalho requeridas em nossa sociedade por várias opções: se escolhêssemos uma abordagem tecnológica ao trabalho altamente desenvolvida e eliminássemos o lucro, poderíamos reduzir o número de horas requeridas para trabalho. Nós poderíamos também eliminar muitos processos tecnológicos. Quanto mais baixo formos na escala da tecnologia, há, é claro, ou aumentos correspondentes no trabalho, ou reduções na produção/consumo. Anarquistas tradicionalmente optaram por um nível mais baixo de tecnologia por causa do seu potencial de ser mais compatível com a descentralização do controle e sua necessidade de quantidades menores de capital.

Há muitos aspectos do bom trabalho que são importantes para nutrir o espírito humano individual e o bem-estar coletivo: o trabalho significativo nos dá um sentido de conclusão e contribui para a autossatisfação; ele também serve para agitar a imaginação e criar bem-estar intelectual. A labuta, por outro lado, é sub-humana, cria um ambiente de irresponsabilidade e indiferença intelectual. Sua repetição sem sentido estupidifica o espírito e erode os hábitos mentais da atenção e da curiosidade.

O bom trabalho tem a ver no final das contas com comunidade e democracia. O trabalho é mais satisfatório e gratificante quando é feito para outros e em cooperação com outros. É neste cenário que o eu pode realizar seu potencial de forma mais completa. Por exemplo, a arte é criada para ser consumida pela comunidade. O artesanato é desenhado com uma audiência apreciativa para completar sua beleza. O trabalho de fazer cultura/criar comunidade social/política é talvez o trabalho mais importante ao qual os seres humanos podem se lançar. Nossa alienação de todo trabalho consequentemente contribuiu, eu acredito, à nossa alienação um do outro e do “trabalho” de tornar as vidas coletivas significativas e satisfatórias. O “emprego” moderno contribuiu com a destruição da comunidade na qual o potencial humano é melhor realizado. Assim que as pessoas se desligam e escapam da labuta do que um escritor chama de “a proletarização do trabalho”, elas também escapam do envolv im ento em várias coisas, incluindo a comunidade política e social. A alienação do trabalho prossegue até a alienação um do outro. Se há bom trabalho a fazer, se recusar a trabalhar é se alienar, é dizer “eu não participarei”. Como seres humanos, nós temos a obrigação de contribuir, com um mínimo, ao trabalho de sobrevivência coletiva. Ninguém deveria ter o luxo de se recusar a trabalhar. Compartilhar neste trabalho de sobrevivência coletiva não é necessariamente opressor. Fazer isso pelos outros, para seu uso, sua satisfação, e saber e confiar que outros irão fazer o mesmo por você é a essência do trabalho. O que é opressor é o trabalho forçado, o trabalho explorado, o trabalho que cria bens e serviços não para aprimorar as conexões sociais, mas para serem mercantilizados, para câmbio. Nós precisamos de uma reestruturação radical do trabalho, não de sua abolição. E nós precisamos começar com a pergunta “o que nós fazemos uns para os outros?”, “qual é o nosso trabalho?”, não apenas perguntar um para o outro o que nós “fazemos”, qual é a nossa labuta individual, como nos encaixamos no sistema que nos isola. Quando nós tivermos verdadeiramente investido em nosso trabalho, nós resolveremos os problemas de quem irá cuidar das crianças, nos alimentar e nos vestir, construir nossos abrigos, plantar nossos jardins.

Os seguintes conceitos são críticos para o empoderamento individual e para o envolv im ento político/social na comunidade:

1) Faça o seu trabalho com os outros. O trabalho não alienado tem lugar em um contexto de interação com outras pessoas. Um dos importantes controles gerenciais sobre os operários no capitalismo industrial, por exemplo, é negar a eles o direito de conversar entre si no emprego. A participação é crítica para o desenvolvimento de economia significativa e para ação política efetiva. O trabalho deve ser com e para outros. A produção tem que emergir da comunidade e retornar à comunidade. Esta é a base de uma nova ética de trabalho.

2) Reconheça a necessidade da habilidade no trabalho. A mecanização do trabalho mata a curiosidade e o impulso humano resultante de se tornar engajado, envolvido, de aspirar a ser criativo. A mecanização também resiste à interrupção, o operário se torna observador, um assistente da máquina. Exija trabalho significativo.

3) Esteja no comando de suas próprias ações, em controle de seu trabalho.

4) Retome através de seu trabalho uma noção do todo, das maneiras com que as quais as partes se relacionam umas com as outras. A divisão do trabalho entorpece uma importante habilidade política – a habilidade de fazer conexões entre meios e fins. Um problema diferente mas relacionado está centrado em como uma visão de mundo mecanicista simplifica nossa compreensão de causa e efeito. Nós quase inconscientemente desenvolvemos uma preferência por explicações lógicas e mecanicistas, e ficamos impacientes com a ambiguidade. Nosso nível de frustração é aumentado acentuadamente em um mundo mecanicista rígido e nós perdemos nossa capacidade de apreciar e manejar a sutileza.

5) Simplifique os processos tecnológicos. De acordo com T. Fulano em uma série da Fifth State há alguns anos atrás sobre antitecnologia, a tecnologia em si mesma é um sistema de controle político: “O tamanho enorme, a interconexão complexa e a estratificação de tarefas que constituem os sistemas tecnológicos modernos tornam o comando autoritário necessário e a tomada de decisões independente e individual impossível” (1981). A simplificação da infraestrutura tecnológica também serviria, de acordo com E.F. Schumacher em Small Is Beautiful, para descentralizar o poder político e o controle do operário. Fatores organizacionais de infraestruturas tecnológicas que centralizam o poder e o controle incluem: tamanho elevado, hierarquia, especialização, padronização do produto e simplificação da tarefa. Os elementos de uma economia livre e democrática incluem as alternativas estruturais de menor tamanho, organização não hierárquica, trabalho cooperativo, diversidade de tarefas e produtos e complexidade de tarefas.

6) Abole a propriedade privada dos meios de produção. Uma nova economia social exige um reexame do conceito de propriedade privada dos meios de produção. Apesar do fato de que algumas formas de socialismo “falharam”, nós ainda mantemos problemas do capitalismo que Karl Marx identificou há mais de cem anos atrás.

Uma nova abordagem à economia mundial também deve ser desenvolvida. A economia global está “aqui” e nós criamos muito poucas estratégias sobre como responder a ela. Para começar, talvez, nós devemos exigir que salários ao nível de sobrevivência sejam garantidos em cada economia. Uma renda mínima garantida global retardaria o movimento incansável do capital até que meios possam ser colocados em prática para retomar o controle sobre o lucro e o investimento. O valor adicionado ao trabalho em qualquer mercado de trabalho em particular deveria permanecer no mercado no qual ele foi criado exceto para reembolsar os criadores do desenvolvimento econômico por seu investimento e seu trabalho em criar as fábricas/empregos. Os preços também precisam ser estabilizados mundialmente em uma escala relativa aos valores comparativos das moedas correntes. A calça jeans nos Estados Unidos deve custar $20; na Rússia, somente $5, refletindo o valor relativo do dólar e da rúpia. O custo de toda a infraestrutura requerida por uma indústria em particular deve ser suportado inteiramente por aquela indústria: estradas, detritos, necessidade de energia, transporte público para os trabalhadores, etc. A responsabilidade corporativa para com as comunidades deve ser afirmada e institucionalizada em lei. O capital pode ser móvel, mas as pessoas geralmente não o são, então um cuidado especial deve ser tomado quando as companhias tentam se realocar. Todos os recursos contribuídos para aquela indústria/companhia pelos trabalhadores naquela comunidade deve permanecer como propriedade daquela comunidade. As companhias devem encontrar maneiras de continuar os empregos naquela comunidade. Uma razão mais persuasiva que o lucro, um suprimento de trabalho mais barato ou regulamentações ambientais frouxas deve ser dada antes que uma companhia seja permitida a remover seu investimento para um novo sítio. Abolir o financiamento de aumento de imposto. Requerer que as corporações paguem pelo menos 50 por cento de lucro em impostos. Muitas destas sugestões são mais voltadas à reforma do que à reestruturação radical, mas na ausência de alguma alternativa coerente, elas podem ser um começo.


SOBRE A AUTORA

Neala Schneuling é autora de três livros: America – Song We Sang Without Knowing: the Life and Ideas of Meridel Le Suer; Idle Hands and Empty Hearts: Work and Freedom in the United States; e Women, Community, and the Hormel Strike of 1985-86. Ela está atualmente fazendo uma pesquisa sobre o significado da propriedade e o impacto de uma economia de mercado sobre a economia familiar na Rússia.

A revolução social e sua interpretação anarquista (José Correia Pires)

Edição original:  A Revolução Social e Sua Interpretação Anarquista R.P.A. Publicações Lisboa, 1975

 Digitalização e diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT Piracicaba, 2011

http://cob- ait.net

http://www.iwa-ait.org


Prefácio ao ATENEU Diego Giménez (2011)

O anarquismo não é um movimento que se isole e é na associação, sindicatos e cooperativas, extratos sociais onde a ideia da libertação mais facilmente ecoa, onde mais exerce sua atividade e maior número de adeptos recruta. Em regimes ou clima onde a liberdade de associação e de pensamento não se viva, as ideias de liberdade se eclipsam, a tomada do poder se desenvolve e arreiga na maioria dos espíritos, os partidos políticos proliferam…

Revolucionário é o que, não só consciente dos seu direitos e deveres, propugna e atua direú » todos os obstáculos da revolucão, mas também o que mentaliza  o homem e a sociedade no sentido de uma completa desalienação de ambos. Revolucionário é não aceitar preconceitos ou velharias, passar por cima da tradição e ter sempre presente que tudo que naturalmente a vida nos exija e imponha isso sim, se acatará sempre, e tudo mais que fantasia seja nos deve fazer rir e aconselhar que se despreze.

Os anarquistas aceitam como necessária e inevitável a revolução social e visão a extinção da propriedade e do Estado, porque só a liberdade e o acesso à Natureza e patrimônio social é condição que satisfaz e garante que o homem e a sociedade se identifiquem consigo mesmos, e traga ao mundo a paz e a alegria de viver que desde que o mundo é mundo o homem luta e aspirar por encontrar!


A REVOLUÇÃO SOCIAL E SUA INTERPRETAÇÃO ANARQUISTA


 José Correia Pires

ÍNDICE

Introdução

Prefácio

I. Causas da transformação social.

II. A economia do lucro

III. O anarquismo e sua definição.

IV. Os anarquistas também são socialistas.

V. Meios e fins do anarquismo.

VI. Os elementos de produção na transformação social.

VII. Os elementos de relação em anarquia.


INTRODUÇÃO

A revolução social e sua interpretação anarquista foi tema que aí pelos 39 tratei num manuscrito que fiz circular entre os meus camaradas do Movimento Libertário então presos no Tarrafal. A ideia de tratar este tema de uma maneira mais copiosa e mais objetiva, tive-a sempre presente e cheguei mesmo a pensar publicá-la mais disfarçadamente nos últimos anos do fascismo. Claro que não o fiz e foi depois de uma longa série de incitamentos que em aturada correspondência com o meu amigo e camarada Edgar Rodrigues a isso me atrevi, escrevendo-o no ano 71 e com a ideia de publicar no Brasil. Entretanto comecei a escrever o livro agora também publicado, quis dar a esse meu trabalho um cunho de episódios, com a intenção de fornecer elementos para a história do Movimento, trabalho que Edgar Rodrigues se propõe fazer. Neste modesto trabalho pretendemos fazer um estudo preliminar dos fundamentos do que nós consideramos ser a verdadeira revolução social. Não é um trabalho completo nem isento de defeitos, pois o tema é demasiado vasto e ambicioso, para a nossa modesta condição e pobreza de recursos, mas pode constituir incentivo para que outros em melhores condições que nós de futuro o possam fazer. Isto está certo, mas o que não menos certo é quem dá o que tem e faz o que pode não é a mais obrigado…

Com o 25 de Abril toda uma literatura política tem vindo a lume, já antes as livrarias nos davam conta de uma vasta fermentação revolucionária e nos últimos meses têm excedido quanto se poderia imaginar! Isto é verdade mas verdade é também que a esta literatura tem presidido certa discriminação oportunista, quando é certo que a literatura anarquista é quase nula e parece que ninguém está interessado em publicá-la, para que um povo que está durante 50 anos privado de livre expressão de pensamento possa penetrar, tirando proveito desta liberdade, na literatura anarquista. Nota-se, isso sim, é um desinteresse e dir-se-ia modo caprichoso de ao anarquismo se referirem. Os indivíduos mais em destaque da vida política são unânimes em fazer uso da palavra “anarquia” no sentido pejorativo de desordem, caos e acredito que não é por ignorância, particularmente quando se trata de apreciar problemas sociais! E até de “bom tom” usar-se a palavra anarquia depreciativamente e ouve-se e lê-se por quase todos os parladores políticos ou dos que escrevem e ao povo pretendem estender a sua sapiência. Se outras razões não houvessem esta já nos obrigaria, fazendo uso de um direito, a vir publicamente dizer aos que ignoram que existe uma doutrina revolucionária que tem como finalidade a Anarquia e que nenhum de seus agrupamentos teria relutância em os receber no seu seio, quando é certo que ser anarquista consciente exige de quem o pretenda ser não só dedicação e esforço mas também muita coragem e faculdade de raciocínio, que infelizmente não podem abundar num Povo que esteve durante cinquenta anos sob a “pata” do fascismo! Ao observador atento não deve ter passado desapercebido como foi fácil depois do 25 de Abril toda a gente se encontrar já politizada e expressar, o que vulgarmente acontece, ideais e opiniões como se sempre lhe tivesse merecido interesse as lutas sociais. Naturalmente que longe de ser um mal pode até constituir reação conveniente, simplesmente o bom senso aconselha que falemos do que sabemos e usemos uma linguagem correta e comum às regras do jogo oratório e às naturais exigências de uma correta educação política.

Há uma coisa que sempre me impressionou desagradavelmente, é ouvir de pessoas que têm o dever de saber o que dizem, afirmações ou ditos que não só os inferiorizam mas que induzem em erro quem os ouve, isto é tanto mais depreciável quanto mais responsabilidades político-sociais as pessoas podem ter. O ex-general Spínola costumava em todos os discursos que fazia usar muitas vezes a palavra anarquia, mas não o fazia só por ignorância, pois percebia-se a sua intenção, o que nele estaria certo como bom legionário que teria sido na “Legião Espanhola” ao lado de quem lutou contra os anarquistas na guerra civil de Espanha. Ao Spínola de mentalidade fascista isso se compreende mas a quem se considere avançado e com veleidades doutrinantes isso é que não se aceita bem, e de duas uma: ou é suficiente ignorante em sociologia, ou mal intencionado e faz uso de um direito, atacando sem receio de contradita um ideal que o inferioriza, só porque isso lisonjeia não só os seus caprichos mas os que se consideram mais fortes, o que em qualquer dos casos deixa de ser um atrevimento coberto com a ideia da força!

Tudo isto, se por um lado nos contraria, por outro tem provocado muito interesse em se querer saber o que é então Anarquia, visto que em regime de liberdade todos temos iguais direitos e deveres e aqui estamos nós precisamente, fazendo uso desse direito. Claro que em teoria poder-se-á dizer que quase nada nos distingue doutras correntes do pensamento, mas na realidade algo de importante nos separa dos que se apresentam como sendo os detentores da chave do problema. O processo revolucionário em curso todos os partidos políticos o aprovam ou fingem aprová-lo e nós anarquistas, embora não deixando de estar presentes na luta de todos os dias, sabemos como os Partidos se interessam em nos marginalizar, pensando e agindo como se nós não existíssemos. Naturalmente que a hora é de confusão e há muito quem se queira aproveitar para levar a água ao seu moinho, impondo-nos à força o seu sistema ou o figurino que mais lhes agrada, privando-nos do direito de escolha de sermos o Povo em liberdade a construir o Portugal renovado e socialista que parece sem dúvida alguma que todos nós queremos!

Tem-se dito e redito que a liberdade deverá ser a base do nosso sistema, há quem o queira que assim não seja, importa por isso estar bem atento às intenções e manobras dos que a liberdade pretendem sacrificar em benefício do seu triunfo partidário, cortando o rumo ao 25 de Abril, transpondo-nos para situações que livre e conscientemente não desejamos.

O peso de uma ditadura que nos oprimiu durante 48 anos dá-nos o dever e o direito de sacudir o jugo por mais disfarçado que se apresente seja de quem for. Tudo menos a perda da nossa liberdade não só será a base do socialismo porque sem liberdade não pode haver socialismo e com a ditadura tudo estamos no risco de perder!

Se a unidade de todas as forças revolucionárias é uma condição que a própria revolução nos exige, essa unidade só será possível em liberdade sob pena de tudo se perder, a exemplo do que sempre aconteceu onde se tentou ir ao socialismo com menosprezo da liberdade. E certo que há só quem lhes interesse o poder e para esses a tomada do Poder é o seu programa, circunstância que obriga a quem a liberdade preze e nela veja a solução dos problemas humanos não se deixar embarrilar pelos que numa expressão de egoísmo e feroz ambição do mando não hesitarão em nos conduzir à ruína para que do caos possa advir oportunidade do seu triunfo.

PREFÁCIO

 Diz-se que de “médico e louco todos temos um pouco”. O aforismo deve estar certo e não é talvez menos certo tornar-se extensivo a qualquer atividade ou ramo do saber que mais de perto se relacione com fundamentais apreensões do viver do homem.

Compreende-se que sempre assim tenha sido e hoje mais que nunca, se se considerar que qualquer pessoa, se for boa observadora, atenta ao que vê e ouve em sua volta, se tiver boa memória e utilizar todos os meios de divulgação e cultura que tem ao seu dispor, pode dar-se ao luxo de ter opiniões e ideias sobre qualquer problema e adquirir conhecimentos e cultura que o identifiquem com os que discutem ideias, advogam doutrinas, podendo optar por sistemas.

O progresso generalizou condições que outrora não eram possíveis, mas com o jornal, a revista, o cinema, o rádio e a televisão o acesso aos conhecimentos e à cultura se tornou comum a muita gente a tal ponto que, a não ser no caso da especialização, em que um ou outro se mestria, na generalidade dir-se-ia que nos confundimos e, se quiséssemos poderíamos mesmo dizer, que deste modo e por este andar ver-nos-íamos livres dos “doutores”. Pode ver-se o formar de uma associação, qualquer que seja o seu fim, e não se exige nem identifica o associado pela sua cultura, a soma dos seus conhecimentos e os estatutos ou regulamentos, que normativam ou estabeleçam deveres e direitos são disso testemunha. Mas ainda aqui iguais deveres e iguais direitos podem ser simples formalismo e nada ou pouco representar no sentido de promoção do indivíduo, o que já será diferente se for um clima de autêntica valorização de cada um em obediência às exigências de uma transformação social que se deseja.

As circunstâncias que rodeiam uma mudança, novas circunstâncias criam que a novas mudanças levam, e de passo em passo até ao infinito. Deste modo a nossa maneira de ser e estar no mundo, como agora se diz, também se vai mudando e de mudança em mudança tudo em nossa volta se modifica e quer queiramos quer não, o sentido de tais mudanças tendem para a desalienação do indivíduo e implicitamente para a transformação da sociedade.

O homem e a sociedade não podem fugir ao seu “fado” e o fado do homem do nosso tempo está finado numa ação que o favoreça, estabelecendo modo de relações que o identifique com a sociedade que se deseja. Partindo deste pressuposto aceita-se a ideia de constituir dever e direito do cidadão possuir ideias, ter opiniões, advogar propósitos, aprovar ou reprovar o que considere favorável ou nefasto ao seu bem-estar ou harmonia social. Politizar pode não ser criação de partidos, mas o que não deverá deixar de ser é consciencializar o cidadão, tornando-o apto a intervir no rumo das coisas e dos fatos que lhe aguce o discernimento e a compreensão dos problemas relacionados com o seu viver e decida das suas opções de ideias ou sistemas que melhor se ajustem ou garantam a satisfação de suas exigências e necessidades. Assim sendo, não somos, políticos na acepção vulgar do termo, mas sentimos e compreendemos a necessidade de da nossa estrita obrigação de defender e propagar ideias, de advogar um sistema que seja conducente a uma modificação séria da sociedade em que vivemos e expressão fiel das nossas aspirações.

É partindo deste propósito que há mais de cinquenta anos defendemos ideias e na sua propaganda e defesa alguma coisa arriscamos, sem que jamais este propósito tenha sido refreado ou diminuído de intensidade. O que acontece é que já envelhecemos propagando que o homem e a sociedade podem e devem na verdade ser melhores e, na medida que insistimos mais atraídos nos sentimos em vir a público explicitar no que consiste uma mudança total da sociedade. É certo que modernamente toda a gente fala de revolução social mas poucos os que se detêm na análise dos seus fundamentos. Num século de lutas e experiências de uma divulgação de ideias por pensadores que foram marcos miliares do pensamento e ação revolucionária, só nos resta trazer para a cena da discussão as suas reflexões e conceitos relacionados com o tempo e o lugar onde os queiramos materializar.

Sei que não realizo trabalho perfeito, mas tranquiliza-me a certeza de que o que me falta em generalidade me sobre em desejo de acerto ao mesmo tempo que abnegação e idealismo. Tenho a consciência das dificuldades que era preciso vencer para expor um trabalho sem falhas numa tese desta importância. A temática social por si só é difícil e complexa e todavia mais, se se considerar o peso de centenas de anos de autoritarismo e educação torcida que imperam na nossa formação. Os conceitos absolutistas empalidecem a noção de liberdade e os indivíduos, mesmos ansiosos de independência e liberdade, deforma-os os conceitos autocráticos em que assenta a história e cultura da nossa civilização.

Sei que uma mentalidade centralista e escravizante não nos perdoa a ousadia de vir a público com a hipótese de uma solução libertária do problema social e muito menos os que da conquista do Poder estão enamorados. Não é uma questão nova e nem as nossas considerações podem ser tidas como originais, muito menos quando se tem presente o valor de geniais pensadores a dar à Anarquia a grandeza de um sistema que não só é viável em nossos dias, mas que se impõe como condição indeclinável para a satisfação global das necessidades humanas. Sabemos a responsabilidade que contraímos com a publicação do nosso trabalho, embora crentes que não passa de uma simples achega para a verdadeira interpretação de um socialismo libertário que visamos propalar e defender. Não nos anima o propósito de ferir seja quem for e inaceitação honesta também não nos incomodará, muito embora não desista que me reconheçam sinceridade e intenção de acerto. Não nos move ideias sectárias ou dogmáticas e quem nos conheça ou leia com espírito tolerante e compreensivo, facilmente nos perdoará as falhas ou defeito do nosso intento. Naturalmente que um ofício se aprende em três ou quatro anos, um curso mesmo superior, pode tirar-se em quinze ou dezesseis anos, apostular ou defender uma doutrina pode fazer-se de um dia para o outro mas propalá-la em bases que resistam à contestação, eis o que demanda muito mais tato e raciocínio quando não uma cultura muito mais profunda e científica que dificilmente se adquire. Isto é assim e embora nos falte engenho e arte para uma argumentação convincente, sobra-nos entusiasmo e convicções que de longe supera todas as outras dificuldades!

I. CAUSAS DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Perde-se na noite dos tempos o início da luta que o homem e a sociedade vêm travando no sentido de um mundo melhor, onde um clima de igualdade e justiça se instaure.

Extensos impérios, tronos poderosos, repúblicas e monarquias de todos os matizes, tudo o homem tem construído e destruído e, embora se não possa dizer que estaremos cada vez pior ou mais ou menos na mesma distanciados desse objetivo, o certo é que todas estas lutas arrematam periodicamente em ações de homens e povos, com alguma coisa diferente do que estava, mas todavia também distante daquele bem-estar e alegria de viver que no geral se persegue. Este fato ainda que não seja motivo de desistência, gera nos crentes menos convictos a desilusão ou a descrença, comparadas às que as crianças sofrem quando correm em direção ao arco-íris na creça de que o apanham. Noutros redobra-lhes o entusiamos na luta, calcinando-se na resistência, abre-lhes novas perspectivas e força-os a manterem-se na brecha…

Deste modo, milhentas utopias e sistemas de organização social se têm idealizado no sentido de se materializar um mundo que seja melhor, sem que, no entanto, tudo isso até aqui não vá além de sonhos dos que idealizam e lutam, dando o melhor da sua inteligência, da sua vida por uma sociedade mais justa e humana! De modo algum será inútil tal sacrifício no sentido do progresso social, embora se saiba não ser menos verdade que outro poderia ser o nosso viver se soubesse aproveitar em benefício desse mundo melhor todos os recursos da Técnica e da Ciência.

Prova isto que há um erro no sentido da nossa orientação com vistas aos problemas estruturais do nosso viver social, cabendo responsabilidades não só aos homens que o destino nas mãos tem e aos revolucionários que novo rumo querem dar, interpretando inequivocamente o sentido de uma mudança desse mesmo rumo.

O sentido desse rumo está condicionado modernamente por toda uma motivação revolucionária determinada pelas lutas sociais, agudizado pelo forte incremento da revolução industrial, que, mercê das suas contradições, bastante fortaleceu a argumentação revolucionária e tornou frágil a argumentação burguesa no meio dos seus paradoxas que se vê frustrada pela formação de uma nova moral e está alentada por toda uma filosofia escudada agora em fulcros de literatura e poesia, que as ciências alentam e dão base humana. O importante é o desencontro entre as modernas técnicas de produção e o sistema de distribuição do sistema capitalista mais em obediência à ideia do lucro que à justa distribuição, quer do que se produz, quer do que necessário é para as necessidades coletivas. A contrastante abundância com o subconsumo, alerta a irreverência de um florescimento contestário que se projeta em todos os setores da vida moderna e as classes trabalhadoras, agora organizadas em organismos de classe, tornam mais vulnerável a resistência burguesa e as sociedades veem-se inevitavelmente ameaçadas de transformações.

Pensadores de singular nível intelectual como Godwin, Owen, Proudhon, Guillaume, Bakunin, Reclus, Kropotkin, Malatesta, Faure, Rudolf Rocker, Ricardo Mella e tantos outros, fazem a autópsia de todo um sistema que não pode sobreviver, não só a par do progresso científico como integrado nas modernas técnicas de produção e distribuição. Logicamente o sistema capitalista não tem defesa e, tendo perdido a força da razão, faz-se defensor da razão da força.

Depois da Revolução Francesa a ficção de uma trilogia é agora objetivamente baseada nos princípios básicos de um novo sistema a que Lerrau dará o nome de socialismo e Proudhon, como o mais ousado dos pensadores de todos os tempos dará base federalista ou libertária. É certo que, no tempo, as ideias socialistas ainda não foram referendadas por qualquer experiência e, em teoria, a escola autoritária e libertária fazem pouca diferença, especialmente matraqueados pela dialética marxista. No entanto, na filosofia de Proudhon toda a ideia de Estado se pulveriza e os sectários da sua defesa são vergastados com uma linguagem demolidora e o Estatismo fica já na revolução de 48 reduzido pelas críticas de Proudhon a conceitos revolucionariamente desajustados às autênticas realidades socialistas.

Na ordem dos acontecimentos revolucionários de 48 segue-se a Comuna de Paris, que, não sendo acontecimento que dê verdadeiramente um sentido competitivo às duas correntes do socialismo, reflete no entanto a importância da falta de homogeneidade das forças da Comuna e que se irá refletir em todas as lutas sociais do tempo! Por um lado houve quem perdesse furor revolucionário, o caso do socialista de Estado; por outro tornou-se mais revolucionário, é o caso dos anarquistas, especialmente na Itália e Espanha.

No último quartel do século passado, os primeiros anos deste foram os de maiores investimentos ideológicos, investimentos que a Revolução Russa viria desgastar e, com a marxização de uma sexta parte do mundo, poria temporariamente fora de competição ideológica as duas formas de socialismo. Mas ainda aqui a vantagem não é senão transitória e se os “Cinco Comunismos” são a demonstração evidente de que uma coisa é a tomada do Poder pelas correntes autoritárias do socialismo, outra as realizações socialistas que a revolução social pela destruição do Poder nos promete.

De qualquer modo as contradições do sistema capitalista dão-nos toda uma temática que nos adverte dos perigos de uma estatização no sentido do socialismo, quando nos ensina que os tenteios de uma emancipação econômica não podem a sério ser tentados sob os auspícios de uma máquina burocrática e militar, que nos afogue, ou nos absorva, a melhor parte da produção…

O paralelismo ou o desencontro de uma escala de valores a encontrar nas economias de Estado socialista ou burguês, não pode ter, numa concepção revolucionária, importância de maior quando se está na verdade empenhado numa socialização total de todos os estratos sociais com miras à abolição das classes e reparto justo e igual para todos.

II. A ECONOMIA DO LUCRO

Sociólogos e economistas do fim do século passado provaram que o desenvolvimento industrial era incompatível com o sistema patronal e as crises de trabalho, refletidas em todas as crises do Capitalismo, eram consequências dessa incompatibilidade, faceta que moralmente torna tal economia indefensável, ao mesmo tempo que gera visíveis paradoxos que mais atrofiam todo um sistema de relações, desde as mais simples às mais complicadas do comportamento humano!

Os postulados da Economia Política falharam em toda a linha no que respeita ao equilíbrio e harmonia sociais e a concorrência entre indivíduos e empresas arrasta tudo e todos a competições desiguais e injustas e a irresponsabilidade e o ódio campeiam, acirrando lutas e guerras de indivíduos para indivíduo, de empresa para empresa, de cidade para cidade, de província para província, de país para país, e assim sucessivamente até ao mundo inteiro. A economia capitalista é uma economia de guerra e a luta pela conquista de mercados e de matérias primas mais aguça a sua astúcia e os atira para a expansão capitalista, onde tudo que é imoral e perverso se fomenta e se cultiva. Mas o mais desconfortante das contradições capitalistas é o fato da existência simultânea de imensas quantidades de mercadorias e a miséria em milhões de lares trabalhadores!

Dimana dessa contradição uma das maiores fraquezas do capitalismo e, se as economias ditas socialistas não tivessem as suas contradições, teriam hoje em todo o mundo regimes tipo socialista.

É este um aspecto paradoxal das lutas políticas em nossos dias e que entronca com o progresso material o qual pelas suas aplicações, feriu irremediavelmente ambos sistemas.

O defeito de uma produção descontrolada, sem o escoamento correspondente por um consumo adequado, gerou perturbações nas relações comerciais de autêntico desconcerto em todos os balanços econômicos. Por mais voltas ao problema que se dê, as economias do lucro soçobram e afastam a possibilidade de equilíbrio, não só entre o justo preço, mas também a própria produção necessária. Deste inconveniente inevitável das economias do lucro, promanaram os milhentos incentivos de uma publicidade exausta que culminou na moderna chaga a que se chamou sociedade de consumo, sem que se tenha efetivamente dado um passo firme no sentido de uma solução mesmo aparente do complicado problema socioeconômico nas economias lucrativistas.

A incapacidade do sistema capitalista para uma justa utilização do progresso geral das sociedades, contrastando com as perspectivas de uma futuração doutrinária que as correntes mais evoluídas do pensamento nos prometem, desacreditou-o a uma inaceitação onde já ninguém duvida da sua imediata substituição. Não se trata de uma simples premissa ou uma opção acidental para ser imperativa condição, mais que tudo, de um novo sentido de vida, de uma nova moral!

O tempo que medeia entre as duas grandes guerras, incluindo o triunfo do Bolchevismo na Rússia, o rescaldo da mentalização da Idade Média com todo o seu maquiavelismo e destemperos ambiciosos de mando, dão, como nenhuma outra fase histórica mais próxima, a medida exata do sentido desumanizante da nossa civilização, ao mesmo tempo que exemplo incontestável do beco sem saída que representam todos os sistemas político-socioeconômicos postos à prova, com miras à solução dos problemas humanos.

Pode dizer-se que o clima que antecedeu e procedeu a 1- grande guerra foi insidioso, destemido, doentio e dramático, mas ainda sobreviviam resquícios de puro idealismo revolucionário e, embora de certo modo amortecido e ofuscado por disfarçados interesses oportunistas, conseguiam ser fulcro luminoso de esperanças de corruptos idealistas que, com sacrifícios da própria vida, alimentavam a perspectiva de um mundo melhor. Depois de 1945 o mundo piorou, não obstante as promessas e esperanças que os condutores da guerra tão largamente haviam prometido, e isto porque simplesmente fizeram desaparecer alguns contendores que os malefícios da ambiência da guerra duplicaram, agora concentrados em dois focos de maior projeção universal. Oriente e Ocidente, eis o tema e, em qualquer dos casos, a ameaça e a continuidade não só da guerra mas de tudo que a gerou e a mantinha!

Um olhar sobre o Mundo de então e não se vê um só canto da Terra onde a abundância não pode ser condição geral e assim, a situação de pobres e ricos, deixar de ser problema. Isto significa que, por determinação do progresso, da técnica, uma mudança radical se impõe e esta é tanto mais inadiável quanto é certo que a harmonia e a paz sociais o exigem e a própria sobrevivência na Terra o não dispensa!

Há imperativos de toda a ordem que não permitem que a miséria campeie ao lado da ostentação; a fome coexistindo com a abundância; o palácio, com a choupana; o esfarrapado, o descalço e o faminto, vagueando, refletido no espelho das montras recheadas de vestes e comestivos em flagrantes contrastes!

A atual sociedade só contrastes nos oferece e as guerras são desatinos que o capitalismo provoca periodicamente para alívio e desgaste dos seus contrastes, embora sempre transformadas em dolorosas provações humanas!

III. O ANARQUISMO E SUA DEFINIÇÃO

Quem julgue poder formar um conceito seguro sobre as ideias anarquistas, limitando-se porém a simples definição de dicionários ou enciclopédias, ou o que dizem simples historiadores, que as não sintam ou as repudiem, sujeita-se a erros que o melhor desejo de acerto não supera e, além disso, quando em todo um mundo, falsas noções pesam na sua formação.

Toda a cultura oficial e oficiante, no domínio absoluto da Poesia, da Literatura, da Ciência e Filosofia, dispõe e canaliza no sentido de uma sequência normativa de inflexíveis postulados, a vida social. Qualquer formação, e mais exatamente as mais primorosas, é esquematizada, e, dessa esquematização, resulta uma estandardização do indivíduo onde tudo avulta, menos a independência e a liberdade que conduz o indivíduo e a sociedade à sua emancipação.

Desde as primeiras letras à universidade, a vida do estudante é carrilada por vias donde não pode sair, imprimindo-lhe diretrizes e rumo que inevitavelmente o vão projetar no viver conflituoso e deprimente de todos os dias.

Esta espécie de determinismo histórico é como um colete de forças a impedir formação mais atinente a uma desbravação do terreno cultural que permita a natural evolução do indivíduo e a transformação da sociedade. Dimana daqui a impossibilidade de uma fácil e prática interpretação do anarquismo, com a agravante do feitiço da história e o culto fantasmagórico das velharias milenárias de uma civilização por natureza já morta. Isto é assim e porventura mais confuso e difícil se se ajuizar pelo que do anarquismo dizem os seus detratores, ou candidatos à conquista do Poder político, religioso e econômico.

O anarquismo é o sistema, conjugado pelas atividades dos anarquistas, tendente à instauração da ANARQUIA: – Anarquia, sistema de organização social onde toda a vida se processa em liberdade, igualdade, justiça e fraternidade entre os homens e desígnio e condição implícita dessa mesma liberdade.

O anarquismo é doutrina que os anarquistas professam e, quando possível, praticam, excluindo toda a ideia de autoridade nas suas relações, pelo que tal objetivo leva imediatamente a uma total destruição do Estado, como ponto de partida para as principais realizações do viver social em Anarquia.

Como ideal, a Anarquia perde-se na noite dos tempos; como corpo de doutrina é a partir de Proudhon, nos meados do século passado, mas mais exatamente depois de Bakunin no seio da 1- Internacional e em luta aberta com a corrente autoritária dessa mesma Internacional, que o anarquismo surge a impressionar a parte mais sadia e independente das lutas sociais de então. Proudhon foi o primeiro pensador ou filósofo que a si mesmo se chamou anarquista e esta atitude, por si só, define e classifica Proudhon como um dos maiores filósofos políticos. E se Proudhon foi genial na gigantesca obra revolucionária que produziu, todavia o afirmar-se anarquista, no tempo e nas condições em que realmente o fez, mais o agigantaram e a humanidade ser-lhe-á eternamente devedura, não só pelo gênio, como pela sua coragem! A cento e tantos anos de tão memorável afirmação, e com tanto o que se tem evoluído nos campos das técnicas e das ciências, o seu arrojo confunde-se com o de tantos outros a quem a humanidade tanto deve! Não é revolucionariamente descabida a exaltação de um Proudhon, como não seria a de um Copérnico ou de um Galileu numa interpretação do Universo, como a de um Darwin e Lamarck na moderna biologia ou ainda na Física moderna, ou as teorias da relatividade de um Einstein, ou na teoria dos quanta de um Planck. A humanidade deve a muitos, nos muitos ramos da Ciência, mas a sociologia moderna deve a Proudhon e a Bakunin o enriquecimento e a valorização do homem, integrando-o no conteúdo de uma hu m anidade nova.

Sabe-se como é, na verdade, difícil localizar o encadeamento dos grandes feitos da história, relacionados com o rastro ou herança de um princípio de mudança que a vida nos lega e ininterruptamente se persegue; ou ainda com a fixação de um limite ou ponto essencial de partida para a realização de um mundo que se deseja. Esta hipótese não nos impede de afirmar que, em qualquer tempo e lugar, temos pontos de referência que nos inspiram uma ação sistematicamente irreverente e a garantia de que o homem e o mundo se transformam no sentido do advento da Anarquia. Dir-se-ia que os mais seguros elementos de relação são a vida e a obra revolucionária dos pensadores de cada época e que deles fica como exemplo do seu valor para as gerações vindouras, resultando apenas difícil compulsar-se com exatidão quanto se fez e disse no sentido da revolução, precisamente por forças sistemática e obstinadamente se oporem ao seu registo, sua aceitação, sabendo-se que a história, os compêndios, a arte e a filosofia, pouco ou nada deles falam! Não fora toda a série de contingências do progresso e as válvulas de escape que alentam e vivificam a revolução permanente, e tudo seria todavia mais lento, as ideias e os fatos que os grandes vultos da história viveram, não passariam de simples pontos de referência no horizonte distante das realizações sociais, como o são as estrelas que milhões de anos luz separam do olho do astrônomo que as estuda e compreende. Sim, as antevisões sociológicas são para o pensador fecundo como foram e são as detecções que ao longo do tempo e das distâncias os visionários do nosso universo nos foram revelando. E infindável a lista dos visionários da revolução; mas a revolução como meta estipulada, como ponto visionado e definido, que seja ponte a transpor o homem e a sociedade a uma etapa culminante da sua evolução só depois de Godwin, Proudhon, Bakunin, Reclus, Kropotkin, Grave, Malatesta, Tolstoi e tantos outros, que à Sociologia deram bases científicas e às relações humanas autêntico conteúdo de humanismo positivo, com vistas à Anarquia.

Depois deles, outros o têm defendido e reafirmado, mas a incontestabilidade que tais precursores lhe deram é o que nada destrói, não empalidece perante todas as arremetidas dos partidários da Autoridade. O “direito da força” empalidece nos seus artifícios perante o progresso da justiça, e o “direito da igualdade” são verdades eternas, como eterno será o propósito de “procurar a justiça e a igualdade na Anarquia” como o dizia Proudhon. A revolução social libertadora está para a sociedade como a maturação celular o está para o indivíduo: inevitável; só a morte prematura pode ser força inibitória, mas a sociedade não morre e como a torrente do rio não pode parar e ladeia montanhas, rompe montes ou abre valas, mas prossegue, caminha para o mar! Assim a marcha do Mundo, a evolução do homem e da sociedade caminham para a Anarquia!

Toda a luta de ideias tem os seus mentores; todo o progresso social assenta nessa luta e no sacrifício dos que lutam e o anarquista é, por definição, um emérito lutador. O anarquista, por imperativos de muita ordem, luta, mas a sua luta vai mais além de um simples quebrar de algemas que o manietam para ser antes esforço a quebrantar quantas escravaturas pesam na alienação do indivíduo e escravização da sociedade.

A irreverência à injustiça foi apanágio do homem de sempre, como desejo de ser livre, mas só com os anarquistas esse sentido de liberdade se tornou inequívoco e socialmente positivo, na medida em que o anarquismo é uma doutrina que se define e expressa na destruição pura e simples de toda a autoridade. Bakunin, e antes dele Proudhon, se referindo à liberdade, dizia:

Só serei verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me rodeiam, homens e mulheres, forem igualmente livres. A liberdade de outrem, longe de ser um limite ou uma negação de minha liberdade, é, pelo contrário, a condição necessária à sua confirmação. Verdadeiramente só me torno livre pela liberdade dos outros, de tal modo que quanto mais numerosos forem os homens livres que me cerquem, mais profunda e ampla se torna a minha liberdade.

Esta a mais cabal definição de liberdade dos anarquistas e se tal definição vale pelo que encerra, o que os anarquistas praticam supera de longe o que teorizam, fato que mais os agiganta aos olhos da visão imparcial da justiça e da história! Não é talvez descabido afirmar que se às ideias e obra dos anarquistas fosse dada a divulgação e propaganda que os outros setores do pensamento de somenos importância se dá, o mundo seria melhor e o curso de vida social seria regular e humanamente mais construtivo. Imaginemos se nos ecrãs dos cinemas, nos palcos dos teatros, nas emissões de rádio ou televisão se evocasse com fins educativos a vida e a moral dos anarquistas, as ideias e os fatos que circundam o viver dos que anarquistas foram ou por toda a parte e sempre anarquistas são, o viver social seria outro!

Mas não. Toda a gente deseja e no fundo, muito no fundo o homem desejaria ser melhor, mas as contingências de um viver corrupto pelos tempos e pela maior parte das ações dos homens (sobretudo dos homens que governam, exploram e oprimem), não permitem que os homens sejam melhores, sejam efetivamente no fundo o que dizem e desejam ser.

No campo socialista, consciente ou inconscientemente por tática ou por manhas, todos dizem que querem o que querem e praticam os anarquistas, embora o que realizem nada tenha que ver com o que pretendem os anarquistas. Não é, portanto, uma questão de tática que os separa, e observe-se, à base da psicologia, o que foram cada uma das figuras da história das lutas sociais, nomeadamente K. Marx, Engels, Lenin e Stalin, comparados com Proudhon, Bakunin, Kropotkin, N. Makhno ou Voline. Não é uma questão de simpatia ou qualquer outro sentimento que a este raciocínio nos leva, da mesma maneira que seria a maior das heresias ou injustiças se se atribuísse a um João XXIII os mesmos propósitos e ideias de um Loiola ou Torquemada. Nada disso. Os homens distinguem-se pelo que pensam, do modo como pensam e especialmente pelo que fazem! Há muito quem sinta e viva as ideias anarquistas sem disso se aperceber ou se importar, mas esse fato ainda tem sua explicação em sociologia e psicologia humana e os anarquistas militantes sabem-no muito bem e com rigor científico o têm explicado…

Ser anarquista militante não é só sentir necessidade de ser livre e pela sua liberdade lutar, mas é ter consciência das causas que o impedem de livre ser e contra elas lutar. Além disso, é pugnar por um conjunto de módulos e regras de convivência social que o personalizem e identifiquem com um modus vivendi que o universalize. A divisa tudo pelo homem, nada contra o homem só o anarquismo a pratica; e integrar a vida nas leis da Natureza, num sentido progressivo e humano, tal é a pretensão inalterável do anarquismo.

A história ensina-nos que em certa altura o homem perdeu o rumo ou sentido da sua evolução e deixou-se arrastar por desvios ou rotas que mais o prenderam à sua animalidade e aí ficou milhares de anos, fossilizando-se na gélida civilização que crioul Hábitos, costumes degenerados, cristalizaram as suas humanas relações e as leis da solidariedade e do apoio mútuo, que permitiram a sua sobrevivência nos recuados tempos da sua vida simplesmente animal, foram substituídas por preconceitos desnaturados e a ideia de lhe atribuir uma alma que aos outros animais se negava, mais embrulhou a naturalidade ao seu viver; seja-nos permitido apenas evocar estas conclusões da biologia para atestar que o homem tem “altos e baixos” na linha trajetorial da sua evolução e teve fases e ainda hoje aqui ou ali vive mais perto da sua emancipação, mais próximo, portanto, da Anarquia.

Louise Michel, Malatesta, Han Ryner, E. Reclus, Kropotkin, Tolstoi e tantos, tantos outros, foram considerados “santos laicos”; e, se confrontarmos o que foram, como foram, comparados com os canonizados santos das Igrejas, não pode restar dúvidas que o seu exemplo sobreleva a todos em grandeza moral e, mais exatamente, pelo seu espírito de abnegação e renúncia, pela dedicação e coragem como lutaram e defenderam os humildes, os pobres, todos os condenados da Terra! Ainda com diferença que os santos das igrejas davam o que pediam e eram rodeados de encómios e honrarias dos potentados que mais os estimulavam, independentemente da suposta recompensa de uma eternidade mais que feliz nos reinos dos céus! O anarquista tudo que faz ou diz sente, fá-lo pela necessidade de o fazer e jamais pensa ou pesa a ideia da recompensa, ou do castigo e a vida despretensiosa e simples que quase todos viveram e vivem; caracteriza-os como autênticos cabouqueiros de um mundo novo e de uma humanidade também nova.

Não é falso nem exagero dizer-se que, embora haja mártires e heróis em todos os campos do pensamento, o ideal anarquista sobreleva a todos e em condições de abnegação e renúncia, em choque com a moral burguesa e espírito autoritário da nossa civilização, que limita a expansão e compreensão do ideal anarquista. Além disso, a luta anarquista exige perseverança e determinação, sangue sempre jovem e rebeldia permanente; e a vida dos povos, em certos períodos, é cansativa, desgastante de irreverências e de sistematizadas rebeldias. Provém deste fato os mínimos da linha sinozoidal da evolução humana e a limitada aceitação do ideal cuja prática da justiça e do amor ao próximo não seja fantasia ou demagogia facciosa dos ambiciosos do mundo. Todo o espírito bem formado aceita a ideia de um mundo melhor, e a ideia de que eram precisos escravos para gáudio e ostentação de poucos, feneceu, como feneceram ideias e propósitos dos que outrora se refastelarem no lauto banquete da vida burguesa, na imbecil ilusão de que é mais saborosa a vida e mais proveitosa a digestão, coexistindo com a miséria e o estômago vazio da maior parte. Este é o lado fraco da nossa civilização e onde o anarquismo recruta a força moralizante da sua doutrina. O anarquismo vangloria-se de não fazer como S. Tomás; apostolizam e praticam os anarquistas tanto quanto podem a sua doutrina e a alternativa de ser martelo ou bigorna , lutam e tudo fazem para que não sejam bigorna, mas em nenhuma circunstância serão capazes de ser martelo. Há um sentido neste dizer, na aparência paradoxal, mas no fundo expressa com exatidão a posição do anarquista perante as contingências da luta que será sempre irreverente, obstinada e nenhuma circunstância permitirá que cale a injustiça e se submeta resignado a qualquer tirania. Não estamos em presença da teoria de Cristo, que vendo-se açoitado numa face, oferece a outra ao ofensor… Nada disso. O anarquista é, por definição, um revolucionário e a sua luta é permanente contra tudo o que o mortifique ou contrarie, nos seus perpétuos anseios de justiça e felicidade social, não lhe permitindo silenciar ou deixar de agir no humano sentido de praticar o “bem” e evitar ou fustigar o “mal”. Fale por nós a história de há cem anos a esta parte e quem se debruçar sobre a vida dos militantes anarquistas, se tiver humana formação, não poderá deixar de admirar a grandeza moral desses heróis e lhe estar agradecidos não só por sua antevisão de um mundo novo e melhor, que mais ou menos todos dizem desejar, mas que em verdade só a Anarquia pode garantir.

O que se afirma, qualquer o pode também afirmar, mas o partidário de uma seita, de um partido, de um sistema qualquer, não se ufana de um critério de isenção ou independência como o pode fazer o anarquista, na medida em que não ambiciona mando ou domínio, nem se sujeita de bom grado ao uso de qualquer autoridade, não a exercendo também sobre ninguém.

O conformismo, a obediência, a disciplina partidária ou imposta pelos de cima, são modos vivenciais que não afetam o anarquista, mas não deixam de pesar na formação e conduta de todo e qualquer agrupamento social. A liberdade sem adjetivos nem limitações é a pedra basilar do sistema promulgado pelos anarquistas e nisto consiste a importância do que teorizam relacionado não só com o que praticam mas consequentemente com o que fundamentalmente pretendem. A autoridade e a liberdade são antinômicas, mas o resultado da sua aplicação nas relações sociais resulta todavia mais antinômico. Deste modo quando o anarquista falar de autoridade e liberdade pressupõe-se que são dois conceitos que se opõem um ao outro e a defesa de um subentende o combate do outro. Para muitos setores políticos o uso da linguagem varia e embora a própria ideia e autoridade divirja no modo de ser aplicada entre alguns povos, a verdade é que isso não impede que toda a fórmula de Estado seja contestada pelos anarquistas, sem abandonar a ideia de que o Estado é tanto mais nocivo quanto mais centralista e despótico, significando, quando o Estado se aproxima de sua forma “perfeita ou totalitária” a governação é uma autêntica escravatura e os povos que tais sistemas suportam envelhecem e bestializam-se!

Desta constatação partiu Proudhon ao escrever as suas “Contradições Econômicas” ou “Filosofia da Miséria”, que tanto barulho produziu, incluso nas escolas socialistas, particularmente no marxismo. K. Marx e os seus partidários mais façanhudos não perdoaram a Proudhon o seu apego à Anarquia, desvinculando-se em absoluto de toda a ideia de Estado. Deste modo em Marx e seus fanáticos partidários, encontrou Proudhon os mais ferozes adversários e Marx com a sua “Miséria da Filosofia” celebrizou-se no combate à liberdade e o inspirador por excelência das ideias totalitárias ou no mais fechado centralismol Desde então, não só os reacionários divinizaram o Estado e a ideia da autoridade, mas é precisamente Marx e seus acólitos, com a ficção da chamada “Ditadura do Proletariado”, concretizada em fatos realizados por Lenin mais tarde, que abrirão o fosso intransponível da unidade revolucionária do proletariado a afastar a imediata possibilidade à verdadeira Revolução Social!

IV. OS ANARQUISTAS TAMBÉM SÃO SOCIALISTAS

A revolução industrial do século passado, além de possibilitar a marcha acelerada do progresso, permitiu o advento incontestável de um mundo melhor. Desde agora ninguém contesta que as causas da miséria estão técnica e cientificamente batidas e o importante é o estabelecimento de estruturas político-econômico-sociais, não só compatíveis com esse progresso mas também de harmonia com uma sistematização da abundância, reparto justo e equitativo da produção, objeto formal das escolas socialistas. O socialismo, como sistema de vida integral da sociedade, aparece como meta imediata das lutas sociais e não importa agora que mais que escolher os métodos ou táticas em que se entrará efetivamente na sociedade socialista.

Todavia sabe-se que a mudança brusca das estruturas, a incompatibilidade das vantagens da introdução da máquina com a mentalidade egoísta e fechada das forças capitalistas e crises sucessivas e consequentes de todo o sistema, constituíram o arsenal indestrutível das correntes socialistas. A luta agora vai dirimir-se no seio das correntes ditas socialistas e a competição tem foros insuperáveis que serão o principal obstáculo da revolução social. Entretanto a burguesia desmoraliza-se e a coexistência da superprodução com a excessiva miséria no lar dos proletários mais agudiza a luta social e maior perturbação gera no seio das forças da reação.

As classes trabalhadoras, solicitadas para a luta, organizam-se e são campo fértil para a incubação de ideias promissoras e vítimas seculares da repressão e exploração, transformando-se no elemento mais ativo da transformação que se impõe tem que radicar em propósitos e sentimentos de solidariedade. Começa por se desenvolver nos intelectuais de melhor formação a ideia de uma temática social mais compatível com o espírito coletivo, não só como natural oposição ao individualismo burguês, mas até como natural ajustamento às novas realidades econômicas e sociais. A grandes campos de produção contrapor-se-ão fortes expansões demográficas e estas imporão as suas leis e regras de convivência, que aliadas às exigências da nova técnica de produção impõem um mundo novo no domínio das relações, tanto entre os produtores, como em todos os setores humanos.

Em França, depois da revolução dos “san-culottes”, representada na figura de Babeuf, as lutas sociais tomam cada vez um cunho mais comunitário e tocam de entusiasmo imbatível uma plêiade de pensadores que farão brotar milhões de páginas de crítica e combate que revolucionarão o mundo das ideias, desacreditando especialmente os grandes sustentáculos da injustiça e desigualdade sociais. A nobreza e o clero dividem-se também em novos fulcros de reação, ao passo que as ideias do progresso formam uma força indestrutível que tudo renova. As letras, as artes e a ciência também se deixam contagiar pela ideia de um mundo novo e, em críticas realizam-se e permitem perspectivar o viver do indivíduo e da sociedade em moldes socioeconômicos mais prometedores da promoção social. Algumas “Utopias” desde Platão, Thomas Moore, Campanella, Rabelais e Fourier, inspiram novos sistemas sob a nomenclatura socialista e uma plêiade de literatos e filósofos se identificam com as ideias socialistas. Pierre Lerroux, Tourail, Raspail, Robert Owen, Blanqui, Ridavia, Pecquer e tantos outros, divulgadores de um socialismo, que diferindo muito do iniciado por Godwin e alicerçado por um Proudhon, irão evoluindo no sentido de uma irreconciliação absoluta, especialmente com o aparecimento de Engels e K. Marx. Desde agora duas escolas fundamentais do socialismo se observam, uma autoritária e outra libertária. A primeira divide-se ainda em reformista e revolucionária, mas ambas concorrentes à conquista do Poder; a segunda é desligada em absoluto dos princípios autoritários ou da ideia do assalto ao Poder, mas ambas têm entre si salutar afinidade, ainda que taticamente se separem ou atuem em setores de luta diferente.

No campo sindical, a unidade da classe trabalhadora sobre-estimam-na e não desistem de uma mentalização apolítica e libertária. O sindicalismo revolucionário ou anarcossindicalismo, definido no congresso de Amiens, serve-lhes de suporte de luta social e a ação direta, como a compreendem os anarquistas, é o elemento base da sua atuação. Esta circunstância, formal distinção do socialismo libertário, afeta extraordinariamente a sua aceitação, se se considerar a tendência comum para a inaceitação do mais simples, perante o mais complicado, procurar no fundo, muito no fundo, o que está à superfície.

Os anarquistas estão, por princípios, proscritos de toda e qualquer atividade política tanto quanto presos aos anseios e aspirações das classes trabalhadoras. Este

fato determina que onde quer que a vida se processe para fins socioeconômicos aí poderão estar os anarquistas, intervindo, não só no cumprimento das suas sociais obrigações, como no suposto sentido de disseminação ideológica que importa espalhar por todos os organismos considerados essenciais à vida social. Assim, nos sindicatos, nas cooperativas, nas comunas, em qualquer coletividade, incluso nos municípios, quando tais organismos se subtraiam ao centralismo estatal ou se integrem nu m federalismo libertário, podem e devem os anarquistas intervir, materializando um sistema socialista que só em liberdade é possível. Proudhon e Bakunin indestrutivelmente enunciaram esta verdade e qualquer deles terá afirmado que “liberdade sem socialismo não é possível e socialismo sem liberdade é tirania”.

A ideia de socialismo dos anarquistas está ligada ao fato da interdependência do indivíduo e da sociedade, quando se sabe que o isolamento é impossível e o homem até para se reproduzir precisa se associar. Há anarquistas que se dizem ou se disseram individualistas; outros, coletivistas ou comunistas, sem que se possa desprender que haja alguém que possa aceitar a vida sem relações, sem contatos de muita ordem ou indispensável cooperação. O individualismo de um Max Stirner e dum Han Ryner não fizeram escola, embora fossem pensadores de valor excepcional, especialmente Han Ryner, o qual explica o seu apego ao seu eu, numa concepção de liberdade sem peias nem entraves, o homem pode ser transportado às mais fantasiosas ações da sua independência e da sua liberdade! Cremos mesmo que a exaltação do “ego” dos anarquistas individualistas, no fundo, deve estar certa e é exatamente para uma valorização do indivíduo íntegro e independente que o homem tende; o socialismo libertário é o meio ou sistema social de que o homem e a sociedade se servem conducente a essa independência ou liberdade. De resto, quando se interpreta devidamente o sentido libertário do socialismo, temos presente a possibilidade de autêntica promoção do indivíduo sem quebra dos vínculos que o ligam à sociedade, para a promover a um nível sempre crescente de valorização social sem o mínimo sacrifício da personalidade e da independência do indivíduo. O anarquista Neno Vasco, na sua “Concepção Anarquista do Sindicalismo”, dizia que “quanto mais anarquista mais sindicalista e quanto mais sindicalista mais anarquista”. Parafraseando Neno Vasco, diremos que quanto mais anarquista mais socialista e quanto mais socialista mais anarquista, sendo, aliás, o que disseram Proudhon e Bakunin em termos indiscutíveis. O importante é salientar que anarquismo constitui horizonte ilimitado e envolvente de um sistema social onde o homem livre em sociedade livre possa dar plena satisfação às suas necessidades humano-sociais. O que confunde muita gente é a ideia restrita que se faz do anarquismo ou confundi-lo com qualquer grupo político e suas etiquetas, programando tudo, estipulando ou limitando. Qualquer partido político, na posse do Poder, pode programar e julga, com a força ou poder nas suas mãos, levar à prática quanto programatiza, mesmo que as realidades sociais o contrariem. Quanto ao anarquismo, tal não acontece, porque não dispõe de meios nem de força para o fazer e esse é, se assim se pode dizer, o seu programa. O anarquismo não concebe decretos, não legisla, porque além de incoerência seria inoperante e simplesmente ridículo. Socialismo é o modo de convívio pelo qual o homem e a sociedade se integram e se procuram numa harmônica correlação de deveres e direitos interpenetrantes, produzindo a harmonia e saúde do corpo social. O anarquismo (neste caso, a liberdade sem peias nem entraves de espécie alguma), é seiva anímica que anima e vivifica, desde o órgão mais simples ao mais complicado do corpo sociall Quando os anarquistas dizem que socialismo é possível, enunciam uma verdade ou um enunciado sociológico científico que nenhuma dialética destrói e todas as realidades históricas e sociais comprovam!

Não é impunemente que se considera pura abstração bem-estar coletivo ou social sem que esse bem-estar seja expressão ineludível do bem-estar do indivíduo e Jean Grave, no seu “Indivíduo e a Sociedade”, desenvolve este tema com um rigor e pormenor que simplesmente podemos lembrar e apoiar. A nossa intromissão, em matéria tão complexa, é-nos imposta por uma série de raciocínios demonstrativos da importância da liberdade e não é viável ou possível sem as condições político- econômico-sociais que a determinem e a imponham! O homem é um ser racional e livre que propende por sua própria natureza à liberdade absoluta, como os números racionais e positivos tendem para mais infinito. Propende, mas não atinge, circunstância que de modo algum justifica entraves que se forjem, limitações que se lhe imponham, que não sejam as da sua própria condição humana, ou determinadas pela sua natural dependência social. Qualquer de nós, quando livremente renuncia a qualquer coisa que em seu proveito pessoal podia utilizar, se o fizer com humana ou social consciência, pode sentir um duplo prazer e está aqui a chave ou a compreensão do problema social em termos socialistas ou anarquistas! O homem que se ignora e que alienado se despista das suas responsabilidades sociais, não compreende e dificilmente aceita a prática da solidariedade como veio condutor do bem-estar social. Felizmente, que o instinto supera essa inconsciência, mas a evolução, por isso, é muito mais lenta e custosa!

A solidariedade é a alavanca que suporta o universo, não só o homem, mas o Universo… A mãe, mesmo a das espécies mais inferiores, desprende-se material e fisiologicamente de tudo que pode para dar vida ao filho e a razão da sobrevivência das espécies está aí. O progresso social não é só soma de esforços e de sacrifícios impostos, mas também somatório de renúncias que, ao longo dos séculos, voluntariamente entre o indivíduo e a sociedade se foram fazendo. Está neste pensamento a base histórica do socialismo e a razão imperante da liberdade nas relações de indivíduo-sociedade. Também se poderá identificar deste modo a “razão de Estado”, o poder da Autoridade, o constrangimento em função do direito coletivo ou social, mas isso seria justificação do privilégio, da desigualdade, da injustiça, da tirania, portanto.

Socialismo, além de realização conjunta do homem em busca dos elementos essenciais do seu viver, é ainda o modo fácil de se dar cumprimento às leis de solidariedade e da universalização do homem. A utilização dos meios de deslocação, cada vez mais velozes, foram permitindo ao homem uma informação que lhe avivou uma condição social mais lata e mais sadia e quanto mais consciente da imensa vastidão do mundo que o cercava, mais vínculos necessitou de criar que o ajudasse na sua natural expansão. A vida em sociedade não surge por decretos ou leis que alguém faça, mesmo que esse alguém fosse um Deus onisciente e onipotente, mas porque é condição fundamental da própria vida, não só a do homem e outros animais mas a vida em si, considerada e vista na sua grandeza universal! Sabe-se que a sociedade é anterior ao homem e este só em função das exigências sociais se foi apercebendo da sua condição de homem e vice-versa, quanto mais se encontra mais consciência tem da sua responsabilidade de vida social. O homem, obreiro em certa medida de si mesmo, não pode ignorar quanto deve a qualquer expressão de vida que o rodeie e alargar essa dívida até o infinito…

As ciências naturais, especialmente as que mais se relacionam com o homem e a sociedade, dizem-nos que, à medida do decorrer dos tempos, o homem se entroncou na imensa floresta da vida social, adquirindo e perdendo caracteres que o foram diferenciando mais da sua origem, embora sempre num sentido evolutivo e humano. Também nos dizem que o conhecimento do homem estava confinado aos rudimentos da antropologia e esta apenas relacionada com a fisiologia e psicologia humanas. De há cem anos apenas, a grande revolução humano-social viria proporcionar o aparecimento de outros ramos de ciência, poderosas achegas para mais cabal conhecimento do homem nas suas múltiplas dependências mesológicas e sociais. “A etnografia elucida- nos do aspecto particular de cada região em relação aos vínculos que prendem o homem ao meio social, enquanto que a etnologia nos descreve a humanidade no seu conjunto e nos ensina a compreender os seus caracteres físicos e espirituais no tempo e no espaço da escala humana.” É só em 1880 que Hamy, num informe, nos diz que a etnografia “é o estudo de todas as manifestações materiais da atividade humana: alimentação e alojamento, vestuário corrente e cerimonioso, armas de guerra e instrumentos dos trabalhos pacíficos, caça, pesca, cultura e indústria, meios de transporte e de troca etc.”. Esta evocação da ciência serve-nos apenas para compreender a base científica do anarquismo, como o demonstraram Kropotkin, Reclus e tantos outros, nas suas obras de antropologia, etnografia, geografia e psicologia, completadas com a psicanálise de um Freud e toda a experiência dos últimos cinquenta anos de lutas político-econômico-sociais.

Chegados a esta conclusão, importa ter presente que o surto ou escalada do socialismo é perfeitamente lógico e facilmente se compreenderá por que poucas ou nenhuma correntes político-ideológicas se eximem à aceitação senão na totalidade dos seus postulados, ao menos no inevitável das suas exigências. Por toda a parte surgem escolas socialistas e a classificação que adotam em grande parte resulta de adjetivos caprichosos e sem conteúdo propriamente socialista, como o do nacional socialismo alemão, o bolchevismo na Rússia, nacional sindicalismo na Espanha e o corporativismo em Portugal. No entanto, na sua demagogia, todos mais ou menos se identificam com a ideia socialista.

Mas uma coisa é não poder negar ou fugir a certas imposições do progresso material, outra a de criar um sistema que não só seja um rigoroso ajustamento a esse progresso mas prática ineludível da vida socialista. Não basta concordar com uma ideia ou propagá-la; é preciso que nos integremos nos seus princípios e cumprindo-os, que nossos atos sejam a expressão viva dessa ideia! No aspecto econômico, há certas prevenções que já foram reivindicações socialistas e, socioeconomicamente falando, muita coisa se vai modificando, e sem faltar à verdade, ou mesmo em obediência à verdade, os setores da produção e distribuição vão-se adaptando às novas regras de convivência, exigindo para uma maior produção um maior consumo, o que está certo e facilita, assim, as exigências do mundo capitalista.

Se a instauração do socialismo dependesse só da propaganda dos seus partidários e da educação que os povos recebem, seria difícil ou mesmo impossível, como o afirmam os bafejados dos privilégios capitalistas e os ignorantes das leis do progresso e da Sociologia. Mas o certo é que todo o progresso se processa no sentido da universalidade e a civilização vigente e os seus sistemas, codificados por hábitos e princípios de remotas eras, não se coadunam nem se harmonizam com as condições de igualdade e humana convivência que as novas técnicas de produção e distribuição exigem! O desenvolvimento da Burguesia acordou no homem dois sentimentos contraditórios: acirrou o egoísmo nos setores humanos, em cujas mãos dependia o rumo das coisas e exigiu e forjou condições sociopolíticas que não poderão dispensar regras de convivência e trabalho onde o espírito de grupo e a solidariedade coletiva foram vencendo a animalidade humana, expressa e patente nesse egoísmo! Desde agora tudo se processo num convívio mais largo e a ideia de camarada reconforta o homem e fá-lo pensar que tudo o aconselha à vida coletiva: é quando em si desperta para jamais fenecer a ideia socialista!

V. MEIOS E FINS DO ANARQUISMO

Talvez se possa evocar aspectos da vida comum para explicar desmandos ou erros particulares. Falar de ideias, de propósitos ou sistemas em perspectiva de qualquer agrupamento, não é tarefa fácil e sempre contingente senão a erros pelo menos a propósitos mal intencionados ou interesses particulares ou de grupo. Costuma dizer-se, em linguagem comezinha, “quem há de dizer bem da noiva senão o noivo?”. Isto está certo e define uma situação ou estado psicológico comum a muita ou toda a gente. Receamos que nos acusem doutro tanto e, tanto quanto humanamente nos for possível, desejamos estar advertidos dessa falha. É certo que também se sabe que o que cada um sente, pensa e sinceramente é capaz de realizar aflui aos nossos ditos, vem expresso nas nossas palavras e não é fácil esconder ao observador astuto, ao estudioso das coisas e da vida devidamente atento. No domínio das ideias há muita incoerência; há os que sentem uma coisa e por interesse ou ignorância dizem outra; há os que dizem e não sentem e muitos que sentem e por modéstia ou dificuldades de meios de comunicação não podem ou o não sabem dizer.

Tudo isto nos é sugerido pelo que cada um diz e faz, referindo-se a si ou aos seus, mas agindo de modo diferente quando dos outros se trata. Deste vício ou defeito derivam fortes deslizes morais, ou converte-se em motivo de intolerância e sectarismos. Naturalmente que não nascemos assim e os biólogos quando voltados para a psicologia e pedagogia concluem que, embora hajam certas deformações de cunho psicológico que se transmitem, a verdade, dizem-nos, é que o homem quando nasce é um ser amoral e são as circunstâncias que o rodeiam, clima social e educação que recebe, as fontes da sua formação.

A educação burguesa e autoritária radica os seus conceitos e a sua moral na crença de que o homem é, por natureza, mau e justifica o seus sistema repressivo e toda a sua máquina forjativa da mentalidade humana, na crença de que a educação ou respeito à lei pelo medo à polícia ou ao castigo é mais eficiente, e daí todo o seu sistema! Cientificamente isto é falso e, mesmo que houvesse nisto uma centelha de verdade positivamente científica, a verdade é que até as feras se domesticam e, pela educação, realizam-se “milagres” no sentido psicológico e social. Mais: todos os princípios religiosos e políticos de educação sabem o que valem s princípios de educação no sentido formativo das pessoas ou multidões e “Cristo dizia que deixassem ir a si os pequeninos”, da mesma maneira que modernamente os sistemas totalitários se apoderam de todos os meios de educação, das escolas, centros de ensaio das quais fazem centros de deformação humana! Na Alemanha nazista como na Rússia, sob o jugo de Stalin, se cultivou o medo e o ódio em que pais e filhos se denunciavam reciprocamente e os mais baixos sentimentos se propalavam e mantinham normativamente em todo o sistema de relações sociais. Pertence à história a apreciação deste fato ; para nós, sirva-nos apenas para dizer que da escola e educação que se recebe, depende a nossa formação, os nossos sentimentos, a nossa conduta. Uma sociedade diferente da atual exige que sejamos diferentes no porte e sentimentos, promanando de uma conduta livre e humana a desejada sociedade que a todos garanta a liberdade, o respeito e usufruto de uma justa equidade, que a todos beneficie e sirva!

É desse pressuposto que partem os anarquistas e a sua conduta está rigorosamente ajustada a este objetivo. A igualdade propagam-na sem sofismas nem reservas, como a liberdade a advogam sem adjetivos nem subterfúgios. O anarquismo é uma doutrina que exige de quem a propaga espírito de sacrifício e abnegada disposição na prática do bem e repulsa, até à violência, do que é nefasto e impeditivo da livre evolução do indivíduo e da sociedade. Felizmente que há muitíssima gente, que com desconhecimento do anarquismo, também assim procedem e reside neste fato a força e poder persuasiva do anarquismo, doutrina que em consciência ninguém de boa formação rejeita ou repudia!

O anarquismo confia e pratica a persuasão, como fito de um conceito educativo e base estruturalista de uma possível mentalização, que permita e determine a integral vivência em completa liberdade. As comunidades ou organismos em que intervenha ou organize terão sempre uma base federalista ou libertária, que o mesmo é dizer: todo o nosso sistema de relações se insere numa ambiência livre e espontânea, onde todas as práticas vivenciais sejam fiel expressão da mais completa liberdade do viver social.

A educação pelo exemplo, sempre o anarquismo considerou como realização prática dos seus objetivos, fazendo uso de uma moral consequente, segue à risca os princípios que condicionam o viver do indivíduo e a própria sociedade!

Na arena das lutas sociais duas correntes se debatem que, parecendo convergir, na realidade estão profundamente distanciadas: a marxista e a anarquista. O marxismo advoga um socialismo de Estado (que os próprios marxistas classificam de científico) e o anarquismo, defendendo um socialismo libertário (que os mesmos marxistas apodam de inviável e utópico). Todavia, dentro das realidades sociais e dos fatos da história, são precisamente os marxistas, prometendo uma coisa, realizando outra, que não passam de utópicos, pretenderem realizar o socialismo por modos autoritários ou centralistas, quando só a liberdade e federativamente estruturada a sociedade pode ir ao socialismo, realidade que a experiência confirma. Sabe-se que antes do “Manifesto Comunista” de K. Marx e F. Engels, publicado em 1848, já o haviam definido e divulgado Fourier, R. Owen, Sant-Simon, Proudhon e tantos outros. Qualquer destes pensadores advogaram um socialismo que pouco a pouco os distanciavam, primando pela ausência da propriedade privada e mais ou menos excluindo a sobrevivência do Estado. Com Marx, que se inicia nas ideias socialistas dizendo-se discípulo de Proudhon, o socialismo é agora uma ideia que se dispersa e mesmo dentro do marxismo irá sofrer cisões, que com o decorrer do tempo e das lutas sociais se tornaram irreconciliáveis.

O anarquismo não é um movimento que se isole e é na associação, sindicatos e cooperativas, extratos sociais onde a ideia da libertação mais facilmente ecoa, onde mais exerce sua atividade e maior número de adeptos recruta. Em regimes ou clima onde a liberdade de associação e de pensamento não se viva, as ideias de liberdade se eclipsam, a tomada do poder se desenvolve e arreiga na maioria dos espíritos, os partidos políticos proliferam… A política desagrega e regra geral motiva conflitos; a associação aglutina e torna solidários seus associados, solidariedade que se espalha e cativa o ambiente social, tornando-o acessível a outros setores, cataliza os elementos fundamentais da Revolução.

Os anarquistas, não possuindo propriamente um programa imediatamente à revolução, têm, no entanto, pressuposto o que a experiência aconselha e as ciências humanas nos ensinam. Não confundindo Estado com sociedade, os anarquistas visam imediatamente a destruição do Estado mas preservam todos os elos de relação social, ao mesmo tempo que fortalecem e desenvolvem todos os organismos de produção e consumo, imprimindo-lhes uma dinâmica e uma ambiência autenticamente libertária. Ninguém duvida da viabilidade de um sindicato, uma comuna, uma cooperativa, qualquer comunidade artística ou de recreio se poder administrar ou reger por princípios libertários, e quando nos estatutos de tais comunidades se estabelece para todos iguais deveres e direitos e o seu poder deliberativo esteja radicado na soberania das assembleias, quer simplesmente dizer que o mesmo sentido se pode e deve imprimir, qualquer que seja a importância ou grandeza de qualquer coletividade. A própria autoridade tem um sentido de grandeza que se pode reduzir ou aumentar, indo da mais feroz autocracia à democracia mais liberalizante e progressiva.

O que no conceito dos anarquistas importa destruir é o sentido centralista ou autoritário das atividades e relações humanas, conferindo ao indivíduo e implicitamente à sociedade, um sentido de independência e liberdade que os conduza à Anarquia!

Para além da formulação de estruturas socioeconômicas há todo um processo de relações humanas que destruirá os malefícios de uma moral burguesa que nos embota e bestializa, obstando a prática de um convívio que nos felicite, para que a sociedade sem classes nem injustiças se construa e consolide. Nada oferecemos porque nada temos para dar, sem que isso nos impossibilite de que para cada mal descubramos uma causa, e conhecedores da causa do mal lhe saibamos dar cura e esta sempre atinente e eficaz, indo ao fundo cavernoso do atual sistema em que vivemos. Cremos não descuidar a solução pronta dos problemas do indivíduo e da sociedade mas sempre em moldes suficientes e progressistas, de forma que o indivíduo e a Sociedade marchem e evoluam num sentido e efetiva promoção social. Ser revolucionário é estar impregnado de uma vontade indestrutível de transformar o homem e a sociedade num humano sentido e de tanto quanto prática e humanamente possível transformar os seus ditos e feitos em autênticos dardos que visem a destruição do mundo capitalista. Ser revolucionário é adotar métodos de luta consequentes e operantes onde a dúvida do acerto não subsista nem a perda de tempo desencoraje ou anule o fervor revolucionário que em rebelião as massas vivem!

Revolucionário é o que, não só consciente dos seus direitos e deveres, propugna e atua diretamente contra todos os obstáculos da revolução, mas também o que mentaliza e educa o homem e a sociedade no sentido de uma completa desalienação de ambos. Revolucionário é não aceitar preconceitos ou velharias, passar por cima da tradição e ter sempre presente que tudo que naturalmente a vida nos exija e imponha isso sim, se acatará sempre, e tudo mais que fantasia seja nos deve fazer rir e aconselhar que se despreze.

A mentira política ou religiosa não a aceitamos e também não acreditamos em reformas por processos governamentais nem o parlamentarismo nos merece crédito.

Os sistema de voto ou sufrágio universal, também o temos como uma bambochata e não o aceitamos como método de luta social pela farsa que representa onde quer que se pratique, mesmo em moldes de certa legalidade. Fale por nós a história ou veja-se o que vem passando nos países onde o sistema ainda tem visos de certa legalidade, como é o caso da Inglaterra, França, Bélgica, Suíça e tantos outros, onde os trabalhadores não prescindem da luta direta na defesa das reivindicações. Onde lhes falte a unidade e a força nada conquistam, veja-se o que se passou imediatamente à guerra de 39 por França (onde o governo em maioria e nas principais pastas esteve nas mãos dos comunistas) e mais recentemente na Inglaterra. De resto cento e tal anos de experiências reformistas e colaboracionistas à base de partidos e modos centralistas foram práticas que a classe trabalhadora renunciou e o último quartel do século passado e o primeiro deste foram prova viva da fecundidade da ação direta e revolucionária das classes trabalhadoras, contrastando com os últimos cinquenta anos onde tudo se baralhou e perdeu no sentido inequívoco da Revolução!

A Revolução Russa foi perdida, triunfou ali o bolchevismo, instaurando a ditadura mais bárbara da história e se em teoria Lenin e depois Stalin diziam e os seus satélites aos quatro ventos propagavam que a ditadura era uma situação de emergência e que extinta a burguesia e todos os inimigos da revolução, esta se extinguiria e até o próprio Estado desapareceria e cairíamos na Anarquia, segundo Lenin nos revela no “Estado e Revolução”. Não foi surpresa para os anarquistas e se Trotsky, chefe e organizador do Exército Vermelho, eliminou às centenas milhares de revolucionários particularmente na Ucrânia e Kronstadt, fê-lo ainda em nome dessa revolução que o havia depois de o mandar matar como a tantos outros trotskistas na Rússia ou na revolução espanhola. E agora perguntemos: Como explicar que Stalin tenha eliminado para cima de trinta milhões de “burgueses” ou inimigos e a quase 60 anos de ditadura bolchevista a Rússia seja um país dos que mais longe está das ideias e práticas do socialismo? O socialismo é irmão gêmeo da liberdade e onde um falte não pode estar a outra!

Além disso para se justificar uma ditadura tão bárbara e duradoura ficaria provado a inoperância de tal sistema para combater a burguesia ou à reação para quem dizem ser instaurada a ditadura. Tal sistema, à base de uma crítica racional e visto como modo onde o homem e os povos se debruçassem na pista de exemplos válidos para uma autêntica revolução social, não pode haver dúvidas que seria perder tempo ou só o ganharia na experiência negativa que os seus exemplos nos podem dar.

É certo que há muita coisa que na Rússia se poderá ver com agrado: o seu folclore, os seus músicos, os seus atletas, os seus Sputniks e, para quem goste, as suas grandes paradas militares… Para o revolucionário, para quem tudo é capaz de sacrificar para o triunfo da REVOLUÇÃO, são aspectos que não contam exatamente porque são expressões da vida que pouco nos dizem da liberdade de um Povo que há 56 anos fez a sua revolução e que uma forte repreensão das forças reacionárias a fizeram perder.

Por mais que olhemos o mundo por parte alguma descobrimos que a revolução tenha triunfado e do fato há quem suponha e acredite que esta jamais triunfará. Nada disso! O que a revolução tem é muitos inimigos se a massa de indiferentes é um mal que retarda a revolução, o que mais a afeta são os enamorados do “Mando” que a revolução atrofiam, arregimentando prosélitos que alienam e com as fobias e aversões à liberdade os embriagam.

Nos países ditos socialistas as eleições não são precisas e a liberdade um prejuízo burguês, claro que outrotanto não acontece onde não são governo e todo o método burguês lhes serve e colaboram e vão às urnas. Naturalmente que além de incoerência é uma forma de desviar da via revolucionária a classe trabalhadora e atrasar a revolução!

O anarquismo militante não aceita o voto nem colabora em farsas eleitorais e se promulgamos a organização dos trabalhadores em organismo de classe, também nos desejamos inserir na vida da sociedade onde exemplifiquemos a prática de um convívio tolerante e sociável e, tanto quanto possível fazer aflorar no ânimo dos nossos convivas o verdadeiro sentido da liberdade.

A autoridade, a violência, o dogmatismo e a intolerância são defeitos que combatemos e provém deste combate todo um peso incompreensível e maldoso dos nossos adversários, que explorando a ignorância do povo ou nos marginam ou falam de nós depreciativamente. O anarquista é um combatente leal e frontalmente enfrenta os seus adversários, procurando convencê-los se possível, mas aceita e compreende com tolerância quantos não possam ou não saibam compreendê-lo. A nossa noção de liberdade não é fictícia nem dogmática e para o anarquista não há hipótese para delitos de opinião, todo e qualquer indivíduo tem direito a ter as opiniões que quiser, cuja condição única é a de reconhecer aos outros o direito de outras opiniões ter. As religiões não as cremos precisas para o curso da vida normal de um povo ou de todos os povos e têm até aspectos que afetam extraordinariamente a marcha do progresso social ou a libertação humana, no sentido integral dessa libertação. O indivíduo que crê vê limitadas as suas faculdades de independência e se houve um Tolstoi que foi crente e genial, a sociedade não é feita de gênios e a crença é uma subordinação em potência onde a faculdade de ser livre e independente se perde. Acreditar num Deus é não compreender o Universo nem as leis cosmogônicas que o Universo regem! Quando Copérnico concebeu o seu sistema heliocêntrico feriu de morte todo um sistema geocêntrico na qual radicavam as principais crenças religiosas. As ciências, em todos os campos, mas em especial as ciências humanas, alargaram o conhecimento humano e afastaram positivamente das velhas concepções do mundo e do Universo o pensamento do homem, levando-o a novas concepções que se irão refletindo em novos conceitos de liberdade e de independência, fazendo com que as velharias milenárias que pesavam na mente humana se pulverizem e novos rasgos das totais realidades do homem e do Universo nos bafejem.

As religiões vivem e apoiam-se no dogma, todas se confundem numa intolerância que o ambiente social viciam e corrompem e só o ódio prolifera onde as religiões intensamente vivem. Do dogma religioso provém o dogma político e o sectarismo, que tantos danos motivam no sentido das relações humanas. São aspectos que o anarquismo militante não aceita, são fatores de desagregação humana que o progresso e a revolução combatem, exatamente porque a solidariedade e o espírito de cooperação são módulos de uma vivência que o dogmatismo e a intolerância destrói!

Sempre foi norma das religiões a dogmas outros dogmas apôr e se a intolerância política na intolerância religiosa se inspirou, ambas são expressões de vida falsa e negativa e ambas têm de ser combatidas.

Da autoridade divina promana a autoridade do Estado e ambas são a negação da vida natural e tronco da árvore genealógica do mal sociall

A propriedade privada, o Estado e a religião, sempre foram tripé onde a exploração, a opressão e a ignorância tiveram assento, não permitindo a natural evolução do indivíduo e da sociedade, determinam que a luta revolucionária as vá corroendo até à explosão inevitável da revolução. O combate à propriedade privada celebrizou um dos maiores pensadores de todos os tempos – Proudhon – e o que a si mesmo pela primeira vez se determinou anarquista. Foi o mais ousado dos economistas de sempre, e classificando a propriedade privada de roubo, demonstrou com larga argumentação “que, na ordem da justiça, o trabalho destrói a propriedade”. Como reforço da sua tese Proudhon diz-se ainda “que o homem isolado não pode suprir senão uma pequena parte das suas necessidades; toda a sua potência está na sociedade e na combinação inteligente do esforço universal”. No desenvolvimento da sua tese dá-nos a noção objetiva do impossível isolamento do homem. Em sociedade o homem complica suas relações e perde o direito de chamar seu o que é de todos, circunstância que nos obriga a uma dependência comunitária que nos será favorável se à mesma presidir um critério de justiça e equidade social.

Se em qualquer tempo ou lugar o isolamento foi impossível, com o desenvolvimento das ciências tecnológicas e mais compreensivelmente com a revolução industrial as sociedades mudam de face e a propriedade privada passa a ser um embaraço não só ao progresso como impossível no contexto das sociedades, onde se introduz o uso de novas técnicas de produção que a revolução industrial nos traz. As contradições do sistema capitalista perturbam todo o equilíbrio econômico dos povos e só o recurso à guerra o Capitalismo aceita como acidente inevitável do seu sistema. Os economistas são máquinas que só veem números e só o rendimento é fator válido nos seus cálculos e planeamentos, que vão sempre bater nas situações de crise que a novas guerras conduzem.

Aí pelos anos 1840 Proudhon no seu célebre livro “O Que E a Propriedade” procurou minar as bases do sistema capitalista e produziu a célebre frase que ecoaria como uma bomba que jamais outra teria feito, “A Propriedade Privada E um Roubo”. Cremos que na história das lutas políticas e socioeconômicas outra não foi mais célebre e na interpretação desta frase está definido todo um sentido de luta e abarca um conceito de justiça e igualdade, que a cento e vinte anos ainda é atual, porque o mundo não mudou como o desejaria Proudhon. Nas dez sentenças que Proudhon exterioriza parece-nos ter demonstrado a impossibilidade da propriedade. Vejamos:

1- A propriedade é impossível porque do nada exige alguma coisa.

2- A propriedade é impossível porque onde quer que seja admitida a produção custa mais do que ela vale.

3- A propriedade é impossível porque sobre um capital dado, a produção é em razão do trabalho, não em razão da propriedade.

4- A propriedade é impossível porque é homicida.

5- A propriedade é impossível porque com ela a sociedade devora- se a si própria.

6- A propriedade é impossível porque é mãe da tirania.

7- A propriedade é impossível, porque consumindo o que recebe perde-o, poupando-o anula-o, capitalizando volta-o contra a produção.

8- A propriedade é impossível, porque o seu poder de acumulação é infinito porque só se exerce sobre qualidades finitas.

9- A propriedade é impossível porque é impotente contra a propriedade.

10- A propriedade é impossível porque é a negação da igualdade.

Estes dez axiomas, numa interpretação justa, formam um tratado de filosofia socioeconômica e foi efetivamente de larga e indestrutível influência das ideias socialistas, não excluindo a marxista que fez de Marx discípulo de Proudhon na sua juventude, mas que a sua mentalidade e formação autoritária depressa o faria obcecado adversário de Proudhon e que fora a sua famosa obra “O Que É a Propriedade” que o trouxera ao socialismo, o que está historicamente provado e o “Manifesto Comunista” que em 48 escreveu de colaboração com Engels prova-o ao observador menos atento, lendo o “Manifesto” com atenção (além de TCHERKESOFF que já o dissera ser, confirmado por Labriola, marxista italiano, um trabalho plagiado) verifica-se que nada tem de original, nem a importância que lhe atribuem os marxistas de hoje. De resto se atentarmos nos 10 pontos fundamentais do “Manifesto” onde Marx e Engels exprimem toda a ação revolucionária e objetiva, coincidência curiosa com os 10 pontos com que Proudhon define a impossibilidade da propriedade privada! As 10 sentenças nada nos parecem revolucionárias e todavia menos se as compararmos com toda uma temática revolucionária que se produziu em toda a última metade do século passado.

1- Expropriação da propriedade territorial e emprego da renda da terra para os gastos do Estado.

2- Forte imposto progressivo.

3- Abolição do direito de herança.

4- Confiscação da propriedade dos emigrados e sediciosos.

5- Centralização do crédito nas mãos do Estado por intermédio de um Banco Nacional com capital do Estado e monopólio exclusivo.

6- Centralização em mãos do Estado de todos os meios de transporte.

7- Multiplicação das empresas fabris pertencentes ao Estado e dos instrumentos de produção, roturação dos terrenos incultos e melhoramento das terras, segundo um plano geral.

8- Obrigação de trabalhar para todos [?]; organização de exércitos industriais, particularmente para a agricultura.

9- Combinação da agricultura e da indústria; medidas encaminhadas a fazer desaparecer gradualmente a oposição entre a cidade e o campo.

10- Educação pública e gratuita de todas as crianças; abolição do trabalho destas nas fábricas tal como se pratica hoje; regime de educação combinado com a produção material etc., etc. (“Manifesto Comunista” 1- edição de 1848)

Qualquer estudioso atento ou um simples aprendiz de problemas ou questões sociais verifica a diferença entre os 10 axiomas ou sentenças de um Proudhon e as 10 sentenças de Marx e Engels no tão apregoado “Manifesto Comunista” que ainda hoje é catecismo comunista. Nada tem de original e muito menos de revolucionário, mesmo remontado ao tempo em que o produziram enquanto que o que Proudhon setenciou tem e terá sempre atualidade. O que nos diz Proudhon resiste no tempo e no espaço e ainda não foram excedidas nas já muitas revoluções ou em qualquer dos “comunismos” que conhecemos e ainda tem atualidade o que dele disse Warlaam Tcherkesoff na apreciação que dele faz e considerando-o mesmo assim um plagiato, reconhecido também por Kautsky, embora corifeu destacado do “socialismo científico”.

Qualquer observador atento ou um simples aprendiz de sociologia verifica a diferença de conteúdo e como a doutrina de um Proudhon resistiu no tempo e no espaço e ainda hoje não foram excedidas e muito menos ultrapassadas. Compare-se os seus fundamentos com as sentenças do “catecismo” marxista e ver-se-á a diferença. O que postula o “Manifesto Comunista” além de nada original, é no fundo antirrevolucionário e só o fanatismo doentio da obtusa mentalidade política lhe permitiu tanta audiência. Warlaam Tcherkesff, na sua célebre apreciação que faz do marxismo, no seu livro “O Marxismo antes de Marx”, diz que pasma como um trabalho que diz ser cópia de outro de V. Considerant (referindo-se ao “Manifesto”) tenha feito tanto ruído quando nada tem de profundamente crítico e construtivo. Os 10 pontos que Engels e Marx recomendam ao povo não passam de uma simples programação política, inviáveis sem o poder nas mãos e simples rudimentos sem consequências reformadoras em qualquer sistema mesmo reacionário ou conservador. A exatidão deste raciocínio prova-o a série de alterações que em vida dos autores foi sofrendo nas sucessivas edições que foi tendo, nada mais que sete, além de notas e alterações que foi sofrendo. A não grande importância e vulnerabilidade do “Manifesto” está aí bem patente e não é necessária grande cultura sociológica nem profundos conhecimentos da temática revolucionária para que nos apercebamos, que é preciso muito boa vontade ou ignorar toda a literatura revolucionária, que milhares de pensadores antes e depois de Marx nos legaram, páginas revolucionárias que sobre elas passarão muitas dezenas de anos e serão sempre valiosas e revolucionariamente construtivas!

A própria definição que nos dá da propriedade privada já não foi no tempo original, outros já o teriam feito e as soluções que sugere não chegam a ser soluções. Vejamos: “A revolução francesa, por exemplo, aboliu a propriedade rural em proveito da propriedade burguesa. O rasgo definitivo do comunismo não é a abolição da propriedade privada geral, senão a abolição da propriedade burguesa, é a última e mais acabada expressão do modo de produção e de apropriação do que se produz à base dos antagonismos de classe, na exploração de uns pelos outros”. Na edição inglesa de 1888 já vem “a explicação da maioria pela minoria”.

Tudo isto está certo e certo está ter-se enganado Engels e Marx na sua conclusão de que “a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é a última e mais acabada expressão dos antagonismos de classe, na exploração de uns pelos outros”. Milovan Djilas prova-o no seu livro “A Nova Classe”, de uma forma insuspeita, porque também é marxista, e com fatos que são dos últimos tempos e que nós conhecemos. O importante a considerar é que a propriedade coletiva ou estatal não deixa de ser privada e a experiência dos sistemas comunistas prova-o de maneira eloquente.

Até nos países capitalistas se têm nacionalizado empresas e bancos e nem por isso a situação dos trabalhadores se modificou, como aconteceu nos países ditos socialistas, de maneira bem frizante. Estes fatos não surpreendem ninguém e muito menos os anarquistas. O importante é assinalar o fato e instruir que socialização sem liberdade não é nada nem é possível liberdade sem socialização. A transformação social que se impõe está na base de uma transformação séria da sociedade e está radicada insofismavelmente na defesa do indivíduo, que, célula livre, determiná que a sociedade livre seja, de baixo para cima.

Se a liberdade é a saúde do corpo social, no indivíduo é a faculdade de estar atento e agir em obediência à satisfação total das suas necessidades e valorização da sua personalidade. Deste pressuposto partem os anarquistas e o livre acesso ao uso da propriedade só a revolução pode assegurar quando feira no sentido comunitário e destruição completa de todo o poder coletivo ou estatal.

Não é puxar a brasa à sardinha, dizendo que só o anarquismo combate efetivamente a propriedade privada, sabendo-se que a nacionalização ou estatização da propriedade não deixa de ser privada por esse fato e a socialização é coisa bem distinta, e só pode haver socialização quando todos os organismos de relação, produção e distribuição sejam livremente dirigidos em base federalista ou libertária e em clima de cooperação integral. No uso da liberdade o indivíduo não será privado do uso da propriedade necessária e o socialismo é o modo pelo qual todos poderão considerar-se com o direito do uso ou posse do que lhe é necessário, indispensável. Poderá parecer paradoxo, mas a destruição da propriedade privada que o anarquismo advoga é precisamente a antevisão da possibilidade e garantia de toda a gente ser dono de tudo e ninguém possuir o privilégio de ser senhor do que a todos pertença.

O anarquismo é contra a propriedade privada na medida em que não só é um privilégio de poucos em detrimento da grande maioria, ao mesmo tempo que causa de toda a desigualdade e injustiças sociais. A propriedade é um mal ou praga social, nas mãos dos que parasitariamente vivem, explorando os que trabalham e produzem, no sentido do enriquecimento dos possuidores e manutenção de um mundo parasitário e tirânico.

A propriedade privada não é aceitável por prejudicar o livre desenvolvimento da riqueza social e ser o entorce ao direito e liberdade do cidadão.

Os anarquistas querem que tudo seja de todos não só por regras e exigência da vida segundo a natureza, mas porque representa a maior degradação humana.

O anarquismo não podem nem deve suportar ou consentir a propriedade privada porque é a causa de uma infinidade de males sociais e impede o progresso social no sentido não só de uma solidária convivência universal, como acirra sentimentos de ódio e predispõe e arma os homens e as sociedades para a guerra.

Os anarquistas não admitem a propriedade privada como não aceitam que a água, o ar, o sol, os jardins, as praias e tudo mais que a natureza ao homem e a todos os seres que na Terra vivem legou, por antinatural e forte injustiça social.

A revolução francesa extinguiu a propriedade feudal e criou a propriedade burguesa ao mesmo tempo que permitiu que o trabalhador usasse da “liberdade” de morrer de fome, escolhendo o patrão que o explorasse e o político que o oprimisse.

A revolução russa extinguiu a propriedade burguesa e criou a propriedade do Estado, mas fez do operário uma máquina e criou uma nova classe de burocratas e opressores quantas vezes mais tiranos e social e humanamente mais nocivos que os burgueses e os feudais!

Os anarquistas aceitam como necessária e inevitável a revolução social e visão a extinção da propriedade e do Estado, porque só a liberdade e o acesso à Natureza e patrimônio social é condição que satisfaz e garante que o homem e a sociedade se identifiquem consigo mesmos, e traga ao mundo a paz e a alegria de viver que desde que o mundo é mundo o homem luta e aspira por encontrar!

VI. OS ELEMENTOS DE PRODUÇÃO NA TRANSFORMAÇÃO SOCIAL

Contrariamente ao que vulgarmente se propala e se acredita, a transformação social que se impõe não via surgir imediatamente do atual desmantelamento imperialista e formação em série de novos Estados ou Nações. Pelo contrário, o que de fato resulta é um revigorar de velhas fórmulas do capitalismo e as refinadas manhas dos aventureiros da tomada do Poder. Não é por acreditar no “fatalismo histórico” ou na hipotética “escada formativa” da evolução dos povos no sentido da sua promoção ou emancipação, como acontece a algumas escolas do pensamento, incluindo a marxistas, não acreditamos no ingresso imediato dos descolonizados numa fase progressiva e consciente no caminho imediato da revolução, mas sim devido à mentalidade messiânica e reversiva que nessa pobre gente se criou!

Como sempre, a uma crença outra crença se sucede e assim, desde o Império Romano e da Igreja Católica, o fanatismo político e religioso é o “contra jogo” do anticolonialismo dos novos messias dos povos em desgraça e explorados e oprimidos pelos colonialistas de sempre! Já com a revolução industrial do século XVIII o problema assim se apresentou, e a consolidação da burguesia ou a “nova política da Europa” nos arrastou para uma balbúrdia e confusão que tudo e todos perturbam, a tal ponto que levou os povos do Oriente, afastados das realidades europeias de então, a classificarem o que se passava por “Era da Confusão”!

De qualquer maneira, o que se passou na formação e consolidação dos grandes impérios repete-se na sua destruição e desmoronamento e as grandes Potências, agora conscientes do seu poderio a desfazer-se, lançam-se em competição na conquista do mundo e não se limitam ao poder dos canhões, já não tão eficientes, para recorrerem às velhas táticas de “dividir para reinar” e de arranjar vassalos, que entre os seus, serão senhores que em nada modificarão a sorte das multidões famintas e desprezadas… É certo que, na aparência, têm os povos subdesenvolvidos apoio de muitos lados, e até a Igreja para reconsiderar que não só os nobres e os ricos têm alma e agora já o reconhecem nos pretos… no entanto, uma coisa é o que se promete a troco de obediências de toda a ordem, outra, a de ajudar ou mentalizar o homem e a sociedade no caminho certo e seguro da sua promoção!

Com o desenvolvimento social surge uma burguesia avara e enfurecida e, embora impregnada da herança das monarquias absolutas, necessita desalojar a Realeza e o Clero, com o despertar imediato da liberdade social; e apenas um mundo de promessas às camadas populares se observa; daqui a ideia da criação dos parlamentos e repúblicas promissoras, que embora promovam certo desenvolvimento em certo sentido do viver dos povos, não impede o refinamento dos privilégios da burguesia e o recrudecimento da exploração e opressão das camadas trabalhadoras. Aqui cabe talvez dizer que a causas semelhantes idênticos efeitos correspondem, e revolucionariamente não é exagero afirmar que nada se lucrou com a queda das monarquias absolutas para se cair em república autocráticas, como não constitui alívio positivo o fato do indivíduo dispor da liberdade de se deixar explorar, ou de poder escolher quem por desgraça imperativa do viver social lhe ponha as algemas! A história repete-se e para que estes fatos estivessem bem patentes na mentalidade e sensibilidade dos homens, era preciso que o homem aumentasse algumas vezes a sua longevidade e multiplicasse a sua capacidade de apreensão. Infelizmente isso ainda não foi possível, o que não quer dizer que com o auxílio da Ciência e da Técnica o homem não consiga transpor os limites da sua compreensão e sensibilidade presentes, atingir no espaço e no tempo antevisões que advirtam, defendam, o indivíduo e a sociedade, não só dos cataclismos sociais de toda a espécie, mas até da desigualdade e injustiça socioeconômica que os atormenta e infelicita!

Sem nos desejarmos perder nos labirínticos meandros da história (onde dois séculos de controvérsias entre historiadores profissionais e outras celebridades doutros ramos da Ciência não chegaram para dar uma definição da vida do homem, nas suas múltiplas exigências pessoais e sociais, que lhe sirva), entendemos que desde que o mundo é mundo sempre o homem lutou por melhores condições de vida e talvez mesmo, sem grande contradição, se possa dizer que desde os grandes Impérios, tronos poderosos, monarquias e repúblicas, tudo o homem construiu e destruiu, na miragem única de ser feliz. Facilmente se compreende e as ciências mais diretamente relacionadas com a vida do homem o atestam que, milhentos tenteios no sentido comunitário, e a própria luta pela sobrevivência constitui por si só ao longo dos séculos a mais emocionante aventura humana. Quem pense sociologicamente não se pode subtrair a um olhar retrospectivo, e fazer raciocínios comparativos de como se supõe que tenham sido encontradas as primeiras soluções da vida em sociedade, relacionadas as primeiras soluções da vida em sociedade, como a horda , o clã , a tribo ou a comunal Deste modo, não é possível concluir que alguma vez no tempo ou no espaço o viver do homem fosse possível, sem o espírito de entreajuda, de solidariedade recíproca, e de cooperação. Encontrar sociologicamente o caminho, em nossos dias, ajustado com todas as realidades sociais, eis no que consiste o problema social e é nisso que se deverão empenhar quantos humana e socialmente pensem e sintam que o homem e a sociedade podem e devem melhorar!

O dito antigo – “primeiro manjar e depois filosofar” deve estar certo, e desta certeza e realidade promana uma outra obrigação não menos certa e é todavia mais premente: não é possível consumir sem produzir. E de novo insistimos que, sem necessitar recorrer à história ou ensinamentos da Ciência, o quadro vivencial que nos cerca e as necessidades que sentimos nos falam a linguagem indismentível do que importa fazer e de que maneira fazer a revolução.

Não temos a pretensão nem é possível dizer algo de novo, quando tantas utopias, tão profundos pensadores e a própria experiência das revoluções passadas, tão eloquentes são em ensinamentos de toda a ordem. No entanto, pedimos vénia para tomar lugar ao lado de tantos que não desistem de marcar presença na eterna e constante batalha por um mundo melhor. A produção tem os seus técnicos, desde a simples máquina a vapor aos mais complicados computadores, tudo se processa de modo a dar-nos a possibilidade de um domínio absoluto na satisfação das nossas necessidades. Decorrem já centenas de anos de uma economia em que o homem não podia deixar de ser escravo e alimentar-se de frutos, engenhar-se e fazer corridas forçadas na pesca ou caça de animais para seu sustento, utilizar as quedas de água, as correntes marítimas e os ventos, perfurar a terra e romper as rochas na busca do carvão, do ferro ou do petróleo! Também o uso da força motriz o preocupa e depressa se aventura na segunda revolução industrial, e, de progresso em progresso, está cada vez mais longe das causas da sua escravatura e a utilização da energia elétrica dá-lhe um maior domínio das forças da natureza e permite-lhe o uso da telegrafia, da telefonia e da radiotelevisão, que além de poderosos e eficientes meios de comunicação serão ainda elementos de valia incalculável na disseminação da cultura e recreio e em tudo tornar a vida melhor e mais fácil. Mas o homem não para aqui, nem poderá parar, e a chamada terceira revolução industrial dá-lhe a possibilidade de desintegração do átomo indo assim cada vez mais ao encontro das suas excepcionais realizações!

Desde agora o homem pode arrumar no museu das suas velharias, todo o antigo equipamento da sua produção e ele mesmo com a automatização e criação do cérebro eletrônico, torna-se mais um autêntico folgazão que animal atormentado pelo esforço do trabalho e angústia da misérial

O cérebro eletrônico permitiu-lhe aumentar milhares de vezes as suas lucubrações, que além de um aumento imprevisível da sua produtividade lhe deu foros de permanente acerto e infalíveis resultados. Os grandes obstáculos da revolução estão vencidos, e a Ciência, com os seus recursos inesgotáveis, poderá criar fábricas quase sem operários, a pôr navios e aviões em movimento com pessoal reduzido ao máximo, indicando a Sociologia como poderão ser resolvidos todos os problemas sociais em plena paz e universal comunidade!

Todavia lavra no mundo uma confusão que a todos inquieta e, embora todos reconheçam que a sociedade precisa transformar-se, a mentalidade que tal transformação assegure ainda não está criada nem aceite em número e sentido conveniente à ideia dessa transformação. Há mais de um século que se debate o problema e que se tinha chegado à conclusão que só o socialismo era a solução. No entanto o socialismo ainda não é um fato em parte alguma, malogrado algumas experiências e tenteios de revolução nesse sentido!

Das muitas revoluções, levadas a cabo ao longo dos séculos, as que triunfaram foram de resultados negativos e urge que estejamos advertidos para que as mesmas frustrações não se repitam. Na Rússia e países satélites, na China, em Cuba, em muitos países da África e da Ásia diz-se que se está a fazer socialismo, mas a verdade, infelizmente, é bem outra e as realidades sociais falam mais alto que os panegiristas destes sistemas…

O socialismo terá que assentar suas bases na livre determinação do povo, e esta determinação expressa por órgãos ou pessoas que vivam e sintam os quotidianos problemas desse mesmo povo.

As cooperativas e outros agregados semelhantes serão simultaneamente organismos de produção e de consumo; os sindicatos aglutinarão os trabalhadores, dando-lhes não só noção da sua força organizativa mas consciência das suas obrigações sociais e humanas. As cooperativas, que podem ser de produção e de consumo, serão organismos onde indistintamente reunirão todos os consumidores, e não só os adestrarão nas múltiplas exigências da produção e distribuição como influirão numa mentalidade sociável e solidária. Não estamos a fantasiar uma utopia nem a inventar soluções, pois cento e tal anos de prática associativa bastam para nos dizer o que se poderá fazer no domínio da organização social sindicalista e cooperativa.

Cabe a honra a Robert Owen de ser quem iniciou a prática das primeiras associações cooperativas, com um sentido verdadeiramente emancipador, como como seguidores os pioneiros de Rochdale em 1844, bem assim como todo um movimento associativo que se espalhou por todo o mundo. Hoje existem milhares de sindicatos e cooperativas, não só atestando a sua importância socioeconômica, mas afirmando que as sociedades humanas atingiram um grau de evolução e poder de materialização das suas necessidades materiais e comunitárias, que só a Cooperação se impõe como indiscutível solução.

Naturalmente que se impõe dizer, que há entre o movimento sindicalista e cooperativo diferenças fundamentais, pois os seus contextos socioeconômicos estão dependentes ou informam das ideias dos seus criadores ou dirigentes. No fundo, justo será reconhecê-lo, todos se propõem a um aumento de melhoria socioeconômica dos seus associados, mas nem todos se encaminham no sentido efetivo da transformação social que se impõe, especialmente, objetivando o triunfo da igualdade de direitos e deveres em toda a Sociedade.

Modernamente tornou-se preocupação de quase todos ou de todos os governos permitir ou organização corporações mais ou menos deturpadas, abarcando sindicatos e cooperativas e muitos outros organismos quer de ordem técnica e comercial ou ainda cultural. Depreende-se daqui que a evolução econômica da sociedade assim o impôs, dando deste modo maior relevância a tais movimentos, que embora venham já de civilizações antigas, diz-se, mais se aguçaram com o desenvolvimento das ideias socialistas. O socialismo é já uma determinação dos fatores técnicos e científicos da revolução industrial, enquanto que os mov im entos sindicais e cooperativos foram por sua vez determinações imperativas da defesa econômica dos trabalhadores e organismos antevisionados, e até estruturados pelos pensadores socialistas.

As associações de classe, ainda que preocupadas com as reivindicações econômicas, no fundo estavam subordinadas ao mutualismo ou a servirem de campo de recrutamento aos setores políticos ditos de “esquerda”, e só a partir do congresso de Limoges de 1895 adotaram uma ação dir-se-ia propriamente revolucionária e se libertaram da tutela dos partidos e do Estado.

A Confederação Geral do Trabalho francesa, de fins do século passado e começo deste, orientava-se por uns estatutos ou princípios assim definidos:

Considerando que só com a sua força, o trabalhador não pode esperar reduzir a exploração de que é vítima.

Que, por outro lado, seria ilusório esperar a nossa emancipação dos governantes, dado que estes, supondo-os animados das melhores intenções para conosco, não podem fazer nada em definitivo, visto que a melhoria da nossa sorte está na razão direta da diminuição do poder governamental.

Considerando que, como consequência do modo de ser da indústria moderna e do apoio que logicamente dispensa o poder aos detentores da propriedade e dos instrumentos de trabalho, há um antagonismo permanente entre o Capital e o Trabalho.

Que, como resultado, duas classes bem distintas e irreconciliáveis se encontram frente a frente, de um lado os detentores do capital, do outro os produtores, que são os criadores de todas as riquezas, uma vez que o capital se constitui pela subtração efetuada em detrimento do trabalho.

Por estas razões os proletários devem pôr em prática o axioma da INTERNACIONAL – “A EMANCIPAÇÃO DOS TRABALHADORES NÃO PODERÁ SER OBRA SENÃO DOS MESMOS TRABALHADORES”.

Considerando que, para alcançar este fim, o sindicato é a melhor de todas as formas de agrupação, visto que é uma associação de interesse que coliga os explorados ante o inimigo comum, o capitalista, que por isto mesmo reúne no seu seio todos os produtores, quaisquer que sejam as suas opiniões ou concepções filosóficas, políticas ou religiosas.

Considerando, além disso, que se o sindicato se encerrasse num isolamento lamentável cometeria fatalmente, em proporção, o mesmo erro que o trabalhador isolado, deixando assim de cumprir a solidariedade. E necessário, pois, que todos os produtores se unam primeiro no sindicato, e que uma vez realizado este ato completam a obra sindical, fazendo com que o seu sindicato adira à sua Federação local ou Bolsa do Trabalho.

Só com esta condição, poderão os trabalhadores lutar eficazmente contra os seus opressores até a completa desaparição do salariato e do patronato.

Claro que os organismos integrados na C.G.T. tinham a mesma orientação, tais como sindicatos, bolsas de trabalho, federações de indústria, regionais ou nacionais.

O movimento cooperativo remonta a tempos todavia mais recuados, mas só com a experiência de Rochdale este se definiu como movimento tendente à emancipação econômica das Classes menos abastadas.

As regras e princípios de orientação de Rochdale depressa galvanizaram o mundo, e se nem todas as cooperativas se orientam ainda hoje pelos princípios rochdalianos, isso se deve mais à intervenção impeditiva dos governos, que tudo pretendem controlar, do que ao desejo das massas cooperativistas.

A própria Aliança Cooperativa Internacional em 1937 teria definido os princípios rochdalianos da forma seguinte:

1- Adesão livre;

2- Controle democrático – um homem, um voto;

3- Distribuição pelos associados do excedente, proporcionalmente às suas operações com a sociedade;

4- Lucro circunscrito ao capital;

5- Neutralidade política e religiosa;

6- Vendas a pronto;

7- Desenvolvimento da educação, mantido por uma pequena dedução dos lucros.

O incremento cooperativo, segundo H. Infield (depois de C. Gide, Infield, está considerado como um dos mais eminentes sociólogos da Cooperação), em 1940 uma população agremiada de cerca de 150 milhões espalhados em 50 países civilizados. Segundo o próprio Infield trata-se ainda de uma fase ou etapa, porquanto a partir do fim da última grande guerra o movimento cooperativo desenvolveu-se extraordinariamente nos países do Terceiro Mundo, e no setor agrícola ainda mais e em toda a parte. Isto significa que a Cooperação não é só determinada por princípios ideológicos com vistas a uma transformação da sociedade em sentido socialista, mas que até as múltiplas relações da produção e comércio em regime capitalista ou estatal a aconselham. As pequenas indústrias a precisarem agrupar-se em largas concentrações industriais e estas em trusts ou cartés são bem a prova o acerto visionado pelos cooperadores e a irrefutável importância que a Cooperação tem na vida moderna, se a relacionarmos com as exigências de uma técnica das relações humanas e esta enquadrada nas realidades sociais dos nossos dias.

Não há nenhum Estado que se diga civilizado ou que o queira ser que não preveja, nas suas estruturas econômicas, a criação de setores cooperativos e se os desenvolvidos os aconselham os atrasados não os dispensam. Naturalmente que não são os economistas oficiais ou profissionais que o aconselham, mas a premência das circunstâncias e o aviso do sociólogo e pensador advertidos não desistem de exigir que assim o faça.

Simplesmente podíamos, a grosso modo, comparar o economista em nossos dias, com o seu dossier de cálculos e raciocínios, apenas preocupado com a rentabilidade da empresa, ao droguista ou merceeiro atento à lista de compras e vendas com a preocupação única do lucro. Os economistas de profissão pouco mais percebem que “coisas do seu ofício” e com a tendência para a especialização, dá-se isso com todas as ocupações. Que nos perdoem os que, felizmente, assim não o são, mas só o pretendemos generalizar e explicar porque não temos efetivamente nos economistas o forte dos verdadeiros cooperadores. Este fato embora tire à cooperação generalidade que não lhe tira valor, quando é certo que tem a impô-la além de todas as realidades socioeconômicas, toda a moderna sociologia e todas as ciências humanas.

O que acontece é que os políticos também a utilizam mas com força de recrutamento para os seus intentos, além de lhe darem um sentido que a desnorteia e a desqualifica. Buber, exilado do fascismo alemão e professor de sociologia na Universidade Hebraica de Jerusalém (que viria a ser com sua mulher a alma ideológica e revolucionário do KIBUTZE na Palestina), nota e acentua que o cooperativismo, bem como o socialismo, está impregnado de dois sentidos ou antes, divide-se em duas escolas principais: a autoritária ou centralista e a libertária ou federalista. Na explanação dos conceitos cooperativistas Buber reporta-se ao pensamento de Marx, Lenin e Stalin, ao mesmo tempo que Proudhon, Kropotkin e Landauer. O estudo de Buber é importante, não só pela influência que teve na orientação dos Kibutzes mas especialmente pela repercussão e consequências que viriam exemplificar de que lado estavam os “utopistas” ou os “cientificistas”. O Doutor Henrik Infield, no seu célebre livro “Utopia y Experiência”, é, sem exagero, um dos maiores sociólogos do nosso tempo, referindo-se às diferenças das diferentes cooperativas que prática e diretamente analisou de um extremo a outro do mundo, diz: “Estas diferenças devem-se especialmente à diversidade dos quadros políticos e culturais que se inserem nas cooperativas”, cujos contrastes acentua e define. Considera três tipos de cooperativas: KOLKOZ (russo), EJIDO (mexicano) e KIBUTZ (israelita ou palestiniano). Cada um destes tipos se rege por princípios diferentes e embora aparente autônomos, dependem do Estado; o éjido é um tipo intermédio, tem certa autonomia mas confia grandemente no auxílio do Estado e o apoio que deste pede ou recebe fá-lo dele dependente. Pelo contrário, o Kibutz prima pela sua independência e o heroísmo e abnegação dos primeiros pioneiros deu-lhe uma dinâmica e uma força que o transformou no elo propulsor de Israel, fazendo, ao contrário do que se passa nos exemplos anteriores, que seja o Estado que dependa dele. Na HISTÓRICA GUERRA DOS 6 DIAS, de Israel, o jornalista William Stevenson, comentando as solicitações e oferecimento de auxílio dos americanos perante a ameaça dos árabes e o auxílio dos russos, em relação aos judeus em técnicos e material de guerra, diz:

 Mais importante que o petróleo dos árabes e os votos dos judeus na América a dinâmica dos homens nascidos e criados nos Kibutz nas granjas coletivas, onde o idealismo substitui o dinheiro, onde o trabalho manual e a ajuda mútua criaram uma nova espécie de indivíduos, desabituados de andarem de chapéu na mão a pedir esmolas.

O próprio general Dayan era um homem que vinha dos Kibutz, bem como todos os seus comandantes. Se o exemplo da sua unidade espontânea e livre na sua defesa é qualquer coisa de singular e eficiente, no aspecto socioeconômico, num espírito de justiça e liberdade, sobreleva a tudo que até hoje se tem feito em proporções ou em promessa de bem-estar e conforto elevados à prática!

A evocação deste exemplo fazemo-la, em primeiro lugar para ressaltar a diferença que se observa onde o Estado impera, depois de estabelecer o contraste entre os sistemas, cuja tomada do poder se antepõe ou sobrepõe a tudo e a todos, desprezando a iniciativa ou liberdade individual, ao mesmo tempo que se mistifica e autoritariamente se mentaliza os que por condição e desejo pretendem emancipar-se. O contraste é flagrante e hoje falar em cooperação é comum a muita gente, interpretá- la, em todo o sentido socioeconômico, é um tanto mais difícil e eis o que não desistimos de o fazer.

Os sindicatos e as cooperativas são comunidades que só se fortalecem em espírito comunitário, mas tal espírito revestido sempre na noção de obrigação voluntária e ajuda mútua, o que quer dizer na defesa da comunidade o indivíduo vê com mais segurança a sua própria defesa.

A liberdade do indivíduo, no sindicato ou na cooperativa, dá-lhe, segundo a experiência, maior noção de responsabilidade e consciência do que deve e recebe da coletividade, onde de fato é livre e igual a qualquer outro, dinamiza-o e fortalece-o, no combate ou luta social que é forçoso travar! Quem já alguma vez militou nas coletividades, sabe quanto tem consciência da sua independência, na sua coletividade e como se sente diferente quando lhe impõem obrigações, regras, leis, que ele não tem a liberdade de discutir, aprovar ou reprovar.

Não estamos a falar à base de hipóteses ou desejos pessoais, falam por nós quantos queiram e que se prezem de se considerar cidadãos. O ser cidadão é já por si uma condição que repele o servilismo e a alienação que todo o Estado impõe ou exige dos indivíduos, é precisamente onde os anarquistas baseiam a necessidade do seu desaparecimento e os organismos sindicais e cooperativos, que o povo trabalhador e consumidor criou, com miras à sua defesa socioeconômica, provam não só sua inoperância nesse sentido mas também a possibilidade de viver sem Ele. De resto, já Saint-Simon, sem ser anarquista, referindo-se às reivindicações sociopolíticas, dizia que nesse sentido o melhor que se podia fazer era não pensar no Estado…

O que se conclui deste fato é que as organizações sindicais e cooperativas foram criadas contra o beneplácito das forças políticas do Estado e só se legitimaram pela ação revolucionária dos idealistas de todos os tempos. Ainda hoje a sua ação cultural e reivindicativa é contrariada, e todavia mais, quanto esta ação tem foros de continuidade e objetivamente definida no sentido da transformação social. Naturalmente que há países onde essa perseguição é mais feroz, outros onde todas as classes se organizam em sociedades sindicais ou cooperativa e até chegam a ter papel preponderante nas múltiplas relações do mundo do trabalho, como no seu livro “A Cooperação” no-lo acentua o prof. Georges Lasserre. Só nos países totalitários o monopólio do Estado nada permite e é sempre difícil senão impossível o conhecimento exato destes movimentos, sendo sempre suspeito o que nos dizem. Outro tanto não acontece onde há certa liberdade e aí sabe-se da importância destes movimentos. Há países, como na Islândia, onde chegam a 67 % os fornecimentos cooperativos, e nos países escandinavos a produção e o consumo estão hoje 30 a 40 % sob regime cooperativo.

O importante assinalar aqui não é só o volume das entidades cooperativas, o mais notável são os frutos sociais que se colhem destes exemplos. Não é por simples acaso que são os países mais livres do mundo onde economicamente melhor se vive. Ali reina a paz, não a paz dos cemitérios, que impera nos países autocráticos! Sabe-se, por experiência própria, que até mesmo entre nós os sindicatos enquanto livres e as cooperativas foram sempre organismo onde se é obrigado a ser camarada, por condição do meio, impelidos à prática da solidariedade e do respeito mútuos!

Como militante operário, reservo bem vivo na memória o que estes organismos moralmente influíam nos seus associados e a noção de responsabilidade que paulatinamente nos ia dominando, à medida que nos apercebíamos do que lhes éramos devedores e estes reciprocamente nos deviam. Era costume nos velhos tempos dos sindicatos livres considerar-se que sindicatos que abriam correspondiam a tabernas que se fechavam e igrejas que perdiam concorrentes. Claro que isto hoje já não parece ter significado, mas levado à conta de um raciocínio revolucionário ou filosófico tem séria importância, e dá a medida do que se perdeu com a perda da Liberdade nos últimos quarenta e tal anos!

VII. OS ELEMENTOS DE RELAÇÃO EM ANARQUIA

Sem nos perdermos nas labirínticas descrições da história, que mais de duzentos anos de controvérsias entre profissionais e celebridades doutras ciências auxiliares, se deram ao trabalho mais para enriquecimento do conhecimento humano que não para dar ao homem os elementos que o transportasse imediatamente à sua emancipação, limitemo-nos a dizer que trinta e tal mil anos que a história nos ensina remontar a formação mais ou menos consciente da vida social do homem, e com infindos tenteios de se promover no sentido mais íntegro e humano da sua aventura social, ainda hoje se vive em modos que nada divergem, no sentido das milhentas utopias que ao longo dos tempos o homem fantasiou, podendo dizer-se, como no-lo afirma Rudolf Rocker, no seu “Nacionalismo e Cultura”, que em qualquer ramo da Ciência o homem pode predizer com muita antecipação o que se irá passar, como acontece na astronomia, na física, na biologia, o que outrotanto não acontece no caso da história, não há previsão ou medida infalível, definindo, deste modo a história mais como uma resultante de propósitos humanos e este resultado de crenças e interesses que se sobrepõem quase sempre senão à própria veracidade dos fatos, circunstância que lhe quebra o cunho científico que os fanáticos da História lhe imprimem ou querem dar. A afirmação que o destino das instituições sociais pode reconhecer pelas supostas leis de uma “física social”, diz-nos ainda Rocker, não tem mais significação nem validade que a pretensão de certas mulheres que nos querem fazer acreditar que podem ler os destinos dos homens pela borra do café ou pelas linhas da mão. Certamente, que se pode apresentar um horóscopo de povos e nações; no entanto as profecias da astrologia política e social não tem mais valor que os vaticínios dos que julgam conhecer o destino do homem pelas constelações estelares. Serve isto apenas para nos desobrigar de relacionar com um passado longínquo e demais sempre discutível, os elementos formativos de uma estrutura político-socioeconômica capaz de garantir a produção de tudo o que se precisa, ao mesmo tempo que garantir a sua distribuição em moldes justos e equitativos sem atropelados nem precipícios que nos despistem de uma vivência social à altura da nossa evolução, e possibilidades materiais que a Tecnologia e a Ciência nos garantem.

Temos como certo que a transformação social que se impõe não vai surgir imediatamente aos desmantelamentos dos velhos impérios, até pelo contrário, o que de fato resulta é uma série de pequenas nações onde a ideia da tomada do Poder mais se avoluma e menos consciência se tem, no que consiste a verdadeira transformação social. Pode até mesmo dizer-se que as ideias revolucionárias só por reflexo e a longo prazo ali poderão penetrar, e depois de materializadas noutras partes do mundo. Não é por crença no fatalismo histórico, como o acreditam algumas escolas do pensamento, especialmente a marxista, que não aceitamos o ingresso dos descolonizados numa fase de luta progressiva ou tendente à sua emancipação, pois não só os domina uma mentalidade fortemente messiânica e reversiva, em nada divergindo da do tempo do Império Romano e correspondente predomínio da Igreja Romana, em tudo semelhante ao que o H. G. Wells nos diz ter acontecido quando da consolidação política na Europa no século XVIII e que os chineses arreigados ao seu velho orientalismo designaram por “Era da Confusão”. De qualquer modo, as exortações maquiavélicas para a formação dos Principados servem e vão ser esteio para a edificação dos novos impérios, e as grandes Potências não desprezam os ensinamentos da história e com o apoio da Igreja se lançam à compita na conquista e exploração do mundo! Com o desenvolvimento industrial surge uma burguesia que, enfurecida com as monarquias absolutas, cria e desenvolve a ideia dos parlamentos e formam-se as primeiras Repúblicas, que embora arrastem consigo transformações profundas no domínio das relações socioeconômicas, os privilégios da burguesia refinam-se e a exploração e opressão das grandes camadas da Sociedade recrudescem. Aqui, compete afirmar, que causas semelhantes geram efeitos idênticos e de monarquias absolutas caiu-se em repúblicas autocráticas e o homem, que a Revolução Francesa transforma em cidadão, goza agora da “liberdade de se deixar explorar” e poder escolher quem lhe há de pôr algemas. A história repete-se com a descolonização dos nossos dias e a autodeterminação dos povos do Terceiro Mundo. Como há duzentos anos o “jogo maquiavélico” do inimigo exterior, justifica as draconianas medidas no interior dos Países; as carências fundamentais explicam-se pela falta de verbas que astronomicamente se gastam no combate ao inimigo… “Os ministérios do exterior figuram-se como protagonistas de todas as histórias do século XVII e XVIII”, e a cantilena de soberanias enfatuam os homens que predominam e, condecorando-se uns aos outros, pretendem passar à história como heróis nacionais, que além de “sumidades” na política, são ainda “gênios” no equilíbrio e planeamentos econômicos e financeiros, onde tudo são desvios e carências!…

A guerra, por mais que a temam e combatam não a evitam, monstruosidade da nossa civilização e só desaparecerá com a eliminação das causas que lhe dão origem. Mas não só o perigo da guerra que preocupa hoje o mundo e os homens de ciência: a poluição, excessos demográficos, produções supérfluas perante a escassez de produções vitais, como o caso da produção de material de distribuição e o que falta para uma perfeita cobertura de higienização e saúde popularesl A crise de habitação é comum a todos os povos, mesmo os que se dão ao luxo de gastar milhões de contos na destruição, espalhando a ruína e a morte por toda a parte! Sabe-se hoje que as leis da produção e do comércio impõem leis que é forçoso respeitar e as grandes Potências, com o ocorrido nas duas Grandes Guerras, não puderam desligar-se de alguns compromissos com os povos mais empobrecidos e de virem em seu “auxílio”, fornecendo-lhes apoio financeiro e material de guerra para se destruírem em guerras entre si e mais dependentes ficarem dos seus “benfeitores”, ao mesmo tempo que relegam para não sabemos quando o problema efetivo da sua emancipação. Um olhar ao Mundo e tudo nos ensina como os povos se deixam iludir na senda que os conduza ao triunfo da revolução. O após guerra de 14 deu-nos especialmente na Europa, a experiência mais eloquente de todos os tempos e as cinco décadas que sucederam o seu termo, ricas em acontecimentos de toda a ordem, determinam ao estudioso normas de pensamento e ação que de modo algum se deverão perder.

A Revolução Russa perdeu-se! Com a sua perda não vingou na Itália nem na Alemanha e o despotismo que daí resultou veio a ser praticado com mais ou menos dramatismo nos Países que adotaram o Totalitarismo como ali se praticou! Hoje, fale por nós a história, tenhamos presente tudo que se passa no Mundo! Como tudo seria diferente se a revolução social tivesse triunfado na Rússia! A própria hecatombe de 39 foi uma resultante direta da guerra fria que o bolchevismo e o fascismo mantiveram no mundo, ambos sistemas, dando prioridade aos elementos da destruição e da guerra, afogavam em sangue os anseios de liberdade e justiça social das multidões famintas e amordaçadas! O esmagamento da revolução espanhola não seria possível sem a diabólica intervenção do maquiavelismo reinante e os acontecimentos de Espanha provam eloquentemente de que modo agiram fascistas e comunistas no sentido de impedir o triunfo da revolução. Já noutro lugar assinalamos a convergência de propósitos de ambos os sistemas e não vamos repetir, bastando assinalar que ambos tendem para a guerra e taticamente se identificam. O preciso é que a lição dos fatos se aproveite e que os Povos não caiam nos mesmos erros. E forçoso ter sempre bem presente que uma coisa é o labirinto das lutas políticas, outra o campo revolucionário onde as ideias dos combatentes se esclareçam e a mentalidade dos trabalhadores e homens livres se formalizem e robusteçam, no sentido da transformação social que se impõe e se deseja.

Tudo que dizemos não obedece a sectarismos ou na mira de intuitos interesseiros ou duvidosos, para ser antes expressão sentida de dezenas de anos de luta e sempre com os olhos postos no efetivo triunfo da revolução. Os anos que levamos de luta, dão-nos o direito de pensar que sabemos alguma coisa acerca de como fazer a revolução e a sinceridade com que sempre lutamos dá-nos ânimo para persistir especialmente divulgando o que nos ensinou a própria experiência. E certo que todos dizem o mesmo e talvez não passe de um lugar comum, mas tranquiliza-nos provar, com o exemplo do nosso viver, que nada a vida tem de mais sedutor que o triunfo da verdadeira revolução social! Digam ou sintam o que quiserem, os fatos comprovam o que os anarquistas sempre disseram e o que se está passando depois de 1945 por toda a parte, quer nos países desenvolvidos quer nos atrasados, tudo se processa de modo a que se delongue para que não sabemos quando, o triunfo da revolução. Nos Países onde domina a ideia de capitalismo de Estado não se protesta nem se respira nenhuma liberdade, porque se faz acreditar que há um governo que tudo pensa e tudo resolve da melhor maneira no sentido do bem social, onde não só a luta seria prejudicial como desnecessária. Nos de capitalismo particular acontece outro tanto onde o fascismo prepondera, e só nos que se regem por princípios mais ou menos democráticos a luta reveste cunho diferente e a ação revolucionária mais expressiva e mesmo mais prometedora. O mapa do mundo contemporâneo tem sofrido profundas alterações, especialmente no que confere à influência das correntes imperialistas, e formação de algumas dezenas de nações independentes mas cujo bem-estar dos povos pouco ou nada melhorou, e o auxílio que lhes prestam as grandes Potências em vez de o aplicarem em obras de fomento, higienização e saúde das populações, empregam-no em armamentos, formação de exércitos e burocracias dispendiosas e repressivas. Quase todos os Estados do Terceiro Mundo são governados por ditaduras, e os adversários políticos são tidos como inimigos e se reagem só a prisão e a morte os espera. O racismo e a discriminação classista preponderam ali com tanto ou mais rigor que nos Países capitalistas por excelência, e há mesmo casos em que se pode ver o terrorismo organizado desde cima com tanta ou mais ferocidade que o que se organiza desde baixo. O próprio “sufrágio universal” não passou de uma miragem errada como meio de emancipação social, da mesma forma que a igualdade de direitos perante a lei não correspondeu a uma legitimidade de fato dos direitos integrais do cidadão.

No terreno legal e honesto o adversário não concede luta, e a mistificação dos objetivos revolucionários não levam a nenhuma parte. E difícil compreender esta verdade, como tantas outras, mas aceitar que as forças da burguesia alguma vez aceitem a luta em moldes de poderem ser vencidas, é pura infantilidade e compete-nos a obrigação de estar advertidos e advertir da nocividade de tal posição, como é evidente segundo nos ensina a história e toda a nossa experiência de sempre.

Também não aceita o anarquismo militante qualquer religião ou princípio desta, por lógico raciocínio e natural interpretação dos infinitos fenômenos da vida, além de considerar que todas as religiões se refugiam no dogma e no acatamento religioso de uma autoridade divina, e implicitamente de qualquer autoridade. Toda a concepção religiosa tende para um limite que é Deus, e se por simples concepção o indivíduo se refugiasse numa ideia limite perderia na realidade a ousadia dos seus rasgos de eterno caminhante na busca do infinito.

Toda a ideia de Deus é uma espécie de limitação que se estabelece para insignificar o homem, impedi-lo de prosseguir em busca de si mesmo ou renunciar à sua efetiva libertação, Depois, o anarquista só acredita no homem como realidade social e na Ciência como conhecimento conducente à interpretação e domínio do Universo! A religião conduz à fantasia, tornando o homem apático; os conceitos religiosos foram sempre peias a travar o natural desenvolvimento do homem e da sociedade. As religiões, como os partidos políticos, assentam o seu proselitismo no ódio sectário e virulento e foram sempre expressões impeditivas da paz e harmonia entre os homens. Cada uma considera o seu Deus o único e melhor, e são a escola por excelência do messianismo e da idolatria. Deste modo, toda a noção de Deus, além de uma excrecência ou redundância social, tem ainda efeitos de larga nocividade, tanto no sentido emancipador do viver do homem, como no de uma justa interpretação de deveres e direitos comuns a todos.

É certo que a ideia de Deus também tem evoluído e o panteísmo dir-se-ia a mais expressiva forma dessa evolução. No entanto, os anarquistas, atentos às realidades circundantes do nosso Universo e sob a hipótese de um mundo diferente e melhor fogem, de maneira inconcussa a toda e qualquer contradição deísta e, como Pascal, dispensam toda a hipótese de Deus. Compreende-se que o direito de opinião, qualquer que seja, é um direito irrefragável para o anarquismo, e se as religiões se despissem do seu espírito de seita e se integrassem apenas numa interpretação livre na maneira de ser e viver no domínio do pensamento, o mundo evoluiria e a liberdade de cada um ser o que supõe e deseja ser, em nada afetaria o triunfo da Anarquia. “ DAR a César o que é de César ” não serve ao anarquismo como condição da sua interpretação de igualdade, sabendo-se que as hierarquias religiosas e toda uma doutrinação que pregam são aspectos negativos das religiões, e um mundo livre como o anarquismo o propaga e prevê é absolutamente incompatível com princípios religiosos, quaisquer que estes sejam, quando se sabe que as religiões são expressões alienantes que castram as faculdades de pensamento e projetam o homem e a sociedade, para abstrações que os dogmatizam e limitam ao mesmo tempo. De resto, a promessa de uma eternidade onde só alegria e felicidade nos garantem sob a obediência de ritos e preceitos que nos abram as portas do céu, é linguagem e propósitos mais que infantis quando é certo que já ninguém ignora as leis da vida, nem tudo mais que a Natureza às suas leis subordina. O ateísmo sentimo-lo como uma resultante das nossas faculdades de raciocínio e inteligência, e porque, dando à vida uma expressão livre e natural, o incognoscível ou o mistério não entram no número das nossas objetivas apreensões. Naturalmente que em matéria de crenças cada um terá a que quiser, o que em anarquismo é formal é que as crenças e a liberdade de cada um e de todos seja, a indubitável garantia de uma efetiva liberdade social!

A prática de uma vivência em regime libertário é um passo que se pode dar e está ao nosso alcance, se se aceitar a ideia que os setores que se criem dentro de uma comunidade sejam expressões livres e objetivamente radicados nos compartimentos ou parcelas sociais, em que possa estar dividida essa mesma comunidade. O importante é que cada um de nós nos integremos na vida social com a noção de deveres e direitos que a vida em sociedade nos impõe, todavia com um espírito comunitário que nos predisponha mesmo ao sacrifício! A vida social o que carece é de exemplos de solidariedade, e aceite como verdade desmentível, será o sentimento de apoio recíproco ou de solidariedade sem reservas, prestada entre os homens, que mais solidez e humanidade dará à Sociedade Futura que se pretende!

SINDICALISMO: SUA TEORIA E PRÁTICA (EMMA GOLDMAN)


Edição Original: Syndicalism: It’s Theory and Practice Mother Earth, vol. VIII, n. 12, p. 417-422 Fevereiro de 1913

Tradução e Diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT 2010

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Prefácio ao ATENEU Diego Giménez (2010)

A diferença fundamental entre o sindicalismo e os velhos métodos operários é a seguinte: enquanto as antigas uniões operárias, sem opção, se movem dentro do sistema salarial e do capitalismo, reconhecendo o último como inevitável, o sindicalismo os repudia e condena os acordos industriais atuais como injustos e criminosos, e não transmite nenhuma esperança para o operário quanto aos resultados duradouros deste sistema.

E claro que o sindicalismo, como as antigas uniões operárias, luta por ganhos imediatos, mas ele não é estúpido o suficiente para fingir que o trabalho pode esperar condições humanas a partir de arranjos econômicos desumanos na sociedade. Logo, ele meramente retira do inimigo o que ele pode forçá-lo a entregar; no todo, entretanto, o sindicalismo objetiva e concentra suas energias na derrubada completa do sistema salarial. De fato, o sindicalismo vai além: ele objetiva libertar o trabalho de cada instituição que não tenha por meta o livre desenvolvimento da produção para o benefício de toda a humanidade. Em suma, o propósito definitivo do sindicalismo é reconstruir a sociedade de seu presente estado centralizado, autoritário e brutal para um baseado no agrupamento livre e federativo dos trabalhadores nas linhas da liberdade econômica e social. Com este objetivo em vista, o sindicalismo trabalha em duas direções: primeiro, minando as instituições existentes; segundo, desenvolvendo e educando os trabalhadores e cultivando seu espírito de solidariedade para prepará- los para uma vida cheia e completa quando o capitalismo tiver sido abolido.
O sindicalismo é, em essência, a expressão econômica do anarquismo. Esta circunstância explica a presença de tantos anarquistas no movimento sindicalista. Como o anarquismo, o sindicalismo prepara os trabalhadores ao longo de linhas econômicas diretas, bem como fatores conscientes nas grandes lutas de hoje, bem como fatores conscientes na tarefa de reconstruir a sociedade em linhas industriais autônomas, bem como contra o espírito paralisante da centralização, inerente em todos os partidos políticos.


SINDICALISMO: SUA TEORIA E PRATICA

Emma Goldman

Em vista do fato de que as ideias incorporadas no sindicalismo foram praticadas pelos trabalhadores durante a última metade do século, mesmo sem a experiência da consciência social; que neste país cinco homens tiveram que pagar com suas vidas porque eles defenderam os métodos sindicalistas como sendo os mais efetivos na luta do trabalho contra o capital; e que, ainda, o sindicalismo tem sido praticado conscientemente pelos trabalhadores da França, da Itália e da Espanha desde 1895, é bastante divertido testemunhar algumas pessoas nos Estados Unidos e na Inglaterra agora correndo para o sindicalismo como se ele fosse uma proposta completamente nova e sobre a qual nunca ouviram falar. E assombroso quão ingênuos os americanos são, quão crus e imaturos em questões de importância internacional. Mesmo se vangloriando de sua atitude prática, o americano comum é sempre o último a saber dos meios e das táticas modernas empregadas nas grandes lutas do seu dia. Ele sempre se encontra atrasado em ideias e métodos que os trabalhadores europeus há anos vêm aplicando com grande sucesso.

Pode-se argumentar, é claro, que isto é meramente um sinal de juventude da parte dos americanos. E é de fato lindo possuir uma mente jovem, fresca para receber e perceber. Mas, infelizmente, a mente americana parece nunca crescer, amadurecer e cristalizar suas visões.

Talvez seja por isto que um revolucionário americano pode ao mesmo tempo ser um político. Esta também é a razão por que líderes do Industrial Workers of the World continuam no Partido Socialista, o qual é antagonista aos princípios assim como às atividades do IWW. Também por que um rígido marxista pode propor que os anarquistas trabalhem junto com a facção que começou sua carreira por meio de uma perseguição extremamente amarga e maliciosa a um dos pioneiros do anarquismo, Mikhail Bakunin. Em suma, à mente indefinida e incerta do radical americano, as ideias e métodos mais contraditórios são possíveis. O resultado é um triste caos no movimento radical, uma espécie de estouvamento intelectual, que não tem gosto nem caráter. No presente, o sindicalismo é o passatempo de vários americanos, supostos intelectuais. Não que eles saibam algo a respeito dele, além de que algumas grandes autoridades – Sorel, Bergson e outros – o defendem; porque o americano precisa do selo da autoridade, ou ele não aceita uma ideia, não importa o quão verdadeira e valiosa ela pode ser.

Nossas revistas burguesas estão cheias de dissertações sobre o sindicalismo. Uma de nossas fac

uldades mais conservadoras até mesmo chegou ao nível de publicar o trabalho de um de seus estudantes sobre o assunto, o qual tem a aprovação de um professor. E tudo isto não porque o sindicalismo é uma força e está sendo praticado com sucesso pelos trabalhadores europeus, mas porque – como eu disse antes – ele tem sanção autoritativa oficial.

Como se o sindicalismo tivesse sido descoberto pela filosofia de Bergson ou pelas descobertas teóricas de Sorel e Berth, e não tivesse existido e vivido entre os trabalhadores muito tempo antes destes homens escreverem sobre ele. O traço que distingue o sindicalismo da maioria das filosofias é que ele representa a filosofia revolucionária do trabalho concebida e nascida na luta real e na experiência dos próprios trabalhadores – não em universidades, faculdades, bibliotecas ou no cérebro de alguns cientistas. A filosofia revolucionária do trabalho, este é o verdadeiro e vital significado do sindicalismo.

Já em 1848, uma grande parte dos trabalhadores percebeu a futilidade total da atividade política como uma forma de ajudá-los em sua luta econômica. Já naquela época a demanda foi direcionada a medidas econômicas diretas, assim como contra o inútil desperdício de energia em vias políticas. Este não foi o caso apenas na França, mas mesmo antes disso, na Inglaterra, onde Robert Owen, o verdadeiro socialista revolucionário, propagou ideias similares.

Depois de anos de agitação e experimentação, a ideia foi incorporada pela primeira convenção da Internacional em 1867, na resolução de que a emancipação econômica dos trabalhadores deve ser o principal objetivo de todos os revolucionários, ao qual todo o resto está subordinado.

De fato, foi este posicionamento radical determinado que eventua lm ente ocasionou o racha no movimento revolucionário daqueles dias, e sua divisão em duas facções: uma que, sob Marx e Engels, buscava a conquista política; e outra que, sob Bakunin e os trabalhadores latinos, avançando ao longo de linhas industriais e sindicalistas. O desenvolvimento posterior destas duas alas é familiar a todo homem e mulher pensante: uma gradualmente se centralizou em uma grande máquina, com o único propósito de conquistar o poder político dentro do Estado capitalista existente; e a outra está se tornando um fator revolucionário cada vez mais vital, temida pelo inimigo como a maior ameaça ao seu domínio.

Foi no ano de 1900, como delegada do Congresso Anarquista em Paris, que eu tive meu primeiro contato com o sindicalismo em operação. A imprensa anarquista esteve discutindo o assunto por anos antes disso; logo, nós anarquistas sabíamos algo sobre o sindicalismo. Mas aqueles de nós que vivíamos nos Estados Unidos tínhamos que nos contentar com o seu lado teórico. Em 1900, entretanto, eu vi seu efeito sobre o trabalho na França: a força, o entusiasmo e a esperança com os quais o sindicalismo inspirou os operários. Também foi minha grande sorte aprender do homem que mais do que qualquer outro havia direcionado o sindicalismo para canais funcionais definidos, Fernand Pelloutier. Infelizmente, eu não pude conhecer este homem notavelmente jovem, pois naquela época ele já estava muito doente com câncer. Mas onde quer que eu fosse, com quem quer que eu falasse, o amor e a devoção por Pelloutier era maravilhosa, com todo mundo concordando que foi ele quem reuniu as forças descontentes no movimento operário francês e as imbuiu com uma nova vida e um novo propósito, o do sindicalismo.

No meu retorno aos Estados Unidos, eu imediatamente comecei a propagar ideias sindicalistas, especialmente a Ação Direta e a Greve Geral. Mas era como falar para as Montanhas Rochosas – nenhuma compreensão, mesmo entre os elementos mais radicais, e completa indiferença nas fileiras operárias.

Em 1907, eu fui como delegada ao Congresso Anarquista de A m sterdã e, enquanto estive em Paris, encontrei os sindicalistas mais ativos na Confederation Generale du Travail: Delesalle, Monate e muitos outros. Mais do que isso, eu tive a oportunidade de ver o sindicalismo em operação diária, em suas formas mais construtivas e inspiradoras.

Eu aludo a isto para indicar que meu conhecimento do sindicalismo não vem de Sorel, Bergson ou Berth, mas do contato e da observação reais do tremendo trabalho conduzido pelos trabalhadores de Paris dentro das fileiras da confederação. Seria necessário um livro para explicar em detalhes o que o sindicalismo está fazendo pelo movimento operário francês. Na imprensa americana você só lê de seus métodos resistivos, de greves e sabotagem, dos conflitos do trabalho com o capital. Estes são sem dúvida assuntos muito importantes, e ainda o efeito construtivo e educativo sobre a vida e o pensamento das massas.

A diferença fundamental entre o sindicalismo e os velhos métodos operários é a seguinte: enquanto as antigas uniões operárias, sem opção, se movem dentro do sistema salarial e do capitalismo, reconhecendo o último como inevitável, o sindicalismo os repudia e condena os a

cordos industriais atuais como injustos e criminosos, e não transmite nenhuma esperança para o operário quanto aos resultados duradouros deste sistema.

E claro que o sindicalismo, como as antigas uniões operárias, luta por ganhos imediatos, mas ele não é estúpido o suficiente para fingir que o trabalho pode esperar condições humanas a partir de arranjos econômicos desumanos na sociedade. Logo, ele meramente retira do inimigo o que ele pode forçá-lo a entregar; no todo, entretanto, o sindicalismo objetiva e concentra suas energias na derrubada completa do sistema salarial. De fato, o sindicalismo vai além: ele objetiva libertar o trabalho de cada instituição que não tenha por meta o livre desenvolvimento da produção para o benefício de toda a humanidade. Em suma, o propósito definitivo do sindicalismo é reconstruir a sociedade de seu presente estado centralizado, autoritário e brutal para um baseado no agrupamento livre e federativo dos trabalhadores nas linhas da liberdade econômica e social. Com este objetivo em vista, o sindicalismo trabalha em duas direções: primeiro, minando as instituições existentes; segundo, desenvolvendo e educando os trabalhadores e cultivando seu espírito de solidariedade para prepará-los para uma vida cheia e completa quando o capitalismo tiver sido abolido.

O sindicalismo é, em essência, a expressão econômica do anarquismo. Esta circunstância explica a presença de tantos anarquistas no movimento sindicalista. Como o anarquismo, o sindicalismo prepara os trabalhadores ao longo de linhas econômicas diretas, bem como fatores conscientes nas grandes lutas de hoje, bem como fatores conscientes na tarefa de reconstruir a sociedade em linhas industriais autônomas, bem como contra o espírito paralisante da centralização, inerente em todos os partidos políticos.

Percebendo que os interesses diametralmente opostos do capital e do trabalho não podem nunca ser reconciliados, o sindicalismo deve repudiar os métodos antigos, enferrujados e desgastados das uniões operárias e declarar uma guerra aberta contra o regime capitalista, assim como contra toda instituição que hoje apoia e protege o capitalismo.

Como uma sequência lógica, o sindicalismo, em sua guerra diária contra o capital, rejeita o sistema contratual, porque ele não considera o trabalho e o capital como iguais, consequentemente não pode consentir com um acordo que um tem o poder de quebrar, enquanto o outro deve se submeter sem compensação.

Por razões similares o sindicalismo rejeita as negociações em disputas trabalhistas, porque tal procedimento só serve para dar ao inimigo tempo para preparar o seu fim da luta, logo derrotando o próprio objetivo que os trabalhadores se propuseram a atingir. Além disso, o sindicalismo defende a espontaneidade, tanto como um mantenedor da força combativa operária como também porque ela pega o inimigo desprevenido, consequentemente o compele a um ajuste acelerado ou o causa grande perda.

O sindicalismo desaprova uma grande reserva de fundos sindicais, porque o dinheiro é um elemento tão corruptor nas fileiras do trabalho quanto o é naquelas do capitalismo. Nós nos Estados Unidos sabemos que isso é muito verdadeiro. Se o movimento operário neste país não fosse apoiado por fundos tão altos, não seria tão conservador quanto é, nem seus líderes seriam tão prontamente corrompidos. Todavia, a principal razão para a oposição do sindicalismo a grandes reservas consiste no fato de que elas criam distinções de classe e inveja dentro das fileiras operárias, tão prejudiciais ao espírito de solidariedade. O trabalhador cuja organização tem uma grande bolsa se considera superior a seu irmão mais pobre, assim como ele acredita ser melhor do que o homem que ganha cinquenta centavos a menos por dia.

O valor ético principal do sindicalismo consiste na ênfase que ele coloca na necessidade do trabalho se livrar do elemento de discórdia, parasitismo e corrupção em suas fileiras. Ele procura cultivar a devoção, a solidariedade e o entusiasmo, que são muito mais essenciais e vitais na luta econômica do que o dinheiro.

Como eu já afirmei, o sindicalismo cresceu da decepção dos trabalhadores com os métodos políticos e parlamentares. No curso de seu desenvolvimento, o sindicalismo aprendeu a ver no Estado – com o seu porta-voz, o sistema representativo – um dos maiores apoiadores do capitalismo; assim como ele aprendeu que o exército e a igreja são os pilares chefes do Estado. E por isso que o sindicalismo deu as costas ao parlamentarismo e às máquinas políticas e encarou a arena econômica na qual o gladiador do Trabalho pode sozinho enfrentar seu adversário com sucesso.

A experiência histórica apoia o sindicalismo em sua oposição intransigente ao parlamentarismo. Muitos entraram na vida política e, não querendo ser corrompidos pela atmosfera, desistiram do cargo para se dedicarem à luta econômica – Proudhon, o revolucionário holandês Nieuwenhuis, Johann Most e outros, enquanto aqueles que se mantiveram no atoleiro

parlamentar terminaram traindo sua confiança, sem ter ganhado nada para o trabalho. Mas é desnecessário discutir aqui a história política. E suficiente dizer que os sindicalistas são antiparlamentaristas como resultado de amarga experiência.

Igualmente, suas experiências também determinaram sua atitude antimilitar. De tempos em tempos o exército foi utilizado para atirar em grevistas e para indicar a ideia repugnante do patriotismo com o propósito de dividir os trabalhadores contra si e ajudar os mestres a colher os espólios. Os avanços que a agitação sindicalista tomou sobre a superstição do patriotismo são evidentes devido ao temor da classe dominante pela lealdade do exército e à rígida perseguição aos antimilitaristas. Naturalmente, pois a classe dominante percebe muito melhor que os trabalhadores que quando os soldados se recusarem a obedecer seus superiores o sistema capitalista completo estará condenado.

De fato, porque deveriam os trabalhadores sacrificar seus filhos para que eles sejam usados para atirar em seus próprios pais e mães? Por isso, o sindicalismo não meramente possui lógica em sua agitação antimilitarista; ela é principalmente prática e de longo alcance, visto que rouba a mais forte arma do inimigo contra o trabalho.

Agora, aos métodos empregados pelo sindicalismo – a Ação Direta, a Sabotagem e a Greve Geral.

A Ação Direta é o esforço individual ou coletivo consciente para protestar contra, ou remediar, condições sociais através da asserção sistemática do poder econômico dos trabalhadores.

A sabotagem foi condenada como criminosa, mesmo pelos chamados socialistas revolucionários. É claro, se você acredita que a propriedade, que exclui o produtor de seus uso, é justificável, então a sabotagem é de fato um crime. Mas a menos que um socialista continue a estar debaixo de nossa moralidade burguesa – uma moralidade que permite que poucos monopolizem a terra à custa de vários – ele não pode consistentemente afirmar que a propriedade capitalista é inviolável. A sabotagem mina esta forma de posse privada. Ela pode portanto ser considerada criminosa? Pelo contrário, ela é ética no melhor sentido, já que ajuda a sociedade a se livrar de seu pior adversário, o fator mais prejudicial da vida social.

A sabotagem está principalmente preocupada com a obstrução, por qualquer método possível, do processo regular de produção, demonstrando desse modo a determinação dos trabalhadores em dar de acordo com o que recebem, e nada mais. Por exemplo, na época da greve ferroviária de 1910, os bens perecíveis foram enviados em trens lentos, ou em direção oposta à direção pretendida. Quem além do filisteu mais ordinário chamaria isto de crime? Se os próprios ferroviários passam fome e o público “inocente” não tem um sentimento de solidariedade suficiente para insistir que estes homens deveriam ter o suficiente para viver, o público perdeu a simpatia dos grevistas e deve enfrentar as consequências.

Outra forma de sabotagem consistia, durante esta greve, em colocar caixas pesadas em bens marcados “manuseie com cuidado”, vidro lapidado, cerâmica e vinhos preciosos. Do ponto de vista da lei isto pode ter sido um crime, mas do ponto de vista de uma humanidade comum foi uma coisa bastante sensível. O mesmo é verdadeiro para desmanchar um tear em uma fábrica de tecelagem, ou cumprir a lei ao pé da letra, como os ferroviários italianos fizeram, consequentemente causando confusão no serviço ferroviário. Em outras palavras, a sabotagem é meramente uma arma de defesa na guerra industrial, a qual é a mais efetiva porque atinge o capitalismo em seu ponto mais fundamental, o bolso.

Por Greve Geral, o sindicalismo quer dizer a suspensão do trabalho, o cessamento das atividades. Nem é preciso que este tipo de greve seja adiado até que todos os trabalhadores de um local ou país em particular estejam prontos para ela. Como foi apontado por Pelloutier, Pouget, assim como outros, e particularmente pelos eventos recentes na Inglaterra, a Greve Geral deve ser começada por uma indústria e exercer uma força tremenda. E como se um homem de repente gritasse “Pare o ladrão!”. Imediatamente, outras pessoas irão ecoar o grito, até que o ar ressoe com ele. A Greve Geral, iniciada por uma determinada organização, por uma indústria ou por uma pequena e consciente minoria entre os trabalhadores, é o grito industrial de “Pare o ladrão!”, que é logo ecoado por muitas outras indústrias, se espalhando como um incêndio em um tempo muito curto.

Uma das objeções dos políticos à Greve Geral é que os trabalhadores também sofreriam pelas necessidades da vida. Em primeiro lugar, eles são mais que mestres em passar fome; em segundo lugar, é certo que uma Greve Geral tem mais segurança de precipitar um acordo do que uma greve comum. Veja as greves dos transportes e das minas na Inglaterra: quão rapidamente os senhores do Estado e do capital foram forçados a fazer as pazes. Além disso, o sindicalismo reconhece o direito dos produtores às coisas que cr

iaram; nominalmente, o direito dos trabalhadores a se ajudarem se a greve não entrar rapidamente em acordo.

Quando Sorel afirma que a Greve Geral é uma inspiração necessária para as pessoas darem significado às suas vidas, ele está expressando um pensamento que os anarquistas se cansaram de enfatizar. No entanto, eu não concordo com Sorel que a Greve Geral é um “mito social”, que ela nunca pode ser realizada. Eu acredito que a Greve Geral se tornará um fato no momento que o trabalho compreender seu valor total – seu valor destrutivo assim como construtivo, como de fato muitos trabalhadores ao redor do mundo estão começando a perceber.

Estas ideias e métodos do sindicalismo são considerados inteiramente negativos por alguns, apesar de eles estarem longe disso em seu efeito sobre a sociedade hoje. Mas o sindicalismo também tem um aspecto diretamente positivo. De fato, muito mais tempo e esforço está sendo devotado a essa fase do que às outras. Várias formas de atividade sindical estão projetadas para preparar os trabalhadores, mesmo com as condições sociais e industriais atuais, para a vida de uma sociedade nova e melhor. Para este fim, as massas são treinadas no espírito do apoio mútuo e da fraternidade, sua iniciativa e autoconfiança se desenvolvem, e uma moral é mantida cuja própria alma é a solidariedade de propósito e a comunhão de interesses do proletariado internacional.

Central entre estas atividades são as sociedades de apoio mútuo estabelecidas por sindicalistas franceses. Seu objetivo é, antes de tudo, assegurar o trabalho para membros desempregados, e para promover este espírito de assistência mútua que repousa sobre a consciência da identidade de interesses do trabalho ao redor do mundo.

Em seu “O Movimento Operário na França”, o Sr. L. Levine afirma que durante o ano de 1902 mais de 74 000 pessoas, de um total de 99 000 requerentes, conseguiram trabalho por estas sociedades, sem serem obrigadas a se submeter à extorsão dos tubarões das agências de emprego. Estes últimos são uma fonte da mais baixa degradação, assim como da exploração mais descarada, do trabalho. Isso é especialmente verdadeiro para os Estados Unidos, onde as agências de emprego também são em muitos casos agências de detetives mascaradas, conduzindo pessoas em necessidade de emprego para regiões de greve, sob falsas promessas de emprego estável e bem remunerado. A confederação francesa há muito tempo percebeu o papel depravado das agências de emprego como sanguessugas do trabalhador desempregado e berçários de fura-greves. Pela ameaça de uma Greve Geral, os sindicalistas franceses forçaram o governo a abolir os tubarões das agências de emprego, e as próprias sociedades de apoio mútuo quase que totalmente as substituíram, para a grande vantagem econômica e moral do trabalho.

Além das sociedades de apoio mútuo, os sindicalistas franceses estabeleceram outras atividades que tendiam a fundir o trabalho em laços mais fortes de solidariedade e apoio mútuo. Entre estas estão os esforços para ajudar trabalhadores que viajavam de local para local. O valor prático assim como ético desta assistência é inestimável. Ela serve para instilar o espírito de companheirismo e dá uma consciência de segurança no espírito de unidade com a grande família do trabalho. Este é um dos efeitos vitais do espírito sindicalista na França e em outros países latinos. Que tremenda necessidade há de exatamente estes esforços neste país! Alguém pode duvidar da significância da consciência dos trabalhadores vindos de Chicago, por exemplo, para Nova Iorque, certos de encontrar entre seus companheiros boas-vindas com alojamento e alimentação até que eles assegurassem emprego? Esta forma de atividade é completamente estranha aos corpos operários deste país, e como resultado o trabalhador que viaja em busca de trabalho é vítima das leis de vadiagem, e por isso lamentavelmente é recrutado, através do estresse da necessidade, ao exército dos fura- greves. Eu testemunhei repetitivamente, enquanto estive na sede da confederação, os casos de trabalhadores que vinham com seus cartões do sindicato de várias partes da França, e mesmo de outros países da Europa, e eram providos com refeições e alojamento, e encorajados por cada prova de espírito fraterno, e levados a se sentir em casa por seus companheiros trabalhadores da confederação. E em grande parte devido a estas atividades dos sindicalistas que o governo francês é obrigado a empregar o exército para a quebra de uma greve, porque poucos trabalhadores estão dispostos a se prestarem a este serviço, graças aos esforços e às táticas do sindicalismo. Não menos importante que as atividades de apoio mútuo dos sindicalistas é a cooperação estabelecida por eles entre a cidade e o campo, o trabalhador da fábrica e o camponês ou fazendeiro, o último suprindo os trabalhadores com mantimentos durante as greves ou cuidando das crianças dos grevistas. Esta forma de solidariedade prática foi tentada pela primeira vez neste país duran

te a greve de Lawrence, com resultados inspiradores.

E todas estas atividades sindicalistas estão permeadas com o espírito do trabalho educativo, conduzido sistematicamente por classes noturnas em todos os assuntos vitais tratadas de um ponto de vista libertário e imparcial – não o “conhecimento” adulterado com o qual as mentes estão estufadas em nossas escolas públicas. O escopo da educação é realmente fenomenal, incluindo higiene sexual, o cuidado das mulheres durante a gravidez e o confinamento, o cuidado do lar e das crianças, saneamento e higiene geral; de fato, cada ramo do conhecimento humano – ciência, história, arte – recebe atenção minuciosa, junto com a aplicação prática nas bibliotecas dos trabalhadores estabelecidas, dispensários, concertos e festivais, dos quais os maiores artistas e literatos de Paris consideram uma honra participar.

Um dos esforços mais vitais do sindicalismo é preparar os trabalhadores agora para seu papel em uma sociedade livre: logo, as organizações sindicalistas provém seus membros com livros sobre cada ofício e indústria, de um caráter que é calculado para fazer o trabalhador um adepto de sua linha escolhida, um mestre de sua profissão, para o propósito de familiarizá-lo com todos os ramos de sua indústria, para que quando o trabalho finalmente tomar a produção as pessoas estiverem totalmente preparadas para administrar com sucesso seus próprios assuntos.

Uma demonstração da efetividade da campanha educativa do sindicalismo é dada pelos ferroviários italianos, cujo domínio de todos os detalhes do transporte é tão grande que eles podiam se oferecer ao governo italiano para tomar as ferrovias e garantir sua operação com maior economia e menos acidentes do que é feito no presente pelo governo.

Sua habilidade de conduzir a produção foi provado pelos sindicalistas de forma impressionante, em conexão com a greve dos assopradores de vidro na Itália. Lá os grevistas, ao invés de permanecerem ociosos durante o progresso da greve, decidiram eles mesmos conduzirem a produção de vidro. O maravilhoso espírito de solidariedade resultante da propaganda sindicalista os permitiu construir uma fábrica de vidro dentro de um tempo incrivelmente curto. Uma velha construção alugada para o propósito que teria requerido normalmente meses para ser colocada em condições adequadas foi transformada em uma fábrica de vidro dentro de poucas semanas pelos esforços solidários dos grevistas ajudados por seus companheiros que trabalhavam com eles depois do expediente. Então os grevistas começaram a operar a fábrica de sopramento de vidro, e seu plano cooperativo de trabalho e distribuição durante a greve se mostrou tão satisfatório de todas as maneiras que a fábrica experimental foi transformada em permanente e uma parte da indústria de sopramento de vidro na Itália está agora nas mãos da organização cooperativa dos trabalhadores.

Este método de educação aplicada não somente treina o trabalhador em sua luta diária, mas também serve para equipá-lo para a batalha real e para o futuro quando ele deverá assumir seu lugar na sociedade como um ser inteligente e consciente e um produtor útil, uma vez que o capitalismo for abolido. Quase todos os principais sindicalistas concordam com os anarquistas que uma sociedade livre pode existir somente através da associação voluntária e que seu sucesso derradeiro irá depender do desenvolvimento intelectual e moral dos trabalhadores que irão suplantar o sistema salarial com um novo arranjo social, baseado na solidariedade e no bem-estar econômico para todos. Isto é o sindicalismo, na teoria e na prática.

ANARQUISMO CONSTRUCTIVO (G. P. MAXIMOFF)

 Edição original: Constructive Anarchism, Maximoff Memorial Publishing Committee, Chicago, 1952

 Tradução e diagramação: Ateneu Diego Giménez COB-AIT Piracicaba, 2010

http ://cob- ait. net

http ://www.iwa-ait.org


Prefácio ao ATENEU Diego Giménez (2010)

A guerra imperialista, a ascensão e o declínio da grande Revolução Russa, as revoltas nos países da Europa central e a intensificação da luta de classes em outros países obrigaram os anarquistas a investigarem mais intensamente o verdadeiro caráter da revolução social e dos meios práticos necessários para sua realização. Nas páginas de publicações anarquistas e sindicalistas revolucionárias em todos os países, os problemas da construção, da tática e da organização foram discutidos com frequência crescente.

A primeira tentativa prática de se lidar com a questão das formas organizacionais na revolução social deve ser encontrada na formação da Associação Internacional dos Trabalhadores de 1921 – a internacional de sindicatos revolucionários. A partir daquele momento, o anarcossindicalismo se tornou um fator internacional organizado. A Associação Internacional dos Trabalhadores adotou a filosofia do comunismo anarquista, e, em adição a se dedicar a esforços diários nos interesses do proletariado mundial, ela lutou, desde o primeiro dia de sua existência, para achar soluções a todas aquelas questões que, tanto agora quanto no futuro, as massas exploradas encaram em sua luta por libertação total.

Todavia, apesar destas considerações e do fato de que a Associação Internacional dos Trabalhadores era uma herdeira direta da Primeira Internacional, continuando o trabalho da Federação do Jura e de Mikhail Bakunin, sua emergência não foi bem-vinda unanimemente nos círculos anarquistas. Antes de rever os princípios fundamentais de nosso próprio programa, é necessário discutir a “Plataforma” em maior detalhe, assim como a “Resposta” que foi feita a ela por “vários anarquistas russos”. Nós iremos examinar estas duas manifestações do pensamento anarquista, não por amor à controvérsia, mas somente para tornar mais precisa nossa atitude frente a estas questões organizacionais e táticas positivas que hoje ou qualquer dia podem surgir em sua magnitude total na própria Rússia assim como em outros países.


ANARQUISMO CONSTRUTIVO

 Grigori Petrovitch Maximoff

 ÍNDICE

 Introdução.

I. Aspectos positivos e negativos do anarquismo.

II. O período construtivo do anarquismo

III. A situação geral.

IV. Diagnóstico e tratamento.

V. Sobre a fraqueza do movimento.

VI. A teoria.

VII. O partido, o indivíduo e as massas.

VIII. O partido e os sindicatos.

IX. O período de transição.

X. O programa construtivo da “Plataforma” .

 Notas


INTRODUÇÃO

 Antes de examinarmos os princípios do anarcossindicalismo, é necessário resumir brevemente o desenvolvimento do anarquismo internacional desde a guerra 1 e considerar sua situação atual.

A guerra imperialista, a ascensão e o declínio da grande Revolução Russa, as revoltas nos países da Europa central e a intensificação da luta de classes em outros países obrigaram os anarquistas a investigarem mais intensamente o verdadeiro caráter da revolução social e dos meios práticos necessários para sua realização. Nas páginas de publicações anarquistas e sindicalistas revolucionárias em todos os países, os problemas da construção, da tática e da organização foram discutidos com frequência crescente. Infelizmente, estes problemas somente foram apontados; eles não foram resolvidos, e somente relativamente poucas das questões fundamentais foram realmente respondidas.

A primeira tentativa prática de se lidar com a questão das formas organizacionais na revolução social deve ser encontrada na formação da Associação Internacional dos Trabalhadores de 1921 – a internacional de sindicatos revolucionários. A partir daquele momento, o anarcossindicalismo se tornou um fator internacional organizado. A Associação Internacional dos Trabalhadores adotou a filosofia do comunismo anarquista, e, em adição a se dedicar a esforços diários nos interesses do proletariado mundial, ela lutou, desde o primeiro dia de sua existência, para achar soluções a todas aquelas questões que, tanto agora quanto no futuro, as massas exploradas encaram em sua luta por libertação total.

Todavia, apesar destas considerações e do fato de que a Associação Internacional dos Trabalhadores era uma herdeira direta da Primeira Internacional, continuando o trabalho da Federação do Jura e de Mikhail Bakunin, sua emergência não foi bem- vinda unanimemente nos círculos anarquistas. Um grupo de emigrantes anarquistas russos, por exemplo, decidiu estabelecer, entre linhas similares à Associação Internacional dos Trabalhadores, uma nova organização chamada Associação Geral de Anarquistas. E há três anos atrás, em 1927, o “Grupo de Anarquistas Russos Exilados” submeteu ao movimento anarquista internacional um “Projeto para uma Plataforma Organizacional de uma Associação Geral de Anarquistas”, o qual tentou resolver os vários problemas em um nível diferente da Associação Internacional dos Trabalhadores. Esta tentativa despertou interesse natural em círculos anarquistas, e ainda está sendo propagada nas publicações daquele grupo.

Antes de rever os princípios fundamentais de nosso próprio programa, é necessário discutir esta “Plataforma” em maior detalhe, assim como a “Resposta” que foi feita a ela por “vários anarquistas russos”. Nós iremos examinar estas duas manifestações do pensamento anarquista, não por amor à controvérsia, mas somente para tornar mais precisa nossa atitude frente a estas questões organizacionais e táticas positivas que hoje ou qualquer dia podem surgir em sua magnitude total na própria Rússia assim como em outros países. Ademais, a “Plataforma” e a “Resposta” a ela estão ambas cheias com todo tipo de distorção dos conceitos anarquistas, e ignorar estas distorções chegaria a ser uma transgressão contra o movimento anarquista.

Espera-se que o espaço considerável que será dedicado a este estudo para uma crítica destes assuntos será tido como justificado pelas considerações abaixo.

I. ASPECTOS POSITIVOS E NEGATIVOS DO ANARQUISMO

Não está dentro do escopo deste estudo examinar o desenvolvimento do pensamento anarquista. Minha tarefa é prática. Depois de analisar o movimento anarquista vivo e concreto do momento de sua concepção até o dia presente, eu tentarei determinar suas falhas, erros e ambiguidades na teoria e na prática. Ademais, por base na experiência histórica, eu irei propor para consideração métodos que, na minha visão, poderiam ajudar nosso mov im ento na luta em direção à realização deste programa.

O pensamento precede o movimento. Cada ato e cada movimento do indivíduo, a menos que seja mecânico ou instintivo, é o resultados da premeditação, do pensamento. Antes de agir, o homem pensa sobre o ato – não importa se o pensamento é breve ou longo – e somente depois deste trabalho mental ele dá passos para transformar o pensamento em realidade. O mesmo processo pode ser observado no intrincado organismo da sociedade humana.

Nesta complexa organização social, também a ideia precede a ação. E por essa razão, a história das ideias não coincide em tempo com a história dos movimentos que servem essas ideias. Logo, a história dos movimentos anarquista e socialista começa somente nos anos sessenta do último século, com a organização da Associação Internacional dos Trabalhadores, ou, como ela é agora comumente chamada, a Primeira Internacional. Aquela época eu atribuo o começo do movimento de massa dos trabalhadores anarquistas, e com ele eu começo o exame e a análise do movimento a que nós todos servimos de acordo com nosso entendimento e habilidade.

Um estudo dos erros do passado nos ajudará a evitar repeti-los no presente e no futuro. A coragem para admitir erros, e a habilidade para descobrir suas causas reais são sinais de um espírito vivo e uma mente aberta e clara. Se um movimento mostra provas destas qualidades vitais, ele é de fato saudável e forte, e tem um papel a desempenhar no futuro. Vamos tentar então, dentro dos limites de nossa habilidade, servir o movimento desta forma. Inspirados por esta proposta, vamos começar com o exame de nosso movimento que cresceu, como já indicado, da Associação Internacional dos Trabalhadores (Primeira Internacional).

Que tipo de associação ela era? Quando, como e por que ela emergiu? A Primeira Internacional em si não é meu assunto, e eu irei esboçar sua história somente até o ponto necessário para a consideração do movimento anarquista, cujo desenvolvimento inicial estava inextrincavelmente ligado a ela. Por esta razão eu limitarei meu exame a uma fração da Internacional, o grupo conhecido como “federalista” ou “bakuninista”.

A pedra fundamental da Internacional foi lançada durante a Exibição Internacional de 1862 em Londres, e a associação propriamente dita foi fundada na famosa reunião no St. Martins Hall em Londres em 23 de setembro de 1864. Aquela reunião elegeu um comitê provisório de organização, que com o tempo se tornou o Conselho Geral da Internacional. O comitê elaborou a declaração da Internacional e seus estatutos provisórios. Estes estatutos foram editados por Karl Marx, que, apesar de ser um membro do comitê, desempenhou um papel bastante passivo na formação da Internacional.

Sob a influência de propaganda, seções da Internacional foram formadas em vários países da Europa ocidental. Muitos de seus membros tinham somente a noção mais vaga e mais confusa dos objetivos e dos propósitos da associação. E porque incluíam números consideráveis da inteligência radical, estas seções frequentemente cooperavam com os partidos políticos radicais. Logo, o primeiro aderente da Internacional na Suíça, Dr. Coullery, perseguia um programa de neocristianismo e seu jornal tinha um público razoavelmente extenso.

Uma situação semelhante surgiu na França. Em suma, as seções da Internacional eram, ideologicamente, uma coleção variada e mutuamente contraditória, e somente com o tempo elas foram moldadas em uma força social consciente e ativa.

O primeiro congresso da Internacional foi programado para ser realizado durante 1865, em Bruxelas, mas ele foi cancelado por causa de uma nova lei belga que discriminava contra estrangeiros. Em seu lugar, uma conferência foi marcada em Londres para os dias de 25 a 29 de setembro do mesmo ano. Nesta conferência, os delegados da França eram todos proudhonianos – Tolain, Fribourg, Limousin e Varlin, mais tarde um membro da Comuna de Paris. Caesar de Paepe veio da Bélgica, Dupleix e J. P. Becker, participante da revolta de Dresden, das partes francófona e alemanófona da Suíça, respectivamente. Entre os emigrantes, que não representavam seções específicas, havia Dupont, Le Lubez, Herman Jung e Karl Marx. Esta conferência considerou primariamente as questões operárias, mas também tocou em questões tocantes à política internacional, e decidiu chamar o primeiro congresso da Internacional em Genebra para o outono de 1866.

Este congresso foi realizado de 3 a 8 de setembro, e foi assistido por 65 delegados – sessenta deles representando seções nacionais e cinco do Conselho Geral. A maioria destes delegados era suíça e francesa. Já que este congresso é da mais alta importância na história dos movimentos anarquista e socialista, eu irei rever sua ordem do dia e resoluções.

A ordem do dia é muito interessante, e até hoje as questões colocadas para a consideração do congresso não perderam sua significância concreta, não somente para o movimento operário moderno em geral mas para o movimento anarquista em particular, cujas atitudes nestas questões foram responsáveis pela divisão da Internacional em facções divergentes. Esta ordem do dia consistia dos seguintes itens:

1. Unificação dos esforços dos trabalhadores na luta contra o capitalismo pela organização de uniões.

2. A redução da jornada de trabalho.

3. O trabalho feminino e infantil na indústria.

4. Uniões operárias, seu passado, presente e futuro.

5. Cooperativas.

6. Taxação direta e indireta.

7. Organização do crédito internacional.

8. A necessidade da destruição da influência reacionária da Rússia na Europa por meio do estabelecimento de uma série de Estados separados baseados na autodeterminação. (A reconstrução da Polônia em princípios democráticos.)

9. A existência de exércitos permanentes.

10. Religião e sua influência na evolução social, política e intelectual das nações.

11. Sociedades de apoio mútuo.

A mais importante conquista do congresso foi, é claro, a ratificação final dos estatutos da Internacional, que serão examinados abaixo. Primeiro, entretanto, eu examinarei as resoluções em várias questões que, na minha opinião, continuam a ser vitais para o movimento anarquista como um todo.

Não há unanimidade entre anarquistas na questão da luta do trabalho contra o capital. Eles diferem particularmente na questão da sindicalização dos esforços dos trabalhadores e da sua luta contra os exploradores. E esta variação em atitude perante os sindicatos é a principal questão dividindo o campo anarco-comunista em duas frações principais – os anarco-comunistas pura e simplesmente e os anarcossindicalistas. Aqueles anarquistas atuais que são sindicalistas não acreditam que associações de trabalho possam ser o núcleo de uma sociedade futura se desenvolvendo em federações de produtores e comunas sem Estado. Os anarcossindicalistas, por outro lado, defendem que somente as organizações de trabalho sem superiores são capazes de prover o elemento inicial na estrutura da nova sociedade, na qual uma federação internacional de associações de produtores irá tomar o lugar do governo.

Ainda, muitos anarquistas consideram a luta sindical por interesses diários mesquinha, inútil e até mesmo prejudicial; eles a chamam de uma política negligente e sedenta por dinheiro que serve somente para desviar a atenção dos trabalhadores de sua principal tarefa, a destruição do capital e do Estado. Os anarcossindicalistas, por outro lado, veem a luta cotidiana das classes trabalhadoras como sendo de tremenda importância. Eles acreditam que a redução das horas de trabalho é uma grande benção já que, depois de um longo dia de trabalho, o trabalhador está tão cansado que não tem tempo ou energia para os problemas sociais ou as questões comunais; ele conhece apenas uma necessidade – o descanso físico. Um longo dia de trabalho, de fato, o transforma em um animal labutador. A mesma importância é dada pelos anarcossindicalistas ao aumento dos salários. Quando os salários estão baixos, há destituição; quando há destituição, há ignorância, e um trabalhador empobrecido ignorante não pode ser um revolucionário, porque ele não tem oportunidade para perceber ou apreciar sua dignidade humana e porque ele não pode entender a estrutura de exploração que o oprime.

Como os anarquistas da Primeira Internacional reagiram a estas questões? O primeiro congresso da Internacional passou uma resolução dizendo que “no estágio presente da produção, os trabalhadores devem ser apoiados na sua luta por aumentos salariais”. Além disso, o congresso notou que o objetivo máximo do movimento trabalhista é a “destruição do sistema de trabalho contratado” e ele portanto recomendou um sério “estudo das maneiras e meios econômicos para atingir este objetivo, fundado na justiça e no apoio mútuo”.

O segundo congresso da Internacional, realizado em Lausanne em 1867, aceitou a mesma resolução. O terceiro congresso, se reunindo em Bruxelas, de 6 a 13 de setembro, debateu a questão das greves, da federação entre associações de trabalho e do estabelecimento de Conselhos de Coordenação especiais cuja tarefa seria determinar se uma determinada greve era legal ou útil. O congresso então aprovou uma resolução dizendo:

Este congresso declara que a greve não é uma arma para a total libertação do trabalhador ; mas que ela se torna frequentemente necessária na luta entre o trabalho e o capital na sociedade moderna; é essencial portanto submeter as greves a certas regras para que elas possam ser convocadas somente em tempos propícios, e com a garantia da organização competente.

Quanto à organização das greves, é essencial que uniões operárias de resistência existam em todos os ofícios, e que essas uniões estejam federadas com todas as outras uniões operárias em todos os países…

Para determinar a duração e a legalidade das greves, uma comissão especial composta por delegados sindicais deve ser estabelecida em cada localidade.

Na questão da redução da jornada de trabalho, o congresso declarou que “a redução das horas de trabalho é uma condição primária para cada melhoria na posição dos trabalhadores, e por essa razão este congresso decidiu começar a agitar em todos os países para a realização deste objetivo por meios constitucionais”.

No quarto congresso da Internacional em Basel durante setembro de 1869 – este foi o penúltimo congresso -, o delegado francês, o carpinteiro Pindy, leu um artigo sobre a questão das uniões operárias de resistência (como os sindicatos eram chamados na época) no qual ele incidentalmente expressou pensamentos que mais tarde se tornaram básicos ao sindicalismo revolucionário francês, e que desde então foram afirmados continuamente por aqueles anarquistas que agora se chamam anarcossindicalistas. Pindy disse que, em sua visão, as uniões operárias devem se unir com cada outra em federações locais, nacionais e, finalmente, internacionais. Na sociedade futura, também, os sindicatos deveriam se unir em comunas livres, lideradas por conselhos de delegados dos sindicatos. Estes conselhos iriam regular as relações entre os vários ofícios e tomariam o lugar das instituições políticas contemporâneas. O congresso aprovou uma resolução proposta por Pindy, que afirmava que os sindicatos devem, “nos interesses de seu ramo de indústria, reunir toda a informação essencial, considerar problemas comuns, conduzir greves e se preocupar com sua conclusão bem-sucedida até a hora em que o sistema de trabalho contratado for substituído pela associação de livres produtores”. Este, de acordo com os arquivos de todos os congressos, era o ponto de vista ideológico dos anarquistas que participaram da Primeira Internacional quanto à questão operária.

Mas a Internacional não era uma organização dominada por anarquistas. Ela incluía marxistas, blanquistas e mutualistas-proudhonianos, socialistas e até mesmo democratas radicais. Como então alguém pode atribuir o programa da Internacional aos anarquistas daqueles dias? O mero fato de serem membros da Internacional não é o suficiente, já que eles poderiam ter sido a minoria e ter discordado do ponto de vista das resoluções que foram adotadas. A questão é justificada, apesar de não completamente, já que, se os anarquistas não tivessem concordado com as resoluções, haveria alguma evidência de seu protesto nos próprios congressos e mais tarde em sua imprensa, um método usado por eles sempre que diferiam da opinião do Conselho Geral em Londres. Entretanto, existe uma grande porção de material adicional que mostra que, até o congresso de Hages, os anarquistas aceitaram o programa da Internacional completamente.

Temos apenas que nos referir aos trabalhos e às cartas de Bakunin. Seus panfletos, “A Política da Internacional”, “A Organização da Internacional”, “União Revolucionária Universal”, assim como vários outros, provam esta discussão clara e convincentemente. Porém, para tornar o assunto mais correto, não devemos confiar somente nos panfletos de Bakunin, mas também considerar as seguintes citações dos documentos da Federação do Jura, que então encabeçava o movimento anarquista teórico e prático, assim como várias citações do programa que Bakunin estabeleceu para a “Aliança Social-Democrática”.

Como o programa da Aliança está relacionado com a questão do movimento operário em discussão aqui? O parágrafo 11 afirma que a terra, como todo outro capital, é uma ferramenta de produção da sociedade como um todo, para ser utilizada apenas pelo povo trabalhador, ou seja, as associações industriais e agrícolas dos trabalhadores. O parágrafo V contém uma tese que ainda é parte dos princípios fundamentais do anarcossindicalismo moderno, mas que é negada por muitos anarco- comunistas. Ela toma a pergunta – o que deve substituir o Estado existente? – e faz a seguinte declaração: “A Aliança reconhece que todos os Estados políticos e autoritários modernos, limitados crescentemente às simples funções administrativas essenciais à sociedade, devem ser dissolvidos em uma união internacional de associações agrícolas e industriais livres”.

O congresso da Federação Românica em Chaux-Le-Fonds em 1870 aprovou uma resolução que permanece válida até hoje, pelo menos para a fração sindicalista dos anarquistas comunistas, e que deve ser citada em sua totalidade:

Considerando o fato de que a libertação total do trabalho é possível somente nas condições da transformação da estrutura política existente, que é sustentada por privilégio e poder, em uma sociedade econômica fundada em igualdade e liberdade, e que todo governo ou Estado político representa somente a organização da exploração burguesa cuja expressão é a lei jurídica, e que qualquer participação da classe trabalhadora na política governamental burguesa pode resultar somente no fortalecimento da estrutura existente que por sua vez paralisaria as atividades revolucionárias do proletariado, o congresso da Federação Românica recomenda a cada seção da Internacional o repúdio a todas as atividades que buscam a reorganização social por meio de reformas políticas. Ele sugere ao invés disso a concentração de todos os esforços na criação de sindicatos federados como a única arma capaz de assegurar o sucesso da revolução social. Tal federação seria o representante verdadeiro do trabalho, seu parlamento, mas seria independente e estaria completamente fora da influência do governo político.

Quanto às formas da sociedade futura, as seções do Jura da Internacional as visualizaram da mesma forma que Bakunin as visualizou e os anarcossindicalistas atuais ainda visualizam. No jornal “Solidariedade” de 20 de agosto de 1870, em um artigo intitulado “Unificação Geográfica”, lemos: “No futuro, a Europa não consistirá de uma federação de diferentes nações, organizadas politicamente em repúblicas, mas de uma simples federação de união operária sem nenhuma distinção de acordo com a nacionalidade”.

Este, então, era o programa trabalhista do movimento anarquista desde a formação da Internacional até a desintegração da Federação do Jura em 1880 quando, em seu último congresso, suas seções aceitaram o título do comunismo anarquista.

Uma análise do programa trabalhista da Internacional e sua aplicação prática leva inevitavelmente a uma falha fundamental que fatalmente afetou o desenvolvimento do movimento operário. Esta falha era a discrepância entre a teoria e a prática. Nós vimos que a Internacional declarou a libertação econômica dos trabalhadores como o objetivo do movimento operário, e os sindicatos como sua base. A conclusão lógica e natural teria sido que a Internacional fosse constituída no princípio da federação de sindicatos organizados de acordo com os ofícios. Ao invés disso, ela foi fundada na associação de seções compostas de todos os tipos de elementos diferentes. A culpa inteira disto não pode, é claro, ser colocada na Internacional; a ausência de experiência histórica, e as condições específicas nas quais a associação foi forçada a existir e se desenvolver, são claramente razões compreensíveis. No entanto, permanece o fato de que a organização secional da Internacional era sem dúvida uma das principais razões para a queda e desintegração daquela organização magnífica. O movimento anarquista moderno se beneficiou de sua experiência histórica, e a segunda Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em Berlim em 1922, foi construída sob o princípio da unificação, não das seções, mas das associações industriais em vários países.

A estrutura secional da Internacional e de suas federações fatalmente reagiu sobre o movimento anarquista em sua forma pura. O que aconteceu foi que, quando os anarquistas, após a divisão da Internacional, se organizaram em uma Internacional Federalista, eles mudaram as seções por grupos, e, por causa do declínio desta organização, eles não perceberam que desta forma eles mudaram um movimento operário de massa, permeado com o espírito anarquista, por um simples movimento de grupos anarquistas que possuíam pouco contato orgânico com o movimento operário.

Com o tempo, o estranhamento se tornou crescentemente mais evidente. O anarquismo começou a perder seu ponto de apoio prático e se voltou cada vez mais para a teoria. Como resultado, o movimento foi invadido por pessoas que tinham pouca, ou até mesmo nenhuma, conexão com as classes trabalhadoras. Elas eram idealistas que buscaram sinceramente a libertação do proletariado, mas, não tendo sido amadurecidas na luta revolucionária e vendo a libertação desejada não saciada durante o período esperado, elas se tornaram desiludidas com os esforços em grupo, usando armas que poderiam mais efetivamente precipitar os resultados desejados. É nesta psicologia que devemos buscar as raízes das atitudes sindicalistas que, estou profundamente convencido, causaram grande prejuízo ao anarquismo e inibiram seu crescimento progressivo como um movimento operário de massa.

Eu continuarei agora com a discussão de outros problemas que estavam sob constante consideração na Internacional em geral, e em suas seções federalistas em particular. Eu não tenho disponíveis as resoluções do primeiro congresso sobre todos os itens de sua ordem do dia. Mas, já que a maioria destes assuntos também foi discutida durante os congressos subsequentes, é possível, por referência aos seus arquivos, delinear o programa da Internacional no tocante a estas questões.

Antes, todavia, de começar nossa exposição do programa, uma questão muito importante na ordem do dia do segundo congresso deveria ser tratada, particularmente porque ela amplifica e esclarece o programa trabalhista já discutido. E a questão que não somente manteve sua urgência para nossos próprios dias, mas que também forma o obstáculo básico para a união no movimento anarco-comunista, assim como um alvo para ataques socialistas na disputa sobre a ditadura do proletariado.

A questão foi formulada da seguinte maneira:

Os esforços das associações operárias para a libertação do quarto estado (o proletariado) não levariam à criação de uma nova classe – o quinto estado – cuja posição sob o socialismo poderia ser ainda mais terrível que a posição do proletariado sob o capitalismo?

O fato de que tal questão foi levantada é em si mesma significativa. Ele mostra, primeiramente, a grande maturidade no pensamento socialista dos membros da Internacional e, em segundo lugar, ele aponta para o senso de responsabilidade e precaução no tocante à solução de problemas sociais complexos. Esta questão, eu acredito, surgiu dentro da Internacional parcialmente porque alguns membros estavam propagando a ideia da ditadura do proletariado, com a qual uma maioria não concordava. Os profetas da ditadura logo deixaram os internacionalistas alertas à possibilidade de que a nova sociedade, construída na tese da substituição do Estado por uniões operárias, poderia criar condições em que o proletariado se tornaria a classe dominante suprimindo outras classes – por exemplo, a camponesa. O congresso não negou tal possibilidade; ele parecia realmente admiti-la, mas, não tendo alternativa, somente poderia recomendar métodos que poderiam mais ou menos contrapor a possibilidade de resultados tão indesejáveis do ponto de vista do socialismo. O congresso aprovou uma resolução na qual afirmava que, para evitar a formação de uma nova hierarquia exploradora, seria necessário que as uniões operárias fossem permeadas com os ideais de ajuda mútua e solidariedade e que o proletariado fosse convencido de que uma sublevação social deve levar à justiça e não à criação de novos privilégios, mesmo para sua própria classe.

Em uma época em que o movimento anarquista estava sendo moldado pela experiência viva como um movimento das massas operárias, tais dúvidas eram normais e totalmente justificadas, e a decisão do congresso foi perfeitamente natural. Quando o capitalismo não havia ainda amadurecido inteiramente e as organizações operárias haviam apenas começado a funcionar em uma base revolucionária, os membros do congresso não poderiam ter tido nenhuma outra decisão que a tentativa de levantar o nível de consciência nas classes trabalhadoras. A necessidade para isto permanece, hoje, tão forte quanto antes. Mas ela não é mais a única necessidade.

Agora o pensamento anarquista se tornou maduro e ele deve, além disso, operar em condições completamente diferentes das circunstâncias econômicas daqueles dias. Hoje a questão delineada acima pode ser levantada apenas para os socialistas de Estado, que tentam estabelecer uma ditadura de classe na forma de um Estado classista. Para anarquistas, que buscam a destruição do Estado e sua substituição pelas federações de associações produtivas, a questão é ridícula. Ela é ridícula porque o anarquismo, ao organizar a sociedade desta maneira, envolve toda a população adulta trabalhadora nas associações produtoras, independentemente de suas posições sociais anteriores, ou seja, as classes são destruídas de uma vez e portanto não pode haver nenhuma questão de domínio de classe. Entretanto, um problema diferente pode ser levantado agora: a organização comunista da sociedade não resultaria na supressão do indivíduo de uma forma mais severa do que o individualismo capitalista?

A pergunta é justificada e nós não podemos negar tal possibilidade inteiramente. Mas a sociedade irá descobrir, eu acredito, meios suficientemente efetivos para prevenir a materialização desta possibilidade. Quanto ao problema do domínio de classe, os anarco-comunistas e os anarcossindicalistas diferem fortemente nesta questão. Os anteriores insistem, obviamente em erro, que a sindicalização levariam ao domínio de classe, ou seja, à ditadura. No entanto, eles mesmos não têm nada a oferecer no lugar do mal que eles preveem.

Para passar às questões remanescentes, à parte das uniões operárias, a cooperação em todas as suas formas era um assunto quente nos dias da Primeira Internacional, e nos vários congressos muita atenção era dada a este movimento. A ordem do dia de cada congresso continha itens tanto sobre cooperativas em geral como em aspectos específicos do movimento. No primeiro congresso, por exemplo, os seguintes itens foram discutidos: cooperativas, organização do crédito internacional, sociedades de apoio mútuo. No segundo congresso: como as classes trabalhadoras poderiam utilizar, para o propósito de sua libertação, as poupanças depositadas em instituições financeiras burguesas e governamentais. No terceiro congresso – o crédito.

Tal insistência mostra o quanto o proletariado internacional daqueles dias estava interessado na questão das cooperativas. Nos nossos tempos, por causa dos esforços anarquistas para desenvolver programas positivos e práticos, esta questão está novamente na ordem do dia. Por essa razão, é importante aprender como ela foi resolvida por nossos ilustres predecessores.

As decisões do primeiro congresso no tocante a esta questão não estão disponíveis. No segundo congresso, na questão da poupança dos trabalhadores, Charles Longuet falou em favor de organizar um sistema de crédito proudhoniano- mutualista com bancos operários nacionais que proveriam empréstimos livres de juros aos trabalhadores. Eccarius sugeriu que as cooperativas trabalhadores de artesãos e as uniões operárias deveriam usar seu capital para a organização de associações produtivas. O terceiro congresso aceitou estas propostas em resoluções recomendando o estabelecimento de bancos populares que proviriam as organizações trabalhistas com capital.

A seção inglesa falou sobre cooperativas. Sem negar a utilidade de organizações cooperativas, indicou uma tendência perigosa perceptível numa maioria destes órgãos na Inglaterra, que estavam começando a se desenvolver em instituições puramente comerciais e capitalistas, logo criando a oportunidade para o nascimento de uma nova classe – a burguesia trabalhadora. Em seguida a este relato, o congresso aprovou uma resolução recomendando que o principal propósito das cooperativas deve ser mantido constantemente vivo – “retirar das mãos dos capitalistas privados os meios de produção e retorná-los aos seus donos por direito, os trabalhadores produtivos” 2 . Este, então, era o ponto de vista da Internacional. Ele mostrou o devido respeito neste assunto às utopias proudhonianas e owenistas, que até hoje são advogadas por social- cooperadores e por alguns anarquistas.

Não há dúvida, é claro, que as cooperativas são instituições muito úteis. Para os anarquistas, trabalhar em cooperativas de massa é tão necessário e tão útil quanto trabalhar em sindicatos. Mas isso não significa que a cooperação é a varinha de condão pela qual a estrutura capitalista possa ser transformada em um comunismo anarquista. Muitos internacionalistas realmente acreditaram nisso, e logo surgiu sua atitude entusiástica perante a cooperação. Outros, como Bakunin, viam muito além, percebendo o grande papel positivo que as cooperativas desempenhariam na estrutura futura da nova sociedade, mas olhando elas no estágio presente com indiferença. “A experiência dos últimos vinte anos”, Bakunin escreveu, “uma experiência única que alcançou seu mais amplo alcance na Inglaterra, na Alemanha e na França, provou conclusivamente que o sistema cooperativo, enquanto sem dúvida contém a essência da estrutura econômica futura, não pode, no momento presente sob as condições presentes, libertar ou mesmo melhorar a qualquer extensão considerável os padrões de vida do povo trabalhador”. A última parte do depoimento de Bakunin foi verificada pela experiência, enquanto a primeira está apenas começando a ser confirmada.

Muitos anarquistas na Espanha até hoje, se não a maioria aqui, apresentam uma atitude hostil irredutível perante as cooperativas, e eles logo cometem o mesmo erro imperdoável dos anarquistas russos no período de 1905-1906. Não é possível propor algum tipo de anarco-cooperativismo, mas não se pode negar a utilidade das cooperativas à população trabalhadora. E, à parte de tudo isto, não se pode esquecer que as cooperativas, seja as cooperativas cristãs ou as trabalhadoras, são organizações de massa, e logo provém um tremendo campo para a propaganda e a atividade cultural anarquista. Nós devemos nos lembrar do ponto de vista de Bakunin, citado acima, que as cooperativas contém a essência da estrutura econômica futura. Isso é indubitavelmente verdadeiro e, em vista deste único fato, não é recomendável repetir os erros do passado.

O problema da educação, também, esteve frequentemente na ordem do dia dos congressos da Primeira Internacional. O terceiro congresso adotou uma resolução nessa questão, enquanto o quarto deixou a discussão do problema para a sessão seguinte. Reconhecendo que no tempo presente a organização da educação racional era impossível, o congresso “convidou suas seções a organizarem cursos públicos com um programa de educação científica, profissional e integral, para assim complementar pelo menos parcialmente a educação totalmente inadequada disponível aos trabalhadores no presente”. O congresso considerou a redução da jornada de trabalho uma condições essencial e preliminar. Em um de seus artigos posteriores, “Educação Compreensiva”, Bakunin concordou completamente com esta resolução. Este artigo, assim como vários outros neste assunto, e particularmente os trabalhos de Robin, estabeleceu a fundação para a teoria da educação operária livre que é aceita hoje por todo o povo culto. E por isso a Internacional merece muito crédito. Uma resolução do segundo congresso excluiu o Estado da esfera da educação e assegurou total liberdade à educação e à instrução. A interferência do Estado deveria ser permitida somente quando o pai da criança não podia prover os fundos necessários para sua educação.

Quanto ao Estado em si, a Internacional começou a repudiá-lo definitivamente somente após as seções separadas terem se organizado na Internacional Federalista. Até essa separação, ela não pôde decidir finalmente a se separar deste pernicioso conceito; esta irresolução, é claro, não teria sido mantida sem a influência de Marx, apesar dos próprios anarquistas não estarem tão claros quanto ao assunto, se não em princípio, pelo menos em forma.

Quanto à luta política, a Internacional – até a cisão no congresso de Hague em 1872 – se colocou contra a atividade em linhas parlamentares e de partidos políticos. No congresso de Lausanne ela adotou uma resolução que dizia que “já que a ausência de liberdade política em um país apresenta um obstáculo à iluminação social do povo e à libertação do proletariado, o congresso declara: (1) que a libertação social dos trabalhadores é indivisível de sua libertação política e (2) que o estabelecimento da liberdade política é a necessidade primeira e incondicional em cada país”.

Enquanto aprovava tal resolução, o congresso não obstante reagia negativamente à participação na luta política; ao invés disso, ele continuou a funcionar apenas em um plano econômico. E quando Marx e seus seguidores no congresso de Hague decidiram adicionar aos estatutos uma resolução relacionada às atividades políticas das classes trabalhadoras, a cisão ocorreu. Os anarquistas e seus seguidores preferiram se manter em sua antiga posição e a advogar o ganho da liberdade política por meio da luta econômica.

Mais uma questão permanece a ser discutida – aquela da propriedade da terra. Daí em diante, poderemos nos voltar para uma análise das teses fundamentais da internacional e de suas declarações de princípios como expressas no preâmbulo aos estatutos, assim como um exame de seus conceitos organizacionais. A questão da propriedade da terra foi considerada no congresso de Basel em 1869, o quarto congresso – o único no qual Bakunin esteve presente. Em face à oposição pelos marxistas, este congresso aprovou uma resolução na socialização da terra e na abolição do direito de herança. Quanto à primeira questão, a Internacional votou pela abolição da propriedade privada e pelo estabelecimento da propriedade coletiva da terra. Quando, entretanto, se veio à consideração dos métodos de organizar a agricultura, o congresso não teve visões unificadas. Nesta segunda questão, uma maioria de trinta e dois, contra vinte e três marxistas, votaram pela resolução de Bakunin cuja sentença conclusiva se lia: “O congresso vota pela completa e radical abolição do direito à herança, considerando esta uma das condições essenciais para a libertação do trabalho”. Esta foi a primeira colisão das tuas tendências a Internacional, que foram representadas pelas personalidades de Marx e Bakunin.

Agora, examinemos os estatutos da Internacional. Sua filosofia inteira e seus princípios fundamentais, aceitos como artigos de fé por todos os socialistas convictos do mundo até hoje, estão expressos no preâmbulo a estes estatutos. As declarações são incontestáveis e sua formulação é concisa, admirável e expressiva. Eles são:

1. A libertação das classes trabalhadoras deve ser obra das próprias classes trabalhadoras.

2. A luta pela libertação dos trabalhadores não deve em nenhum caso ser uma luta por privilégios de classe e monopólios mas pelo estabelecimento de direitos e obrigações iguais para todos e a abolição de todo domínio de classe.

3. A subjugação econômica dos trabalhadores aos proprietários dos meios de produção, que são a fonte da vida, é a causa da servidão em todas as suas formas, de miséria social, da degeneração espiritual e da dependência política.

4. A libertação econômica dos trabalhadores é o grande objetivo ao qual todos os movimentos políticos devem estar subordinados.

5. Todos os esforços até o presente para realizar esta grande tarefa permaneceram sem sucesso por causa de uma falta de solidariedade entre os trabalhadores de vários ofícios em cada país, e por causa da ausência de união fraterna e organização entre as classes trabalhadoras de diferentes países.

6. A libertação do trabalho não é uma tarefa local ou nacional, mas um problema social envolvendo todos os países onde a estrutura moderna existe, e sua solução depende na cooperação prática e teórica entre os países mais progressivos.

7. A classe trabalhadora, que está levantando novas esperanças

em sua verdadeira regeneração nos países mais

industrializados da Europa, levanta um aviso solene contra um retrocesso aos velhos erros e clama imediatamente pela unificação de todos os movimentos os quais, até agora, estiveram divididos.

8. Todas as organizações e indivíduos que são membros da Internacional reconhecem a verdade, a justiça e a moralidade como os princípios básicos para seu comportamento perante si e perante todos os povos sem diferença de raça, credo ou nacionalidade.

9. Eles consideram seu dever exigir os direitos do homem e do cidadão não somente para si mesmos mas para todos que cumprem suas obrigações. Não há deveres sem obrigações; não há obrigações sem direitos.

Tal era o programa da Internacional – a filosofia do movimento operário de massa que não foi rejeitada até hoje por um único anarquista, e que jaz na raiz dos ensinamentos de Bakunin, da Federação do Jura e de Kropotkin. O mesmo não é verdadeiro dos marxistas, que logo se afastaram de certos conceitos da Internacional. O primeiro a fazê-lo foi o próprio Marx, e dessa maneira ele foi responsável pela cisão na Internacional.

Quais eram os princípios organizacionais da Internacional? Seu exame irá concluir este contorno de seu programa, e do programa dos anarco-coletivistas, ou bakuninistas. Os estatutos da Internacional, aceitos no primeiro congresso, não designaram quaisquer direitos administrativos ao Conselho Geral. O único direito designado a ele foi o de mudar o local do congresso seguinte, mas não sua programação. O conselho, portanto, não era o órgão central administrativo mas somente uma ligação e um birô de correspondência e seus membros eram eleitos pelo congresso. As seções individuais eram independentes do conselho e tinham o direito a seus próprios programas e constituições, desde que estes não estivessem em contradição com os princípios gerais dos estatutos adotados. Cada seção tinha o direito de eleger, dentre seus membros, correspondentes ao Conselho Geral da organização, e pagava taxas de acordo com seu número de membros para cobrir as despesas do conselho. Finalmente, cada seção tinha o direito de mandar um delegado ao congresso, independente do número de seus membros, mas as seções contendo mais de 500 tinham o direito de mandar delegados adicionais para cada 500 membros. Cada delegado ao congresso, não importando quantas seções ele poderia representar, possuía um voto.

É interessante notar que, no quarto congresso, havia evidência, por um lado, de uma tendência a adaptar a estrutura da Internacional à estrutura imaginada da nova sociedade, enquanto, por outro lado, o congresso, sobre a liderança de Bakunin, designava autoridade administrativa ao Conselho Geral. Ironicamente, foi pelo uso desta nova autoridade no congresso seguinte que Marx conseguiu acertar as contas com o próprio Bakunin e seus amigos.

Na questão de permitir a existência de presidentes em instituições e organizações operárias, o congresso adotou a seguinte resolução:

Ao passo que é indigno para uma organização operária reter em seu meio um princípio monarquista e autoritário permitindo a existência de um presidente (mesmo se o último não tem poderes), o congresso convida todas as seções e organizações operárias que são membros da Internacional a abolir o conceito da presidência em seu meio.

 Ao mesmo tempo, outra resolução, pela qual Bakunin e seus amigos votaram, designou ao Conselho Geral grandes poderes administrativos. A ilogi cidade dos anarquistas neste ponto pode ser explicada pelo fato que Bakunin acreditava que o conselho era mais revolucionário que muitas das seções. Os poderes garantidos por esta resolução eram como segue:

O Conselho Geral tem o direito de aceitar seções na Internacional, ou a recusar a aceitação até o próximo congresso geral. O Conselho Geral tem também o direito de fechar ou dissolver seções antigas.

Em caso de conflito entre seções individuais de qualquer país, o Conselho Geral é apontado arbitrariamente até o próximo congresso que sozinho tem a autoridade para tomar uma decisão final.

No decorrer de três anos, o conselho abusou destes direitos a uma extensão tal que provocou forte protesto da parte de muitas seções que estavam preparadas para abolir o Conselho Geral completamente. Algumas delas foram mais além; elas negaram a necessidade de quaisquer estatutos na organização como um todo. A reação de Bakunin a esta tendência é bastante interessante. Em uma carta a Albert Richard, ele observou:

 Você escreveu, meu querido amigo, que você é um inimigo de todas as constituições e você defende que elas não servem para nada além da diversão de crianças. Eu não compartilho totalmente suas visões nesse ponto. A regimentação supérflua é de fato abominável, e eu acredito, assim como você, que “pessoas responsáveis” devem elas mesmas traçar um curso para seu comportamento e não desviar dele.

Entretanto, concordemos em uma coisa. Para assegurar alguma unidade de ação, na minha visão essencial mesmo entre os mais responsáveis dos homens que lutam pelo único e mesmo objetivo, certas condições e certas regras específicas, igualmente regulando a todos, são requeridas. Deve haver acordos e tratados, frequentemente renovados. De outra forma, se todo mundo agisse somente de acordo com seu próprio julgamento, mesmo os homens mais sinceros poderiam, e certamente iriam, chegar a um ponto em que, com a melhor das intenções, eles iriam na verdade obstruir e paralisar uns aos outros. O resultado seria desarmonia ao invés da harmonia e da calma à qual todos nós aspiramos. Nós devemos saber como, quando e onde achar uns aos outros, e a quem recorrer para que consigamos a cooperação de todos. Uma pequena unidade, bem organizada, tem maior valor que uma que é maior, mas desorganizada e mal-adaptada.

 Logo, na questão da organização, Bakunin e os anarquistas se dedicaram, e toleraram, um erro imperdoável – uma retirada dos princípios federalistas fundamentais. E os tristes resultados não demoraram em mostrar sua aparência. Esta experiência prova que não se deve sacrificar princípios fundamentais mesmo nos interesses de atingir as melhores intenções.

Se nós adicionarmos à exposição já dada a declaração adotada pelos bakuninistas quando eles estabeleceram a Internacional Federalista no Congresso de St. Imier, um relato completo terá sido dado do movimento anarquista nos dias da Primeira Internacional, tanto antes quanto depois da clivagem naquela organização.

O texto desta declaração será citado abaixo. Primeiro, contudo, devemos discutir as resoluções do congresso. Isso é essencial porque as resoluções e a declaração juntas formam o programa no qual os anarquistas conduziram suas atividades depois do racha na Internacional até o declínio de sua seção federalista, ou seja, até 1879 e um pouco além.

A primeira resolução estava preocupada com princípios organizacionais. E declarado que a autonomia e a independência das federações operárias e seções é uma condição fundamental para a libertação dos trabalhadores. Adiante, a resolução não garantia ao congresso nenhum direito legislativo ou executivo, concedendo um papel conselheiro apenas. A resolução também rejeitou a ideia de que uma minoria deva se submeter às visões da maioria. A segunda resolução mantinha que, no caso de um atentado sobre a liberdade de uma federação ou seção pela maioria de qualquer congresso, ou por um conselho geral estabelecido por aquela maioria, todas as outras federações e seções devem se declarar em solidariedade com a organização atacada.

A quarta resolução tratava da estrutura para a “resistência do trabalho”, ou seja, a luta econômica do proletariado. Esta resolução postulava a impossibilidade de atingir qualquer melhoria substancial nos padrões de vida dos trabalhadores sob o capitalismo; ela considerava as greves importantes armas na luta, mas não tinha ilusões quanto aos seus resultados econômicos.

Greves, para os federalistas, eram o meio de intensificar a clivagem entre a burguesia e o proletariado. A terceira resolução, que eu enxergo como a Declaração, realmente representa o programa da organização, e por essa razão será citada em sua totalidade.

 Ao passo que a tentativa de forçar no proletariado um programa político e uma tática uniformes, uma única maneira para a libertação social completa, é tão absurda quanto as alegações de reação; ao passo que ninguém tem a autoridade para negar às federações e seções autônomas seu direito inquestionável a decidir independentemente e a empregar a tática política que consideram mais adequada, e acreditando que quaisquer tentativas de negação levariam tragicamente ao dogmatismo mais ultrajante; ao passo que as aspirações do proletariado não podem ter nenhum propósito além da construção de organizações e federações econômicas incondicionalmente livres, baseadas na igualdade e no trabalho de todos e inteiramente independentes de qualquer governo político; ao passo que essas organizações e federações podem ser o resultado somente da ação irredutível do próprio proletariado, dos sindicatos de artesãos e das comunas autônomas; ao passo que toda organização política pode ser o órgão de dominação para o benefício de apenas uma classe, ao invés de pelas massas como um todo, e ao passo que o proletariado, se decidisse tomar o poder, poderia ele mesmo se tornar a classe dominante e exploradora, o congresso, se reunindo em St. Imier, declara:

1. Que a destruição de todo poder político é a primeira obrigação do proletariado;

2. Que a criação do poder político revolucionário ostensivamente temporário para a realização de tal destruição pode ser somente uma nova traição e se provaria tão perigoso para o proletariado quanto todos os outros governos existentes no tempo presente;

3. Que, ao rejeitar toda concessão na realização da revolução social, proletários de todas as terras devem estabelecer a solidariedade da ação revolucionária livre de toda a política burguesa.

Com esta resolução eu estou concluindo meu exame e minha análise do movimento anarquista em seu primeiro período. Eu acredito que eu fui bem-sucedido em enfatizar não todos, mas os aspectos positivos e negativos, as conquistas e as falhas mais significativas do mov im ento nos dias da Primeira Internacional. É aparente que o caráter geral do movimento é muito similar àquela corrente no anarquismo contemporâneo que se desenvolveu sob o nome de anarcossindicalismo. Muitos de seus princípios estão na raiz do chamado sindicalismo românico, que é indubitavelmente o herdeiro imediato da Primeira Internacional, apesar de, é claro, ter crescido em diferentes condições econômicas e históricas, que resultaram em algumas diferenças inevitáveis entre essas duas tendências no movimento operário.

Quase simultaneamente ao desenvolvimento no ocidente da Internacional, um movimento análogo emergiu e se desdobrou no lado oposto da Europa, na Rússia. Ele diferiu da Internacional da mesma maneira que as condições históricas e econômicas variaram. Na Europa, devendo à evolução do capitalismo, o proletariado já era um fato estabelecido. Na Rússia, entretanto, o proletariado estava então apenas em sua infância, e muitos observadores duvidaram até mesmo que a Rússia desenvolveria uma classe proletária, já que eles viam o caminho do desenvolvimento econômico lá como sendo totalmente diferente daquele na Europa ocidental.

 A Rússia naqueles dias era um enorme oceano camponês, e por essa razão os elementos revolucionários basearam suas atividades primariamente no campesinato. Eles dedicaram ao proletariado pouco pensamento. Similarmente, as condições políticas diferiam fortemente daquelas da Europa ocidental. Lá, a liberdade política já existia, ao passo que na Rússia, depois do “liberalismo” de vida curta de Alexandre II, havia chegado uma era sombria e opressora de despotismo asiático. Em adição a isto, os próprios camponeses tinham somente há alguns anos cessado de ser servos verdadeiros.

Em tais circunstâncias, uma organização revolucionária emergiu entre pessoas jovens que tinham originalmente se unido em pequenos grupos culturais, e foram eles os responsáveis pela mais magnífica e heroica época do movimento revolucionário russo. Este movimento é conhecido pelo nome de “populismo” (narodichestvo – o mov im ento de “ir até o povo”) ou “zemlovolchistvo” – combinando as palavras “zemlya” (terra) e “volya” (liberdade), o nome de sua organização e publicação, Terra e Liberdade. Mais tarde, o movimento foi também chamado de “narodnovolchistvo” (socialismo populista).

A história deste movimento é complexa e colorida, mas nós infelizmente não podemos destrinchá-la, já que isso nos levaria muito para longe do assunto principal. Por essa razão devemos nos restringir apenas a um exame do programa e das bases táticas do movimento. No começo, duas tendências lutavam entre si dentro do movimento – os lavrovistas e os bakuninistas. Mas a luta não durou muito. Os bakuninistas em breve se tornaram o elemento dominante, e o anarquismo se tornou o programa. E este anarquismo que vamos examinar. Esta não é uma tarefa tão fácil já que, até agora, não existem revisões gerais, nenhuma pesquisa histórica ou resumos nessa questão. E portanto necessário utilizar fatos espalhados e fragmentados, memórias e jornais daquela época.

O primeiro órgão anarquista na língua russa foi publicado em 1868, não na Rússia, mas no exterior. Seu nome era “Dielo Truda”, e seu editor era Bakunin. A partir de sua segunda edição, entretanto, ele caiu nas mãos de Nicholas Utin, e cessou daí por diante de ser anarquista. Já que esta publicação não foi particularmente importante para o mov im ento russo, que começou seu desenvolvimento vários anos mais tarde, não iremos discuti-lo. O primeiro órgão anarquista russo no território russo foi a revista “Natchalo” (Começo), que cessou sua publicação com sua quarta edição. Foi seguida pela publicação “Zemlya i Volya” (Terra e Liberdade), que desempenhou um papel tremendamente importante no movimento revolucionário russo, e esta iremos discutir.

Toda atividade revolucionária nos anos setenta do último século foi baseada – na minha concepção – em uma visão errada do povo russo, uma ideia ainda guardada até hoje por muitos anarquistas. Esta ideia era que as tendências anarquistas eram naturais ao povo russo. Na primeira edição de “Natchalo” nós lemos: “O povo russo, por causa de condições históricas específicas, possui uma mentalidade anarquista, e ele ainda não adotou, como outras nações, ideias estadistas e instintos burgueses. Apesar do princípio de propriedade privada, que é sancionado por lei, ele exige uma redistribuição geral da terra e, a despeito de seu jugo tártaro milenar de Estado e feudalismo, ele ainda sonha com uma vida livre e desagrilhoada. Sua filosofia de vida é representada pela fórmula ‘Terra e Liberdade’ – uma fórmula que é fundamentalmente socialista”.

Foi nesta premissa que o movimento baseou todo seu programa e seus esforços táticos. Já que o povo não podia esperar nada do governo, “ele tinha somente uma rota de fuga de sua existência destituída servil: a derrubada violenta da ordem existente na forma da revolução social”. A luta do povo russo se expandiria em uma série completa de revoltas, tanto agora quanto no futuro, e os revolucionários decidiriam sua própria atitude perante as revoltas. Não poderia, é claro, haver nenhuma outra atitude do que a de aprovação. E a conclusão lógica era: ir entre o povo e o excitar e o preparar para a rebelião. Surtos locais, se multiplicando e se espalhando, cresceriam em uma tremenda rebelião – a revolução social que tornaria possível a realização do seguinte programa:

1. O Estado baseado em privilégio deve ser substituído por federações estabelecidas por meios da livre associação das comunas autônomas sem qualquer coerção por uma autoridade central;

2. A terra e os meios de produção são a propriedade de todo o povo;

3. O trabalhador é o único dono dos frutos de seu trabalho;

4. A troca do último para assegurar igual distribuição é o trabalho das comunas aldeãs federadas e dos sindicatos;

5. A igualdade política e social completa, a incondicional liberdade de consciência, expressão, pesquisa científica, associação e reunião.

Os revolucionários acreditavam que a realização deste programa estava no alcance da visão; os eventos estavam se movendo rapidamente e os socialistas deveriam se preparar para o futuro. Como os internacionalistas na Europa, que consideravam os sindicatos como as organizações econômicas que tomariam o lugar do governo, os populistas russos avançaram a comuna aldeã, a “obschtchina”. “A comuna aldeã”, eles diziam, “que é uma forma de associação econômica envolvida no processo da história russa, contém dentro de si as sementes da destruição do Estado e do mundo burguês”. Daí a demanda para uma federação de comunas aldeãs.

A realidade revolucionária em breve levou à resistência armada ao governo, ao terrorismo; e o ocorrido levou o povo à desilusão com a luta econômica e o campesinato. Alguns revolucionários, de fato, começaram a empurrar a revolução social no pano de fundo, enquanto enfatizavam exigências constitucionais.

A mesma coisa que havia ocorrido na Internacional estava acontecendo na Rússia. A proposta de um programa político e uma tática de luta política levaram a um rompimento que destruiu o movimento inteiro apesar dos fogos de artifício brilhantes e fascinantes aos quais o grupo do “Narodnaya Volya” (A Vontade do Povo) deu expressão na sua luta terrorista titânica. O rompimento ocorreu no meio de 1879, e em 1882 o movimento já estava esmagado e estrangulado.

II. O PERÍODO CONSTRUTIVO DO ANARQUISMO

 Os primeiros dois períodos no desenvolvimento do socialismo e do anarquismo – períodos de socialismo “utópico” e “científico” – foram seguidos no fim do século dezenove pela era do socialismo construtivo. Até aquela época, todas as tentativas de considerar a forma da sociedade futura e todas as questões relacionadas à sua estrutura haviam sido sarcasticamente rotuladas como prematuras e utópicas.

Entretanto, vale a pena notar que o próprio Bakunin havia se preocupado com o problema da construção, na crença de que não se pode destruir o velho sem ao menos ter um plano básico para o novo. O principal fator no processo de construção, na visão de Bakunin, seria a internacional de comunas industriais, suplementada por associações agriculturais.

O advento da Comuna de Paris forçou as pessoas a prestarem ainda mais atenção aos aspectos construtivos do socialismo. E, durante todo o período de sua existência, a Primeira Internacional esteve a trabalho clarificando as tarefas da sociedade futura. Em seu congresso de Bruxelas em 1874, os delegados discutiram relatos da Federação do Jura e de Caesar de Paepe sobre “serviços públicos na futura sociedade”. O relato de Caesar de Paepe abordou não somente todos os assuntos formulados na “Plataforma” – cinquenta anos mais tarde – mas também vários outros que estão faltando na “Plataforma”, os quais no entanto não devem ser ignorados.

O sindicalismo revolucionário nasceu no final do século dezenove. Sua aparição na arena da história marca uma grande vitória para as tendências construtivas do anarquismo. Vários anarquistas que foram ativos no movimento sindicalista soldaram juntos os futuros dos dois movimentos, e sob sua influência o sindicalismo absorveu crescentemente as ideias do comunismo e do federalismo anarquistas, até que ele não pôde mais ser chamado de nada além de anarcossindicalismo. Por exemplo, o livro de Pautaud e Pouget, “Como Alcançar a Revolução Social”, foi escrito do ponto de vista anarquista – uma opinião, incidentalmente, verificada pelo relato de Piotr Kropotkin sobre o livro 3 .

Desde o começo do século vinte, a maioria das publicações anarquistas russas publicadas no exterior – como “A Conquista do Pão” (Khlieb i Volya) e os panfletos conectados a ele; como “O Petrel Tempestuoso” (Burevestnik), “O Mundo do Trabalho” (Rabotchi Mir), “A Voz do Trabalho” (Golos Truda) – trouxeram muita atenção ao anarquismo construtivo.

Com a Revolução Russa de 1917, os problemas de construção começaram a dominar o pensamento nos círculos anarquistas não somente na Rússia, mas em todas as partes do mundo. Os primeiros entre eles a perseguirem a linha do anarquismo construtivo foram os anarcossindicalistas. As páginas de suas publicações (“Voz do Trabalho”, “Voz Livre do Trabalho”, “Mundo do Trabalho” e outras) estavam cheias de artigos sobre esse assunto. Eles realizaram uma corajosa campanha contra a atitude caótica, disforme, desorganizada e indiferente então avassaladora entre os anarquistas – um ponto de vista que levantou uma grande quantidade de hostilidade a eles.

As primeiras duas conferências dos anarcossindicalistas em 1918 estabeleceram claramente e em considerável detalhe as características políticas e econômicas dos primeiros estágios da nova estrutura social 4 . O Congresso de Anarquistas da Região Norte que se reuniu logo após a primeira conferência dos anarcossindicalistas formulou todo o seu programa sobre esse assunto 5 . E a primeira conferência das “Organizações Anarquistas na Ucrânia” (NABAT), que se reuniu no intervalo entre a primeira e a segunda conferências dos anarcossindicalistas, considerou todos os pontos postulados quase dez anos mais tarde na “Plataforma” de 1927 6 . E no mesmo ano de 1918, “A Primeira Escola Técnica Soviética Central” publicou uma declaração estabelecendo as questões que ainda agora estão em discussão. A conferência da NABAT em 1919 de novo empreendeu a elaboração de questões organizacionais e estruturais 7 . E uma proclamação dos “anarco-universalistas” em 1921 sugeriu respostas a todos os problemas fundamentais da construção e das atividades no primeiro período estrutural 8 .

A parte destes esforços coletivos para resolver os problemas da construção, indivíduos como Piotr Kropotkin tentaram visualizar a sociedade futura. Durante 1918, em “A Conquista do Pão”, Kropotkin descreveu o caráter de uma futura cidade- comuna, e, como um resultado das experiências da Revolução Russa, ele levantou uma série de questões vitais e teses novas aos anarquistas 9 . Sua afirmação “Não somos tão ricos quanto pensamos” leva o anarquismo ao campo de uma “ideia complementar”, já que o assunto não é mais “ao destruir eu construirei”, mas “ao construir eu destruirei”. Mais adiante, “Anarquismo Moderno” 10 de Kropotkin foi igualmente de grande importância e proveu um estímulo ao pensamento na direção do planejamento construtivo.

Este trabalho de planejamento construtivo começou na Rússia, e em breve se espalhou por sobre as fronteiras e inundou todo o mundo anarquista. Os anarcossindicalistas alemães prestaram e continuam a prestar grande importância aos problemas da construção. Sua publicação “Der Syndikalist” continha muitos artigos discutindo as tarefas construtivas do proletariado revolucionário 11 . As conferências e reuniões da Associação Internacional dos Trabalhadores se preocupavam particularmente com problemas organizacionais e estruturais. E em quase todas as conferências nacionais das organizações anarcossindicalistas ou sindicalistas revolucionárias na Europa ocidental estas questões estiveram continuamente na ordem do dia. Por exemplo, na conferência de Berne chamada em vinte 16 de setembro de 1922 para comemorar o cinquentenário do congresso de St. Imier, as seguintes questões foram debatidas:

1. Como derrotar e destruir a velha ordem.

2. Como prevenir a queda da revolução como resultado da criação de uma nova autoridade.

3. Como assegurar a continuidade e a reconstrução da vida econômica. Bertoni, Malatesta, Fabbri e muitos outros companheiros participaram desta discussão.

E então havia os esforços dos anarcossindicalistas e dos anarquistas exilados. O “Rabotchi Put”, publicado em Berlim, foi devotado quase exclusivamente às questões da construção. Nas páginas de “Golos Truzhenika” (Voz do Homem Trabalhador), publicação do IRM, estes assuntos foram discutidos tanto editorialmente quanto por contribuições de companheiros anarquistas. O mesmo pode ser dito do “Arbeiterfreund” (Amigo do Trabalho), publicado em Paris.

Muitas outras publicações estiveram quase inteiramente preocupadas em encontrar soluções aos problemas da construção de uma nova sociedade depois da revolução social. Havia o jornal “La Voix du Travail” (A Voz do Trabalho) em Paris 12 , “Syndicalisme”, órgão da organização sindicalista da Suécia, sob a edição do anarquista Albert Jensen, “Die Internationale”, publicação dos anarcossindicalistas alemães, editada por Augustin Souchy, o semanal “La Protesta” dos anarquistas argentinos, e outros, enquanto, é claro, é impossível enumerar os vários artigos individuais cobrindo estes problemas.

Tal, então, era o temperamento dos tempos. O próprio ar estava cheio de ideias de uma natureza organizacional e construtiva. E a “Plataforma” publicada por “Um Grupo de Anarquistas Exilados” em 1927 foi portanto não uma causa, mas o resultado do estado agitado das mentes anarquistas. E portanto muito surpreendente que esta “Plataforma” tenha recebido o crédito por todos os tipos de conquistas pelas quais ela não foi responsável 13 .

 III. A SITUAÇÃO GERAL

A “Plataforma” foi portanto um dos muitos produtos no mundo anarquista do processo de fermentação intelectual depois da Primeira Guerra Mundial, e, em particular, depois da Revolução Russa. E, todavia, possível declarar de uma vez que a cristalização deste processo em uma “Plataforma” se deu de uma maneira bastante disforme. Tanto pela sua forma de apontar as questões quanto pelo seu método de resolvê-las, a “Plataforma” foi incapaz de prover um liderança unificada fosse para o movimento anarquista em geral ou para os grupos anarco-comunistas em particular. Mesmo que se admitisse que os anarco-comunistas poderiam ter se unido com tal programa, a união teria sido rompida na primeira tentativa de lidar com as omissões das quais a “Plataforma” abunda. Sua parte construtiva é tão primitiva que ataca apenas alguns problemas como produção, suprimento de comida, terra e a proteção da revolução, e ela ignora os problemas do transporte (em particular o livre movimento das pessoas), as estatísticas, as condições de vida, a religião, a educação, a família, o casamento, os serviços higiênicos e sanitários, o florestamento, as estradas e rodovias, o transporte marítimo, o crime e a punição, o trabalho e o seguro de saúde e muitos outros, incluindo questões surgindo da situação geral de um país revolucionário circulado pelo capitalismo internacional.

A “Plataforma” sofreu ainda de outra falha importante: confusão. Para tomar um exemplo, os autores, percebendo a impossibilidade das comunizações simultâneas da indústria e da agricultura e o atraso da última em comparação com a anterior, não retiraram conclusões desta percepção e não fizeram nenhuma tentativa de determinar o relacionamento devido, da necessidade surgida entre a indústria socializada e o gerenciamento capitalista-privado da terra. Contudo, diversos problemas referentes a comércio, finança, bancos etc. se desenvolveriam a partir desta coexistência admitida.

Esta confusão se torna ainda mais aparente quando os autores da “Plataforma” declaram: “E significativo que, apesar do poder, da lógica e da irrefutabilidade da ideia anarquista, apesar da solidez e da integridade das posições anarquistas na revolução social… apesar de tudo isto o movimento anarquista permaneceu fraco, e na história da luta da classe trabalhadora ele foi apenas um fato trivial, um acidente, nunca um fator dominante”.

É interessante notar que a incrível confusão e o absurdo desta coleção de princípios e argumentos passaram despercebidos por aquelas publicações anarquistas que estiveram primariamente preocupadas com os problemas e argumentos apresentados pela “Plataforma”. Todavia, mesmo na primeira leitura, as “verdades” proclamadas pela “Plataforma” são transparentes em sua loucura e em suas inconsistências que beiram o cômico. Vamos classificar estas “verdades” sob seus mais importantes títulos.

1. O Poder do Anarquismo. O símbolo do poder de uma ideia sócio- política é o número de seus aderentes, a profundidade e a extensão da simpatia que ela comanda. De acordo com isso, o poder de uma ideia está indissoluvelmente ligado à força do movimento servindo esta ideia. Onde há força – não pode haver fraqueza. Se o anarquismo é forte, então ele não é fraco. Os autores da “Plataforma”, entretanto, conseguiram afirmar que o anarquismo é ao mesmo tempo forte e fraco, que a água pode de uma vez ser quente e fria! Eles confundiram vitalidade com poder.

2. A Irrefutabilidade do Anarquismo. Ninguém irá negar que dois com dois fazem quatro. É uma verdade aceita. Logo, a aceitação de um axioma implica em concordância geral. Já que, na opinião da “Plataforma”, o anarquismo é irrefutável, ele é então automaticamente aceito de uma forma geral. Se é assim, nunca poderia ter sido apenas um “fato trivial”, como a “Plataforma” insiste, mas um fator poderoso!

3. A Solidez do Anarquismo. Se a verdade do anarquismo foi demonstrada, seus conceitos devem necessariamente ser definitivos e claros. Não é hora então de parar de castigar o anarquismo por “oscilações incessantes na esfera das questões mais elementares de teoria e tática”? Se, porém, estes oscilações são um fato, então o anarquismo é até agora ambíguo e não distinguível nem pela lógica nem pela clareza. Lógica e oscilação não são consistentes um com o outro.

4. Integridade das Posições Anarquistas na Revolução Social. De novo isto contradiria os oscilações supostamente existentes. Se as posições anarquistas na revolução social são marcadas pela integridade e pela solidez, então por que todo este estardalhaço? E, por outro lado, como poderia “a solidez e a integridade” propor não um, mas vários programas nos quais as teses anarquistas de revolução social não são idênticas e, de fato, até mesmo diferem fortemente? Mas se os autores da “Plataforma” expressam uma ansiedade tão profunda sobre a necessidade para uma organização que poderia “determinar um curso político e tático para o anarquismo”, é evidente, de fato, sua convicção de que ainda não existe completa “solidariedade e integridade” no programa anarquista. Por que, então, eles declaram o oposto?

O repúdio à lógica e ao senso comum na “Plataforma” não é menos significativo que as falsas verdades proclamadas por seus autores. Mas todas as contradições e repúdios possuem uma origem comum: a ignorância da história de nosso movimento, ou, mais corretamente, a noção de que a história de nosso movimento foi introduzida pela “Plataforma”… e que o caos e a ignorância reinavam antes de sua proclamação. Aos autoproclamados “pioneiros”, o anarquismo nos dias da Primeira Internacional, quando ele havia capturado os movimentos operários em vários países, era apenas um “fato trivial”, um episódio acidental. O anarquismo nos países latinos, onde por vários anos o ponto de vista anarquista prevaleceu, foi apenas um acidente, sem qualquer significância. O anarquismo naqueles países em que as organizações sindicalistas revolucionárias estão bem desenvolvidas, direta ou indiretamente sob a influência de ideias anarquistas, não é considerado pelos autores da “Plataforma” um fator valoroso no crescimento do movimento operário… de novo, ele é apenas um “fato trivial, um episódio”.

Este tipo de avaliação de todo o anarquismo pré-Plataforma é estreito e ridículo demais para ser discutido extensamente. Por mais doloroso que seja para os autores da “Plataforma”, o movimento anarquista existia muito antes de eles terem feito sua aparição.

 IV. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO

O “Grupo de Anarquistas Russos Exilados” emergiu no papel de médico ao movimento anarquista doente. Ninguém negaria o fato de que o movimento estava de fato sofrendo de “desorganização crônica geral”. Todos estavam de acordo quanto aos sintomas; mas havia discordâncias consideráveis quanto às causas fundamentais da doença, assim como as curas que logicamente seguiriam uma determinação destas causas.

Os autores da “Plataforma”, por exemplo, consideraram diversas causas, das quais a mais importante era a “ausência no mundo anarquista de princípios organizacionais e relacionamentos organizacionais”. Contudo, na introdução à “Plataforma”, eles apontaram que esta ausência não era ela mesma uma causa, mas meramente o resultado de outra causa! Eles afirmaram que “a própria desorganização tem raízes em distorções de uma natureza ideológica, no conceito falsificado do elemento pessoal no anarquismo e sua identificação [do que – do anarquismo ou do conceito do elemento pessoal?] com irresponsabilidade”. Quando se tenta esclarecer a massa incontrolável de silogismos sobre causa e efeito, a conclusão é inevitável, derivando como deriva da posição da própria “Plataforma”, que as razões mais importantes para a desorganização no movimento anarquista são “distorções de natureza ideológica”.

Esta conclusão, porém, se mostra bastante inconclusiva, pois a “Plataforma” também afirma que no anarquismo há “oscilações incessantes nas mais importantes questões de teoria e tática”. Se isso é verdade, então como pode qualquer tipo de “organização” ou “relacionamento organizacional” ser esperado? Eles somente se tornam possíveis quando as oscilações tiverem cessado ou, pelo menos, quando elas deixarem de agir em uma larga (ou mesmo “incessante”) escala.

Esclarecendo adiante as teses da “Plataforma”, nós chegamos à conclusão lógica de que a causa real da “desorganização geral crônica” é de fato as “oscilações nas mais importantes questões de teoria e tática”, e que quaisquer outras falhas não são mais que consequências desta causa. Pode ser que os autores da Plataforma tivessem como intenção resultados diferentes. Mas, tendo sido pegos no labirinto de contradições onde a causa e o efeito se tornam confusos, eles concluíram com uma confusão de palavras que pode inspirar pouca atenção séria.

E se, por sua vez, os “vários anarquistas russos” haviam tentado em sua “Resposta” uma análise realmente séria das causas das deficiências no movimento anarquista, então eles não teriam se apressado com sua declaração de “discordância” com as conclusões da “Plataforma”. Pois, na análise final, nós descobrimos que a falha fundamental indicada pela “Plataforma”, nominalmente “as oscilações incessantes nas mais importantes questões de teoria e tática”, é também trazido pela “Resposta”; “obscuridade em várias de nossas ideias fundamentais” é a maneira com que os autores da “Resposta” a expressam. A diferença está em formulação, não em essência. Pois, se no anarquismo há de fato “oscilações” ou “obscuridade”, então certamente nem programa, nem tática, nem organização podem ser erguidos em fundações tão inseguras. Porém, enquanto a “Plataforma” simplesmente ignora as oscilações e tenta construir por sobre as fundações trepidantes, a “Resposta” acredita mais logicamente que o “estabelecimento de um programa e uma organização sérios é impossível sem primeiro alcançar a liquidação das oscilações teóricas” (Página 5).

Em adição à “obscuridade de nossas ideias fundamentais”, a “Resposta” lista várias outras razões para as deficiências no movimento anarquista, “dificuldade de ganhar aceitação para as ideias anarquistas na sociedade contemporânea”, “o nível intelectual das massas do presente”, “crueldade e repressão total”, “rejeição anarquista consciente da demagogia”, “recusa por parte dos anarquistas a usar organizações artificialmente erguidas e a impor disciplina artificial”.

Nós concordamos que as deficiências no movimento anarquista podem ser causadas pelas causas “fundamentais” acima mencionadas. As primeiras três, contudo, são fatores externos; eles funcionam fora do movimento e podem apenas temporariamente retardar seu crescimento. Mas dificilmente parece possível que haja maiores dificuldades hoje no caminho da disseminação das nossas ideias do que, digamos, há cinquenta anos atrás. E igualmente difícil acreditar que o “nível intelectual das massas do presente” cresceu consideravelmente em comparação com o passado. Ou pode ser que os autores da “Resposta” acreditam que o anarquismo é mais facilmente aceitável pelas massas retrógradas? Falando geralmente, em qualquer caso, todos estes fatores reagem igualmente sobre outras ideologias socialistas, e ainda entre eles o quadro é diferente daquele em nosso movimento.

O mesmo pode ser dito quanto à “repressão”. Também havia repressão no passado, e ela não era usada apenas contra os anarquistas. Os anarcossindicalistas alemães sempre caminharam por sobre um caminho de espinhos, particularmente durante a guerra, todavia eles são hoje incomparavelmente mais fortes do que eram antes da guerra. É estranho defender que uma luta batalhada por um movimento revolucionário consciente e necessariamente evocando repressão deveria ser agora considerado uma razão para a fraqueza do movimento.

Considerar a “rejeição da demagogia” uma causa de fraqueza é admitir indiretamente que a demagogia é uma fonte real de poder. E se a “Resposta” considera a “rejeição consciente da demagogia” uma fonte de fraqueza, então de fato só pode haver uma única conclusão: se voltar para a demagogia e assim se tornar forte. Agora, entretanto, se sabe geralmente que, apesar da demagogia poder assegurar sucesso temporário, ela nunca até agora assegurou poder permanente para aqueles que a usaram. Pelo contrário, o resultado final sempre foi trágico. A experiência bolchevique com este ponto deveria ser conclusiva o bastante. E mesmo no próprio movimento anarquista a “rejeição consciente da demagogia” não foi sempre predominante. Os manifestos de Gordin nos anos de 1917-1918 são um exemplo interessante de demagogia. O artigo “Social Democracia nos Eventos Vienenses” (Dielo Truda no. 28) também confunde a afirmação da “Resposta”.

E quanto à última causa de fraqueza do movimento sugerida pela “Resposta”, nominalmente a “recusa por parte dos anarquistas a usar organizações erguidas artificialmente e a impor disciplina artificial”, certamente os autores da “Resposta” não puderam perceber o que estavam dizendo. Eles mesmos não afirmaram que todos os métodos artificiais resultavam somente “na força temporária dos partidos políticos”, uma força “fútil em substância”? Deveria o movimento anarquista então, negar sua própria rejeição, baseada em princípio, e tentar se tornar forte desta maneira? Mas se tais meios artificiais são somente “temporários” e “fúteis em substância”, então sua rejeição não deveria ser considerada uma fonte de fraqueza. De onde vem toda esta confusão?

Logo, a conclusão inevitável é a de que de todas as causas apontadas pela “Resposta”, somente uma permanece intacta – a mesma sugerida pela “Plataforma” – “obscuridade em várias de nossas ideias fundamentais”.

V. SOBRE A FRAQUEZA DO MOVIMENTO

Afirmar, depois de Bakunin e Kropotkin, que as ideias anarquistas são obscuras é, para dizer o mínimo, ingenuidade. Se os autores da “Plataforma” e da “Resposta” tivessem castigado as oscilações de anarquistas individuais ou de mentes anarquistas obscuras individuais, seria possível ter concordado com eles. Mas é impossível – pelo processo expediente de transportar o fardo de ombros doentes a saudáveis – alegar obscuridade nas ideias anarquistas fundamentais.

Quais ideias a “Resposta” considera obscuras?

Primeiro há a concepção de revolução social. Contudo, precisamos apenas nos voltar para Bakunin para achar em seus escritos uma exposição perfeitamente clara e definitiva do significado de revolução social, de suas manifestações e do caminho que ela deve tomar. Quem quer que tenha lido suas formulações, não pode mais falar de obscuridade na “concepção de revolução social” anarquista. Similarmente, Bakunin nos proveu com uma concisa interpretação do problema da violência, as formas que ela pode tomar, seu uso e suas limitações.

Ainda mais conclusiva é a evidência existente de que não há obscuridade na concepção anarquista de ditadura, como alegado pela “Resposta”. De fato, este assunto foi esclarecido particularmente pelos debates entre Bakunin e Marx: e o leitor faria bem em pegar os trabalhos de Bakunin, particularmente seus ensaios sobre “O Estado e a Anarquia”, assim como “ O Império Knuto-Germânico e a Revolução Social”. Bakunin também escreveu bastante sobre a questão de “A Criatividade das Massas e das Organizações” 14 .

O único aspecto do problema que permaneceu sem esclarecimento era como proceder durante o “período de transição”. É verdade que esta questão ainda não se assentou no pensamento anarquista, apesar do próprio Bakunin ter reconhecido sua importância. É, todavia, uma questão técnica, metodológica, ligada aos procedimentos práticos a serem utilizados no estabelecimento do comunismo anarquista.

Logo, somos forçados a concluir que as razões para a fraqueza do movimento anarquista e para sua condição desorganizada não são nem a “obscuridade em várias de nossas ideias fundamentais” na qual a “Resposta” insiste, nem os “oscilações incessantes nas mais importantes questões de teoria e prática” como a “Plataforma” defende.

A fraqueza do movimento, em suma, não é o resultado da ambiguidade teórica do anarquismo como uma teoria sócio-política e filosófica. As causas devem ser buscadas em um outro nível completamente diferente; elas não possuem nada em comum com os conceitos fundamentais do anarquismo.

***

O socialismo, como o anarquismo, passou por uma fase de incerteza, divisão e disformidade. Isso foi durante um período em que seus protagonistas defenderam, como os autores da “Plataforma” agora defendem, completa união e uniformidade em programa e tática. Quando tal uniformidade geral se mostrou impossível e mesmo perigosa, começou um processo de desintegração e uma quebra do socialismo em diferentes facções. Grupos separados emergiram, com teorias, táticas e atividades divergentes. E aquele momento proclamou a evolução do socialismo como uma força real na realização prática de seus ideais.

E nossa convicção profunda de que o anarquismo, também, deve passar por uma evolução similar. A uniformidade pela qual tanto a “Plataforma” quanto a “Resposta” lutam, cada uma à sua maneira, não é possível. O resultado não seria anarquismo, mas anacronismo.

O processo de divisão do anarquismo em facções tem sido lento. Tempo suficiente ainda não passou para que as várias seções se cristalizassem em unidades coletivas largas e bem-definidas. Tal é o caso com o anarco-comunismo, que já se dividiu em anarco-comunismo e anarcossindicalismo. Nós excluímos daqui a discussão do anarco-individualismo, que é uma típica visão burguesa e está, portanto, além de nosso campo de ação.

Um exemplo de unificação lógica é a Associação Internacional dos Trabalhadores – a internacional anarcossindicalista que se tornou possível depois da formação em países individuais de organizações nacionais homogêneas baseadas nos conceitos teóricos e táticos fundamentais do anarquismo. Todas as organizações, ao se juntarem à Associação Internacional dos Trabalhadores, aceitam o programa e os princípios da internacional anarcossindicalista, mas, ao mesmo tempo, seu conceito federalista deu a cada organização individual a oportunidade de desenvolver seu próprio programa, em conformidade com a situação no país correspondente. Para o mov im ento anarquista viver e crescer, este precisa se manter como o princípio condutor da organização.

Uma das razões para a fraqueza do movimento anarquista será encontrado, portanto, no ainda incompleto processo de divisão do anarquismo em frações, grupos ou “partidos” claramente definidos. Se isto parece paradoxal, é, não obstante, uma realidade.

A segunda razão para a fraqueza do movimento anarquista é a sua inabilidade de se adaptar às realidades da vida, o que limita suas atividades exclusivamente à propaganda. Tal atividade pode ocupar apenas algumas pessoas, pois a maioria, particularmente os membros comuns, em breve perdem interesse na propaganda pura. Ela se degenera em dialética, na constante repetição de uma fórmula, ou então em apatia, desilusão e, finalmente, deserção.

O homem requer o contato com a realidade; ele não pode existir por muito tempo no meio do ar. Esta necessidade natural por atividade leva homens dinâmicos a todos os tipos de atividades “práticas” deformadas; aos atentados a bomba na França ou ao terror e expropriação desmotivados na Rússia. E como o anarquista comum se mantém ativo? Ele rejeita a luta parlamentar; ele rejeita a participação em assuntos municipais. Para muitos companheiros, os sindicatos não são suficientemente revolucionários já que se preocupam com lutas mesquinhas, e são portanto um perigo à “pureza” anarquista, enquanto nas cooperativas esses companheiros veem uma instituição burguesa com tendências exploradoras. E o tempo inteiro os grupos anarquistas permanecem pequenos. O anarquista deve necessariamente atuar dentro de um “vácuo de Torricelli”; ele deve se satisfazer com debates volúveis, com a distribuição de panfletos, jornais e folhetos; ele deve se silenciar sobre questões diárias – e manter seus olhos, enquanto rejeita o mundo a seu redor, no objetivo final em direção ao qual o caminho é ainda apenas um conceito abstrato. De fato, sempre que as massas maiores pensam em termos concretos, os anarquistas parecem determinados em instilar abstrações nelas.

O que está faltando em nosso movimento é uma base de realismo, a habilidade de ajustar a teoria às necessidades práticas dos trabalhadores. Essa falta, todavia, está sendo preenchida pelas frações sindicalistas do anarquismo. O anarcossindicalismo expandiu a esfera de atividade de seus membros; ele estabeleceu instituições preocupadas com a luta material e com as atividades cotidianas. Esta é a explicação para seu sucesso em comparação com o anarco-comunismo, em todos os países onde ele criou raiz. E se o anarcossindicalismo continuar a estender os horizontes da atividade pública para seus membros, a criar mais de suas instituições, então seu sucesso irá crescer na mesma medida.

VI. A TEORIA

A seção teórica da “Plataforma” não contém nada de original. Apesar das “oscilações incessantes” e das “distorções de natureza ideológica”, os autores da “Plataforma” apresentam a mesma teoria do anarquismo com a única diferença de que várias “distorções de natureza ideológica” são introduzidas pelos próprios autores.

Logo, sob o título A Luta de Classes, Seu Papel e Significância, eles dizem que “na história das sociedades humanas, a luta de classes sempre proveu o principal fator na determinação de sua forma e estrutura” (página 7). Esta é uma verdade amplamente aceita – só que de maneira contrária! Não é a luta de classes que determina a forma de uma sociedade, mas o oposto: a luta de classes é o resultado da estrutura econômica da sociedade. De acordo com isso, a outra afirmação dos autores da “Plataforma” que a “estrutura sócio-política de todo país é antes de tudo o produto da luta de classes” (página 8) soa bastante ridículo, já que – apesar da luta de classes influenciar a estrutura da sociedade – ela com certeza não a determina. Esta tolice teórica, além de mal representar a filosofia anarquista, leva os autores da “Plataforma” a um novo absurdo quando eles falam da “significância universal da luta de classes na vida das sociedades de classe” (página 8) – uma afirmação sem dúvida motivada por um desejo de definir sua oposição àquelas tendências no anarquismo que rejeitam ou minimizam a luta de classes.

Se, de fato, a luta de classes fosse universal, então ela sem dúvida teria sido não meramente o mais vital, mas o único fator na evolução da sociedade. O anarquismo não admite um princípio tão monístico. A luta de classes influencia muitos aspectos da vida na sociedade contemporânea, mas isto não significa que ela tem a significância universal designada a ela pela “Plataforma”.

Os autores da “Plataforma”, de fato, brincam de forma bastante boba com esta frase, “a luta de classes”. Logo, na página 9, eles declaram triunfantemente que “a luta de classes, surgindo do servilismo e do desejo milenar do povo trabalhador por liberdade, imbuiu as fileiras dos oprimidos com o ideal do anarquismo”. Anteriormente, sempre havia se entendido que a luta de classes era o resultado da distribuição desigual da riqueza material que surgia do sistema econômico capitalista; o servilismo e o desejo de liberdade certamente não são os responsáveis por um fenômeno de surgimento relativamente recente como a luta de classes. Mas os autores da “Plataforma” não levam em consideração nem os fatos históricos da evolução social nem a teoria anarquista como afirmada por Bakunin, Kropotkin e seus seguidores.

Adiante, as “revisões” que a Plataforma propõe são difíceis de serem reconciliadas com a lógica. Logo, sob o título “A Necessidade da Revolução Violenta”, nós encontramos a seguinte afirmação: “O progresso na sociedade moderna, nominalmente, o desenvolvimento técnico do capital e o aperfeiçoamento de seu sistema político, fortalece a posição das classes dominantes e torna a luta contra elas mais difícil. Logo, o progresso adia o momento decisivo para a libertação do trabalho” (página 8). Uma afirmação tão obviamente tola deveria logicamente ter forçado os autores destes pensamentos originais a mudar o título deste capítulo para: “A Necessidade da Pausa Violenta no Progresso na Sociedade Moderna”, pois sua opinião é a de que, se o progresso continua, a hora da libertação do trabalho é automaticamente empurrada para mais e mais longe. E já que a libertação do trabalho é o nosso objetivo, nós devemos nos livrar do progresso.

Kropotkin via a conexão entre progresso e a luta por libertação de uma maneira completamente diferente. Analisando a vida da sociedade, ele descobriu que, com o progresso – técnico, espiritual e de outra forma – os hábitos comunistas surgiam entre os homens e a liberdade é portanto trazida para mais perto. Mas aparentemente seria errado buscar em Kropotkin uma explicação das contradições e dos absurdos dos “plataformistas”, que parecem acreditar que a realização do anarquismo está ligada intimamente com um retorno à mais primitiva economia social. Nós gostaríamos de sugerir a estes autores que parem de escrever em países tecnicamente desenvolvidos e se mudem – com sua “Plataforma” como bagagem – para a Abissínia e o Baluquistão.

Os lapsos teóricos destes filósofos meio crus do anarquismo não estão ausentes de seus outros capítulos. Quando eles definem o próprio anarquismo (no capítulo intitulado “Anarquismo e Comunismo Anarquista”, os autores da “Plataforma” veem nele a aspiração para “transformar a sociedade burguesa capitalista presente em uma que asseguraria ao povo trabalhador sua liberdade, sua independência, sua igualdade social e política e os frutos de seu trabalho” (página 9). Aqui os autores introduzem outra “revisão” nos conceitos fundamentais do comunismo anarquista, trocando o princípio “a cada de acordo com sua necessidade” com um novo lema – “a cada de acordo com seu trabalho”. Por que esta substituição? Pois, se a sociedade assegura ao operário somente os frutos de seu trabalho e não a satisfação de suas necessidades, então a desigualdade irá permanecer. Um homem pode produzir mais do que ele precisa e acumular o seu lucro, enquanto outro pode não ser capaz de produzir o suficiente para sua manutenção. Mais uma vez haveria o rico, proprietário do capital, e o pobre que teria menos que o mínimo requerido para a vida. O resultado seria a mesma desigualdade econômica que conhecemos hoje. E, sempre que há desigualdade, não pode se falar de liberdade, de independência, de igualdade social e política. De fato, não é possível que nenhum desses resultem do lema “a cada de acordo com seu trabalho”. E mesmo que os autores da “Plataforma” chamem de anarco-comunista a sociedade que eles ergueriam nos princípios que eles propõem, ela na realidade não seria nem anarquista nem comunista.

Para ter certeza, eles concluem o capítulo mencionado acima com a verdade elementar de que o objetivo do anarco-comunismo é na verdade “de cada de acordo com sua habilidade, a cada de acordo com sua necessidade”. Mas eles interpretam esta verdade “à sua própria maneira”, querendo dizer a garantia ao trabalhador dos “frutos de seu trabalho”. Igualar estas duas proposições – isso novamente é prova de ignorância dos princípios básicos do anarquismo.

Mas continuando. O capítulo “Rejeição da Democracia” abre com o seguinte imperativo categórico: “Democracia é uma das formas da sociedade capitalista burguesa” (página 11). E óbvio que os autores da “Plataforma” jogaram no mesmo saco a democracia parlamentar e a democracia propriamente dita. O anarquismo é, em análise final, nada mais que a democracia na sua forma mais pura e mais extrema. Os plataformistas categoricamente rejeitam a democracia sem entender nem sua natureza nem seu fundamento. Eles afirmam, por exemplo, que “a democracia deixa intocado o princípio da propriedade privada”. Democracia atual? Sim. Democracia anarquista? É claro que não. É essencial determinar o verdadeiro caráter da democracia em contraste a suas perversões – um processo que é completamente ignorado pelos autores da “Plataforma”, como um resultado, mais uma vez, de sua ignorância crônica.

Nós não devemos nos estender nas “revisões” menos importantes destes “teóricos” confusos. Há um grande número, e seria enfadonho listá-las todas. Vamos nos voltar ao invés disso para o processo pelo qual os autores da “Plataforma” alegam pôr em prática seus princípios teóricos fundamentais. Mas, antes de fazê-lo, seria útil apontar que os companheiros que escreveram e assinaram a “Resposta de Alguns Anarquistas Russos à Plataforma Organizacional” acreditavam que sua própria atitude perante a revolução social “não difere da breve expressão de ponto de vista na ‘Plataforma’”, e que capítulos da “Plataforma” como “Anarquismo e Comunismo Anarquista”, “Rejeição da Democracia”, “Rejeição do Estado e da Autoridade”, “que não são mais do que resumos extremamente concisos de conceitos anarquistas que foram há muito estabelecidos e esclarecidos, não levantam nenhum objeção substancial por nossa parte”.

Nós tomamos conhecimento desta franca admissão por parte dos autores da “resposta”. O nível de ignorância em nossas fileiras é evidentemente mais baixo do que pensávamos!

 VII. O PARTIDO, O INDIVÍDUO E AS MASSAS

A “Associação Geral de Anarquistas”, o “coletivo ideológico” cuja necessidade é reforçada pela “Plataforma”, parece em análise final, e particularmente à luz de explicações suplementares que foram publicadas nas páginas de “Dielo Truda”, ser nada mais do que um partido anarquista – e um partido bastante centralizado. O papel deste partido anarquista, que incidentalmente não difere muito do partido bolchevique na questão de liderança, está disfarçado na “Plataforma” sob o conceito de “liderança ideológica”.

Não há nada anti-anarquista em uma organização em “partido” por si só. Tanto Bakunin quanto Kropotkin falaram frequentemente da necessidade de organizar um partido anarquista, e até hoje a organização dos anarquistas escandinavos é conhecida como um partido. Partido não necessariamente significa poder, ou a ambição para comandar o Estado. A questão não está no nome, mas em seu conteúdo, na estrutura organizacional do partido, nos princípios sobre os quais ele foi fundado.

Que objetivo a “Plataforma” coloca perante o Partido Anarco-Comunista Russo? A realização de uma sociedade anarco-comunista. E isso, sem dúvida, é anarquismo em sua totalidade. Mas que princípios organizacionais são colocados para determinar o relacionamento entre os membros individuais e o partido como um todo, entre o partido e as massas, e a organizações de massa em particular?

A “Plataforma” declara inequivocamente que o princípio central é o do federalismo (página 30). Mas, como a “Resposta” corretamente aponta, “os autores da ‘Plataforma’ muito frequentemente recorrem a interpretações parlamentares para diversos princípios anarquistas fundamentais que, como resultado destas interpretações, retêm apenas sua camada externa, escondendo um conteúdo completamente diferente”. E essas interpretações parlamentares enfatizam o caráter centralizado do federalismo da “Plataforma”. Nada, de fato, permanece de federalismo além do título neste centralismo democrático que seria característico de qualquer outro partido político 15 .

A “Plataforma” afirma o fato amplamente conhecido de que “o anarquismo sempre avançou e defendeu o federalismo, que combina a independência das pessoas e das organizações com sua iniciativa e serviço na causa comum” (página 30). Entretanto, quando a “Plataforma” é obrigada a determinar o “caráter federalista da organização anarquista”, transparece que ele é demonstrado não pela autonomia dos grupos e das associações de grupos, mas somente por uma “garantia para cada membro da organização (…) de independência, do direito ao voto, da liberdade e da iniciativa pessoal” (página 31).

Parece, então, que o Partido Anarco-Comunista desistiria de prender qualquer um que se juntasse a ele! As prerrogativas, obviamente, são muito sedutoras. E, de fato, aos membros da organização é dada uma possibilidade de iniciativa – mas aparentemente somente a membros, não a grupos ou associações. No entanto, mesmo essa iniciativa tem um caráter especial – o caráter “plataformista”. Cada organização (ou seja, a associação de membros com o direito à iniciativa individual) tem seu secretariado que preenche e dirige as atividades ideológicas, políticas e técnicas da organização (“Plataforma”, página 31). Em que, então, consistem as atividades autônomas dos membros comuns? Aparentemente em uma coisa: iniciativa para obedecer o secretariado e para desempenhar suas diretivas. Subindo a escada hierárquica “para a coordenação das atividades de todas as organizações” (ou seja, de todos os secretariados), “um órgão especial conhecido como o Comitê Executivo da Organização”, deve ser estabelecido.

Qual a tarefa deste comitê? “A orientação ideológica das atividades das associações de acordo com a ideologia comum e com as táticas comuns da associação” (página 31). Onde, neste plano, aparece a autonomia? Muitos partidos patriotas da Europa ocidental são baseados em uma liberdade bem maior para suas seções componentes do que o projetado Partido Anarco-Comunista, que parece depender exclusivamente das atividades de um secretariado burocrático.

Em seu programa oposicionista, o bolchevique Sapronov, enquanto falava da estrutura do Partido Comunista, a descreveu como se segue: “A célula é subordinada à secretaria; as secretarias das células estão subordinadas à secretaria do Comitê do Partido, em cujas mãos está o controle do comitê. As secretarias dos comitês locais estão subordinadas à Secretaria Geral para com quem, de fato, o Comitê Central é responsável”.

O leitor terá pouca dificuldade em perceber que a estrutura do partido dos bolcheviques russos e do pequeno punhado dos anarquistas-comunistas russos exilados são de fato a mesma. Não há dúvida de que os resultados também seriam os mesmos. Se, de acordo com as afirmações dos “sapronovistas”, o Partido Comunista Russo “está no presente mais do que nunca dividido entre os ‘líderes’, que estão intimamente ligados com o aparato, e os ‘membros comuns’, que foram privados de todos os direitos partidários”, então o mesmo desenvolvimento iria inevitavelmente tomar lugar em qualquer outro partido, incluindo o Partido Anarco-Comunista Russo, se ele fosse construído sobre o princípio do “aparato”.

Qual, então, será a relação deste partido anarco-comunista, que garante liberdade pessoal a seus membros, com manifestações de massa? Os autores da “Plataforma” acreditam, primeiro, que as massas são incapazes de “manter a direção da revolução”, apesar do fato de que elas “se juntaram em movimentos sociais e vivem por tendências e lemas profundamente anarquistas”, porque “estas tendências e lemas estão fragmentados e não se juntam em um sistema específico e lhes falta uma força diretiva organizada… Esta força diretiva pode ser encontrada somente em um coletivo ideológico, especificamente identificado como tal pelas massas [ênfase demais, parece, é posta em ideologia e organização!]. Tal coletivo será os grupos anarquistas organizados [por que não os próprios grupos das massas que, de acordo com esta teoria, vivem por ‘tendências e lemas profundamente anarquistas’?] e o movimento anarquista organizado [isto é, o partido]”. A associação anarco-comunista [isto é, o partido] “terá que prover iniciativa e participar totalmente de cada fase da revolução social…”

Os anarquistas (isto é, o partido) terão que dar respostas precisas a todas as questões, para ligar a solução destas questões às ideias gerais do anarquismo, e para usar toda sua energia na sua realização. Desta maneira, a Associação Geral de Anarquistas (isto é, o partido) e o movimento anarquista “estariam preenchendo seu papel condutor ideológico completo na revolução social” (página 16).

É inevitável que aquele que aceita o princípio da participação total em todas as fases da revolução social e que está dedicado à realização deste ideal, não pode – e não irá – se limitar à orientação ideológica. Pela força das circunstâncias ele será obrigado a administrar também cada tipo de atividade prática. É inútil cegar a si mesmo ou a outras pessoas quanto a este fato: a “Plataforma” coloca seu partido na mesma altura que os bolcheviques, ou seja, ela coloca os interesses do partido acima dos interesses das massas, já que o partido tem o monopólio do entendimento destes interesses. Esta atitude bolchevique é revelada ainda mais claramente na relação da “Plataforma” com o sindicalismo.

 VIII. O PARTIDO E OS SINDICATOS

Os novos evangelistas anarquistas começam a história consigo mesmos. Até eles aparecerem na arena, só havia caos e nenhum terreno sólido. “Nós consideramos todo o período anterior ao nosso, quando os anarquistas se juntaram ao movimento de sindicalismo revolucionário como trabalhadores individuais e pregadores, como um período de atitudes primitivas ao movimento sindicalista” (página 19). Esta é uma afirmação séria quando a segunda Associação Internacional dos Trabalhadores já está em existência, unindo centenas de milhares de trabalhadores revolucionários e anarcossindicalistas em todos os países da Europa e da América.

Mas como a própria “Plataforma” expressa sua relação não primitiva com o movimento sindicalista? A resposta é simples; ela é uma atitude tipicamente bolchevique, do tipo que foi combatida por todo o movimento sindicalista e anarcossindicalista internacional desde o estabelecimento da Internacional Comunista.

Os bolcheviques lutam pela bolchevização do movimento sindicalista. Os “plataformistas” lutam por sua anarquização. Ambos consideram isso possível através da conexão inevitável entre o movimento sindicalista e a organização das forças anarquistas (para os bolcheviques – as bolcheviques) fora daquele movimento, isto é, o partido. Ambos estão convencidos de que “somente pela existência desta conexão é possível prevenir nele [ou seja, no sindicalismo revolucionário] um desenvolvimento de tendências direcionadas ao oportunismo”. Eles então acreditam que os sindicatos devem estar sob a guarda do partido, o qual aparentemente nunca pode se tornar oportunista, mas sempre permanecerá revolucionário. Os “plataformistas” evidentemente ainda não aprenderam que o destino de todos os partidos políticos é se tornarem oportunistas.

Ambos os bolcheviques e os “plataformistas” advogam métodos idênticos para conquistar os sindicatos; ou seja, células dentro dos sindicatos, cujas atividades estão subordinadas a uma organização externa do partido. “Grupos anarquistas em usinas industriais, tentando a criação de sindicatos anarquistas, lutando nos sindicatos revolucionários pela preponderância e orientação ideológica do pensamento anarquista, dirigidos em suas atividades pela associação anarquista geral [leia-se partido] ao qual eles pertencem – este é o significado e a forma verdadeira das relações anarquistas com o sindicalismo revolucionário e o movimento sindicalista” (página 20). Não está claro por que este significado e esta “forma” deveriam ser chamadas de anarquistas, quando todo trabalhador, mesmo hoje, sabe muito bem que elas são na verdade bolcheviques! Para confirmar isso, só é preciso adicionar o seguinte fragmento: “Nós devemos entrar no mov im ento sindicalista como uma força organizada [ou seja, um partido], ser responsáveis para com a organização anarquista geral [ou seja, para com o partido, NÃO O SINDICATO] pelo trabalho feito nos sindicatos, e ser controlados por esta organização” (página 20).

O leitor terá pouca dificuldade em perceber que tudo isto foi copiado do programa bolchevique. E ao levantar a questão do relacionamento entre a associação anarquista e os sindicatos 16 , os autores da “Plataforma” respondem em linhas não menos bolcheviques: “Nos filiarmos aos sindicatos de uma maneira organizada significa nos filiarmos a eles com uma ideologia definida, com um plano de ação definido, ao qual todos os anarquistas trabalhando nos sindicatos devem se conformar estritamente”.

Em outras palavras, os anarquistas devem se filiar aos sindicatos com receitas prontas e devem desenvolver seus planos, se necessário, contra a vontade dos próprios sindicatos. Mais uma vez, esta é uma cópia fiel da tática bolchevique; o partido é uma hegemonia, o sindicato está subordinado à organização. Quanto à opinião de que o futuro partido anarcossindicalista se limitaria à orientação ideológica, nós nunca podemos nos esquecer de que por trás das ideias há uma realidade viva – os homens que representam estas ideias. Logo, a orientação ideológica irá sempre desenvolver uma forma física e concreta. Há várias dessas formas; nós apontaremos as principais. A forma partidária, a qual pode variar, como Estados, desde a monarquia e da ditadura ilimitada até uma ampla democracia representativa. A forma federativa, adotada em sua totalidade pela segunda Associação Internacional dos Trabalhadores, isto é, a internacional de anarcossindicalistas revolucionários: esta forma é o esboço da sociedade futura que, desde o primeiro dia da revolução social, seria preenchido com sólido detalhe. Os “plataformistas” escolheram a primeira forma. Eles foram em uma direção que, depois de nossa experiência com o Partido Bolchevique, deveria ser rejeitada por todos.

Os autores da “Resposta”, por outro lado, foram ao extremo oposto: eles ignoraram completamente a questão da orientação e logo se colocaram em uma posição não natural, na qual ninguém pode permanecer por qualquer duração de tempo. “Os anarquistas em todas as partes devem ser trabalhadores companheiros e colegas para as massas e para a revolução, mas nada mais” (Resposta, página 16). Isto, por sua vez, é uma interpretação muito ingênua e infantil do papel do anarquismo. Se alguém desiste de toda a orientação na ação e na luta, por medo de se destacar da massa geral de pessoas, e se satisfaz sempre com a igualdade ao nível da mediocridade, então logicamente seria melhor nem mesmo se misturar com as massas, mas esperar até que essas massas – todas juntas, como uma “massa” – peçam ajuda. E nada menos que “todas juntas” irá servir, pois, de acordo com os autores da “resposta”, um abismo intransponível existe entre as massas e o indivíduo; as relações entre as massas, que parecem ser tratadas como algum tipo de corpo monolítico, e o indivíduo são estabelecidas de tal forma que aquele que se destaca, quem quer que ele seja, comete um crime.

“Nós não encarregamos os anarquistas com a missão de orientar as massas, mas acreditamos que seu chamado é para ajudar as massas, desde que estas estejam necessitando de tal ajuda”, dizem os autores da “Resposta” (página 13). Estas são palavras vazias, agradando a todos aqueles que nunca puderam mostrar nenhum sinal de iniciativa. Pois é claro, afinal de contas, que as “massas” nunca pedirão a ajuda de ninguém. Deve-se ir pessoalmente às massas, trabalhar com elas, trabalhar por sua alma, e tentar ganhá-la ideologicamente e lhe dar orientação.

De fato, os próprios autores da “Resposta” involuntariamente chegam à conclusão da necessidade de trabalho anarquista entre as massas sem esperar por seu pedido de ajuda. “Em organizações de massa de caráter sócio-económico, os anarquistas – como parte das massas – irão trabalhar, construir e criar junto com estas. Um tremendo campo de atividade criativa ideológica e social direta se abre para eles aqui e eles devem fazer este trabalho de forma companheira, sem se colocar em posições acima de outros membros das massas”.

Tudo isto é dito tão gentilmente que se deve procurar com ternura pelas “massas” desconhecidas e não existentes pintadas pelos autores da “Resposta”. Obviamente acostumados a ver o anarquismo de uma maneira abstrata, eles continuam a olhar para todo o resto da mesma maneira. Para eles as “massas” são de alguma substância uniforme, quimicamente pura e benevolente. Tais massas não são encontradas em lugar nenhum. As “massas” são muito variadas e diferentes para serem avaliadas de acordo com alguma fórmula fácil e superficial. Enquanto trabalham em seu meio, é inevitável que alguns homens irão se erguer por sobre elas; de fato, as próprias “massas” elevam seus líderes, e não é por causa de sua passividade. Os anarquistas, todavia, devem se limitar à “influência ideológica e moral livre e natural em seu ambiente”. Mas se eles fizessem isso, eles iriam inevitavelmente – se fossem bem sucedidos em seu trabalho – se tornar os líderes do “ambiente circundante”, ou seja, das “massas”, em uma liderança ideológica e moral livre e natural.

A questão não é a rejeição da liderança, mas ter certeza de que ela é livre e natural. Mesmo em uma sociedade anarquista, as “massas” sempre serão lideradas por “um ou outro grupo ideológico político”. Mas isto não significa, como os autores da “Resposta” acreditam, que as massas poderiam ser impossibilitadas de agir livremente e criativamente sob condições favoráveis.

IX. O PERÍODO DE TRANSIÇÃO

Uma das questões dolorosas entre os anarquistas é aquela do “período de transição”. Os autores da “Plataforma” também a consideraram e declararam que ela é uma “fase definitiva na vida de um povo caracterizada pela quebra da antiga estrutura e o estabelecimento de um novo sistema econômico e político que, contudo, ainda não envolve a libertação total do povo trabalhador” (p. 17). Em vista desta atitude, a “Plataforma” pronuncia que este período de transição é um fenômeno não anarquista. Ele é não anarquista porque ele “não é a sociedade anarquista que irá emergir como resultado da revolução social, mas alguma ‘X’, ainda contendo elementos e remanescentes do velho sistema capitalista” (página 17). Que elementos são esses? “O princípio da imposição estatal, a propriedade privada nas ferramentas e nos meios de produção, a contratação do trabalho, etc.”. Ao invés destes males, a “Plataforma” insiste em uma revolução social perfeita que estabeleceria com um único golpe uma ordem social não contendo nenhum sinal de sobrevivência dos elementos da velha sociedade.

Há realmente pessoas em nossas fileiras que consideram esta visão prática? Nós, por exemplo, a consideramos inteiramente impossível. Os próprios autores da “Plataforma” continuam, com seu hábito de dizer uma coisa querendo dizer outra, que “a sociedade anarco-comunista em seu estágio final não será estabelecida apenas pela força de uma sublevação social” (página 21). A conclusão lógica desta afirmação seria que, para a formação final da sociedade anarco-comunista, um certo período de tempo é necessário, ou seja, um período de transição. E a “Plataforma” declara isto diretamente: “Sua realização (a da sociedade) irá apresentar um processo social- revolucionário mais ou menos duradouro, dirigido pelas forças organizadas do trabalho vitorioso dentro de linhas definidas” (página 21).

Um processo é uma função do tempo, e o tempo durante o qual este processo continua “é um tempo transicional”, caracterizado por uma série de tarefas concretas designadas a ajudar a nova sociedade a se aproximar de sua perfeição arquitetural ideal, e a imbui-la com vida anarquista. Estas tarefas concretas – mesmo aquelas propostas pela “Plataforma” – de novo afirmam a inevitabilidade de um período de transição, que foi proposto pelos anarcossindicalistas russos já em 1918.

“Somente a oficina dos produtores”, a “Plataforma” diz, “pertencendo em sua totalidade a todo o povo trabalhador e a ninguém individualmente (…) Os produtos formam um fundo alimentar comum para os trabalhadores, do qual cada participante na nova indústria irá receber todas as suas necessidades na base da igualdade total. O novo sistema de produção irá destruir completamente os conceitos de contratação e exploração (…) Não haverá patrões (…) Este é o primeiro passo prático em direção à realização do comunismo anarquista” (páginas 22-23). E eles chamam isso de “o primeiro passo”! Os autores da “Plataforma” evidentemente confundem o nono mês de gravidez com o primeiro. Eles mesmos já declararam que o princípio “a cada de acordo com sua necessidade” seria precedido por um período de expediência – mais uma vez, uma medida transicional.

A “Plataforma” falhou completamente na questão de resolver o problema agrário. Na indústria ela propôs comunismo, e na agricultura uma economia individual com direito à propriedade dos produtos da economia; em outras palavras, a necessidade para uma troca de bens com a cidade continuaria até que as grandes massas do campesinato abraçassem o comunismo na produção e na distribuição.

De novo, este processo é necessariamente duradouro; diversas medidas deverão ser tomadas para acelerar o processo. As objeções da “Plataforma” e de outros anarquistas ao período de transição são um tributo que nossos companheiros pagam às relíquias daqueles dias em que os anarquistas pensavam pouco, se pensavam, sobre a natureza, o significado e o processo de sublevações sociais. Mas assim que os anarquistas desceram das alturas nubladas para a terra pecadora, prática e materialista, eles tiveram, quisessem ou não, que se colocar a favor do período de transição. E aqueles que continuam a falar e a escrever contra ele fazem isso apenas para clarear suas consciências endurecidas.

X. O PROGRAMA CONSTRUTIVO DA “PLATAFORMA”

A seção construtiva da “Plataforma” se destaca por sua primitividade. A construção de uma nova sociedade anarquista está limitada à produção e ao consumo, como se a organização anarquista pudesse ser reduzida a apenas estas funções. Uma concepção tão retrógrada, emprestada da infância do sindicalismo revolucionário, é uma evidência da incapacidade dos autores da “Plataforma” de enfrentar abertamente um programa verdadeiramente construtivo.

O sindicalismo revolucionário, agora conhecido como anarcossindicalismo, desde então avançou muito – primariamente sob a influência das experiências na Rússia – além de uma visão tão simplificada da construção da sociedade futura. Todavia, o Grupo de Anarquistas Russos Exilados, que concebeu a “Plataforma”, agora expõe este primitivismo como algo novo. Entretanto, vejamos como a “Plataforma” tentou resolver as principais questões que surgiam da nova estrutura.

Produção: A “Plataforma” está preocupada primeiramente com a administração da produção, ao invés de seu funcionamento. E mesmo a forma da administração é esboçada de uma maneira bastante infantil: comitês de fábrica e usina como a forma de administração subordinada local; unificação destes comitês aos níveis municipal, provincial e nacional. E isso é tudo.

Tal esquema de administração da produção de maneira alguma lembra a “oficina única” (administração pela indústria); ao invés disso ela joga no mesmo saco todas as fábricas, usinas e oficinas em vários ramos de produção. De acordo com a “Plataforma”, todos os comitês de fábrica e usina dos inumeráveis ramos de produção em qualquer cidade devem se unir e estabelecer a maquinaria para administrar o processo de produção em uma dada cidade. Mas deixe-os só tentar colocar a produção em ordem de funcionamento quando os empreendimentos industriais estão unidos no princípio territorial e são jogados juntos sem qualquer conexão entre eles ao nível industrial! Não será nada menos que caos e destruição! E essa é a única proposta concreta feita pelos autores da “Plataforma” na esfera da organização da produção. Todo o resto se resume a chavões costumeiros que não possuem sentido real.

Ao mesmo tempo, a “Plataforma” se cala sobre muitos assuntos concretos resultantes da organização prática do trabalho e da produção. Logo, por exemplo, eles declaram que as classes médias e a burguesia terão que desempenhar trabalho físico, mas eles ignoram a questão de se a revolução social pode arriscar confiar trabalhos às classes médias, e ao proletariado naquelas instituições e ramos que serão destruídos pela revolução social. A Revolução Russa foi incapaz de lidar com este problema. Como pode o tipo de revolução postulada pelos autores da Plataforma lidar com ela? Sobre este ponto a “Plataforma” se cala.

Provisões: Aqui também não há nada de novo. A “Plataforma” repete as velhas visões anarquistas e anarcossindicalistas. A única novidade é princípio da expediência na distribuição da comida, um princípio tomado dos bolcheviques. Trabalhadores físicos há vários; aqueles fazendo trabalho intelectual altamente qualificado (administradores, organizadores, cientistas, poetas, etc.) são poucos. Em tempos de necessidade os anteriores podem ser limitados ao mínimo necessário de comida, e até mesmo menos; e os últimos – ganham rações maiores! Este princípio não é somente imoral, mas na prática está longe de ser expediente, já que estabelece a desigualdade no aspecto mais fundamental da vida e logo cria descontentamento e hostilidade.

Quanto ao aspecto organizacional da distribuição da comida, foi apontado repetidamente pelos anarcossindicalistas da Rússia que, tanto durante a revolução quanto o período de transição, as cooperativas provêm os meios mais apropriados.

Terra: Aqui a “Plataforma” está completamente falida e satisfeita com a fraseologia geral. Ela rejeita a comunização imediata da economia agrícola e retém a estrutura camponesa atual sem quaisquer mudanças. Ela nota corretamente que “uma economia agrária privada, como a empresa industrial privada, leva ao comércio, à acumulação de propriedade privada e à criação de capital”. Bem dito! Mas dizer isto e então conscientemente deixar a lavoura privada intacta é equivalente a destruir todos os conceitos anarquistas. Os “plataformistas” afirmam que desta maneira eles estão criando algum “X”, alguma “quantidade desconhecida”, e a identidade deste “X” não é difícil de contemplar: ele significa a criação de uma “NEP” anarco-comunista. Tal estrutura transitória é muito diferente do período de transição contemplado pelos anarcossindicalistas russos, e é muito próximo da estrutura do capitalismo. E eles ainda alegam que se opõem a um período de transição!

Proteção da Revolução: Todos concordam que a revolução social será forçada a se defender. A questão é: como se deve organizar esta defesa? Os autores da “Plataforma” retiram sua resposta dos preceitos dos bolcheviques. Os últimos organizaram, nos primeiros dias da revolução, destacamentos guerrilheiros (Guarda Vermelha), mais tarde um exército voluntário, e eles finalmente terminaram com um exército permanente e serviço militar compulsório para toda a população. A “Plataforma” passas pelos mesmos estágios.

Os princípios anarquistas comprometem os autores da “Plataforma” a formações voluntárias, ou seja, destacamentos guerrilheiros. Mas, eles dizem, a guerra civil demandaria a “unificação dos planos de operação e a unificação do comando geral”. E portanto, no primeiro período da revolução, assim como os bolcheviques, deve haver guerrilheiros. No segundo período, “quando a burguesia atacar a revolução com suas forças reorganizadas”, deve haver um exército, de novo como os bolcheviques. Aparentemente ele terá todas as cores do arco-íris bolchevique: ambos o seu caráter de classe e seu serviço voluntário, sua disciplina revolucionária (que na prática é sempre disciplina militar direta), finalmente a subordinação do exército a uma organização unificada por todo o país, tudo o que já foi demonstrado pelos bolcheviques. A questão da proteção da revolução é resolvida pela “Plataforma” de uma maneira tipicamente estadista; ter uma mão livre frente às pessoas de quem são guardiães, mantida com a ajuda do exército, subordinado apenas às mais altas autoridades.

A solução ao problema da proteção da revolução reside apenas no princípio da mobilização geral do povo trabalhador, como proposto pelos anarcossindicalistas russos.

Nós chegamos ao fim de nossa crítica da “Plataforma”. Nenhuma conclusão será exposta. Deixe que os leitores, que estudaram a “Plataforma”, a “Resposta” e o programa dos anarcossindicalistas russos, tirem suas próprias conclusões.


NOTAS

 1 A Primeira Guerra Mundial de 1914-1918.

2 O quarto congresso, por causa da falta de tempo, não considerou a questão do crédito.

3 Prefácio a “A Conquista do Pão”, por Piotr Kropotkin.

4 Veja “Ao Invés de um Programa”, 1922, Berlim, Publicações do Birô Estrangeiro.

5 Veja “Resoluções”, 1918, Publicações do Secretariado.

6 Veja “Declarações e Resoluções”, 1922; Argentina.

7 Veja “Declaração”, 1918, publicação da Primeira Escola Central Sovtech.

8 Veja a Declaração da Organização de Anarco-Universalistas de Moscou, à 8- Sessão dos Sovietes, Moscou, 1921.

9 Veja o prefácio de Kropotkin a “A Conquista do Pão”, 1919, Moscou, Publicação “Golos Truda”.

10 Veja O Caminho do Trabalho (Rabotchi Put).

11 Veja também o panfleto de Rudolph Rocker e Barvota.

12 Órgão do MIR, mais tarde órgão da Confederação Sindicalista Revolucionária do Trabalho na França.

13 Particularmente interessante sobre esta conexão é um artigo por M. Korn em “Dielo Truda” (No. 29, 1928), extravagantemente louvando as conquistas da “Plataforma”. Na opinião do companheiro Korn, “o programa inspirou nossos grupos …” Na realidade, é claro, foi a inspiração em nossos grupos que chamaram a “Plataforma”. Adiante, o companheiro Korn acredita que a “Plataforma”: “levantou diversas questões fundamentais…” Todavia, é óbvio que todas as questões – assim como muitas outras – já tinham sido formuladas muito antes da proclamação da “Plataforma”. Continuando esta série extraordinária de descobertas, o companheiro Korn considera que a “Plataforma”: “colocou em cheio perante cada anarquista a questão de responsabilidade pelo destino do movimento no sentido de sua influência prática no desenrolar futuro dos eventos…” Não é, é claro, muito difícil levantar questões sem respondê-las. E mesmo essas questões já haviam sido levantadas por anarcossindicalistas na Rússia e no exterior em uma época em que os mais iminentes autores da “Plataforma” estavam ou indiferentes às questões envolvidas ou havia apenas começado a aprender, depois de sua chegada ao exterior, as primeiras lições de responsabilidade pessoal e coletiva ao movimento.

14 Coleção de ensaios por Bakunin publicados pela Casa de Publicação Anarcossindicalista, “Golos Truda”, Moscou (cinco volumes).

15 Veja, no tocante a estas “interpretações”, as respostas dos “plataformistas” às questões postas a eles por M. Korn (“Dielo Truda” No. 18), o artigo por G. Graf (“Dielo Truda” Nos. 22-24) e a “resposta” (“Dielo Truda” No. 28) professando surpresa por parte dos autores da “Plataforma” de ninguém os compreender.

16 Veja o artigo de M. Korn, “Dielo Truda”, No. 18.